Ensaio

Mulheres divididas

Eliana Cardoso
No vôo de São Paulo a Washington, reli Um Teto Todo Seu. O ensaio é uma delícia, cheio de verve e fina ironia. Mas me pergunto se o argumento de Virgínia Woolf não é datado. Para ilustrar a desigualdade entre homens e mulheres, ela inventa uma irmã para Shakespeare, a quem chama de Judith e a quem atribui um talento ainda maior do que o do dramaturgo. Mas, ao contrário do irmão, Judith não foi à escola, não leu Ovídio nem Virgílio. Se o pai a pegava a folhear um livro, dizia-lhe que o pusesse de lado e fosse remendar meias e cuidar do guisado.

Ora, um gênio como o de Shakespeare não nasce entre pessoas sem instrução, diz Virgínia Woolf. Com certeza. Mas o que diria ela ao ler os “Indicadores do Desenvolvimento” publicados pelo Banco Mundial? Na escola secundária, o número de meninas é superior ao de meninos em 84 países (entre 171 países). Na universidade, as mulheres são mais numerosas do que os homens em 83 países (entre os 141 para os quais a informação existe).
Os números parecem indicar que, em 2008, a desigualdade entre homens e mulheres já não está no acesso à educação, como no tempo de Shakespeare. Pelo menos no caso das filhas das classes endinheiradas. As latinas que apóiam Hillary Clinton, entretanto, continuam a se queixar de sexismo.
Com razão. Se as restrições que existiam no tempo de Shakespeare já não valem para as mulheres ricas, ainda parecem insuperáveis para as que trabalham em atividades urbanas informais de baixa produtividade. E com mais razão ainda no Brasil, onde a participação dos domicílios chefiados por mulheres entre as famílias indigentes quase dobrou entre 1992 e 2006, passando de 22% para 42%.
Leia mais

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mosca-dragão

Eleições 2008