Opinião
Nonada?
Pedro S. Malan
Sabe o leitor quantas vezes a palavra “direitos” aparece em nossa Constituição? Pois bem, uma rápida consulta indica o total: nada menos que 74 vezes. E a palavra “deveres”, caro leitor ou leitora? Apenas cinco vezes, o mesmo número que a expressão “dever do Estado”. Esta relação tão díspar entre direitos e deveres talvez diga algo sobre nós mesmos, sobre a sociedade que construímos “neste país”. Em particular sobre o excesso de expectativas acerca da ação do Estado no processo de assegurar direitos e assumir responsabilidades, deveres e obrigações para com a sociedade e os indivíduos que a constituem.Começo este artigo com essa observação por duas razões. A primeira tem que ver com esta farra no uso dos cartões de crédito corporativos por muitos dentre os milhares de servidores públicos que, certamente, se consideram no exercício de um direito: afinal, um cartão lhes foi confiado para os gastos que considerassem “necessários” ao exercício de suas funções ou ao funcionamento dos órgãos a que pertencem. Que houve abuso flagrante é evidente, como demonstrou a imprensa - e não os órgãos do governo encarregados de fiscalizar esses usos e de coibir exemplarmente os abusos. “Excesso de transparência é burrice”, como dizia Delúbio, e “transparência pode comprometer a segurança”, como diz o general. O fato é que parece estar em curso aquilo que o mestre Guimarães Rosa chamou de “condena de absolvido”. Pequenos desvios e talvez alguns erros menores tenham sido cometidos aqui ou ali, mas nada que comprometesse “o grande salto para a frente” em que estariam empenhados, desde 2003, o governo e seus 37 ministros. O resto seria intriga de uma oposição invejosa. Muito barulho por nada. Coisas de carnaval. Falta do que fazer. Pequenos assassinatos para pequenos delitos. Preocupações “neurótico-obsessivas” com relações espúrias entre os domínios público e privado. Nonada.
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Pedro S. Malan
Sabe o leitor quantas vezes a palavra “direitos” aparece em nossa Constituição? Pois bem, uma rápida consulta indica o total: nada menos que 74 vezes. E a palavra “deveres”, caro leitor ou leitora? Apenas cinco vezes, o mesmo número que a expressão “dever do Estado”. Esta relação tão díspar entre direitos e deveres talvez diga algo sobre nós mesmos, sobre a sociedade que construímos “neste país”. Em particular sobre o excesso de expectativas acerca da ação do Estado no processo de assegurar direitos e assumir responsabilidades, deveres e obrigações para com a sociedade e os indivíduos que a constituem.Começo este artigo com essa observação por duas razões. A primeira tem que ver com esta farra no uso dos cartões de crédito corporativos por muitos dentre os milhares de servidores públicos que, certamente, se consideram no exercício de um direito: afinal, um cartão lhes foi confiado para os gastos que considerassem “necessários” ao exercício de suas funções ou ao funcionamento dos órgãos a que pertencem. Que houve abuso flagrante é evidente, como demonstrou a imprensa - e não os órgãos do governo encarregados de fiscalizar esses usos e de coibir exemplarmente os abusos. “Excesso de transparência é burrice”, como dizia Delúbio, e “transparência pode comprometer a segurança”, como diz o general. O fato é que parece estar em curso aquilo que o mestre Guimarães Rosa chamou de “condena de absolvido”. Pequenos desvios e talvez alguns erros menores tenham sido cometidos aqui ou ali, mas nada que comprometesse “o grande salto para a frente” em que estariam empenhados, desde 2003, o governo e seus 37 ministros. O resto seria intriga de uma oposição invejosa. Muito barulho por nada. Coisas de carnaval. Falta do que fazer. Pequenos assassinatos para pequenos delitos. Preocupações “neurótico-obsessivas” com relações espúrias entre os domínios público e privado. Nonada.
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