Angra 3. Sim ou Não?



"Brasil não precisa de angra 3 nem de energia nuclear

"Diretor do Greenpeace diz que usina atômica só sai do papel por pressão de empresários e políticos ávidos em ligar o nome a megaobras. Para ele, melhor é investir em energia alternativa

ROSENILDO GOMES FERREIRA
Frank Guggenheim - Médico de formação e ecologista por opção, Frank Guggenheim, de 57 anos, gosta de se envolver em polêmicas. À frente da filial do Greenpeace desde 2002, a ONG conhecida pelas ações espetaculares contra navios baleeiros e protestos bem humorados, ele lança suas baterias contra a construção da usina nuclear de Angra 3, orçada em R$ 7 bilhões, anunciada recentemente pelo governo: “É uma obra cara do ponto de vista econômico e energético, além de representar graves riscos ao meio ambiente”, diz. Segundo Guggenheim, a prioridade deveria ser apostar na vocação do País e investir pesado em energias alternativas e renováveis.
“O Brasil possui vantagens competitivas para liderar esse processo em nível global”, avalia. Nessa entrevista à DINHEIRO ele fala também de algumas vitórias do Greenpeace. Entre elas, o acordo recém celebrado com antigos desafetos, como o governador Blairo Maggi (PRP), um dos maiores produtores de soja do planeta e governador de Mato Grosso, que garantiu a moratória da expansão das plantações de soja até 2008. “Uma parte da classe política e os empresários do setor perceberam que estavam colocando em risco a sobrevivência da Amazônia.”


DINHEIRO – Empresários, políticos e até cientistas se renderam à energia nuclear e agora apóiam a construção da usina Angra 3. Qual a sua posição?
GUGGENHEIM – Sou totalmente contrário. Acho que o debate energético no Brasil parte de uma premissa equivocada. Nos últimos 20 anos o Brasil investiu US$ 800 milhões em eficiência energética e obteve uma economia de cerca de cinco mil megawatts. É algo equivalente a três usinas Angra 3. A busca da eficiência, no entanto, não gera megaobras nem deixa como saldo placas de inauguração com o nome do burocrata de plantão. É como saneamento básico, não dá ibope e nem voto porque fica debaixo do solo.

DINHEIRO – Mas o que o governo vai fazer com os equipamentos estocados em Angra, devolver para os alemães?
GUGGENHEIM – Seria o ideal. Até porque os alemães estão abandonando a tecnologia nuclear. O governo germânico propôs transformar o acordo Brasil- Alemanha em um pacto por energias renováveis, mas Brasília não aceitou. “O futuro do País passa pela aposta em energias renováveis, como a eólica e a solar”

DINHEIRO – Se a tecnologia nuclear é tão nefasta por que muitos defendem o seu uso como antídoto aos males do efeito estufa, por exemplo?
GUGGENHEIM – Trata-se daquela história do presente velho em uma embalagem nova. É incorreto dizer que a energia nuclear não produz gases que causam o efeito estufa. Isso só é válido para a ponta final do processo. No ciclo total, que inclui desde a mineração do urânio até a produção do rejeito, também chamado de lixo atômico, você verá que a equação é bem diferente.
Há uma certa arrogância de se pensar que a demanda atual de energia deve ser satisfeita de qualquer maneira, deixando o ônus para as gerações futuras. E com isso eu não concordo. O acidente com a cápsula de césio 137, ocorrido em 1987, em Goiás, é um problema até hoje. Também não é verdade que as usinas atômicas são extremamente seguras. Fala-se apenas de dois grandes acidentes: Three Mile Island (EUA) e Chernobyl (Ucrânia), mas muitos se esquecem que a Agência Internacional de Energia Atômica registra 100 ocorrências por ano. Há duas semanas, uma usina do Japão afetada por um terremoto despejou grande quantidade de água radioativa no mar. “O governador Maggi, de MT, é nosso parceiro na preservação da Amazônia”


DINHEIRO – Mas se a lógica econômica e o bom senso indicam esse caminho, por que, na sua avaliação, o governo insiste em retomar a construção de Angra 3 e falase, inclusive, em Angra 4
GUGGENHEIM – A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, já deixou claro que a retomada de Angra 3 não é por razões energéticas, mas sim estratégicas. Historicamente, Historicamente, os militares sempre foram os maiores defensores da pesquisa nuclear no Brasil. Eles passaram por cima até da Constituição e montaram um programa paralelo de pesquisa que foi abortado no governo Collor, quando o poço de testes, situado na Serra do Cachimbo (PA), foi fechado. Existe também um grupo de cientistas que defende essas pesquisas com vistas a viabilizar o enriquecimento do urânio, o que iria ampliar o ganho do setor no Brasil, que dispõe de grandes jazidas, mas só exporta matéria-prima não beneficiada.

DINHEIRO – E para isso eles precisam de Angra 3?
GUGGENHEIM – Muitos dizem que o domínio do ciclo completo só é possível com a construção da usina porque a venda da energia geraria os recursos necessários para bancar as demais fases do processo.

DINHEIRO – Mas as alternativas, eólica e solar, não são mais caras que as convencionais
GUGGENHEIM – Elas são bem mais baratas que a nuclear, por exemplo. O custo é o grande impeditivo da expansão da energia nuclear em vários cantos do planeta. Basta ver que nos Estados Unidos não se construiu nenhuma planta deste tipo nos últimos anos, mesmo com a desregulamentação do mercado. No Brasil, o Instituto Acende Brasil, ONG que engloba empresários que investem no setor elétrico, é contra a retomada dessas obras. E não por questões ecológicas. Eles usam a lógica econômica, já que a fatura de R$ 7 bilhões (investimento estimado para Angra 3) terá de ser paga pela sociedade. Quando falamos de fontes alternativas, devemos lembrar que o Brasil é privilegiado. O custo aqui tende a cair à metade em três anos, devido ao forte índice de insolação que ajuda, inclusive, no crescimento de vegetais, oleaginosas e gramíneas indicadas para produção de biodiesel e etanol. Os abundantes investimentos em etanol, por exemplo, farão a produção de cana dar um salto e isso vai gerar um subproduto importante, o bagaço, que também serve para produzir energia.

DINHEIRO – Apenas isso é suficiente?
GUGGENHEIM – Em linhas gerais, sim. Entretanto, as opções para enfrentar a questão da demanda por energia passam, ainda, por dois eixos: atualização tecnológica das hidrelétricas e das linhas de transmissão (cuja perda é bem maior que em outros países), além da melhora da eficiência ou substituição de produtos de consumo, tais como geladeiras, lâmpadas incandescentes e chuveiro elétrico.

DINHEIRO – Essas medidas são, de fato, viáveis?
GUGGENHEIM – Sem dúvida. No caso da água quente, está claro que o uso da energia solar é a melhor alternativa do ponto de vista econômico e ambiental. Tanto isso é verdade que a Prefeitura de São Paulo editou uma norma obrigando hospitais, prédios comerciais e imóveis residenciais de grande porte, ainda em construção, a instalarem coletores solares. Quando se fala em energia é preciso analisar a questão de forma ampla: geração, aparelhos eletrodomésticos e os hábitos de consumo das pessoas. Os brasileiros já mostraram, durante o Apagão de 2001, que respondem bem às campanhas pelo uso racional de energia. Na época, a economia foi tanta que quase quebrou as concessionárias. Por isso é preciso fazer campanhas constantes em prol do consumo consciente.

DINHEIRO – Não seria uma visão romântica e pouco sistêmica de uma questão concreta, que é o risco de faltar energia para sustentar o crescimento da economia?
GUGGENHEIM – Não tem nada de romântico. O que estou dizendo já acontece na Califórnia e nos países nórdicos, que bancam o crescimento de suas economias exclusivamente com fontes renováveis e ganhos de eficiência. No início do ano, o Greenpeace publicou o estudo A Revolução Energética – Brasil, feito em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), no qual simulamos a necessidade energética do País até 2050.
Ficou claro que podemos crescer 3,5% em média por ano, uma taxa espetacular, usando a biomassa, a energia eólica, o gás e as hidrelétricas de grande e pequeno portes. Esse modelo exclui usina nuclear e o carvão.


DINHEIRO – Muitas das bandeiras do Greenpeace foram incorporadas ao discurso de políticos, empresários e até do cidadão comum. Isso significa que a entidade perdeu a razão de existir
GUGGENHEIM – A última coisa que tenho medo, a curto prazo, é ficar desempregado. Apesar dos avanços pontuais, ainda há muito a ser feito. O alerta sobre o aquecimento global desencadeou um consenso de que algo tem de ser feito. Mas entre a teoria e a ação, existe um longo caminho a ser percorrido. Hoje, países emergentes como China, Índia e Brasil querem empurrar aos países ditos desenvolvidos a conta pela solução do problema. Os Estados Unidos e outras nações são, de fato, responsáveis por boa parte da emissão de gases.
Mas isso não significa que nós devemos ficar olhando apenas para trás. Até porque a China já figura entre as grandes poluidoras do planeta. O mesmo vale para o Brasil que, apesar de ter 70% de sua matriz energética composta de energia renovável, aparece como o quarto emissor de gases do efeito estufa devido às queimadas na Amazônia. Defendo a tese de que todos somos responsáveis pela preservação do planeta.


DINHEIRO – Por que, em muitos casos, a luta ecológica não leva em conta as necessidades da população, especialmente daqueles grupos que vivem em áreas pobres?
GUGGENHEIM – Isso não é verdade no que se refere ao Greenpeace. Nós sempre participamos de soluções construtivas. Ocorre que alguns eventos não permitem qualquer margem para flexibilidade. Foi o caso das campanhas contra os testes nucleares, na décadas de 70 e 80. Ali tínhamos de ser contra e ponto final. Demorou 20 anos, mas conseguimos ver proibidas as detonações de ogivas no mar, cuja principal conseqüência era a devastação de uma parcela expressiva da vida marinha.

DINHEIRO – Existe algum exemplo disso aqui no Brasil?
GUGGENHEIM – O mais recente envolve a soja. Fizemos uma campanha ferrenha contra a expansão das plantações em direção à Amazônia, fenômeno que estava gerando uma forte pressão pelo desmatamento da floresta. Em junho de 2006, no entanto, as entidades que reúnem a cadeia produtiva do grão concordaram com a moratória de dois anos de plantio em novas áreas. Uma tese encampada até pelo governador Blairo Maggi (PRP), de Mato Grosso, que declarou que a expansão da colheita é viável usando apenas as terras já degradadas. E olha que ele é um dos maiores produtores de soja do mundo! Outra bandeira, o desmatamento zero, também foi encampada pelo governo federal e o governador Eduardo Braga (PMDB), do Amazonas.

DINHEIRO – O governo do presidente Luiz Inácio da Silva é um amigo dos ecologistas
GUGGENHEIM – Existem avanço e retrocesso. Acho que o mais correto é analisar esse governo pelo conjunto que será feito em oito anos. Mas, sem dúvida, o modelo de desenvolvimento adotado por Lula põe a questão ambiental como um entrave. Apesar disso, temos de reconhecer que esse governo foi quem demarcou a maior quantidade de reservas florestais em áreas de conflito. Até agora o saldo é positivo, mesmo com a aprovação da construção da usinas nucleares que, creio, dificilmente sairá do papel. Como, aliás, aconteceu no governo de Fernando Henrique.

DINHEIRO – A aprovação da construção de usinas hidrelétricas no rio Madeira representa uma derrota dos verdes em relação, digamos, à banda menos ecológica do governo do presidente Lula
GUGGENHEIM – Não vejo a questão por esse aspecto. A guerra não está perdida porque os ecologistas têm um aliado fundamental que é a natureza. Na medida em que os recursos vão se esgotando, fica cada vez mais claro que a nossa mensagem é correta.

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