Editorial
Angra 3. Fim de caso
Sidney Borges
Depois de grande expectativa de minha parte aconteceu a audiência pública sobre o licenciamento ambiental de Angra 3. Estive presente e logo ao chegar recebi das mãos de um simpático ativista do Greenpeace um broche de protesto. Guardei no bolso. A sala onde transcorreram os debates estava lotada, fiquei feliz, trabalhei muito na divulgação do evento. Imprensa é isso, espalhar o que há aos quatro ventos. Como estudei na cartilha de Marcelino de Carvalho, tratei de cumprimentar a gregos e troianos e acabei ganhando um kit imprensa da Eletronuclear, além de uma camiseta branca com um texto favorável à usina. Quem faz o bem acaba recompensado. Camiseta boa, algodão puro, sou contra produtos sintéticos, só como BigMacs naturais. O texto da camiseta é verde, perguntei se era homenagem ao Greenpeace, recebi sorrisos amarelos como resposta. Sou de paz, quando sair com a camiseta vou usar o broche do Greenpeace, que admiro muito, também sou contra a caça às baleias e não gosto do desmatamento da Amazônia. Discordo quanto ao uso da energia nuclear, sou a favor, desde que sejam observadas regras de segurança. Um ativista culto e simpático me interpelou a propósito de um texto do Ubatuba Víbora, de minha autoria, que declarava apoio ao uso de átomos físseis. Ele argumentou que o armazenamento dos resíduos radioativos em piscinas não é seguro, pode haver um terremoto. Concordei, mas quando nos afastamos fiquei imaginando o tamanho do estrago que um asteróide causaria se colidisse com a Terra, como aconteceu recentemente em Júpiter. Angra 3 será construída, o que vimos lembra vagamente as artes cênicas, a decisão já estava tomada. O governo é de paz e promoveu a discussão para não se parecer com a ditadura. Em outros tempos a sociedade não era consultada, os militares decidiam, faziam e ponto final. Agora é diferente, o governo decide, a sociedade discute e o governo faz. Mas há o detalhe da discussão, sou um mico de cavalinhos se isso não é uma atitude democrática. Ontem, em meio à comemoração dos 73% de Lula eu me lembrei do presidente Médici. Apesar da ditadura ele tinha 84%. O povo é estranho e estranhas são as suas escolhas, um dia é a favor e no outro dia também é a favor, de qualquer governo, pois quem faz as pesquisas é o próprio governo. A propósito, acabei de informar ao pedinte que tocou a campainha que ele pode começar a pentear os cabelos, a classe c subiu de posto, portanto as classe d e e mudarão de patamar e um sem classe pode encher o coração de esperança. Ele deu um sorriso 1001, resmungou alguma coisa e foi-se embora feliz com a moeda de um real que lhe dei. Bolsa-família particular. Como será que anda minha popularidade?
Sidney Borges
Depois de grande expectativa de minha parte aconteceu a audiência pública sobre o licenciamento ambiental de Angra 3. Estive presente e logo ao chegar recebi das mãos de um simpático ativista do Greenpeace um broche de protesto. Guardei no bolso. A sala onde transcorreram os debates estava lotada, fiquei feliz, trabalhei muito na divulgação do evento. Imprensa é isso, espalhar o que há aos quatro ventos. Como estudei na cartilha de Marcelino de Carvalho, tratei de cumprimentar a gregos e troianos e acabei ganhando um kit imprensa da Eletronuclear, além de uma camiseta branca com um texto favorável à usina. Quem faz o bem acaba recompensado. Camiseta boa, algodão puro, sou contra produtos sintéticos, só como BigMacs naturais. O texto da camiseta é verde, perguntei se era homenagem ao Greenpeace, recebi sorrisos amarelos como resposta. Sou de paz, quando sair com a camiseta vou usar o broche do Greenpeace, que admiro muito, também sou contra a caça às baleias e não gosto do desmatamento da Amazônia. Discordo quanto ao uso da energia nuclear, sou a favor, desde que sejam observadas regras de segurança. Um ativista culto e simpático me interpelou a propósito de um texto do Ubatuba Víbora, de minha autoria, que declarava apoio ao uso de átomos físseis. Ele argumentou que o armazenamento dos resíduos radioativos em piscinas não é seguro, pode haver um terremoto. Concordei, mas quando nos afastamos fiquei imaginando o tamanho do estrago que um asteróide causaria se colidisse com a Terra, como aconteceu recentemente em Júpiter. Angra 3 será construída, o que vimos lembra vagamente as artes cênicas, a decisão já estava tomada. O governo é de paz e promoveu a discussão para não se parecer com a ditadura. Em outros tempos a sociedade não era consultada, os militares decidiam, faziam e ponto final. Agora é diferente, o governo decide, a sociedade discute e o governo faz. Mas há o detalhe da discussão, sou um mico de cavalinhos se isso não é uma atitude democrática. Ontem, em meio à comemoração dos 73% de Lula eu me lembrei do presidente Médici. Apesar da ditadura ele tinha 84%. O povo é estranho e estranhas são as suas escolhas, um dia é a favor e no outro dia também é a favor, de qualquer governo, pois quem faz as pesquisas é o próprio governo. A propósito, acabei de informar ao pedinte que tocou a campainha que ele pode começar a pentear os cabelos, a classe c subiu de posto, portanto as classe d e e mudarão de patamar e um sem classe pode encher o coração de esperança. Ele deu um sorriso 1001, resmungou alguma coisa e foi-se embora feliz com a moeda de um real que lhe dei. Bolsa-família particular. Como será que anda minha popularidade?
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