Sevilha
Excertos de viagens
O lançamento do Fiat Uno na Europa me fez ficar curioso, eu queria experimentar um. Foi o que eu disse ao gerente da locadora no aeroporto de Lisboa, infelizmente não havia mais, estavam todos alugados. Tentei um Mini Cooper S, ele pediu imensas desculpas, mas a resposta foi a mesma, não tinha nenhum disponível. Acabei com um Ford Fiesta cereja metálico, trincando de novo. Paguei o preço do Uno, que tinha menos cilindrada e acabei dando com os burros n’água, o motor usava gasolina especial e a diferença me tirou preciosos escudos. Com esse carro nós descemos a Sagres e depois percorremos o Algarve até cruzar a balsa e entrar em Espanha. Nunca me esquecerei da comparação, assim que saímos da embarcação eu e Susan exclamamos em uníssono: - Parece Ubatuba! Parecia mesmo, deu saudades.
Nosso destino era Sevilha, onde eu tinha programado deixar o carro. O verão espanhol é quente, com céu azul e sem nuvens. Os dias são longos, o crepúsculo vespertino se estende até quase 10 horas da noite. A estrada era ladeada por plantações de girassóis a perder de vista, um verdadeiro oceano amarelo, perto da chegada o terreno ficou árido, até cruzarmos o Rio Guadalquivir. Sevilha despontou no horizonte, na estrada um imenso outdoor na forma de touro criava um cenário surrealista.
Após largar o carro tudo o que queríamos era um lugar para nos sentarmos, colocar as bagagens e tomar água. Você acha que está fazendo calor em Ubatuba? Sevilha é mais quente, para não parecer exagerado e dizer muitíssimo mais quente. Talvez venha dessa canícula mediterrânea o hábito da “siesta”. Entre meio dia e quatro horas da tarde é impossível, o QI se reduz ao mínimo necessário para bater o coração e respirar, tudo o mais é exaustivo, cansativo, não vale à pena.
Sevilha foi a primeira cidade espanhola que me levou a observar o funcionamento da “indústria do turismo”. Como os leitores sabem, a Espanha ficou neutra na segunda guerra mundial, mas abriu os portos aos alemães e enviou a divisão azul para a campanha da Rússia.
Como conseqüência não recebeu um centavo do “Plano Marshall”, dinheirama respeitável que recuperou as economias européias devastadas pela guerra. Mesmo assim a Espanha cresceu nos anos posteriores ao conflito, se o dinheiro não entrava diretamente, os espanhóis tornaram o país tão atraente que os europeus gastavam lá o dinheiro das férias.
Sevilha impressiona pelas informações sobre passeios, eventos musicais, museus, teatros. Depois de devidamente instalados escolhemos conhecer uma cidade romana, distante alguns quilômetros. Com isso nós sairíamos da região central e eu poderia fazer minhas observações sobre a periferia. Descobri que na Espanha não existe tal conceito, não há casebres nem favelas. Quando adentramos à cidade de Itálica, fomos como que remetidos à Roma dos Césares, caminhar pelas ruas pavimentadas de pedras e entrar em casas romanas naquele fim de tarde foi um momento mágico, inesquecível.
Na saída de Itálica há um restaurante com mesas ao ar livre, cobertas por parreiras, deixando o céu aparecer aqui e ali. Pedimos vinho branco, geladíssimo e depois nos dirigimos ao anfiteatro. Sob a luz das estrelas que aos poucos surgiam no firmamento, um quarteto de cordas israelense tocou Haydn, que aprendi a apreciar no concerto do meio-dia, da rádio Eldorado. Retornamos ao hotel com a agradável sensação que acompanha as descobertas transcendentais. Nós tínhamos descoberto a Espanha. Nós e milhões de turistas de todas as partes do mundo. Na próxima vez que visitarmos Sevilha vamos fazer um passeio no Guadalquivir, que assim como no Tâmisa em Londres e no Sena em Paris, há barcos que levam turistas a preços módicos.
Sidney Borges
O lançamento do Fiat Uno na Europa me fez ficar curioso, eu queria experimentar um. Foi o que eu disse ao gerente da locadora no aeroporto de Lisboa, infelizmente não havia mais, estavam todos alugados. Tentei um Mini Cooper S, ele pediu imensas desculpas, mas a resposta foi a mesma, não tinha nenhum disponível. Acabei com um Ford Fiesta cereja metálico, trincando de novo. Paguei o preço do Uno, que tinha menos cilindrada e acabei dando com os burros n’água, o motor usava gasolina especial e a diferença me tirou preciosos escudos. Com esse carro nós descemos a Sagres e depois percorremos o Algarve até cruzar a balsa e entrar em Espanha. Nunca me esquecerei da comparação, assim que saímos da embarcação eu e Susan exclamamos em uníssono: - Parece Ubatuba! Parecia mesmo, deu saudades.
Nosso destino era Sevilha, onde eu tinha programado deixar o carro. O verão espanhol é quente, com céu azul e sem nuvens. Os dias são longos, o crepúsculo vespertino se estende até quase 10 horas da noite. A estrada era ladeada por plantações de girassóis a perder de vista, um verdadeiro oceano amarelo, perto da chegada o terreno ficou árido, até cruzarmos o Rio Guadalquivir. Sevilha despontou no horizonte, na estrada um imenso outdoor na forma de touro criava um cenário surrealista.
Após largar o carro tudo o que queríamos era um lugar para nos sentarmos, colocar as bagagens e tomar água. Você acha que está fazendo calor em Ubatuba? Sevilha é mais quente, para não parecer exagerado e dizer muitíssimo mais quente. Talvez venha dessa canícula mediterrânea o hábito da “siesta”. Entre meio dia e quatro horas da tarde é impossível, o QI se reduz ao mínimo necessário para bater o coração e respirar, tudo o mais é exaustivo, cansativo, não vale à pena.
Sevilha foi a primeira cidade espanhola que me levou a observar o funcionamento da “indústria do turismo”. Como os leitores sabem, a Espanha ficou neutra na segunda guerra mundial, mas abriu os portos aos alemães e enviou a divisão azul para a campanha da Rússia.
Como conseqüência não recebeu um centavo do “Plano Marshall”, dinheirama respeitável que recuperou as economias européias devastadas pela guerra. Mesmo assim a Espanha cresceu nos anos posteriores ao conflito, se o dinheiro não entrava diretamente, os espanhóis tornaram o país tão atraente que os europeus gastavam lá o dinheiro das férias.
Sevilha impressiona pelas informações sobre passeios, eventos musicais, museus, teatros. Depois de devidamente instalados escolhemos conhecer uma cidade romana, distante alguns quilômetros. Com isso nós sairíamos da região central e eu poderia fazer minhas observações sobre a periferia. Descobri que na Espanha não existe tal conceito, não há casebres nem favelas. Quando adentramos à cidade de Itálica, fomos como que remetidos à Roma dos Césares, caminhar pelas ruas pavimentadas de pedras e entrar em casas romanas naquele fim de tarde foi um momento mágico, inesquecível.
Na saída de Itálica há um restaurante com mesas ao ar livre, cobertas por parreiras, deixando o céu aparecer aqui e ali. Pedimos vinho branco, geladíssimo e depois nos dirigimos ao anfiteatro. Sob a luz das estrelas que aos poucos surgiam no firmamento, um quarteto de cordas israelense tocou Haydn, que aprendi a apreciar no concerto do meio-dia, da rádio Eldorado. Retornamos ao hotel com a agradável sensação que acompanha as descobertas transcendentais. Nós tínhamos descoberto a Espanha. Nós e milhões de turistas de todas as partes do mundo. Na próxima vez que visitarmos Sevilha vamos fazer um passeio no Guadalquivir, que assim como no Tâmisa em Londres e no Sena em Paris, há barcos que levam turistas a preços módicos.
Sidney Borges
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