sexta-feira, janeiro 13, 2017

Física


Opinião

Ninguém é obrigado a ser infiel porque ninguém é obrigado a ser fiel

João Pereira Coutinho
Infidelidade: não existe outro tabu que seja tão universalmente condenado e tão universalmente praticado. Boa frase. Não é minha. Pertence a Esther Perel, e a revista "1843", do grupo "The Economist", dedica-lhe um artigo ("What's Wrong with Infidelity?" ).

A dra. Perel, belga, 58, é a psicóloga do momento para problemas de conjugalidade —e infidelidade. A sua missão é simples: desdramatizar. O casamento não extingue os desejos que permanecem na natureza humana. E a sociedade contemporânea não ajuda: antigamente, diz ela, era possível dar o nó e passar anos e anos com a mesma criatura (e um sexo assim-assim). Hoje, a oferta é variada (e a procura, idem).

Além disso, acrescenta a doutora, é um erro condenar o infiel e simpatizar com o elemento enganado. As "culpas", se a palavra se aplica, são muitas vezes repartidas. E, em certos casos, residem apenas no enganado. Como explicar, então, o moralismo que paira sobre o assunto?

Resposta da doutora: porque a fidelidade é a última coisa que define um casamento. Já não é o sexo, que começa antes. E já não são os filhos, que podem nem aparecer. É a fidelidade, essa relíquia.

Compreendo as sutilezas de Esther Perel. Mais: conheço casos de infidelidades que salvaram casamentos. Mas também conheço infidelidades que destruíram famílias. Eis o problema dos vários raciocínios da dra. Perel: há falhas lógicas evidentes que, moralismos à parte, não me convencem.

Comecemos pela primeira: o desejo permanece na natureza humana? Mil vezes sim. E qualquer pessoa "comprometida" (peço desculpa pela deselegância do termo) já sentiu vontade de comer meio mundo. Mas o que é válido para o desejo é igualmente válido para qualquer inclinação humana, como a violência.

Dito de outra forma: o fato de algo ser "natural" não significa que será moralmente bom. Se assim fosse, eu poderia esmurrar família, colegas, alunos e meros desconhecidos com a mesma naturalidade com que respiro. E, se um deles me acusasse ou processasse, seria cômico (para dizer o mínimo) eu afirmar apenas: "Não me reprima, por favor. Eu sou humano."

A vida em sociedade implica certos sacrifícios; o maior deles, creio, é sacrificar o selvagem que existe em nós. Mas posso estar errado. Se estiver, avisem-me: a minha lista é longa.

E a sociedade? Concordo com Perel: se podemos satisfazer vários caprichos com uma visita no shopping, é inevitável que esse imediatismo contamine as relações pessoais. Zygmunt Bauman (1925-2017), um grande sociólogo que morreu esta semana, escreveu abundantemente sobre a matéria.

Mas o argumento de Perel, uma vez mais, parte de um fato para a "normalização" ética do fato. Porque existe uma diferença entre afirmarmos que as infidelidades pessoais são como as nossas visitas ao shopping; e, por outro lado, afirmarmos que é natural que assim seja.

Se aceitarmos essa premissa, qualquer comportamento humano, do mais excêntrico ao mais aberrante, deve ser permitido e louvado. Para que educar os filhos quando isso é despesa? Para que cuidar dos pais dementes quando isso cria angústia? Para que ajudar o irmão psicótico ou a irmã viciada, quando o resultado dessa ajuda é incerto? E etc. etc.

Finalmente, são precisos dois para dançar o tango? Absolutamente. Mas a afirmação de Perel de que a infidelidade, muitas vezes, é "culpa" da pessoa enganada acaba por ser uma irônica contradição com o seu discurso "liberal", criando uma falácia determinista bastante "démodé".

O infiel só seria "vítima" se não existissem outras alternativas —como a comunicação, a separação, o divórcio— à sua inteira disposição. Nas sociedades contemporâneas, ninguém é "obrigado" a ser infiel pelo simples motivo de que ninguém é "obrigado" a ser fiel.

Esther Perel deveria encontrar outros argumentos para "desdramatizar" a infidelidade. Do ponto de vista lógico, e estritamente lógico, as explicações da doutora não são fiéis à racionalidade. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 13 / 01 / 2017

O Globo
"Estado do Rio ultrapassa limite de gasto com pessoal"

Folha de pagamento já consome mais que o permitido pela lei

Pezão voltará a propor à Alerj contribuição previdenciária extra para servidores

O Estado do Rio ultrapassou o permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal em gastos com pessoal (60%), comprometendo quase 74% da receita corrente líquida. Em 2016, foram cerca de R$ 34 bilhões em salários, de acordo com a Comissão de Tributação da Alerj. O governo Pezão vai propor contribuição previdenciária de 20% dos salários dos servidores, por dois anos, inclusive para aposentados.    

O Estado de S.Paulo
"Corte da taxa de juro anima Bovespa e desvaloriza dólar"

Presidente Michel Temer diz acreditar que a Selic – hoje em 13% – cairá gradativamente para um dígito

A Bovespa reagiu com forte otimismo ontem à decisão do Copom de reduzir em 0,75 ponto porcentual a taxa básica de juros, para 13%, numa queda maior que o esperado. A Bolsa fechou em alta de 2,41%, aos 63.953,93 pontos, o maior patamar desde 8 de novembro – dia da eleição americana. O presidente Michel Temer disse acreditar que, gradativamente, os juros cairão de dois para um dígito. “Juros muito altos dificultam investimentos.” O dólar teve queda de 0,62%, cotado a R$ 3,1747. O recuo da moeda norte-americana se deveu principalmente à expectativa de entrada de recursos no País. Para o pesquisador Michael Viriato, o sinal do Banco Central de que a inflação está sob controle e os juros devem seguir rota de queda faz com que o empresário se sinta mais seguro para fazer empréstimos a taxas menores no futuro. “É uma reação em cadeia e o investidor também se sente mais confiante.”                     

Folha de S. Paulo
"Doria deve cortar entrega de leite a estudantes de SP"

Com dificuldades orçamentárias, nova gestão pode rever também compra de material e transporte escolar

Diante de orçamento reduzido, o prefeito João Doria (PSDB) deve reduzir em São Paulo o programa Leve Leite, que atende 900 mil estudantes da creche ao 9° ano da rede municipal. Em entrevista à Folha, o secretário de Educação, Alexandre Schneider, disse que podem ser revistos também a compra de material escolar e o transporte de alunos. As dificuldades financeiras da nova gestão vão além da crise econômica. O cenário foi agravado pelo congelamento das tarifas de ônibus em R$ 3,80 neste ano. A medida gerará gastos adicionais de R$ 1 bilhão. “A situação fiscal da prefeitura não ê fácil. Chego em um momento muito mais difícil que da primeira vez que fui secretário”, afirmou. Serão rediscutidas despesas sem ligação direta com ensino, que consomem em torno de R$ 1,1 bilhão do orçamento da secretaria —de um total de R$ 10,9 bilhões. Schneider não detalhou as reduções, mas a Folha apurou que a entrega de leite deve ser restringida a crianças de 0 a 6 anos.    

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Física


Opinião

Olhar-se muito tempo olho no olho é bom começo para se estrangular

Contardo Calligaris
"Due cuori e una capanna" é uma expressão italiana (ou especialmente popular na Itália). Seu sentido mais óbvio é que duas pessoas que se amam, para ter uma vida boa, não têm necessidade de riquezas: podem até morar numa barraca –só o básico para se proteger do frio, do sol e da chuva. Talvez nem isso. "Dois corações e uma cabana" significa que o amor é tudo de que precisamos.

De fato, se você estiver passando por um momento de vacas magérrimas, não há dúvida de que um casal companheiro, apaixonado e amigo pode ser de grande ajuda.

Mas o sentido da expressão vai além das contas do fim do mês. "Dois corações e uma cabana" significa também que um casal, rico ou pobre, SE basta, ou seja, não precisa de mais ninguém.

"Passageiros", de Morten Tyldum (em cartaz), é um blockbuster excelente –também pelas reflexões que ele introduz inevitavelmente.

A primeira (sem perigo de spoiler) é: "Será que um casal pode se bastar?". Você viveria 30, 40, 50 anos só com seu companheiro (ou sua companheira)? Cuidado, repito: literalmente SÓ com seu companheiro ou companheira.

Como fica a vida do casal sem vizinhos, queridos ou incômodos? E sem colegas de trabalho, também queridos ou incômodos? Como será a vida na "Casa no Campo" de Elis Regina sem os amigos (sejam eles do peito ou não)?

Alguém poderia pensar que, sem nenhum outro, é mais fácil o casal ficar junto para sempre –sem tentações, seduções, distrações"¦

Mas a questão não é só se um casal se basta sem mais ninguém (para amar, para admirar ou para detestar, tanto faz). A questão é também: será que um casal se aguenta se o único propósito da vida de ambos for, justamente, viver juntos e se amar?

Os protagonistas de "Passageiros" fazem parte de milhares de colonos que dormem hibernados numa nave espacial que chegará a sua destinação (um mundo novo, uma colônia) depois de uma viagem de 120 anos.

Ora, eles acordam 90 anos antes do momento previsto, e não há como voltar a dormir. Pedir ajuda a alguém na Terra levaria o tempo de uma vida inteira.

Agora, por que se queixar? Não é a realização do ideal dos dois corações com uma cabana? Não é isso que os amantes sempre deveriam querer: apostar na felicidade a dois, como se os outros não existissem?

Uma questão volta regularmente quando um casal se interroga sobre o que não está funcionando: a vida social atrapalha ou enriquece a relação?

Os membros de um casal podem se olhar reciprocamente nos olhos: é o olhar patético, tocante e um pouco ridículo. Eles podem olhar na mesma direção (e não um para o outro): é o olhar atarefado, numa obra comum. Eles podem olhar cada um numa direção que lhe é própria: é o olhar desejante (cada um segue seu desejo e apenas gosta de ter o outro do seu lado na sua empreitada, que é diferente da do outro).

Dos três olhares, o mais perigoso é o patético, em que cada um seria o propósito da vida do outro. Se olhar muito tempo olho no olho é quase sempre um bom começo para se estrangular.

Agora, outra reflexão (também sem spoiler). Minha avó dizia que, quando um casal se junta, uma das famílias perde e a outra ganha mais um filho ou uma filha.

Na verdade, é normal que um amor nos arranque de uma vida que estava relativamente pronta, de um caminho já traçado.

Por amor a gente pode renunciar a profissão, filhos, família, outro casamento, sonhos, nação, religião"¦

O amor, em suma, é um grande fator de mudança –se não o maior.

Mais de uma vez, um amor me fez mudar de país, de língua e de caminho. Os amores me afastaram de minha família de origem. Lamento?

Não sei, talvez. Se tivesse ficado com minha primeira mulher, seria fotógrafo. Se tivesse ficado com a mãe de meu filho, seria psicanalista na França. Enfim, não sei se o amor nos transforma, mas ele quase sempre nos engaja por novos caminhos.

Os amores, numa palavra só, arrebatam –um pouco por sua virulência e um pouco (suspeito) por nossa própria vontade de sermos arrebatados, de encontrar razões para mudar: "Leve-me para longe daqui. Salve-me da família, do hábito, do destino já escrito para mim".

Por isso mesmo, quando o casal acaba ou simplesmente quando ele corre perigo, sempre tendemos a acusar o outro pela mudança que ele produziu em nós: "Mas por que você me tirou de onde eu estava?".

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 12 / 01 / 2017

O Globo
"Acordo entre União e Rio envolve R$ 50 bi até 2020"

Total inclui revisão de gastos e receitas

Papéis da Cedae serão dados em garantia ao pacto. Privatização da companhia, que pode acontecer ainda este ano, depende da aprovação da Alerj

O acordo financeiro entre o Estado do Rio e a União reúne ações que só este ano somam R$ 20 bilhões, incluindo redução de gastos, aumento de receitas e reestruturação das dívidas. Até 2020, o impacto será de cerca de R$ 50 bilhões, informa MARTHA BECK. Ontem, em reunião do governador Luiz Fernando Pezão com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ficou acertado que a Cedae será transferida para o governo federal como garantia do acordo. Em seguida, a União fará a concessão da empresa à iniciativa privada. O processo dependerá da aprovação da Alerj, mas pode ser concluído em 2017.    

O Estado de S.Paulo
"BC acelera corte de juros e reduz Selic para 13% ao ano"

Decisão do Copom de diminuir taxa em 0,75 ponto porcentual surpreende o mercado financeiro

O Banco Central decidiu acelerar o ritmo de corte da taxa de juros e surpreendeu a maior parte do mercado. O banco anunciou redução de 0,75 ponto porcentual na Selic, a taxa básica de juros, que passou de 13,75% para 13% ao ano. A aposta majoritária era de que o corte seria de 0,5 ponto. Foi a primeira vez desde abril de 2012 que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC diminuiu a taxa em 0,75. A aceleração do corte era um desejo do governo, que vê a redução como atalho para retomar o crescimento. O comitê informou que diretores avaliaram que o cenário atual da economia já permitia redução mais agressiva. Isso porque o processo de queda da inflação está mais disseminado entre produtos de consumo e a atividade econômica, pior que o esperado. Nas projeções oficiais, o BC já espera inflação em torno de 4% em 2017 e 3,4% em 2018. Além disso, o banco repetiu a avaliação de que reformas e ajustes na economia podem “ocorrer de forma mais célere que o antecipado”. Ontem mesmo, os grandes bancos começaram a reduzir a taxa de juro cobrada dos clientes.                    

Folha de S. Paulo
"Inflação cede e BC acelera ritmo de queda dos juros"

Em decisão surpreendente, instituição optou por cortar taxa Selic em 0,75 ponto, para 13%

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu reduzir em 0,75 ponto percentual a taxa básica de juros da economia, a Selic, para 13% ao ano. O ritmo mais acelerado de corte, que surpreendeu o mercado, deve continuar nos próximos meses.

Segundo comunicado, a atividade econômica abaixo do esperado e o processo disseminado de redução da inflação tomam apropriado o corte maior dos juros. A Selic serve de referência para taxas cobradas por bancos.

Antes do anúncio, o IBGE divulgou que a inflação oficial do país chegou ao fim de 2016 com alta de 6,29%. O índice ficou dentro da meta do governo, de 4,5% ao ano, com tolerância atê 6,5%.

Nos últimos meses do ano passado, o BC já havia promovido dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa.

Com a queda, economistas esperam juros de um dígito já no fim de 2017. Bancos anunciaram o repasse da redução na Selic para as taxas cobradas de consumidores e empresas.    

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Física


Opinião

Fazendo a América mais suja ainda

Clóvis Rossi
Donald Trump não precisa de relatórios confidenciais de quem quer que seja para ser criticado –e pelos mais diferentes motivos.

Basta reproduzir suas declarações. Às vezes nem é preciso comentá-las. Falam por si só –e falam mal, aliás.

Por isso, a mídia entra em terreno movediço ao dar curso a um suposto dossiê elaborado por um agente britânico de inteligência sobre a profundidade dos negócios de Trump com a Rússia e a oportunidade que eles teriam oferecido para que os serviços russos de inteligência levantassem informações supostamente comprometedoras.

Fica implícita a possibilidade de que os russos usem o dossiê contra Trump, já na Presidência, se ele se tornar inconveniente para Vladimir Putin.

O sítio BuzzFeed chegou ao extremo de publicar a íntegra do relatório, embora seu editor Ben Smith tuitasse: "Como apontamos em nossa história, há sérias razões para duvidar das alegações" [contidas no dossiê].

Meu Deus do céu, desde quando o jornalismo minimamente responsável vê razões para duvidar de algo e mesmo assim publica?

Acabaram-se os tempos em que o mandamento número 1 do jornalismo sério estava contido no "motto" do New York Times ("todas as notícias que estão em condições de serem publicadas").

Por torpe que seja Donald Trump, não é usando da mesma torpeza que se vai fazer oposição decente a ele e à sua maneira de enxergar a América e o mundo.

Mergulhar no pântano é, ao contrário, a melhor maneira de fazer a América mais suja ainda –e espalhar a lama pelo mundo, tal é a influência que têm os EUA e sua mídia.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 11 / 01 / 2017

O Globo
"Acordo prevê redução de jornada e salário de servidor"

Pezão se compromete a adotar medida se Supremo aprovar

Apesar da resistência do governador, venda da Cedae é outra decisão que o estado pode tomar como contrapartida à ajuda financeira da União para reequilibrar as contas fluminenses

O acordo com o governo federal para o reequilíbrio das finanças do Estado do Rio prevê a redução da jornada de trabalho e, consequentemente, dos salários dos servidores. A medida dependerá da derrubada, pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, de liminar que impede a aplicação da redução da jornada de trabalho do funcionalismo. Em contrapartida ao socorro da União, também está sendo discutida a venda da Cedae em até dois anos, informam CAROLINA BRÍGIDO e MARTHA BECK.    

O Estado de S.Paulo
"Rio, Minas e RS terão rombo de R$ 19,5 bi"

Apesar de ajuda federal, Estados em calamidade financeira fecharão ano com déficit bilionário

Mesmo que a União costure um acordo emergencial para socorrer Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, os três Estados em calamidade financeira, o alívio de R$ 12,9 bilhões com a suspensão das cobranças de dívidas não será suficiente para solucionar a crise. Ainda restaria um déficit de R$ 19,5 bilhões para este ano, segundo dados fornecidos pelos governos estaduais. É por isso que o governo federal continua trabalhando nos detalhes do acordo, sobretudo nas contrapartidas, que precisarão garantir a solução do problema no longo prazo. Privatizações são vistas como alternativa para reduzir a dívida dos Estados, mas há resistência política. Na lista podem entrar Cemig, Cedae e Banrisul. Outra medida que pode ajudar é a autorização para captação de novos empréstimos, desde que seja para renegociar dívidas ou promover ações de ajuste. Só o Rio de Janeiro estima rombo de R$ 19,3 bilhões neste ano, enquanto o alívio previsto é de R$ 6,45 bilhões.                    

Folha de S. Paulo
"Governo deve cortar R$ 3 bi em incentivos fiscais até 2018"

Por receitas, Temer avalia suspensão de programas tidos como pouco eficientes

O governo federal pode retirar até 2018 incentivos fiscais que somam R$ 3,3 bilhões anuais. Entre os setores afetados estão montadoras de veículos, construção civil, fertilizantes e audiovisual. O Ministério da Fazenda trabalha com a orientação geral de não renovar as desonerações que forem vencendo, o que ajudaria a elevar a arrecadação federal. Ainda não há, entretanto, decisão tomada caso a caso. Ao todo, são 15 tipos de isenções que vencem até 2018, incluindo também outros programas do governo. Neste ano, o principal programa de desoneração que termina é o Inovar-Auto, com renúncia fiscal anual estimada em R$ 1,2 bilhão. Embora não haja confirmação, a Folha apurou que o setor automotivo já conta com o fim dos benefícios e negocia nova política. Em 2016, deixaram de ser prorrogados incentivos que somavam R$ 3 bilhões. Na avaliação do governo, muitas dessas medidas não se mostraram eficientes e, portanto, são dispensáveis em um momento de preocupação fiscal.    

terça-feira, janeiro 10, 2017

Física


Opinião

Portugal de hoje é o país que Mário Soares defendeu e ajudou a construir

João Pereira Coutinho
O século 20 português ofereceu dois nomes políticos ao mundo: António de Oliveira Salazar (1889- 1970) e Mário Soares (1924-2017). Irônico e injusto juntar os dois na mesma frase? Talvez.

Salazar foi ditador durante quase quatro décadas –e este vergonhoso fato, que abisma qualquer observador estrangeiro, ainda não teve uma explicação definitiva.

Conheço algumas: havia a memória da violência e da instabilidade da 1ª República (1910-1926); o medo da Guerra Civil Espanhola (1936-1939); a neutralidade preciosa da 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Havia a polícia política, a censura, o conluio do Estado Novo com a oligarquia econômica e a Igreja Católica.

Tudo isto me parece parcelar e, em alguns casos, duvidoso. Uma explicação global para a sobrevivência da ditadura ainda não apareceu com rigor e clareza.

Mário Soares, que os portugueses enterram nesta terça (10/1), é o segundo nome. E quando se fala do legado político de Soares, é impossível fugir a três momentos fundamentais: a oposição à ditadura de Salazar; a oposição a uma eventual ditadura comunista depois da Revolução dos Cravos de 1974; e a abertura de Portugal à Europa.

A luta contra a ditadura começou cedo: militante comunista na juventude, antes de rumar para os ares higiênicos do socialismo democrático (década de 1950) e para a fundação do Partido Socialista (em 1973), foi preso, deportado e exilado. Mas a partir de 1960, é ele o rosto fundamental da oposição à ditadura –interna e internacionalmente.

Mas o momento decisivo chegaria com a queda do regime em 74. Henry Kissinger, membro da administração Nixon, via a causa democrática como perdida. Soares seria o Kerensky português (referência ao líder menchevique que Lênin esmagou).

Kissinger errou por dois motivos. Primeiro, porque o Portugal de 1974 não era a Rússia de 1917: a ditadura tinha imunizado os portugueses para ditaduras de sentido contrário.

Isso foi manifesto nas primeiras eleições livres de 1975: o PCP obtinha uns risíveis 12,4% dos votos, atrás do PS (com 37,8%) e do PPD (a "reação", na linguagem dos camaradas, com 26,3%). Os portugueses, esfomeados de mundo, queriam esse mundo –o mundo "burguês" que o comunista Álvaro Cunhal desprezava em cada discurso.

Mas Kissinger falhou porque Soares também não era Kerensky: o líder socialista assumia-se como a única alternativa "socialista" e democrática entre o fanatismo do PCP, que ele denunciava abertamente com a coragem política que nunca lhe faltou, e uma direita ainda em construção.

Naturalmente que o papel de Soares no pós-25 de Abril ainda hoje desperta polêmica. Sobretudo com um tema que nunca o abandonou: a descolonização.

Entendo que, para os 500 mil portugueses que chegavam à metrópole deixando uma vida em África para trás (os "retornados"), Soares, então ministro das Relações Exteriores, seja o responsável pelo "débâcle". Mas teria sido possível fazer outra descolonização?

Duvido. Se Salazar avançara para as guerras de África "rapidamente e em força" em 1961, os militares pretendiam igual vigor na viagem para casa em 1974. Não se resolve em meses o que a ditadura não conseguiu em anos.

Finalmente, Soares sempre soube que a democracia e o desenvolvimento implicavam a âncora da Europa. Verdade que Portugal, depois do 25 de Abril, não era a caricatura isolada que se vende por aí. Fiquemos pelo óbvio: o país era membro fundador da Otan (1949); idem da EFTA (1960); integrava a OCDE (desde 1961).

A importância de Soares esteve na capacidade de reorientar o seu Partido Socialista para a opção europeia (que não era consensual) e em efetivar a adesão de Portugal à CEE em 1985.

Repito: oposição à ditadura, resistência ao PCP e abertura de Portugal à Europa. Soares acertou nos três, apesar de existir quem tenha dúvidas sobre o sucesso das duas últimas. Que diria Soares do atual governo PS, sustentado pelo PCP? Que diria de uma Europa paralisada e em crise?

Provavelmente, nada. Para começar, o PCP de hoje não é o mesmo de 1974: a retórica pode ser bolchevique, mas os camaradas têm preocupações mais burguesas –aguentar o seu mísero eleitorado e não deixar morrer os sindicatos.

De resto, a Europa já viu melhores dias. Mas não é concebível, pelo menos para já, que o clube expulse os seus membros, condenando-os a uma vida precária.

O Portugal de hoje ainda é o Portugal que Soares defendeu e ajudou a construir. É o seu epitáfio. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 10 / 01 / 2017

O Globo
"Governo tentará aval do STF para acordo com Rio"

Plano negociado por Meirelles e Pezão prevê ajuda financeira imediata

Por causa do quadro de urgência, ideia é que socorro da União ocorra antes de o Congresso votar proposta da Fazenda de mudança no pagamento das dívidas dos estados em crise

O governador Luiz Fernando Pezão e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, apresentarão esta semana ao presidente Temer novo plano para a recuperação das finanças do Estado do Rio. A proposta, inédita, prevê pedir o aval da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, o que permitirá que o socorro seja posto em prática imediatamente, antes de o Congresso analisar e aprovar o projeto de ajuda financeira aos estados em crise.   

O Estado de S.Paulo
"Resolver crise dos presídios custa R$ 10 bi, afirma CNJ"

Cálculo está em documento enviado à ministra Cármen Lúcia em outubro

Para acabar com o déficit de 250 mil vagas no sistema penitenciário nacional seriam necessários pelo menos R$ 10 bilhões. O número foi apresentado pelo Conselho Nacional de Justiça em documento enviado em outubro à presidente do órgão e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, antes de sua primeira blitz em presídios. No relatório, o CNJ estimou que cada nova vaga no sistema prisional custaria de R$ 40 mil a R$ 50 mil aos cofres públicos. O conselho alertou Cármen de que 132 unidades estavam sendo construídas com recursos federais na época, mas “o tempo médio para construção não tem sido menor do que seis anos”. Entre os principais problemas apontados estavam superlotação, número insuficiente de agentes, ausência de políticas de reintegração social (apenas 13% dos presos estudam e só 20% trabalham) e mortalidade dentro dos presídios, com surtos de tuberculose, sarna, HIV, sífilis e hepatite entre os detentos.                    

Folha de S. Paulo
"União negocia com o Supremo solução para crise do Rio"

Proposta para suspender pagamento de dívidas do Estado por mais de 36 meses será submetida a Temer e ao STF 

O governo busca nova solução para a crise financeira do Rio, desta vez com aval do Supremo Tribunal Federal. Em reunião, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) fecharam proposta que deve ser submetida à avaliação de Michel Temer e da presidente do STF, Cármen Lúcia. A ministra impediu o governo de bloquear recursos que garantiriam o pagamento de dívidas do Rio, forçando a equipe econômica a buscar acordo com o Estado. A proposta prevê a suspensão do pagamento das dívidas do Estado com a União por mais de 36 meses. Exige, em contrapartida, medidas para conter gastos. Entre as ações exigidas estão a adoção de um teto para congelar as despesas do Estado e a suspensão, por dois anos, de reajustes salariais acimada inflação e de novas contratações. A proposta precisa da aprovação da Assembleia Legislativa do Rio, que barrou medidas semelhantes no ano passado.    

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Física


Opinião

Estou convencido de que fazer planos precisos para o futuro nos adoece

Luiz Felipe Pondé
Eu sei que essa época do ano é o momento dos grandes planos de mudança na vida: emagrecer, parar de fumar, parar de comer carne vermelha em nome do amor aos animais ou aos vegetais, nunca mais amar ou se apaixonar pela primeira vez, ou quem sabe experimentar sexo com seu golden retriever numa noite de vodca e "doces", comprar um carro ou vender todos os carros em nome do modo Uber de viver, falar menos no celular e ser, ao mesmo tempo, mais conectado com o mundo, se mudar pra uma praia na Bahia (mas que tenha wi-fi!), enfim, um monte de projetos que falam mais de nossos limites do que de nossos horizontes.

Compreendo que ritos como esses nos fazem algo de bem.

Sentimos que escapamos um pouco do esmagamento cotidiano de uma vida traçada pelas obrigações que esvaziam nossas esperanças de liberdade.

Mas não quero falar do óbvio fracasso desses projetos. Aliás, projetos pautados por paixões tristes como ódio e inveja costumam ser mais duradouros do que aqueles pautados por paixões alegres como amor e generosidade. Somos mais facilmente fiéis a quem odiamos do que a quem amamos.

Quero pensar com você nesse início de ano numa nova forma de ciência, aquela ainda sem nome, mas que tem por objetivo fazer de nós humanos máquinas de projetos de vida. Estou cada vez mais convencido de que fazer planos muito precisos para o futuro nos adoece.

Talvez em alguns anos a medicina descubra que pessoas que fazem muitos planos para o futuro morrem de câncer no cérebro.

Sei, sei. Minha ideia parece um absurdo porque cada vez mais se prega que você deve inclusive ter muito claro pra você quanto você quer ganhar nos próximos 20 anos.

Ou onde você pretende passar as férias de fim de ano de 2027. Ou calcular o quanto de bem-estar você sentirá se comer dez ou mil calorias por semana.

A assertividade para com um futuro controlado aparece no sorriso idiota dos comerciais de bancos, assim como na fé abestalhada dos evangélicos que creem de fato que Jesus seja um excelente consultor de sucesso profissional.

Também sei que "inteligentinhos" de todos os tipos acham que isso tudo é culpa do capitalismo.

Meu Deus, como é bom ter alguém pra pôr a culpa de nossas desgraças, não? Trabalhamos muito porque Trump ganhou a eleição e ele é malvado e cruel!

Não, lamento dizer que não. Você estabelece metas -quantos orgasmos até os 40 anos, quantas idas ao Vietnã, quantas aulas de meditação, quantos vira-latas trará pra casa por uma semana- porque você quer realizar coisas. É quase normal, se alguns dos exemplos não soassem um tanto excessivos.

Mas o projeto do futuro pessoal como ciência vai além disso. Significa tornar seu futuro um objeto do Excel. Seu eu e o Excel como íntimos.

Racionalizar quantos minutos você pretende, infelizmente, gastar sendo infeliz nos próximos 20 anos. E montar uma estratégia para reduzir esses danos. Uma certa tensão da vontade em tornar tudo a sua volta passível de otimização a serviço do sucesso e da autorrealização.

Os idiotas do sucesso não entendem que, quanto mais sucesso temos, menos humanos nos tornamos. O fato é que eliminar o humano é nosso projeto.

Talvez seja uma boa ideia mesmo: somos por demais afeitos à melancolia e à incompetência.

É por isso que teremos que vender desesperadamente esperança no "amor à humanidade", uma das maiores picaretagens já inventadas pela "filosofia".

À medida em que se apaga em nós qualquer reverência pelo fracasso, perdemos qualquer capacidade de entender que projetar o futuro como forma de ciência comportamental e cognitiva é um modo de estupidez a serviço do empobrecimento do mundo. A vida se torna uma planilha cognitiva.

Encanta-me como o enriquecimento acabou por empobrecer a todos.

Isso, os marxistas nunca conseguiram entender, porque no fundo sempre foram escravos da concepção moderna de vida.

Os marxistas também tem suas planilhas de sucesso.

Faço votos que nesse ano você faça menos projetos para o futuro. Sei que a frase é absurda. Aspiramos todos a ser idiotas do sucesso.

Original aqui

 
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