Editorial

Esquerda pétrea

Sidney Borges
O artigo de Nelson Motta na Folha de ontem ressoou em minhas cordas de sensibilidade e fez com que produzissem um finíssimo som de contentamento. Resumiu o sentimento de uma nação esclarecida. Eu não quero ver o meu país dominado por um governo similar ao de Cuba, ou ao de qualquer paraíso comunista. E penso assim por puro egoísmo, gosto de ir e vir e o comunismo jamais conseguiu colocar no mesmo prato centralismo econômico e liberdades individuais. Eu não gosto de favelas, não gosto de subemprego, não suporto a idéia de ainda existir trabalho escravo. Advogo a meritocracia como base para empregar e sou favorável à educação de qualidade patrocinada pelo Estado. As desigualdades obscenas do Brasil precisam ser encaradas, não haverá prosperidade enquanto não houver esperança e dinheiro no bolso do povo. Meu esquerdismo morre aí. Por pensar assim já me vi taxado de direitista, o que em um primeiro momento me intrigou, depois creditei a pecha à falta de discernimento dos acusadores. Pouca cultura e pouca escolaridade tornam qualquer um presa fácil de obscurantismo dialético. A ministra Marta Suplicy é de esquerda, apesar de também ser grã-fina e pertencer a tradicionais troncos quatrocentões, que dispensam apresentação, são reacionários até à medula. A Revista Veja publicou que ao embarcar em um avião de carreira, a Ministra não aceitou o ritual dos pagãos, ela que faz parte do Olimpo, senta-se ao lado dos deuses. Recusou-se a ter a bagagem de mão passada pelo raio X. Aboletou-se no conforto da primeira classe com um sorriso de sorry periferia. Oh! Céus, o vôo era de uma companhia estrangeira e o bravo comandante disse não. Não haverá vôo sem que todos os passageiros se submetam às regras da França. Cá entre nós, coisa da direita, Sarkozy é de direita. O ritual acabou sendo cumprido, a bagagem foi verificada. O emblemático acontecimento nos permite concluir, que o Brasil ainda não chegou à fase da discussão dialética direita versus esquerda. Estamos em tempo de coronéis, Marta Suplicy agiu como um coronel. Coronel de esquerda, que fique claro, aquela esquerda que contraria Darwin...

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