Tiro Fijo

Guerrilha em dispnéia pré-agônica

Sidney Borges
Se já não existe a utopia, por que fazer parte de uma organização paramilitar e viver acampado no meio da selva tropical arriscado a ser bombardeado a qualquer instante, mordido por mosquitos e picado por serpentes peçonhentas? Eis o dilema das Farc. Os membros da guerrilha me lembram um cachorro que tive na infância. Corria atrás de carros. Não sei o que faria caso um deles parasse. Na remotíssima hipótese de vitória, o que fazer? Imitar Pol Pot e exterminar os opositores? Colocar o país inteiro a ferros? Falar na vitória das Farc é mero exercício hipotético, não existe possibilidade de triunfo para movimentos socialistas nos dias de hoje. Sem a polarização Leste-Oeste, não há financiadores e sem dinheiro "baila el perro", nada se faz. A China apóia o comunismo, mas não quer saber de confusão. Está preocupada onde instalar os MacDonalds, cujos BigMacs são feitos de minhocas. Pelo menos os da China, onde minhoca é uma iguaria. Aliás, o mundo animal, de pelos ou de penas, deve temer o apetite chinês. Para manter o exército de oito mil homens das Farc – já foram dezesseis mil – é preciso muito dinheiro. E apoio logístico, sem o que não há como manter a luta, segundo qualquer manual de guerrilha para principiantes. Apoio logístico significa hospitais, medicamentos, roupas, comida, armas e descanso, as tropas precisam descansar e estar preparadas, principalmente do ponto de vista moral. É preciso acreditar na vitória. As Farc estão irremediavelmente condenadas, quando muito poderão se transformar em gangue militarizada especializada no tráfico de cocaína. Poderão também tentar a opção política, virar um partido e concorrer às eleições. Seria a melhor opção, aliás a única viável. O problema é como fazer isso sem arcar com os crimes que lhe são imputados. A bola da vez é o número 1, Manuel Marulanda Vélez, conhecido pelo apelido de "Tiro Fijo". Escondido em algum lugar da floresta deve estar completamente apavorado. Se puser a cabeça para fora da toca vira estatística. Não vou chorar por ele.

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