terça-feira, dezembro 27, 2016

Opinião

No Natal, a obrigação de ser bondoso e alegre faz de mim um sociopata

João Pereira Coutinho
Quando morreu Leonard Cohen, li um artigo com um título que não esqueço: "A polidez é a melhor forma de resistência". Como dizem os brasileiros, concordo em gênero, número e grau.

Pessoas que me conhecem sabem que sou um homem educado. Outras, que não me conhecem mas leem o que escrevo, imaginam um ogro. Não sou. Naturalmente polido, até em situações extremas tento manter a graciosidade. No meio da barbárie moderna, a polidez é mesmo uma forma de resistência.

Só existe um momento do ano em que o ogro emerge das profundezas. No Natal. A época, dizem, serve para despertar o amor fraternal entre os homens. No meu caso, só desperta hostilidade pelo meu semelhante. Terei cura?

Christopher Hitchens, no livro "And Yet...", tem um texto que ajuda. Escreve Hitchens que, no Natal, ele sente que está a viver num Estado de partido único –uma espécie de Coreia do Norte com Papai Noel.

Mas depois, com seu desagradável ateísmo, Hitchens erra quando afirma que a culpa é do cristianismo. Ou, como ele escreve, a culpa é do nascimento do Grande Líder, que tem de ser adorado pelas massas exaustas.

Discordo, Christopher. O melhor do Natal é mesmo o nascimento do Grande Líder. Não falo como crente. Falo como esteta. Quem escutou os coros de Natal em Oxford ou as modestas "missas do galo" nas aldeias de Portugal não pode ficar insensível à simplicidade bela da fé.

O problema é que o Natal não lida com o Grande Líder. Para ficarmos na religião, o problema está mesmo no paganismo colorido da quadra –e, claro, no fascismo da felicidade que tanto incomodava Hitchens.

São as mensagens que recebemos de "amigos" que desapareceram o resto do ano. É a simpatia dos colegas que desejaram ardentemente o nosso fracasso nos 11 meses anteriores. São familiares que mal conhecemos –e que surgem com uma intimidade só tolerável em casos de demência.

É, no fundo, a obrigação de ser bondoso e alegre e sentimental. São as árvores plásticas, as luzinhas gaguejantes, as renas e o trenó. É a neve artificial. É a alegria artificial.

Eu tento me controlar. Leio Charles Dickens de espírito aberto. Sem sucesso. Devo ser a única pessoa do mundo que, depois de ler "A Christmas Carol", lamenta profundamente a mudança de Mr. Scrooge.

Repito: terei cura? Um psicanalista perguntaria pela minha infância. A minha mãe confirma que sempre tive uma relação problemática com o Papai Noel. Aos seis anos, por exemplo, tentei caçá-lo. Explico. O plano era esperar que o velho descesse pela chaminé e, com uma rede de pesca, capturá-lo.

Os meus pais, alarmados com os primeiros sinais de sociopatia, tentaram ser pedagógicos. Sequestrar o Papai Noel significava ficar sem presentes para o resto da vida.

Mas eu tinha outras ideias e, aqui entre nós, o demônio capitalista já tinha infectado o meu ser. Depois de capturado, o Papai Noel seria exibido em barracas de feira –como se fosse o King Kong. Com o dinheiro dos ingressos, eu próprio compraria os presentes.

Assim foi: montei a minha tenda junto à chaminé e esperei toda a noite. "Toda a noite", vírgula: vencido pelo cansaço, adormeci entretanto. Quando acordei, o infame já tinha visitado o lar –e, supremo insulto, havia uma Polaroid da minha pessoa, dormindo no chão da sala, com uma rede de pesca na mão. E a legenda: "Ho ho ho".

Esse psicanalista imaginário diria que o mistério está explicado. Aos seis anos, quando ainda acreditava no barbudo, fui humilhado por ele. Quando chega dezembro, o barbudo anda à solta –e a alegria totalitária do Natal só serve para cutucar uma ferida infantil que nunca cicatrizou realmente. Aquele "ho ho ho" ecoa em todos os becos e esquinas.

Apesar de óbvia, é uma boa teoria. O que me leva a pensar que o caminho da catarse talvez passe por um bom relatório médico que me permita pedir uma indenização. Por "stress pós-natalino".

Depois, dezembro chegava e eu, com o relatório na mão, fazia uma pausa no trabalho, evitava as compras no shopping, resgatava o corpo e a mente dos "jantares de Natal" –e recolhia-me no quarto, com bibliografia terapêutica e um bom xarope para os nervos (Laphroaig serve).

Haverá algum psicanalista leitor que esteja disposto a assinar esse relatório? Um pedido: escrever "ho ho ho" não vale. 

Original aqui

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