Thank You Satan "Pra que consultar um otorrino se não somos eternos? Pra que votar? Pra que pagar impostos se, de uma hora para outra, podemos ter um infarto fulminante? Pra quê?" Marcelo Mirisola* Estava assobiando Thank You Satan, um blues de Léo Ferré, quando meu amigo Adriano chegou transido, olhos esbugalhados, e disse: “acabou”. Eu já sabia do que se tratava, e retruquei “Piva, né?”. Sim, o Piva. Ele vinha do crematório de Vila Alpina, onde uma semana antes Guzik também havia se transformado em pó. “Um tempo, não o homem, foi um tempo que acabou”. Nunca vi Adriano daquele jeito, meio que afogado nas palavras que falava: “todas as pessoas que estavam ali - ele me dizia - “foram sugadas, também viraram pó, estavam perdidas”. Lembrei do meu avô que morreu em 1996 e que, nos últimos anos, havia me convocado para ser uma espécie de secretário e confidente. Antes do seu empacotamento efetivo, o mundo dele também havia se acabado, o velho não se entendia com caixas el...