Opinião
O castelão corregedor
Editorial do Estadão
Como que a comprovar a tese do humorista que sempre se refere ao "país da piada pronta", o extravagante "castelo" que o novo corregedor da Câmara dos Deputados, Edmar Moreira (DEM-MG), construiu no interior de Minas Gerais, com 32 suítes com hidromassagem, torres de oito metros e avaliado em R$ 25 milhões, certamente ficará marcado como um eloquente símbolo de que os melhores propósitos de recuperação da imagem do Poder Legislativo e de moralização de nossa vida política - exigência tão explícita da sociedade quanto insistentemente repetida nos discursos da classe política cabocla - não passam de um avantajado castelo de areia, uma quimera de todo apartada de nossa realidade.
Qualquer das circunstâncias que envolvem o deputado Edmar Moreira já bastaria para desqualificá-lo para a função de corregedor: o fato de não ter declarado à Receita Federal o valor daquela mastodôntica propriedade imobiliária; o fato de estar sendo processado, no Supremo Tribunal Federal (STF), por crime contra o patrimônio e apropriação indébita previdenciária; o fato de ter votado sistematicamente - absolvendo sete - contra a cassação dos acusados de participação no escândalo do mensalão; o fato de ter renunciado à vaga de titular no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados por nele ter sido derrotado seu relatório pela absolvição de José Mentor (PT-SP); o fato de a empresa de vigilância do deputado (a F. Moreira Empresa de Vigilância e Segurança), mesmo atolada em dívidas e à beira da falência, ter conseguido um empréstimo de R$ 1,9 milhão no Banco do Brasil (que não pagou) e dias depois ter feito doação eleitoral para as campanhas dele próprio e de seu filho, deputado estadual. Ninguém com tal prontuário haveria de ter condições éticas de zelar pelo comportamento de seus colegas deputados federais, para que estes não firam a dignidade do mandato de representação que a sociedade lhes concedeu.
Como ele próprio, coerentemente, demonstraria, assim que assumiu a vice-presidência da nova Mesa da Câmara dos Deputados, ao expor suas ideias - e não só dele, justiça se lhe faça - de acabar com os processos de cassação de mandato na Câmara e transferi-los inteiramente para o Judiciário, o que, aliás, já comentamos em editorial. Ele repete a aleivosa confusão entre um julgamento jurídico, que tem por base o cometimento de crimes, e o julgamento político, que se refere à quebra de decoro parlamentar ou comportamento indigno para os integrantes do Poder Legislativo. Na verdade, até parece que o novo corregedor foi escolhido a dedo, para assegurar a permanência - se não aumentar o âmbito - da crônica impunidade vigente.
Leia mais
Editorial do Estadão
Como que a comprovar a tese do humorista que sempre se refere ao "país da piada pronta", o extravagante "castelo" que o novo corregedor da Câmara dos Deputados, Edmar Moreira (DEM-MG), construiu no interior de Minas Gerais, com 32 suítes com hidromassagem, torres de oito metros e avaliado em R$ 25 milhões, certamente ficará marcado como um eloquente símbolo de que os melhores propósitos de recuperação da imagem do Poder Legislativo e de moralização de nossa vida política - exigência tão explícita da sociedade quanto insistentemente repetida nos discursos da classe política cabocla - não passam de um avantajado castelo de areia, uma quimera de todo apartada de nossa realidade.
Qualquer das circunstâncias que envolvem o deputado Edmar Moreira já bastaria para desqualificá-lo para a função de corregedor: o fato de não ter declarado à Receita Federal o valor daquela mastodôntica propriedade imobiliária; o fato de estar sendo processado, no Supremo Tribunal Federal (STF), por crime contra o patrimônio e apropriação indébita previdenciária; o fato de ter votado sistematicamente - absolvendo sete - contra a cassação dos acusados de participação no escândalo do mensalão; o fato de ter renunciado à vaga de titular no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados por nele ter sido derrotado seu relatório pela absolvição de José Mentor (PT-SP); o fato de a empresa de vigilância do deputado (a F. Moreira Empresa de Vigilância e Segurança), mesmo atolada em dívidas e à beira da falência, ter conseguido um empréstimo de R$ 1,9 milhão no Banco do Brasil (que não pagou) e dias depois ter feito doação eleitoral para as campanhas dele próprio e de seu filho, deputado estadual. Ninguém com tal prontuário haveria de ter condições éticas de zelar pelo comportamento de seus colegas deputados federais, para que estes não firam a dignidade do mandato de representação que a sociedade lhes concedeu.
Como ele próprio, coerentemente, demonstraria, assim que assumiu a vice-presidência da nova Mesa da Câmara dos Deputados, ao expor suas ideias - e não só dele, justiça se lhe faça - de acabar com os processos de cassação de mandato na Câmara e transferi-los inteiramente para o Judiciário, o que, aliás, já comentamos em editorial. Ele repete a aleivosa confusão entre um julgamento jurídico, que tem por base o cometimento de crimes, e o julgamento político, que se refere à quebra de decoro parlamentar ou comportamento indigno para os integrantes do Poder Legislativo. Na verdade, até parece que o novo corregedor foi escolhido a dedo, para assegurar a permanência - se não aumentar o âmbito - da crônica impunidade vigente.
Leia mais
Comentários