Opinião

As dificuldades do setor imobiliário

Editorial do Estadão
O BNDES prometeu ajudar a construção civil nesta situação de fim de um período de euforia, mas dificilmente evitará os efeitos da crise internacional no setor. Trata-se de uma atividade muito importante do ponto de vista da contratação de mão-de-obra e de investimento.

O sinal mais claro das dificuldades veio das cotações em bolsa dos papéis de construtoras e incorporadoras que abriram o capital desde 2006. Neste ano, até 6/10, as cotações de 24 companhias do setor caíram entre 27,98% e 92,83%. Destas, 7 caíram acima de 80%, mais que o dobro da desvalorização do Ibovespa, de 34,1%, no período.

Mas há um enorme contraste entre a produção e a venda de imóveis e as cotações em bolsa. A demanda de imóveis continua forte. Ela vem da combinação de mais emprego e renda dos mutuários e da estabilidade monetária. Como a construção não depende de importações, a valorização do dólar não afeta a atividade. E as fontes de crédito - caderneta de poupança e FGTS - são internas, com custos baixos.

Muitas incorporadoras, no entanto, adquiriram terrenos em excesso, imaginando um longo período de vacas gordas. Irrompida a crise externa de crédito, é inevitável agora uma acomodação nesse ritmo e a constituição de companhias menos dependentes de capital de giro, pois também os bancos locais vêm emprestando menos.

Nos cálculos do BNDES, o setor de construção civil investiu R$ 120 bilhões nos primeiros nove meses do ano. O banco estima que haverá investimentos totais de R$ 535 bilhões entre 2008 e 2011, ante R$ 357 bilhões entre 2004 e 2007.

Mas o BNDES não tem recursos para assegurar, numa fase de crise, o crescimento de um setor que responde por mais de 40% da taxa de investimento. Quando muito, poderá facilitar a sua consolidação, evitando o risco de problemas mais graves numa hora de aperto do crédito em geral. O resultado será o fortalecimento das empresas remanescentes.
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