Crônica

Missing

Luiz Fernando Veríssimo
Joseph Conrad costumava acompanhar as informações sobre o tráfego marítimo nos jornais. Procurava notícias de barcos que conhecia ou em que tivesse trabalhado nos seus tempos de marinheiro. Encontrar o nome de um barco que tripulara na mocidade devia ser como descobrir o nome de uma antiga namorada numa crônica social, casada com outro. Mas o mais pungente nos relatos diários de partidas e chegadas, para Conrad, era o aparecimento da ominosa palavra “overdue” - atrasado - junto ao nome de um barco. Estar “overdue” era estar à beira de um grande alívio ou de uma grande tragédia, pois só uma de duas palavras substituiria o temido adjetivo no noticiário: “arrived”, chegado, finalmente, ou “missing”, desaparecido.
Havia um tempo predeterminado para um barco “overdue” passar a ser descrito como “missing”, e o progresso de uma condição a outra dava à leitura de um simples registro comercial a mesma sensação de um emocionante folhetim diário. Na falta de notícias de uma chegada ou de uma tragédia comprovada, não havia um tempo predeterminado para o epíteto “missing” ser abandonado. Ele perdurava ao lado do nome do barco como uma sombra, dia após dia, e o barco permanecia desaparecido, nas palavras de Conrad, “num mistério grande como o mundo”. Ou pelo menos como o mar. (Do Blog do Noblat)

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