Crime e castigo

Tarde de domingo

Sidney Borges
Um turbilhão de idéias me vem à cabeça nesta tarde encoberta de domingo. A temperatura em declínio me faz lembrar os versos de Caetano; “onde andarás nesta tarde tão fria, tão clara e sem fim, onde andarás, em Ipanema, em que bar, em que cinema, te escondes de mim...”

Os ex-humoristas Ziraldo e Jaguar vão receber pensão vitalícia por terem sido perseguidos pela ditadura. Mesada de quase cinco mil reais e indenização de um milhão para cada um. Como é generosa a viúva! A piada é sem graça, fraquíssima, eu até arriscaria um sorriso, mas não consigo sorrir de hipocrisia.
Os jornais se dividem entre o dossiê da Dilma e o assassinato da menina em São Paulo. Do que eu pude saber pelo noticiário, o pai da menina e sua mulher – detesto o termo madrasta, sempre carregado de preconceitos - vão ter muito a explicar, as versões que deram são confusas e pouco convincentes. Um detalhe me chamou à atenção. Há muitos anos tive dois gatos irmãos, Dupont e Dupond. Nessa época eu morava em uma vila de casas, na Vila Olímpia, em São Paulo. Um dia um vizinho bateu à porta e disse que um deles estava caído na entrada da vila, com sangue saindo da boca. Corri até ele, peguei-o com cuidado e fui à clínica veterinária mais próxima. Infelizmente não havia o que fazer. No caso da menina um fato é notável, ninguém pensou em providenciar socorro ao vê-la caída. Não é o que costumamos fazer quando um ente querido sofre um acidente, ainda que as evidências sugiram o pior. A esperança nos dá alento, faz com que tentemos todas as possibilidades. A mais simples delas é buscar socorro. Fiz isso com meu gato. No affair em questão a criança permaneceu prostrada no chão, ninguém imaginou que pudesse estar viva. Eu não ficaria esperando os bombeiros. O pai e a madrasta ficaram inertes, talvez imaginando como explicar o inexplicável. Ou será que sabiam que não havia nada a fazer?
De uma coisa eu tenho certeza, não há impunidade para quem mata uma criança. Pode existir a possibilidade de escapar da justiça, mas não haverá como apagar o crime da consciência. Dostoiévski tinha razão.

Comentários

Anônimo disse…
off topic:Caro Sidney,saudações.Gostaria de fazer um pedido.As amendoeiras do Cruzeiro estao morrendo lentamente.Suas raizes estao expostas,o mar esta matando estas arvores aos poucos.Os calçadoes e paredoes construidos nos ultimos vinte anos deixaram a orla bonita e agradavel ao publico ,mas interferiram na reposiçao da areia.Voce pode incentivar(e talvez cobrar) o plantio de jundu nessa area?A populaçao esta conformada achando que o mar esta subindo.É só observar a orla do pereque-açu,onde os paredoes foram menos agressivos para constatar que isto não é verdade.A areia do Cruzeiro esta desaparecendo rapidamente,apenas onde não tem jundu.Tudo indica que se nada for feito,a areia,as arvores e em seguida o calçadão serão destruidos.E o pessoal da limpeza,que faz um bom trabalho para limpar a praia,esta rastelando e limpando bem ao redor das arvores impedindo o crescimento natural do jundu.Sem estas arvores a praia ficara menos bonita e o calor insuportavel.Grato.

Postagens mais visitadas deste blog

Mosca-dragão

Eleições 2008