Crônica

O país do quem diria

Luiz Fernando Veríssimo
Um brasileiro que tivesse ido para o espaço em 2002 e voltado agora teria toda a razão para estar tonto, e não apenas pelo choque da reentrada na atmosfera. Teria viajado em meio a manifestações de pânico do mercado financeiro com a iminência da eleição do Lula e voltado em meio à festa pelo governo Lula ter recebido a mais alta condecoração que a cabala financeira mundial pode dar, a Medalha do Pagador Confiável, grau de convertido mor. Nosso perplexo viajante no espaço não pararia de repetir a frase mais ouvida no país das expectativas furadas, nestes últimos tempos: "Quem diria... Quem diria..."
Quem diria que quem um dia pregou o calote acabaria um pagador premiado? Quem diria que os barbudos que mudariam tudo quando chegassem ao governo, começando pela política econômica, não apenas continuariam a mesma política como conseguiriam o reconhecimento internacional que as fatiotas do governo anterior não alcançaram?
Quem diria que em vez do caos que previam com a eleição do Lula os bancos se vissem, no seu governo, favorecidos e ricos como nunca antes? Quem diria que, com sua aprovação popular empatando com a aprovação da irmandade financeira, o governo do PT se transformaria num exemplo inédito de populismo conservador?
É verdade que o "quem diria" pode ser dito com tanto quanto agradável surpresa, dependendo da expectativa furada de cada um. Para quem tinha esperanças mais de esquerda, a decepção com o conservadorismo do PT no governo, mesmo compensada com o golpe para a auto-estima do patriciado brasileiro que é o prestígio do torneiro-mecânico nas altas rodas do dinheiro, e mesmo com os avanços simultâneos havidos na distribuição de renda no país, ainda é uma decepção.

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