Brasil

Mutantis mutandis

Sidney Borges
Quando soaram os acordes de Grândola Vila Morena nas rádios portuguesas começou a queda do regime salazarista. Era o dia 25 de abril de 1974, Chico Buarque cantou: "Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente. Ainda guardo renitente. Um velho cravo para mim".

A ditadura tirou do povo tudo, não havia trabalho, não havia alegria, não havia esperança. Portugal tornou-se fornecedor de mão de obra. Exportava gente como se fosse gado. Os truculentos membros da "Pide", espécie de "Gestapo" lusa perseguiam a todos. Interpretavam até expressões faciais, quem tivesse cara de comunista era preso e torturado por ter cara de comunista.

Os desmandos do regime criaram forte sentimento de revolta. Assim que a vitória da "Revolução dos cravos" ficou clara o povo tomou o rumo das dependências da Pide. Estava na hora do ajuste de contas. Depois de muita resistência o quartel da polícia foi invadido e seus membros presos.

Dias depois ofereceram seus serviços ao novo governo. Nosso trabalho é perseguir dissidentes, até ontem gente de esquerda, agora que a esquerda está no poder perseguiremos a direita. Não é folclore como poderia parecer aos que têm apreço pela objetividade. Arrancar unhas, esmagar artelhos, dar choques em genitais era parte do ofício, tão nobre quanto amassar farinha, água e fermento, lida dos padeiros.

Na época eu imaginei que um dia o baluarte da direita paulista, Paulo Salim Maluf, vestiria a camisa do comunismo. Em nome de continuar mantendo algum poder. Em 1974 eu não dizia isso em todos os lugares, estávamos em plena ditadura. E também porque ninguém me daria ouvidos. As condições econômicas eram favoráveis, os reflexos da crise do petróleo ainda não tinham nos atingido, havia pleno emprego, grana rolando, bancos enriquecendo e bolsa de valores bombando, para usar uma expressão atual.

Maluf vai apoiar Palocci, candidato da esquerda ao governo de São Paulo. Maluf sempre foi um homem de esquerda. Durante anos enganou os militares. Ou melhor ele e seu fiel amigo Delfim Netto enganaram os militares. Em plena guerra fria cantavam "Bandiera rossa la trionferà; evviva il comunismo e la libertà". Delfim Netto, dizem, estraçalha na balalaika.

Enquanto isso o trio maravilha, Lula, Collor e Sarney, comemora a segunda independência do Brasil. Só faltam os adesivos nos carros: "Pré-sal ou mude-se". É questão de tempo.

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