Memórias
Era uma vez um verão
Sidney Borges
Estava eu conversando com meus botões quando me tomou o espírito a lembrança do longínquo verão de 62/63.
Naquela época eu não estava nos meus melhores dias, tanto é que consegui a façanha de ficar de segunda época em Canto. Isso mesmo Canto Orfeônico. Só eu na escola. O professor veio de Batatais ou sei lá de onde, do raio que o parta, por minha causa.
Lembro-me do dia do exame. Eu compenetrado treinando os tata-tata do ditado rítmico quando um colega entrou. Olhou bem, olhou de novo, recuperou-se do susto e disse: segunda época de canto. Que encanto!
Na verdade eu fiquei em Canto, Matemática e História.
Naquele ano tinha mudado a lei de diretrizes e bases da educação e muita gente foi reprovada, inclusive eu, aí o governo teve a idéia de dar uma chance. Em vez de duas segundas épocas, quatro.
No dia em que eu soube da novidade estava pilotando o meu aeromodelo Instrutor, na Portuguesa de Desportos.
O alto falante das piscinas anunciou a anistia em grande estilo. Confesso que naquele momento eu já estava conformado, o incêndio em casa tinha sido apagado. Senti que as férias tinham ido pro brejo. Fui estudar.
Matemática eu sabia, depois da primeira época deu o estalo. História era só decoreba. Meu problema era o Canto, eu nem mesmo tinha caderno.
Fui pedir emprestado o de um colega. Um amigo legal, boa gente, sempre penteado com glostora.
A mãe dele me recebeu, fez com que eu me sentasse no sofá da sala e me passou o maior sabão. No verão de 62/63 eu era limpinho, todos me ensaboavam.
Depois da reprimenda ela autorizou a operação de socorro. Em seguida me ofereceu rosquinhas de leite São Luiz.
Polidamente aceitei seis.
Foi aí que a coisa pegou. Com os olhos cheios de mel e voz melodiosa ela ordenou:
- Filhinho, pegue o violino e toque pro seu amiguinho.
Dito e feito, em alguns instantes lá estava o bravo "ragazzo" e sua empolgada interpretação de Exodus. E eu na platéia, embevecido. Só eu. Bolinha não me saia da cabeça.
Até hoje tenho urticária quando ouço tal música. Naquele dia jurei nunca mais ficar de segunda época, nem que tivesse que morrer de estudar.
Dito e feito, só fiquei de novo na quarta-série. Em tempo, em 1962 eu cursava a segunda série. Do ginásio.
Sidney Borges
Estava eu conversando com meus botões quando me tomou o espírito a lembrança do longínquo verão de 62/63.
Naquela época eu não estava nos meus melhores dias, tanto é que consegui a façanha de ficar de segunda época em Canto. Isso mesmo Canto Orfeônico. Só eu na escola. O professor veio de Batatais ou sei lá de onde, do raio que o parta, por minha causa.
Lembro-me do dia do exame. Eu compenetrado treinando os tata-tata do ditado rítmico quando um colega entrou. Olhou bem, olhou de novo, recuperou-se do susto e disse: segunda época de canto. Que encanto!
Na verdade eu fiquei em Canto, Matemática e História.
Naquele ano tinha mudado a lei de diretrizes e bases da educação e muita gente foi reprovada, inclusive eu, aí o governo teve a idéia de dar uma chance. Em vez de duas segundas épocas, quatro.
No dia em que eu soube da novidade estava pilotando o meu aeromodelo Instrutor, na Portuguesa de Desportos.
O alto falante das piscinas anunciou a anistia em grande estilo. Confesso que naquele momento eu já estava conformado, o incêndio em casa tinha sido apagado. Senti que as férias tinham ido pro brejo. Fui estudar.
Matemática eu sabia, depois da primeira época deu o estalo. História era só decoreba. Meu problema era o Canto, eu nem mesmo tinha caderno.
Fui pedir emprestado o de um colega. Um amigo legal, boa gente, sempre penteado com glostora.
A mãe dele me recebeu, fez com que eu me sentasse no sofá da sala e me passou o maior sabão. No verão de 62/63 eu era limpinho, todos me ensaboavam.
Depois da reprimenda ela autorizou a operação de socorro. Em seguida me ofereceu rosquinhas de leite São Luiz.
Polidamente aceitei seis.
Foi aí que a coisa pegou. Com os olhos cheios de mel e voz melodiosa ela ordenou:
- Filhinho, pegue o violino e toque pro seu amiguinho.
Dito e feito, em alguns instantes lá estava o bravo "ragazzo" e sua empolgada interpretação de Exodus. E eu na platéia, embevecido. Só eu. Bolinha não me saia da cabeça.
Até hoje tenho urticária quando ouço tal música. Naquele dia jurei nunca mais ficar de segunda época, nem que tivesse que morrer de estudar.
Dito e feito, só fiquei de novo na quarta-série. Em tempo, em 1962 eu cursava a segunda série. Do ginásio.
Comentários