Brasil

Meio século de um mito

Daniel Piza
Pelé está de azul como na final da Copa de 1958. Historiadores contam que o chefe da comissão técnica, Paulo Machado de Carvalho, teria dito para animar os jogadores da "canarinho" a respeito da mudança, antes do jogo, que a cor era a do "manto de Nossa Senhora". Pelé não se lembra disso. Sorridente como sempre, aos 67 anos nada aparentes, ele deu na terça-feira passada a primeira entrevista exclusiva sobre o cinqüentenário da primeira Copa conquistada pelo Brasil, no escritório da Pelé Prime, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. E passou por essa e outras lendas como passava com a bola por seus marcadores.

Ele afirma, por exemplo, que estava pronto física e psicologicamente para o jogo da estréia, contra a Áustria, em 8 de junho. Até agora se dizia que sua estréia foi adiada porque ainda estava machucado. Pelé, no entanto, diz que era exclusiva do psicólogo da delegação, João Carvalhaes, a opinião de que ele e Garrincha eram muito jovens para assumir a responsabilidade. E também nega que tenha havido uma reunião em que os jogadores mais experientes praticamente teriam imposto ao técnico Vicente Feola a escalação da dupla e de Zito no terceiro jogo, contra a então União Soviética. Segundo Pelé, alguns como Nilton Santos já pediam a alteração, mas foi o mau desempenho da seleção nos dois primeiros jogos que convenceu Feola a lançar mão dos jovens craques.
Pelé também fala sobre seus colegas e diz que a seleção de 1958 tinha mais talentos individuais que a de 1970, embora esta fosse melhor como conjunto. Conta que também reclamava do excesso de dribles de Garrincha, que Nilton Santos sabia a hora certa de subir, que Didi era o maestro e Zito quem mais gritava em campo. Sobre Vavá, afirma que era melhor do que Ronaldo Fenômeno, porque mais completo. Outros jogadores de gerações seguintes também são comentados, como Zico, que Pelé diz ter sido seu maior herdeiro. Para Maradona, uma crítica, e das mais fortes.
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Nota do Editor - Ver com os próprios olhos é diferente de ouvir contar. Eu vi Pelé começar no Santos e depois acompanhei sua carreira até o final. Foi um privilégio. Também tive a sorte de ter vivido o ano de 1968 na plenitude dos 20 anos. Uma vez pediram a Mário Américo, massagista da Portuguesa e da Seleção uma comparação entre Pelé e os demais. A resposta foi rápida:
- Tirando o Pelé é tudo japonês.
Hoje ele teria dito algo diferente, o Japão aderiu ao futebol e tem lá seus craques. Gênios aparecem raramente, o Brasil é a terra do futebol e do rítmo, somos musicais na essência. Pelé e Elis Regina, quem viu, viu, quem não viu ouve contar e imagina, mas não consegue vislumbrar dez por cento da magia. (Sidney Borges)

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