Amigos
Cartas à redação
Caro Sidney:
Esperei muito até escrever a você. A última vez que tive notícias tuas foi durante a passagem do cometa Halley, em 27 de novembro de 1985. Que feliz me senti ao saber novidades da tua vida, que estavas casado e estabelecido. A portadora das boas foi aquela cubana que tinha um olho de cada cor. Esqueci-me do nome, sou ruim para nomes. Dolores ou Gertudes, tanto faz, era bonita, esguia, acabou se casando com o Davi. No verão passado encontrei o Moshe, primo dele, em Fiumicino. Soube então que estão morando em Bror Chail, que eu sempre quis conhecer e nunca aconteceu. São tantas as possibilidades da vida e só uma delas se torna realidade.
Recordo nosso último encontro. Teu quarto envolto em fumaça de tabaco. Garrafas, um montão de garrafas na mesa. Fazia frio, as noites estavam especialmente escuras e tristes em São Paulo naquele ano. Se não me falha a memória era setembro de 1971. Você estava arrasado com a derrota de Muhammad Ali para Joe Frazier. O gancho poderoso de esquerda prostrou na lona tua esperança literário-libertária. Pelo teu estado parecia que o nocauteado tinha sido você. Bebemos até apagar, você com ressaca existencial e eu com ressaca de amor. Parecíamos uma página de romance de Sartre. Amigos aplacam o horror das horas de desespero.
Na vitrola Betânia cantava dor de corno, lembro-me de alguns versos: “Olha, você vai embora, não me quer agora, promete voltar... A vida acaba um pouco todo dia, eu sei e você finge não saber..., mas pode ser que quando você volte, já seja um pouco tarde pra viver...”
Precisamos nos ver por aí, vou fazer umas fotos em Kuala Lumpur e depois quem sabe darei uma passada pelo litoral brasileiro. Lembrei-me de tuas aventuras amazônicas, deve ter sido emocionante, nunca mais encontrei os slides que você me enviou. Eu gostaria de revê-los. Você tem cópias? Se não tiver não faz mal, um dia encontro os originais. Ou não, o que também não tem nenhuma importância. Nada é importante meu amigo, o que conta é estarmos vivos. Um brinde a nós.
Ramon Roberts
From Glasgow
Caro Sidney:
Esperei muito até escrever a você. A última vez que tive notícias tuas foi durante a passagem do cometa Halley, em 27 de novembro de 1985. Que feliz me senti ao saber novidades da tua vida, que estavas casado e estabelecido. A portadora das boas foi aquela cubana que tinha um olho de cada cor. Esqueci-me do nome, sou ruim para nomes. Dolores ou Gertudes, tanto faz, era bonita, esguia, acabou se casando com o Davi. No verão passado encontrei o Moshe, primo dele, em Fiumicino. Soube então que estão morando em Bror Chail, que eu sempre quis conhecer e nunca aconteceu. São tantas as possibilidades da vida e só uma delas se torna realidade.
Recordo nosso último encontro. Teu quarto envolto em fumaça de tabaco. Garrafas, um montão de garrafas na mesa. Fazia frio, as noites estavam especialmente escuras e tristes em São Paulo naquele ano. Se não me falha a memória era setembro de 1971. Você estava arrasado com a derrota de Muhammad Ali para Joe Frazier. O gancho poderoso de esquerda prostrou na lona tua esperança literário-libertária. Pelo teu estado parecia que o nocauteado tinha sido você. Bebemos até apagar, você com ressaca existencial e eu com ressaca de amor. Parecíamos uma página de romance de Sartre. Amigos aplacam o horror das horas de desespero.
Na vitrola Betânia cantava dor de corno, lembro-me de alguns versos: “Olha, você vai embora, não me quer agora, promete voltar... A vida acaba um pouco todo dia, eu sei e você finge não saber..., mas pode ser que quando você volte, já seja um pouco tarde pra viver...”
Precisamos nos ver por aí, vou fazer umas fotos em Kuala Lumpur e depois quem sabe darei uma passada pelo litoral brasileiro. Lembrei-me de tuas aventuras amazônicas, deve ter sido emocionante, nunca mais encontrei os slides que você me enviou. Eu gostaria de revê-los. Você tem cópias? Se não tiver não faz mal, um dia encontro os originais. Ou não, o que também não tem nenhuma importância. Nada é importante meu amigo, o que conta é estarmos vivos. Um brinde a nós.
Ramon Roberts
From Glasgow
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