Opinião
A crise na Argentina
Editorial do Estadão
Duas coisas surpreendem na primeira grande crise interna que a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, vem enfrentando há duas semanas e desde sexta-feira caminha para uma solução negociada entre o governo e os produtores agrícolas. A primeira foi a demora no seu surgimento. A segunda, a brusca variação de humor da presidente, que na quarta-feira convocou um comício peronista para anunciar que não cederia um milímetro aos fazendeiros, e ao meio-dia de sexta-feira fez um discurso conciliador, caracterizado por expressões de humildade que apenas raramente aparecem no léxico político argentino. Ao que tudo indica, foi por ter "humildemente" pedido aos produtores rurais que, "por favor", suspendessem o protesto, que foram removidos os 300 bloqueios em estradas e abertas negociações com o governo.
O governo está disposto a conversar com os produtores rurais, mas não dá sinais de que poderá mudar a política econômica. E é aí que está o problema. Há pelo menos dois anos, o governo argentino - que até 10 de dezembro era chefiado por Néstor Kirchner, marido de Cristina - vem tentando esconder a inflação real. No ano passado, a inflação anunciada pelo governo ficou em 8,5%, mas economistas independentes calculam que ela alcançou 25%. Além de manipular os índices, o governo obrigou grandes redes de comércio varejista a tabelar preços e congelou tarifas de serviços públicos. Está fazendo o que se fez no Brasil na década de 1980, com resultados bem conhecidos. Desabastecimento e queda da qualidade dos serviços, cujas tarifas são congeladas, são os primeiros sinais. Depois, os preços represados explodem.
Há tempos, alguns desses sinais, como a falta de produtos nos supermercados, vinham sendo detectados. Para tentar resolver o problema sem atacar suas causas, o governo criou a "retenção", um tributo sobre as exportações de grãos, que atinge também a carne e os combustíveis. O objetivo é desestimular a exportação, para assegurar o abastecimento interno.
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Editorial do Estadão
Duas coisas surpreendem na primeira grande crise interna que a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, vem enfrentando há duas semanas e desde sexta-feira caminha para uma solução negociada entre o governo e os produtores agrícolas. A primeira foi a demora no seu surgimento. A segunda, a brusca variação de humor da presidente, que na quarta-feira convocou um comício peronista para anunciar que não cederia um milímetro aos fazendeiros, e ao meio-dia de sexta-feira fez um discurso conciliador, caracterizado por expressões de humildade que apenas raramente aparecem no léxico político argentino. Ao que tudo indica, foi por ter "humildemente" pedido aos produtores rurais que, "por favor", suspendessem o protesto, que foram removidos os 300 bloqueios em estradas e abertas negociações com o governo.
O governo está disposto a conversar com os produtores rurais, mas não dá sinais de que poderá mudar a política econômica. E é aí que está o problema. Há pelo menos dois anos, o governo argentino - que até 10 de dezembro era chefiado por Néstor Kirchner, marido de Cristina - vem tentando esconder a inflação real. No ano passado, a inflação anunciada pelo governo ficou em 8,5%, mas economistas independentes calculam que ela alcançou 25%. Além de manipular os índices, o governo obrigou grandes redes de comércio varejista a tabelar preços e congelou tarifas de serviços públicos. Está fazendo o que se fez no Brasil na década de 1980, com resultados bem conhecidos. Desabastecimento e queda da qualidade dos serviços, cujas tarifas são congeladas, são os primeiros sinais. Depois, os preços represados explodem.
Há tempos, alguns desses sinais, como a falta de produtos nos supermercados, vinham sendo detectados. Para tentar resolver o problema sem atacar suas causas, o governo criou a "retenção", um tributo sobre as exportações de grãos, que atinge também a carne e os combustíveis. O objetivo é desestimular a exportação, para assegurar o abastecimento interno.
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