Opinião

Ideário do atraso

Mario Cesar Flores
A conjuntura favorável que o Brasil está vivendo não foi criada essencialmente pelo poder político em exercício: ele herdou seus fundamentos e foi beneficiado por condições fora de sua alçada. Tampouco os ventos adversos que começam a soprar são gerados por ele. Correto seria imputar-lhe o estar aproveitando a conjuntura aquém do seu potencial e a complacência com o ideário nacional do atraso institucional e cultural, causa estrutural interna dos macroproblemas nacionais.

Medidas iniciadas há algum tempo (responsabilidade fiscal, controle da inflação, abertura comercial) e a saúde econômica mundial, hoje periclitante, alicerçaram a conjuntura favorável. Já os ventos adversos procedem das crises em grandes economias do mundo e, como vem acontecendo há séculos, das inibições inerentes ao ideário do atraso, com seu estatismo burocrático centralizador e seu capitalismo de Estado e cartorial - vícios herdados da contra-reforma letárgica que Portugal está superando na União Européia -, cuja revisão não tem merecido atenção consistente. As ajustagens pós-1930 destravaram o imobilismo sem mudar significativamente o modelo e até agravaram o estatismo e o capitalismo de Estado, de acordo com a época.
Teria sido mesmo difícil aproveitar melhor a bonança recente e será complicado superar os ventos adversos que vêm por aí, sem a ruptura desse entrave estrutural. Ruptura complexa porque ele atende a interesses políticos e de parcela ponderável da sociedade, simpática ao Estado grande, usufrutuária ou pretendente a usufrutuária do clientelismo e do cartório. Mas, enquanto a ruptura não acontece, continuaremos em desenvolvimento contido, numa democracia de projetos medíocres e paroquiais eleitoreiros, ausentes os nacionais abrangentes de longo prazo; numa democracia em que as eleições são mais disputas pelo butim do Estado do que entre programas. A massa eleitora, anestesiada por personalismos carismáticos televisados, pelo circo lúdico ao gosto da nossa psique, pelo assistencialismo e por simplismos hipnóticos do populismo cultural (Terceiro Mundo x países ricos, elites x povo, aversão à globalização, Alca, neoliberalismo, FMI e Consenso de Washington, sem saber do que se trata) - situação que preocupa porque não há democracia saudável sem que o povo corresponda ao delegar sua soberania.
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