Opinião

O primeiro encontro

Editorial do Estadão
O fato de os Estados Unidos terem um novo presidente; o fato de ser ele o líder potencial em quem se depositaram esperanças que ultrapassam fronteiras nacionais; o fato de estar o mundo mergulhado numa crise econômica excepcional, de proporções e duração ainda incalculáveis; e, enfim, o fato de ter essa crise aumentado a importância da posição relativa do Brasil no tabuleiro das decisões multilaterais - todo esse conjunto de circunstâncias permite entender por que se criou na opinião pública brasileira uma expectativa irrealista do primeiro encontro entre os presidentes Lula e Obama, sábado, na Casa Branca. De alguma forma, esperava-se do evento algo que ele não poderia dar - o que, registre-se desde logo, não lhe retira em absoluto a sua importância "por si mesmo", como costumam dizer os diplomatas. E tanto se esperava que, a partir do noticiário a respeito, é possível formar-se a impressão de que uma nova perspectiva acabou de ser aberta na história das relações Brasil-Estados Unidos.

Indício disso seria a decisão atribuída aos dois governos de ir para a reunião do G-20, no próximo dia 2, em Londres, com uma estratégia comum, a ser definida nestes dias. Washington e Brasília, de acordo com essa avaliação, levariam aos demais membros do clube das nações responsáveis por 85% da economia mundial uma mesma proposta de ações estruturais para o resgate e a transformação do sistema financeiro em colapso. Não se trata de nada disso. Embora o presidente Lula tenha dito à imprensa que o seu colega americano sugeriu a criação de um "grupo de trabalho" para a formulação de uma "proposta conjunta", Obama falou apenas em reuniões de representantes dos dois lados para "coordenar nossas atividades para fortalecer o crescimento econômico global". Depois, o assessor de Assuntos Internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia, comunicou que o "grupo" será formado por dois funcionários, um designado pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, o outro escolhido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Garcia - o certo seria o chanceler Celso Amorim, se o trabalho tivesse a magnitude de que foi revestido - tratou ele mesmo de moderar o alcance da iniciativa. Primeiro, ao ressalvar que "o grande problema é saber como vai ser coordenada a ação no interior de cada país (leia-se: Estados Unidos, onde a crise nasceu e onde terá de morrer para que cessem seus efeitos em todo o mundo) com a que tem de ser tomada globalmente". Segundo, ao informar que o Brasil formará grupos semelhantes também com outros países. Em suma, atividade diplomática normal na busca de convergências para o estabelecimento de prioridades e a defesa de posições em cada caso em um foro multilateral como o G-20. De mais a mais, o retrospecto das relações com os Estados Unidos nos anos Lula não é especialmente animador a esse respeito. Animado pela "química" entre ele e o presidente Bush, o brasileiro se vangloriou em Washington, depois de conhecer o antecessor de Obama, da criação de quatro grupos de trabalho para tratar de 35 temas relevantes para ambas as partes. Ficou por isso mesmo - e era de esperar que o Brasil fosse o principal interessado em que não ficasse.
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