sexta-feira, setembro 04, 2015

Sobre a "Coluna do Celsinho"

A profundidade da superfície ou a clareza da escuridão, como queiram!

Amigo Celsinho, permita-me chamá-lo assim, no diminutivo, mas é uma questão de memória afetiva. Era assim quando nos conhecemos, você muito jovem, lidando com políticos de maneira muito mais adulta do que eles e foi dessa forma que você ficou no meu registro de memória, colocado no pedestal das minhas melhores lembranças.

Nosso encontro casual no espaço de espera do Banco do Brasil, relatado por você no VIBORA do nosso Sidney, foi tão rápido quanto um clique no interruptor de um holofote na escuridão. Iluminou subitamente tudo pelo qual juntos passamos no reino dos sonhos para o futuro desta cidade, e sua conversão ao pesadelo que é hoje.

A mais bizarra das constatações que me vieram à memória ao sair dali foi da mudança da qualidade de vida que os espaços públicos nos proporcionavam. Não a mim, a você ou a alguns poucos, mas a todos que circulavam pela cidade. Com naturalidade cumprimentavam-se espontaneamente pessoas que sequer sabia-se o nome.

Os bancos na praça eram pontos de encontro de amizade, hoje os bancos nas praças são pontos de encontro do terror, de juros, de filas de espera, de senhas. Criaram-se ali filas especiais para idosos, gestantes, deficientes físicos, para impor pela lei gestos de amizade, compreensão e solidariedade, como quem cria regras para os afagos anônimos entre as pessoas. Estranho valor de progresso.

Ocorreu-me também que os espaços públicos de Ubatuba foram devorados, roubados do cidadão pela omissão interesseira daqueles que deveriam defender a cidade. E pensei também que o cargo de prefeito, salvo uma ou outra intervenção mais bem intencionada mas de curto alcance, não foi efetivamente ocupado nesses últimos trinta anos, embora esse cargo tivesse remunerado alguns personagens a quem a população se deixou enganar para exercer tal tarefa. 

Nosso rápido encontro e brevíssimo diálogo motivou também outras considerações, por exemplo sobre a rapidez e a relatividade do tempo. Em segundos concluímos que a rapidez da passagem do tempo depende diretamente da profundidade e interesse de nosso próprio pensamento em determinado momento. Isso ficou claro quando comentei que eu havia notado que as viagens que há anos faço para São Paulo, com o pé no fundo do acelerador, eram muito mais demoradas do que as que faço atualmente acelerando leve. Nas duas circunstâncias, quase as mesmas três horas. Sem tensões e atenções aos riscos porque vou mais devagar, sinto que o destino chega logo. O que mudou? Nada, a distância é a mesma, apenas a sensação do tempo encurtou porque foi usado para as viagens do pensamento.

Nossa cabeça é uma usina, para o bem ou para o mal, a escolha também está ali dentro.

Obrigado por sua crônica e sua citação ao meu nome. Me dei conta naquele instante, que a cidade que sonhamos já não existe e que meu pensamento busca novas paragens. Acho que o mar, tão próximo, é uma boa opção.

Um forte abraço do seu amigo Renato Nunes

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Um comentário:

amado Lucas disse...

Escreve lindamente, sr.Renato Nunes!Como ninguem sabe expressar suas ideias , sonhos, certezas,esperanças. Sinto a mesma coisa com relação à nossa cidade, pobre cidade em mãos tão incompetentes! Continue sua luta,sr. Renato Nunes, nāo vá para longe nas águas tao proximas. A sua presença é importante é necessária aqui e agora! Saudações!

 
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