A conferir...
Minha língua portuguesaSandra Paulsen
Ricardo Noblat contou, uma vez, numa entrevista à CBN, como foi que eu apareci por aqui. Lia o blog há muito tempo e, um dia, escrevi um comentário sobre uma postagem. Daí veio o convite para colaborar. Mas Ricardo é curioso e queria saber de onde vinha o meu «português correto».
O engraçado é que falar português correto parece ser uma mania na minha família. Meu pai e meu irmão mais velho, formados em Direito e com um português muito elegante, têm muito a ver com isso. Mas talvez tudo tenha começado com um pai que não teve acesso à educação formal na infância. Papai teve que aprender sozinho. Autodidata e muito exigente consigo mesmo, aplicou os mesmos níveis de exigência na educação dos filhos. Lá em casa, todo mundo escreve «português correto».
Mas não é só isso não. Eu também contei com professores de português de primeira, na infância e adolescência. Alguns deles eu sei por onde andam, como, por exemplo, o Forni, ainda hoje meu correspondente via e-mail e orkut. Mas a Ciléia (com quem aprendi as regras para o uso do hífen, por exemplo) ou a Professora Marília (que atiçou ainda mais meu gosto pela leitura), essas eu perdi de vista.
Meu avô Cravo, que escrevia para o jornal local em Itabuna, teve também um papel fundamental no meu gosto pela literatura e pela escrita. Tinha estantes e mais estantes de livros cobrindo as paredes do apartamento e da casa do Sítio. E era no Nosso Cantinho que eu passava horas e horas, deitada na rede, lendo Érico Veríssimo e tantos outros gênios da nossa literatura.
Já na universidade, era a vez de a professora de Língua Portuguesa I se surpreender com a ausência de erros nas minhas redações. Uma vez, não encontrando nada a dizer, corrigiu-me a falta de um trema em conseqüentemente, no que ela estava totalmente certa, é claro. Hoje, com o Novo Acordo Ortográfico, estaria livre da correção.
Agora, com quase vinte anos de vida no estrangeiro, e usando meu idioma de maneira limitada, é o Blog do Noblat que me obriga a manter um certo nível e não deixar a peteca cair de vez. E é claro que meu português, como meu coração, sofre com a distância.
Tenho, porém, que confessar que papai lê, quase que infalivelmente, todos os meus textos para o Blog. E aí, muitas vezes, temos a possibilidade de reviver nossas antigas discussões sobre gramática.
É que o papai quase sempre está certo nos seus questionamentos e sugestões para aperfeiçoar um texto. Só que, às vezes, ele também falha. Como quando corrigiu, na minha tese de mestrado, a separação das sílabas da palavra sublinhar. A Ciléia ensinou que era sub-li-nhar. Mas o papai brigava comigo que era su-bli-nhar.
Bom, pelo menos naquela vez, era eu quem estava certa.
Leitora do blog, Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental.
Nota do Editor - Ao ler o texto acima tive vontade imediata de publicá-lo. Tenho grande apreço pela língua que falo. Minha pátria é a minha língua. Ao ver a "última flor do lácio" tão maltratada, nestes tempos em que campeia o messianismo, nada como um texto coerente e bem escrito para arejar meu coração endurecido. E farto de hipocrisia. Para ler o original, postado no excelente Blog do Noblat, clique aqui. (Sidney Borges)
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