sábado, novembro 06, 2010

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Opinião

Últimos dos bárbaros

Roberto Romano - O Estado de S.Paulo
O trote mancha a ética universitária. Nele surge o fascismo que jaz nas camadas urbanas. País que viveu o século anterior sob tiranias, o Brasil ainda não se adequou ao convívio sob a lei. Getúlio Vargas, com polícia e censura unidas à propaganda do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), e o regime de 1964, com suas câmaras de tortura aliadas aos censores da imprensa, muito fizeram para corroer o caráter dos governados. Como o poder oposto à democracia tem origem direta na força não mediada por ordens jurídicas liberais, parte da sociedade nele enxerga a única forma correta de existência.

Acostumados a obedecer a dirigentes truculentos e arbitrários, os supostos cidadãos ignoram direitos dos mais fracos e os transgridem sempre que possível. Linchamentos, trotes, intimidações hoje marcadas como bullying na internet reiteram os mais baixos padrões éticos. Na sarjeta, tais formas de agir são intoleráveis. Nos câmpus, elas arruínam a essência institucional, põem abaixo todo o labor heroico para gerar saberes e técnicas que favoreçam o povo, o pagador de impostos.

Quando um brasileiro compra alguma coisa, nem que seja uma simples caixa de fósforos, o Estado cobra-lhe taxas, que seguem para os estudos de jovens cientistas ou eruditos em literatura, humanidades, artes. Se o ensino é gratuito, imperativo deve ser o respeito a quem assegura o acesso ao conhecimento. Estudante que acha engraçado ferir o corpo e a alma de cidadãos externos à escola, ou de seus colegas - digamos as coisas sem mascar palavras -, é ladrão.

Em vez de aproveitar o dinheiro público nas formas dignas e belas do currículo acadêmico, ele suga verbas como parasita. Temos o costume de invectivar a corrupção dos Executivos e Legislativos. No entanto, a fraude ética, ao se manifestar no espaço universitário, atinge uma das matrizes de transmissão e invenção de valores científicos e morais. Universidade que tolera trotes ruma para o rebaixamento axiológico. Quem fere colegas e não é punido será legislador corrupto, profissional sem escrúpulos, médico contrário ao juramento de Hipócrates: "Nunca causar dano ou mal a alguém."

O trote universitário surgiu nas primeiras escolas superiores europeias. Ainda vigorava naquele continente o sistema feudal. Os camponeses, embrutecidos pelo domínio dos nobres, para fugir do inferno usavam as peregrinações (como a São Tiago de Compostela). Massas consideráveis, escapando do tacão, seguiram para as periferias urbanas. Naquelas multidões, os estudantes que vinham do campo eram caracterizados como "bichos" pelos colegas citadinos (existiam embates para definir se camponeses e mulheres tinham alma, donde ser "natural" julgar que lavradores embrutecidos eram animais, não humanos). Daí os ritos de "passagem" impostos aos pobres no vestíbulo da universidade. Todos os atos cruéis se justificavam para forçar os "bichos" rumo à "humanidade".

Semelhantes proezas mostram o quanto existiu (existe...), nos câmpus, em matéria de preconceito criminoso em face dos mais fracos, animais ou humanos. Os estudantes que merecem o nome encontrarão notícias sobre a prática hedionda em dois livros distintos. O primeiro, do grande historiador Jacques Le Goff (18 Essais sur le Moyen-Âge), e o segundo, da filósofa E. de Fontenay (Le Silence des Bêtes).

O elo entre os dois livros é fornecido por Claude Lévi-Strauss: "A única esperança, para cada um de nós, de não ser tratado como animal pelos semelhantes, é que todos os semelhantes e cada um deles se experimente como seres que sofrem, cultivando em seu foro íntimo a aptidão interna da piedade que, no estado de natureza, assume o lugar das "leis, costumes e virtude" e sem cujo exercício começamos a compreender que, no estado da sociedade, não pode existir nem lei, nem costume, nem virtude." A passagem encontra-se no magnífico volume da Antropologia Estrutural, Dois.

Uma universidade que não ensina o modo piedoso, a compaixão no trato dos semelhantes, é teratologia ética. Não reprimir trotes significa acatar a via da cumplicidade com o fascismo. Não foi por carência de informações científicas e técnicas que os universitários alemães, italianos, franceses e outros colaboraram nos piores crimes consubstanciados no Holocausto. A causa reside, além da propaganda sobre a "superioridade" etnocêntrica, na absoluta pravidade em relação aos mais fracos.

O caso da Unesp, de agora, não é único na história negra de nossa triste vida acadêmica. Para a leniência muito colaboram doutrinas "libertárias" que buscam apagar as noções de lei e de Estado de Direito. Entre tais doutrinas, a de Michel Foucault. Denunciar o autoritarismo das instituições sem maiores cuidados é esquecer que elas foram produzidas para atenuar a lei do mais forte.

Termino com algo real na própria biografia de Foucault. O autor da História da Loucura, ainda na ditadura, deu palestras na USP sobre o seu tema predileto. O Centro Acadêmico de Filosofia abrigava um ex-aluno acometido de perturbações mentais e que incomodou o filósofo. Este, rápido, pediu ajuda para retirar a pessoa da sala. Repressão...

A Unesp merece todo o respeito, tanto pela pesquisa científica quanto pela integridade dos seus docentes, alunos, funcionários. Mas se estudantes, nos câmpus, agem como pura massa de perseguição, é tempo de exigir a sua retirada.

Spinoza não hesitou em erguer um cartaz contra impiedosos inimigos da lei: "Ultimi barbarorum." Na violência cometida contra "as gordas da Unesp", não seguir a ética spinozana é assumir coautoria.

FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP), É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ''O CALDEIRÃO DE MEDEIA'' (PERSPECTIVA)

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Manchetes do dia

Sábado, 06 / 11 / 2010

Folha de São Paulo
"Receita cresceu 2 CPMFs, mas gasto da saúde foi igual"

Lula e Dilma querem nova fonte de receitas para o setor; gestão do presidente usou ganho em Bolsa Família e aposentadorias

A receita do governo federal cresceu, na gestão Lula, o equivalente a duas vezes a arrecadação da CPMF - o imposto do cheque, derrubado em 2007 pelo Congresso. Praticamente nada desse ganho, porém, significou aumento do gasto em saúde, informa Gustavo Patu. O crescimento da receita foi usado para ampliar programas como o Bolsa Família e pagar aposentadorias. O presidente Lula, a eleita Dilma Rousseff e parte dos novos governadores querem que o Congresso defina no ano que vem nova fonte de receitas para a saúde. A opção pode ser a recriação do tributo, para a qual o governo não vê clima em 2010. Entidades empresariais como Fiesp e CNI já condenam a ideia.

O Estado de São Paulo
"China fala em 'muralha de fogo' para barrar dólar"

Injeção de US$ 600 bilhões no mercado pelos EUA é criticada por vários países e será discutida no G-20

O governo da China prometeu erguer uma "muralha de fogo" para evitar a entrada de capital especulativo no país, em resposta à decisão dos EUA de injetar US$ 600 bilhões na economia, afirmou Xia Bin, do Comitê de Política Monetária do Banco Central chinês. Além da China, outros países criticaram o plano americana e planejam levar o tema para a reunião do G-20, em Seul. "O que foi feito nos EUA mina o espírito de cooperação multilateral que os líderes do G-20 lutaram tão duramente para manter durante a crise atual", afirmou o ministro das Finanças da África do Sul, Pravin Gordhan. Para o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, a decisão do FED vai criar "problemas adicionais" para o mundo.

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sexta-feira, novembro 05, 2010

Brasil

O voto abestado

Luiza Nagib Eluf
Fui candidata a deputada federal nas últimas eleições, pelo Partido Verde. Não consegui o sufrágio necessário para ser eleita e devo confessar que nem mesmo esperava alcançar um patamar tão alto (60 mil votos), tendo em vista o pouco tempo que tive para fazer campanha. De qualquer modo, a experiência foi extraordinária. Ganha-se muito em conhecimento político e em contatos sociais só pelo fato de se entrar na corrida eleitoral. Ao mesmo tempo, compreende-se melhor os anseios das massas no momento em que se estabelece o diálogo com camadas sociais acostumadas a uma linguagem diferente, com interesses diversos e perspectivas, por vezes, limitadas. Nesse balaio de eleitores, não há melhores nem piores, mas podemos dividi-los em conscientes, camuflados, medrosos, revoltados, amistosos, interessados e interesseiros. Não apenas alguns políticos podem ser classificados de “fisiológicos”, parte dos eleitores também o são. Não apenas alguns deputados são suspeitos de atuar sem ética, os seus apoiadores por vezes também agem da mesma forma. Isso sem falar dos “abestados”...

Esse retrato do Brasil, porém, muitas vezes é distorcido. Apenas os políticos são maus, vilões, corruptos, bandidos, palhaços. Já os eleitores, esses não têm culpa de nada. Sentem-se totalmente absolvidos, apesar da alienação com que a maioria age no momento de exercer sua cidadania, deixando de votar de forma consciente e negligenciando no que se refere à sua necessária participação social. Alguns votam e se esquecem, imediatamente, em quem votaram. Uma pesquisa realizada alguns dias após o primeiro turno, mostrou que mais de 80% das pessoas já haviam se esquecido em quem votaram para senador. Por essa razão, vituperar contra os políticos é esquecer que foram os próprios eleitores que os puseram nos cargos.

Outro fenômeno que se mostra decisivo nas eleições é o fascínio pelos famosos. Qualquer sujeito que se torne amplamente conhecido, seja pelo motivo que for, receberá milhares de votos, por menos que esteja qualificado a ocupar o cargo eletivo que pleiteou.

Nossa democracia precisa de aperfeiçoamento. O debate político tem que ser intensificado, não pode ficar restrito às vésperas dos grandes pleitos e nem limitado às classes sociais mais favorecidas. Por sua vez, o voto distrital ou distrital misto é a solução para aproximar eleitores de seus representantes. Importante perceber, também, que o Estado de São Paulo está sub-representado no Congresso. O número de votos que um candidato paulista precisa para se eleger deputado federal é descomunal e injusto. Há candidatos que com cem mil votos não foram eleitos, enquanto um candidato de outro estado da Federação pode se eleger para o mesmo cargo com menos da metade desse número de votos.

É preciso lembrar, ainda, que as mulheres são apenas 8% da Câmara Federal e 13% do Senado. Nas últimas eleições, a bancada feminina encolheu. Por essa razão, ajudar as mulheres a chegar aos cargos de representação política é muito mais importante do que pode parecer. Elas são mais da metade dos eleitores.

Evidentemente, educação é um ponto fundamental, mas para que o sistema de ensino deficitário que temos hoje seja verdadeiramente alterado é preciso que o povo consiga votar com mais conhecimento de causa. A ignorância só interessa aos maus políticos e aos mercadores de votos.

Luiza Nagib Eluf é Procuradora de justiça do Ministério Público de São Paulo. É autora de vários livros, dentre os quais “A paixão no banco dos réus”.

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Coluna do Celsinho

Sonhar e voar

Celso de Almeida Jr.
Amanhã, sábado, 6 de novembro, em São José dos Campos, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial - DCTA promoverá os Portões Abertos da Força Aérea Brasileira. As atividades serão das 10 às 17 horas e a entrada é franca.

Haverá exposição estática de aeronaves, voo de parapente, lançamento de paraquedistas, aeromodelismo e acrobacias aéreas com a Esquadrilha da Fumaça.

Um programa muito bacana para toda a família.

Estaremos por lá, acompanhando um grupo de alunos da primeira turma do Núcleo Infantojuvenil de Aviação – NINJA que, com esta atividade, concluirá o ano letivo de 2010.

O professor Lemar Gonçalves, coordenador geral do NINJA, entregará os certificados de participação neste projeto que visa divulgar a cultura aeronáutica entre crianças e jovens, incentivando vocações profissionais para o setor aéreo.

O projeto piloto, que foi desenvolvido neste ano no Colégio Dominique, garantiu a base para a implantação do NINJA em outras escolas, a partir de 2011.

Contribuindo para a divulgação dos detalhes desta atividade, o blog do Ninja (www.ninja-brasil.blogspot.com) revelou-se uma extraordinária ferramenta e já aponta mais de 17 mil visualizações em poucos meses.

Em função disso, já foi iniciada a modalidade do NINJA a distância, sendo o blog um poderoso instrumento de apoio.

Visite este endereço eletrônico e descubra mais informações.

Se possível, divulgue para as crianças e os jovens que você conhece.

Quem sabe, com esta ação, estaremos revelando um caminho profissional para a garotada?

Afinal, prezado leitor, nós bem sabemos:

Voar é um sonho que começa em criança...

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Opinião

Dólares perigosos

O Estado de S.Paulo - Editorial
Pode custar caro ao Brasil a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de lançar mais US$ 600 bilhões em circulação até o meio do próximo ano. O plano é emitir cerca de US$ 75 bilhões por mês em mais um esforço para reanimar a economia dos Estados Unidos, ainda com baixo ritmo de atividade e desemprego acima de 9% da força de trabalho. Em troca desse dinheiro o Fed comprará títulos federais em poder do público. Dólares continuarão inundando os mercados e forçando a valorização do real e de outras moedas. Produtores brasileiros terão maior dificuldade não só para exportar, mas também para competir no mercado interno, porque a sua moeda já é uma das mais valorizadas do mundo. Chineses continuarão levando vantagem sobre a maior parte dos concorrentes, porque darão um jeito de manter o yuan desvalorizado, talvez um pouco menos do que antes para mostrar alguma boa vontade.

O objetivo do Fed, segundo a explicação oficial, é estimular as operações de crédito para animar o consumo e movimentar a produção. Todos torcem pela recuperação da economia americana, a mais importante do mundo, mas nem todos aplaudem a política monetária dos Estados Unidos, por causa de seus efeitos no mercado internacional de câmbio. Na prática, os americanos exportam sua crise para o resto do mundo, em vez de contribuir para a reativação global.

O Fed já havia indicado a disposição de emitir mais dinheiro. Seria a segunda grande operação desse tipo. A única surpresa foi o montante, porque os analistas apostavam em US$ 500 bilhões. Com os juros básicos na faixa de zero a 0,25% ao ano desde dezembro de 2008, as possibilidades de ação do banco central americano estavam muito limitadas. Pouco ou nada restaria além de jogar mais dólares no mercado.

Críticos da política americana, como o ministro Guido Mantega e alguns de seus colegas europeus, têm defendido outra solução. Seria melhor, segundo seu raciocínio, continuar recorrendo a estímulos fiscais para reativar o consumo e a produção nos Estados Unidos. O cardápio clássico poderia incluir mais investimentos públicos, forma direta e eficiente de criar empregos e de movimentar indústrias de equipamentos e de materiais.

A derrota eleitoral do presidente Barack Obama, nas eleições do meio do mandato, foi uma péssima notícia para quem torcia por uma solução daquele tipo. Os principais vitoriosos são os grupos mais conservadores do Partido Republicano. Eles nunca se mobilizaram para deter a gastança do presidente George W. Bush, responsável por uma devastação nas contas públicas. A contenção dos gastos federais foi, no entanto, uma de suas principais bandeiras na campanha recém-terminada.

Quando a crise se agravou, no terceiro trimestre de 2008, o orçamento federal dos Estados Unidos já estava em más condições. Novas despesas foram realizadas para o combate à recessão. Durante algum tempo, essa política pareceu dar algum resultado. Mas a economia voltou a fraquejar e necessita, agora, de mais um bom empurrão.

Qualquer novo programa de estímulos fiscais apresentado pelo Executivo será recebido, quase certamente, com forte resistência no Congresso. O Partido Republicano conquistou a maioria na Câmara de Representantes e a vantagem democrata no Senado tornou-se mais apertada. O presidente Obama terá maior dificuldade para negociar novos pacotes antirrecessivos.

Esta tem sido, pelo menos, a avaliação mais comum dos analistas. Se estiver correta, a economia americana dependerá quase exclusivamente do afrouxamento monetário para ganhar algum impulso. Nada garante esse resultado. Seria muito mais confiável uma política de gastos públicos, principalmente se orientada para investimentos.

Quanto à política de comércio, dificilmente será influenciada pelo resultado das eleições. Republicanos tendem a ser menos protecionistas que democratas, mas todos, ainda por um bom tempo, tentarão proteger a produção nacional. Quanto mais lenta a recuperação, mais duradoura será a tendência ao fechamento comercial. Não há perspectiva imediata de grandes novidades positivas.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 05 / 11 / 2010

Folha de São Paulo
"'Rei morto', Lula diz que negociará reforma em 2011"

Um dia após dizer que não vai interferir no governo Dilma, presidente promete 'atuar como leão' em mudança política

Um dia após afirmar que não vai interferir na gestão de Dilma Rousseff ("rei morto, rei posto"), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que pretende emplacar a reforma política no primeiro ano do novo governo. Em reunião ministerial no Planalto, Lula prometeu atuar dentro do PT e negociar com aliados e com a oposição. O presidente quer financiamento público de campanhas e voto em lista fechada, pontos polêmicos. "O presidente disse que vai atuar como um leão na reforma política", afirmou o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais). Lula declarou à sua equipe que dará palpites durante a gestão de Dilma.

O Estado de São Paulo
"Metade dos governadores quer CPMF"

'Estado' ouviu 19 dos 27 eleitos e 13 se dizem a favor da volta do imposto para financiamento da saúde. Entre eles está o tucano Antonio Anastasia, de MG

Pelo menos 13 dos 27 governadores eleitos defendem a recriação de um imposto nos moldes da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), extinta pelo Senado em 2007. Apesar de cinco governadores de oposição - dois do DEM e três do PSDB - se dizerem contra a medida, o mineiro Antonio Anastasia (PSDB) apoia a iniciativa: "A saúde é a chamada política pública de demanda infinita", disse. O Estado procurou os 27 governadores que continuarão no cargo ou tomarão posse em janeiro. Desses, quatro não foram localizados e quatro não quiseram se manifestar. O novo movimento em favor de um tributo para financiar a saúde pública tem a frente os seis governadores eleitos pelo PSB, partido da base de apoio do presidente Lula.

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quinta-feira, novembro 04, 2010

La Mer

No céu

Chegada

Sidney Borges
A primeira pessoa (pessoa?) que procurarei quando descer na Estação Paraíso será Darwin. Quero saber a opinião dele sobre carrapatos.

- Servem pra quê?

Depois vou conversar com o Chefe. Dizem que é uma empreitada difícil, ultimamente Ele está 100% do tempo em campanha. A popularidade já foi melhor.

Quando tiver chance (no Paraíso o Sol nasce pra todos) serei impertinente:

- Responda-me "Ser Supremo", o carrapato foi distração?

Certamente serei convencido da importância vital dos pequenos aracnídeos sugadores.

Políticos sempre se saem bem.

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Dia bonito!

O fulcro da questão

Sidney Borges
Não gosto de ler opiniões de economistas sobre economia. Me fazem lembrar da Mãe Dinah. Jornalistas da área econômica são piores. Compram a plantação das fontes (economistas) e saem por aí escrevendo estultices. Talvez seja por isso que os jornais minguam. Pouco antes da quebra imperial de 2008, para ser mais preciso, uma semana antes, um prestigiado escriba das organizações Globo derramou-se em elogios ao sistema, segundo ele sólido e definitivo. O cabeçudo não desconfiou que não existe a possibilidade de que todos ganhem fortunas sem trabalho. Ele deve acreditar em milagres pois é regiamente pago para discorrer sobre o que não sabe. E ainda por cima ser levado a sério.

O que acabei de escrever é tido na imprensa moribunda como nariz de cera. Felizmente sou o dono do Blog e não obedeço a ninguém, só aos leitores, abundantes como meus três cabelos. Ondulados!

O Fed vai lançar 600 bilhões de dólares no mercado. O que isso significa? A resposta correta é: depende do referencial. O Brasil certamente receberá parte do ervário em busca de lucro. Nossos juros são atraentes. Para o governo o impacto imediato será positivo, mas sempre há efeitos colaterais. Com o real valorizado nossos produtos de exportação encarecem enquanto as traquitanas chinesas ficam mais baratas e complicam a vida dos fabricantes tupiniquins.

Para os Estados Unidos, cuja economia vai mal, não dá para avaliar o significado da medida. O que notável é que nas bandas de lá urge mudar conceitos. Ou os acontecimentos futuros serão similares aos da União Soviética que afundou por falta de eficiência.

Nos anos do pós-guerra quem quisesse um carro escolhia entre Ford, Chevrolet, Nash, Chrysler, Studebaker e outras marcas menos famosas. A maioria com origem nos Estados Unidos. Televisores, rádios, eletrodomésticos e máquinas em geral também tinham procedência americana. Hoje a escolha é ampla, a concorrência aumentou a oferta e baixou os preços. A área do computação e derivados garantiu o faturamento e a gastança dos sobrinhos de Tio Sam até 2008, quando o sonho acabou. O concorrência começou a dominar o segmento também.

O complexo militar intervencionista é dispendioso e inútil. Não há inimigos a serem batidos com tanques e aviões, o terrorismo deve ser enfrentado com inteligência, coisa rara nos Estados Unidos. O "american way of life" sempre preferíu motores potentes em detrimento da aerodinâmica. Mais arrasto, mais gasto.

Não há solução mágica para os problemas do império. Uma possibilidade de recomeço seria gastar menos, produzir mais e rezar para que terremotos e vulcões tirem do mapa Japão, Coréia, Alemanha, China e Índia.

O Brasil não, ninguém é tão generoso com os juros.

Deus proteja esta terra bonita por natureza e abençoada pelos papas desde 1500. E vamo que vamo...

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Sociedade


A vida é um circo

Sidney Borges
Charles B. Tripp não tinha braços. Eli Bowen não tinha pernas. Juntos passearam de bicicleta com o famosíssimo circo "Ringling Brothers and Barnum and Bailey", ganharam a vida, compraram a crédito e morreram como fazem os homens do bem e do mal. Sem a bicicleta não teriam mobilidade e provavelmente viveriam de esmolas. Viva a bicicleta! Hip, hip, hurrah!

Fim de governo

Gestão Lula, sucesso ou desastre?

Hélio Schwartsman na Folha
Passada a eleição, acho que é hora de um balanço dos oito anos de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República. Façamo-lo pelo método cebola, que é o de analisar por camadas.

Numa primeira leitura, a administração foi um sucesso. Provam-no os mais de 80% de popularidade obtidos pelo mandatário e, principalmente, o fato de ter conseguido fazer seu sucessor, mesmo sendo ele Dilma Rousseff. Nada pessoal contra a presidente eleita - a quem desejo sucesso -, mas, convenhamos, ela não foi a candidata dos sonhos dos marqueteiros: não é exatamente uma miss simpatia nem excele na arte de Cícero.

Voltando a Lula, os brasileiros ainda não ficamos todos malucos. Sua gestão é bem avaliada porque tem resultados bastante positivos a exibir, especialmente no campo econômico. Para além do fato de o Brasil ter passado sem grandes solavancos pela crise mundial, a pior desde 1929, foi sob Lula que amplos contingentes da população entraram no maravilhoso mundo do consumo, seja, na fatia mais pobre, através de programas como o bolsa-família e o aumento real do salário mínimo, seja, nos setores médios, por meio da ampliação do crédito e de ferramentas indiretas como o Prouni. Não chega a ser um ovo de colombo. A pergunta que cabe aqui é: por que ninguém fez isso antes? Sob essa chave, é mais do que justo que Lula e seus aliados gozem dos dividendos eleitorais proporcionados por essas políticas.

Numa segunda camada, porém, acho que dá para afirmar que o PT não é o único --e nem mesmo o principal-- artífice da bonança econômica. O Brasil vai agora relativamente bem porque se formaram alguns consensos importantes em relação, principalmente, a qual modelo seguir. Desde então, paramos de inventar bruxarias e tentar reinventar a roda. Firmes em direção a um norte, e com uma mãozinha da China que compra quase tudo o que somos capazes de extrair da terra, os resultados apareceram.

Para sermos honestos, é preciso dizer que esse consenso se formou apesar do PT, que, enquanto estava na oposição, fez o possível para sabotá-lo. A cada oportunidade que tinham, Lula e seus seguidores denunciavam o ajuste fiscal, as privatizações e a própria economia de mercado, a que tachavam de neoliberalismo. Foi só na iminência de chegar ao poder que o partido finalmente aderiu ao consenso, cujas sementes haviam sido lançadas na gestão Fernando Collor de Mello e que ganhou corpo sob o governo de Fernando Henrique Cardoso. Numa das mais reveladoras declarações de sua carreira, o já presidente Lula admitiu que, enquanto oposição, o que partido fazia eram "bravatas".

Resquícios desse discurso "bravatista" apareceram agora na campanha, quando Dilma tentou apresentar José Serra como o homem que privatizaria a Petrobras. Se quisermos há elementos dessa retórica na própria administração, em especial nas relações externas, que ainda tentam pintar os EUA como a encarnação do mal e ensaia desastradas aproximações sentimentais com regimes que se afirmem de esquerda ou se oponham ao "império".
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Opinião

A revanche republicana

O Estado de S.Paulo - Editorial
A Lei das Expectativas Frustradas abateu-se implacavelmente sobre o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nas eleições de meio de mandato, anteontem. O contraste entre o que prometeu na campanha histórica à Casa Branca, em 2008, e o que logrou fazer nos dois anos seguintes traduziu-se para ele e o seu Partido Democrata numa derrota também histórica no pleito para a renovação da Câmara dos Representantes, de 34 das 100 cadeiras do Senado e de 37 governos estaduais.

O chamado "ressurgimento republicano" foi mais contundente do que no pleito de 1994, quando a nova direita do partido acuou o então presidente Bill Clinton ao tomar dos democratas o seu domínio de longa data sobre o Capitólio. Precisando agora recuperar na Câmara 218 assentos para conquistar a maioria na Casa, a oposição obteve 239. Dito de outro modo, 60 lugares mudaram de cor: do azul democrata para o vermelho republicano, na peculiar paleta política americana. Isso não acontecia há 62 anos.

No Senado, onde ocorreu o mesmo com 6 vagas, os democratas ainda conseguiram agarrar-se, como um náufrago ao rochedo, ao mínimo de cadeiras numericamente necessárias (51) para deter a maioria - mas a vantagem nominal não impedirá os republicanos de obstruir sistematicamente as votações de projetos de interesse do governo. E o que pretendem os vitoriosos da hora, que capitalizaram o descontentamento do eleitorado com a política econômica de Obama - incapaz de tirar o índice de desemprego da vizinhança dos 10%.

Segundo pesquisas recentes, praticamente 9 em cada 10 americanos decididos a ir às urnas se declararam preocupados com a economia - que o presidente se gaba de ter "estabilizado" - e 4 em 10 disseram que a vida piorou para as suas famílias nos últimos 2 anos. Outros eleitores dos segmentos da população que foram decisivos para o triunfo de Obama, como os negros, os hispânicos, os jovens, os diplomados por universidades e a elite das novas profissões, exprimiram o seu desencanto deixando de votar.

Não que os republicanos tivessem apresentando uma agenda alternativa viável. As suas únicas propostas marteladas sem cessar - reduzir o biliardário déficit público e cortar mais impostos, além de tornar permanente o que já foi cortado - se excluem umas às outras. "Reaver o nosso governo", a palavra de ordem que a oposição tomou emprestada do movimento ultraconservador Tea Party (que conseguiu emplacar 2 senadores e com o qual simpatizam 40% dos votantes efetivos) significa apenas impedir Obama de governar.

"Faremos tudo que pudermos fazer para retardar, deter, matar" os projetos do presidente, prometeu o novo presidente da Câmara, John Boehner. Ainda assim, Obama lhe telefonou na madrugada de ontem para exortá-lo a procurar "pontos em comum" para a próxima legislatura. Ele há de ter pensado que era a coisa certa a fazer, como se a oposição não tivesse dado as costas às suas ofertas para negociar o projeto de reforma do sistema da saúde e o pacote de resgate da economia - afinal aprovados sem um único voto republicano.

Obama facilitou demais as coisas para os seus adversários - ou melhor, inimigos, dado o ódio que a direita tem por ele. O candidato que eletrizou o país com a sua retórica soberba se revelou um presidente cerebral, distante, incapaz de transmitir emoção mesmo ao falar das agruras do americano comum e acomodado sem constrangimento aparente aos podres de Washington que não se cansara de verberar.

Foi como se do fogo da campanha ele não levasse nem uma fagulha para a Casa Branca. Ao lembrar os americanos de algumas verdades - impediu que a recessão herdada do governo Bush se transformasse em outra Grande Depressão, reformou o sistema financeiro e foi o primeiro presidente a aprovar um programa de acesso universal ao sistema de saúde - as suas palavras soavam inconvincentes diante da lembrança do seu mote eleitoral "Sim, podemos". Há pouco, numa entrevista, ele teve que emendar: "Sim, podemos, mas não será da noite para o dia." Muito menos de agora em diante.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 04 / 11 / 2010

Folha de São Paulo
"EUA inundam mercado com US$ 600 bilhões"

Ação pode ter reflexo negativo no Brasil, valorizando real e dificultando exportação

O Fed (banco central dos EUA) anunciou a compra de US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro americano. O valor corresponde a 4% do PIB daquele país e cerca de 31% de tudo o que Brasil deve produzir neste ano. A operação é uma forma de injetar dinheiro na economia dos EUA, reduzindo os juros de longo prazo e aquecendo o consumo. A medida foi recebida com cautela. Para economistas, não falta crédito barato: "inundar" o mercado com dólares pode fazer a inflação disparar adiante e provocar bolhas de ativos, sobretudo nos emergentes. Para o ex-diretor do BC Alkimar Moura, parte desse dinheiro virá para o Brasil, em forma de investimento, valorizando mais o real e dificultando as exportações. Em outra operação, de até US$ 300 bilhões, o Fed continuará a comprar títulos do Tesouro com papéis lastreados em hipotecas.

O Estado de São Paulo
"Lula diz que todo poder é de Dilma: 'Rei morto, rei posto'"

Ao lado da sucessora, presidente afirma que o novo governo será formado por ela e descarta concorrer em 2014

O presidente Lula afirmou, em entrevista coletiva junto com Dilma Rousseff, que o governo da presidente eleita "tem de ter a cara de Dilma". Ante as especulações sobre o real poder de sua sucessora, ele declarou que, a partir de 1º de janeiro, é “rei morto, rei posto". Para reforçar a disposição de que não vai interferir, Lula sinalizou também que não vai disputar a eleição de 2014: "Chegar ao final do mandato com o reconhecimento popular que tem o governo, voltar é uma temeridade porque a expectativa gerada é infinitamente maior". O presidente deixou claro que o objetivo da entrevista, convocada minutos antes de ser realizada, era passar um recado político. Em 15 oportunidades, Lula enfatizou que a formação do ministério é de inteira responsabilidade de Dilma. Apesar do discurso, Dilma e Lula vão aproveitar a longa viagem a Seul, na próxima semana, para discutir a aliança de sustentação do futuro governo e nomes para o ministério.

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quarta-feira, novembro 03, 2010

Pensata

Voto aberto

Sidney Borges
Votei no Serra. Votaria novamente. Como democrata desejo sorte à nova Timoneira da "Canoa Brasil". Ela vai precisar, nós vamos precisar. De sorte e competência. Nos anos de chumbo muitos eram contra a ditadura por ser ditadura, meu caso, mas alguns queriam trocar a ditadura dos militares pela do proletariado. Tem gente que ainda quer, só que agora o buraco é mais embaixo. Vivemos em uma sociedade democrática. Não me venham com plebiscitos. "No passarán". Não tenho nada contra o socialismo, como intelectual certamente viveria bem sob a tutela do Estado. Acho apenas que teria viajado menos.

Como professor de Física conheço o significado de inércia. Tal princípio, aplicado aos sistemas sociais parece ganhar intensidade.

Mudar o modo de produção capitalista seria extremamente dispendioso.

Custaria zilhões de dólares e um oceano de sangue. E levaria tempo para que se pudesse avaliar. Tempo é uma variável que não combina com projetos a longo prazo. Imagino o ano de 2030. Os atores de hoje mortos. Ou gagás. Eu ídem. Onde? Tido e havido pelos revolucionários de botequim como burguês conservador, arderei no inferno.

Mas e os outros - petistas especialmente - que são bons, honestíssimos e amam o próximo?

Onde estarão?

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Capitalismo


Balança mas não cai

Sidney Borges
A semana das eleições não seria completa sem a imagem de uma corrida bancária no centro financeiro do Império. A imagem poderia ilustrar o momento da tão sonhada queda do capitalismo, alegoria viva em cabeças renitentes. A débâcle tangenciou o sistema, passou perto, mas não aconteceu. Já o comunismo, doente de ineficiência aguda, foi ao chão fulminado e permanece mortinho da silva.

A foto acima foi tirada em 1933, em Nova York. Quem viveu a época nunca vai esquecer as corridas bancárias que vez por outra aconteciam. Bastava um rumor de quebra e a manada saia atropelando rumo à porta do banco.

Com o tempo os americanos voltaram a confiar, mas depois da pane recente do sistema financeiro, voltaram a desconfiar. Eu nunca confiei, embora no Brasil não exista coisa mais sólida do que bancos. Ano a ano ampliam os lucros estratosféricos. Viva!

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Vizinhança quieta

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Coluna do Editor

Agregando valor

Sidney Borges
A bola da vez nos centros de pesquisas do planeta é o grafeno, junção das palavras grafite + eno que significa, segundo definição da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), "uma única camada da estrutura grafítica pode ser considerada como o último membro da série de naftalenos, antracenos, coronenos, etc. e o termo grafeno deve, portanto, ser utilizado para designar a camada individual de carbono em compostos de intercalação de grafite."

Traduzindo. O que é mesmo grafeno?

Comece pegando um lápis e riscando uma folha de papel. Se você tiver um microscópio poderoso verá com seus proprios olhos, caso contrário acredite em minhas palavras: aquele risco sobre o papel que só as borrachas apagam é apenas um rastro de carbono deixado pela grafita em função do atrito com o papel. A ponta do lápis é um amontoado de folhas de grafeno, ampliada milhões de vezes ficaria parecida com um espeto de churrasco grego, que é uma delícia, mas dizem que faz mal.

Tia Zulmira, viciada em churrasco grego e Fogo Paulista, morreu aos 86 anos com o colesterol alto. Cautela pois. Eu disse que as folhas de grafeno parecem churrasco grego, mas ao contrário deste, não fazem mal, apenas ajudam os países ricos a ficar mais ricos. Sobre o Fogo Paulista prefiro calar.

Outra pergunta. O que é carbono mesmo? Lembrando das aulas de Química Orgânica do colegial, no meu caso do Científico, verifico nos neurônios que restam que o carbono, (do latim carbo, carvão) é o elemento químico de símbolo C, número atômico 6 (6 prótons e 6 elétrons), massa atómica 12 u e sólido à temperatura ambiente.

Dependendo das condições de formação, pode ser encontrado na natureza em diversas formas alotrópicas: carbono amorfo e cristalino, em forma de grafite ou ainda diamante. Esse é o carbono chique, das jóias das elites de olhos azuis que detestam pobres.

Há cerca de 10 milhões de compostos de carbono que faz parte de todos os seres vivos. Eu carbono? Pois é! Confesso que embora curioso sobre o que vai pelo mundo da ciência eu nunca tinha ouvido falar em grafeno até ter notícias do prêmio Nobel de 2010. As pesquisas que levaram ao descobrimento do grafeno deu a laura aos cientistas Konstantin Novoselov e Andre Geim, nascidos na Russia e radicados na Inglaterra.

A descoberta poderá significar uma revolução tecnológica de grande impacto. O mineral grafite é abundante no planeta e de fácil extração. As reservas mundiais totalizam 398.860 toneladas, sendo que mais da metade na China. O Brasil tem 28,3% do total (2º lugar no mundo em reservas medida e indicada).

Boa notícia, podemos fabricar lápis, muitos lápis. Mas também podemos processar "a grafita" para tirar folhas esbeltíssimas de grafeno, da espessura de um átomo e compostas por moléculas de carbono dispostas em estrutura hexagonal.

Esse material singular é visível a olho nu apesar da esbelteza, além de ser mais resistente do que o aço e impermeável à água e a óleos. Mas a principal característica do grafeno é a capacidade de movimentação dos elétrons em sua estrutura. A resistência elétrica praticamente não existe e com isso não surge o Efeito Joule, ou seja, não há produção de calor. Waal! As empresas de semi-condutores sentindo o cheiro de lucro abundante investem milhões em testes. Querem substituir o silício pelo grafeno, mais eficiente.

Em teoria, um processador de grafeno poderá chegar a mais de 500 GHz. O silício trabalha abaixo de 5 GHz. Velocidade, compactação e eficiência, esse é o universo dos processadores futuros. A barreira do calor é o maior obstáculo à lei de Moore que afirma: "o número de transistores dos chips aumenta 100%, pelo mesmo custo, a cada 18 meses. Até agora funcionou, mas o silício está abrindo o bico, colocar mais resistores nos processadores atuais significa produzir mais calor. A necessidade de resfriamento fez com que os fabricantes de chips optassem pelo acoplamento de diversos núcleos pois o crescimento do núcleo individual parece estar próximo ao limite. Chegou a vez do grafeno.

Quem sair na frente certamente ganhará muito dinheiro, um processador de apenas alguns gramas, feito de materiais abundantes na natureza, custará o mesmo que algumas toneladas de soja ou de minério de ferro, produtos da pauta de exportação brasileira.

No entanto, para produzir tecnologia de ponta que agrega valor e produz desenvolvimento é preciso educação. Pelo andar da carruagem o Brasil vai continuar exportando minério, soja, café e carne e comprando tecnologia de ponta. Desde Cabral índio dá ouro e recebe contas coloridas e apito. Índio adora apito.

Embora a propaganda oficial apregoe termos atingido o desenvolvimento, não acredite, é pura balela. Enquanto o mundo realmente desenvolvido está na era do grafeno, colhemos feno e discutimos se Marx tinha razão. Temo que isso continue por muito tempo. Um dia as autoridades governamentais entenderão que o caminho do desenvolvimento passa pelos bancos escolares. Quem sabe daqui a 300 anos. Estarei sendo otimista?

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Opinião

O papel da oposição

O Estado de S.Paulo - Editorial
"Minha mensagem de despedida neste momento não é um adeus. É um até logo. A luta continua." Ao reconhecer a vitória de Dilma Rousseff, José Serra exortou os oposicionistas a se articularem para cumprir o papel que lhes cabe no cenário político nacional. "Para os que nos imaginam derrotados - acrescentou - quero dizer: nós estamos apenas começando uma luta de verdade." É ver para crer.

Um dos fatores decisivos da vitória de Lula foi o comportamento errático, quando não pura e simplesmente omisso, da oposição, ao longo de oito anos de governo petista e na campanha eleitoral deste ano. Lula elegeu-se em 2002 com a imagem de líder popular que fez contrastar com a de intelectual, representante da elite, de seu antecessor, Fernando Henrique. Com grande competência, Lula soube manipular esse contraste para construir a própria imagem de líder e defensor dos fracos e oprimidos e colar nos opositores o estigma de inimigos do povo. FHC virou anátema. Seu governo, "herança maldita". E a oposição, como que sofrendo de grave crise de identidade, assistiu inerme a toda essa mistificação. A tal ponto que em 2005, quando estourou o escândalo do mensalão, Lula estava blindado e imune aos efeitos negativos da corrupção que grassava ao seu redor. Por muito menos, alguns anos antes Fernando Collor fora forçado a renunciar à Presidência.

É animador, portanto, ouvir o até agora principal líder da oposição convocar seus companheiros à continuação da luta política. Pois toda nação democrática necessita de governo competente e honesto tanto quanto de oposição viva e operante, pronta e apta a fazer cumprir o fundamento da alternância no poder.

Condições objetivas para o exercício de uma oposição eficiente a partir de 1.º de janeiro existem, apesar de a base governista ter aumentado no Congresso Nacional. A oposição sai das urnas com desempenho melhor, nos pleitos majoritários, do que quatro anos atrás. A diferença de votos entre Dilma e Serra foi menor, em cerca de 10 milhões de votos, do que aquela que Lula teve sobre Alckmin em 2006, o que pode ser explicado em parte, é claro, pelo fato de que Dilma não é Lula. Além disso, o PSDB acaba de conquistar 8 governos estaduais (foi o partido que mais governadores elegeu), que se somam aos 2 do DEM e abrangem a maioria dos Estados mais populosos e prósperos, como São Paulo, Minas, Paraná e Santa Catarina.

A mesma disposição manifestada por Serra foi reiterada pelo presidente nacional dos tucanos, senador Sérgio Guerra, para quem "o PT e os que ganharam de nós nesta eleição trabalharam para construir uma hegemonia, e não uma democracia. No Congresso, vamos agir para que o contraditório se estabeleça". Por sua vez, depois de defender a necessidade de o maior partido da oposição partir para alianças e até fusões, o governador de São Paulo, Alberto Goldman, colocou o dedo na ferida: "Nós não fomos suficientemente combativos ao longo dos oito anos do governo Lula."

Pode facilitar o trabalho da futura oposição o fato de que Dilma, apesar de dispor de ampla base de apoio parlamentar, certamente não terá sobre seus aliados o mesmo controle que detém o atual presidente. E, certamente ainda mais relevante, o bloco governista poderá bater cabeça diante de previsíveis e inevitáveis discrepâncias entre políticas a serem defendidas pela próxima presidente e aquelas hoje adotadas por Lula. A considerar, ainda, a evidência de que uma importante legenda da base governista, o PSB, chega a 2011 fortalecido pelo aumento de sua bancada parlamentar e pela eleição de 6 governadores, quase todos no maior reduto petista - o Nordeste. Disposto, portanto, a trilhar tanto quanto possível seus próprios caminhos em direção à sucessão presidencial de 2014.

Mas qualquer projeto oposicionista se frustrará, principalmente em termos de consolidação da democracia, se não houver a sincera disposição de banir da vida política duas práticas nefandas que o lulo-petismo consagrou: o exercício da oposição, como fez no plano nacional até 2003, pautado exclusivamente por interesses eleitorais e o tratamento de adversários políticos como inimigos a serem dizimados. A oposição há que ser firme e combativa, sempre, e construtiva, quando possível.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 03 / 10 / 2010

Folha de São Paulo
"Dilma quer mudar regra de reajuste do salário mínimo"

Presidente eleita estuda fórmula para antecipar para o ano que vem parte de aumento a ser concedido em 2012

A equipe de transição da presidente eleita Dilma Rousseff vai negociar com as centrais sindicais uma nova fórmula para reajustar o salário mínimo a vigorar já em 2011, relata Valdo Cruz. Uma proposta prevê antecipar parte do aumento real a ser concedido em 2012. O modelo atual determina a correção pela inflação mais a variação do PIB de dois anos antes. Sem crescimento em 2009, o reajuste de 2011 só usaria a inflação. Como o PIB deve avançar 7% neste ano, Dilma "desarmaria a bomba" de um reajuste muito grande adiante. O aumento do salário mínimo para R$ 600, bandeira da campanha do PSDB, será agora prioridade da oposição no Congresso.

O Estado de São Paulo
"Mal-estar com PMDB faz Dilma pôr Temer na equipe de transição"

Primeira reunião teve só petistas, o que irritou os aliados peemedebistas

A presidente eleita Dilma Rousseff designou ontem o vice-presidente eleito Michel Temer (PMDB) para integrar a "equipe de transição de governo. A decisão foi tomada depois do mal-estar causado pela exclusão do PMDB da primeira reunião da equipe, a qual compareceram somente petistas. O presidente do PT, José Eduardo Dutra, tentou explicar como funcionará o comitê: “Eu vou conversar com os diversos partidos. O (Antonio) Palocci trabalhará a questão mais técnica. E o Temer, vamos conversar com ele”. Após insistência dos repórteres, Dutra disse que Temer vai “coordenar o processo".

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terça-feira, novembro 02, 2010

Acontece em Ubatuba

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Ramalhete de "Causos"

A Pedra da Igreja

José Ronaldo dos Santos
Muitas coisas esperam e esperarão respostas até o último dia da vida da gente. Pior ainda é quando as respostas dependem de pessoas que também são enigmáticas, ou melhor, que ninguém sabe dar qualquer informação sobre elas. O causo de hoje gira em torno de uma dessas pessoas: Artelino Flor, morador do morro da Praia Brava, que eu conheci, mas nunca tive coragem de especular-lhe coisa alguma. No entanto, me admirava das coisas que ele contava. Ainda agora estava me lembrando de uma das suas falas: “Quanto mais longe, mais estranhas histórias”, cuja função era servir de introdução a um causo.

Certa vez, no aceiro da roça do Horácio, para os “meninos de bodoques nas mãos”, o Artelino contou da Pedra da Igreja; foi mais ou menos assim:

“Naquela pedra, bem debaixo dela, tem um espaço grande; parece um salão. Quem for lá hoje encontrará coisas estranhas: a parede e o teto – na pedra mesmo! – tem desenhado um monte de coisas: animais desde paca até tartaruga, objetos redondos como tampa de panela, árvores, rios e mar. Tem ainda embarcação, mas não é canoa comum. Tudo parecendo ter sido pintado com pasta de urucum. Pelos cantos existem pedaços de instrumentos que podem ter sido um dia ferramentas ou armas. Não sei. Uns dizem que é mal-assombrado aquele lugar, mas eu mesmo não vi nada demais. Só sei de uma coisa que escutei e não duvido: os antigos moradores do lugar, desde muito tempo, naquele salão buscavam proteção quando viam embarcação estranha vindo pelo mar”

Neste ponto do causo, o meu primo Gilmar perguntou: -“Desde quando isso?”

“Ah! Faz muito tempo!” – E, continuava o Artelino, naquela paz arrastada de gente velha – “É do tempo onde a música do céu era limpa e azulada. Diziam os mais antigos que os primeiros moradores a conviver com os índios já faziam isso (de fugir quando algo de anormal surgia na linha do horizonte). Aquele lugar protegeu muita gente: primeiro os degredados que evitavam encontrar novamente os navegadores portugueses; depois, os primeiros colonizadores, escaparam dos piratas, dentre estes um muito medonho chamado de Bonete que, pelo dizer dos tempos, era de um reino por nome de Escócia. Lá tem até um dizer escrito em nossa língua; dizem ser do tempo da pirataria. É bem no fundo, onde as cobras têm suas ninhadas. Deste jeito está escrito: ‘Pés desceram... mãos grimparam’. De tempo mais recente eu posso dizer, assim como outros velhos que por aí estão: foi para lá que todos acorreram na revolução do tempo de Getúlio Vargas; depois o mesmo aconteceu em mais duas ocasiões: na passagem do dirigível Zepellin, quando todos achavam ser o sinal do fim do mundo, e, no levante da Ilha Anchieta. Tudo isso sem falar dos tempos d’antes; do povo que só desenhou. Embaixo da Pedra da Igreja era a nossa fortaleza, de onde vem o nome da praia”.

Muitos outros causos eu tive a felicidade de ouvir daquele enigmático senhor. Digo assim porque ninguém sabia afirmar com certeza de onde veio tal personagem. Só uma fala do Rogé me intriga até hoje: “Sabe de uma coisa, Zezinho? O Artelino já foi cangaceiro. Aqui foi deixado por um navio, quando descobriram que viajava escondido na casa de máquina”. É; pode ser.

Vem desse tempo a minha curiosidade pela Pedra da Igreja. Em certa ocasião, no findar de década de 1960, meu pai nos levou até lá, para espiarmos de fora. É grandiosa!

Sugestão de leitura: Achegas à história de Ubatuba, de Guisard Filho.

Boa leitura!

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Em 2014 será a vez dele!

Rescaldo

Enfim, a revolução acabou!

Sidney Borges
Tudo acaba. Não sei se isso é bom. Em certos casos é. Como agora. Dilma ganhou. Que governe com sabedoria. E sorte. Poucos seres humanos são alçados a cargos de tanta responsabilidade. Eu que não acredito em sorte desejo a ela sorte, que tenha sucesso. O Brasil precisa. Há hoje dois Brasis, o da propaganda petista e o real. Os dois vão bem, mas o da propaganda vai melhor.

O problema da desigualdade continua. E a tendência é aumentar. O governo Lula inovou quando levou a presença do Estado a rincões nunca d'antes visitados. O "Bolsa-Família" consolidou a imagem do presidente. E deu a ele imensa popularidade. Tão grande que garantiu a sucessão. Mas como eu disse antes, os problemas continuam. A violência está aumentando. O tráfico de drogas também, a expansão do crack é avassaladora. Em Ubatuba há pontos em que é temerário circular. Existe o perigo de ser atacado por um nóia.

Ubatuba, segundo dados do IBGE tem perto 70% da população vinculada ao Bolsa-Família. E mesmo assim desce a escada do IDH. Programas sociais demoram a surtir efeito. A inércia social é grande impedindo a mobilidade. O crédito fácil dá ilusão de mudança de degrau. Compro, logo existo. O buraco é mais embaixo.

Em Cambridge, no ano 2000, eu freqüentava um pub onde as faxineiras do "Lucy Cavendish College" reuniam-se com as amigas da cozinha e tomavam cerveja nos finais de tarde. No mesmo ambiente, em uma das mesas um senhor circunspecto trabalhava em seu laptop. Perguntei a um amigo quem era. Ele disse com pompa e circunstância que se tratava de um membro da família real, respeitado professor da área biológica e duas vezes indicado ao prêmio Nobel.

Waal! No mesmo pub! 

O topo da escala social e humildes trabalhadores convivendo espacialmente. No Brasil coisas parecidas ainda vão acontecer. Mas vai demorar. A sociedade de castas é um fato real, embora escamoteado pelo jeitinho brasileiro, hipócrita e maldoso. Depois de 400 anos de mão de obra escrava o trabalho ainda é visto como coisa de inferiores. Não em todo o país. No Sul e no Sudeste trabalhar é motivo de orgulho, bem como nas capitais nordestinas onde a população luta para melhorar de vida. No entanto, nos rincões interioranos do coronelato, a estrutura social permanece igual à do século XVIII.

Ubatuba é uma mistura dos dois ingredientes.

Por falar de arcadismos tupiniquins convém lembrar que as grandes estruturas governamentais, como é o caso da Educação, acabam criando identidade própria. Tornam-se templos da burocracia, paraíso do corporativismo. Perdem o sentido para o qual foram criadas e passam a existir por inércia. Como justificar alunos de terceiro colegial analfabetos? A finalidade da escola não é ensinar? Para os mais afoitos é fácil a solução, basta colocar a culpa na oposição. Como se nos estados geridos pela situação as coisas fossem diferentes.

Eu não sei o que Dilma vai fazer, nem tenho interesse ou tempo para perder em conjecturas. A grande imprensa faz isso muito bem, basta folhear os jornais de hoje e constatar. Imersa em factóides por ela mesmo criados, vai mal das pernas, nada acrescentando ao panorama visto da ponte.

A população de São Paulo, onde nasci e me criei, acreditava em meritocracia. Ainda acredita. Pensando dessa forma estudamos para ter alguma chance de melhorar de vida. A maioria de nós é filha ou neta de imigrantes que saíram de seus países em busca de oportunidades. O Brasil cresceu em função do trabalho.

Independentemente de governos, se bem que as bases da estabilidade atual foram fincadas no tempo de Itamar Franco.

De tudo o que vi nesse tempo de campanha, não gostei do posicionamento belicoso do presidente Lula, embora saiba que com Lula há que se ter paciência. Petistas de alto calibre afirmam que ele é como a bíblia, todos leêm e cada um dá a sua interpretação, escreveu Josias de Souza em seu blog.

Lula usou e abusou da confontação, separando os brasileiros entre nós e eles e criando um clima de ódio poucas vezes visto. Quem são os nós e os eles? Dilma deve mudar esse discurso, é mais culta, tem mais escolaridade.

E não me venham falar em popularidade, Hitler e Mussolini chegaram a beirar os 100% e deu no que deu.

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Deu em O Globo

Defesa das liberdades unifica país

Do Blog do Noblat
A vitória de Dilma Rousseff tem características muito especiais, e talvez a menos importante seja o fato de o Brasil ter eleito a primeira mulher para o cargo de presidente da República.

Não deixa de ser algo histórico, já verificado no continente na Argentina de Cristina Kirchner e no Chile de Michelle Bachelet, mas de nenhuma influência nos desafios efetivos que o novo governo enfrentará nos campos político, econômico e social.

O criador de Dilma Rousseff, presidente Lula, fez de tudo para ter na figura da fiel ministra a personificação do seu terceiro mandato consecutivo, vetado corretamente pela Constituição e rejeitado pela sociedade. Sequer os limites da legislação eleitoral o contiveram na mobilização da máquina do governo e de estatais para ajudar a eleger sua criatura.

Aqui, a presidente Dilma Rousseff tem o primeiro desafio, pois, mesmo que concorde em apenas guardar o gabinete do terceiro andar do Planalto para Lula tentar reocupá-lo em 2014, a realidade da administração de um país grande e complexo como o Brasil exige um governo ativo.

No discurso da vitória, na noite de domingo, a presidente eleita registrou que não deixará de bater à porta de Lula em busca de conselhos. Pode ser, mas a maior parte da responsabilidade pelo que vier a acontecer, de bom ou de mal, será dela. A não ser que se estabeleça uma regra inédita no universo da política pela qual lucros da gestão Dilma serão capitalizados pelo lulismo, e as eventuais perdas, repartidas entre a presidente e o PT.

A campanha foi ríspida e ao mesmo tempo superficial, sem aprofundar qualquer discussão de problemas efetivos do país.

A situação ressuscitou o tema da privatização, de forma mistificadora, enquanto a oposição se retraiu, diante dos índices recordes de popularidade do criador de Dilma. Mas, apurados os votos, ambos os lados precisam delimitar espaços de convivência, em respeito ao eleitorado, à democracia, ao país.

Neste sentido, o primeiro discurso de Dilma presidente infunde esperança de que será possível construir pontes entre governo e oposição, necessárias para o manejo de questões sérias, como a das bases frágeis e até in-justas do sistema previdenciário do país — do funcionalismo e dos assalariados do setor privado —; da ampliação dos investimentos na melhoria da qualidade da educação pública básica, sem o que as milhões de famílias dependentes das bolsas do assistencialismo jamais se libertarão da esmola estatal, e assim por diante.

Fez bem Dilma Rousseff ao estender a mão à oposição, garantindo que não praticará “discriminação, privilégios e compadrios”. A postura coincide com a do senador tucano eleito Aécio Neves, considerado o grande nome da oposição no Congresso.

Não poderia mesmo ser desconsiderado que, se Dilma obteve 55,7 milhões de votos, o candidato oposicionista José Serra atraiu 43,7 milhões de eleitores, quase 44% do total. Além disso, os tucanos elegeram oito governadores, três deles na região mais desenvolvida do país (São Paulo, Minas e Paraná).

Em estados tucanos residem 47,5% dos eleitores e são produzidos 54,6% do PIB nacional. No primeiro turno, o principal partido de oposição vencera em São Paulo, Minas, Paraná e Tocantins; no domingo, conquistou Alagoas, Pará, Goiás e Roraima.

O governo Dilma, muito devido ao cabo-eleitoral Lula, fez ampla maioria na Câmara e no Senado. Mas não poderá esquecer como ficou o mapa eleitoral do Brasil, quase que dividido entre Sudeste/Sul/Centro-Oeste, majoritariamente oposicionista, e Norte/Nordeste, situacionista. Não interessa à sociedade a exploração política desta divisão, na qual estados mais ricos, com população mais esclarecida, ficaram com governadores de oposição.

Isso deve servir apenas de fator de moderação das alas radicais petistas, que talvez ima-ginem poder avançar sobre a Constituição.

Registre-se, ainda, a defesa das liberdades feita pela presidente eleita — de imprensa, religião, culto. Este é um passo concreto para unificar o país, em torno de direitos fundamentais inscritos na Constituição, acima de partidos e ideologias.

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Opinião

A eleição de Dilma Rousseff

Estado de S.Paulo - Editorial
Sem o presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff nem candidata teria sido. Com ele, acaba de entrar para a história como a primeira mulher eleita para governar o Brasil e a segunda pessoa a chegar à Presidência sem nunca antes ter disputado uma eleição. A primeira foi o marechal Eurico Dutra, em 1945, com o apoio, aliás, do recém-deposto ditador Getúlio Vargas. E Lula se consagra como o primeiro presidente brasileiro a fazer o sucessor na plenitude democrática, pinçando uma figura de quem a grande maioria do eleitorado não tinha ouvido falar. O que o obrigou a levá-la consigo para cima e para baixo, afrontando a lei, antes do início da campanha.

À época, políticos e comentaristas se perguntavam se a popularidade única do presidente bastaria para eleger "um poste", na expressão clássica que parecia feita sob medida para Dilma. Jejuna em disputas eleitorais, com empatia zero e imagem de tecnocrata de fala pedregosa, incapaz de expor uma ideia sem a muleta do PowerPoint, Dilma era a carga que, em circunstâncias normais, nem o mais desesperado dos marqueteiros aceitaria transportar de bom grado. Mas, transformada num estranho híbrido de si mesma com a versão para consumo eleitoral, sob adversidades que poderiam perfeitamente bem desestabilizá-la (Erenice, aborto, um inesperado segundo turno), ela deu conta do recado.

O seu mérito próprio - sem o qual o fator Lula talvez não fosse suficiente - foi o de inspirar confiança na sua aptidão para dar continuidade às políticas que levaram legiões de seus beneficiários a endeusar o presidente. Isso ajudou a neutralizar os seus problemáticos traços de personalidade e o fato de não ser, diferentemente do patrono, "uma de nós", nem ter um grama que seja do carisma dele. Se, de acordo com as estimativas, 20% dos que acham Lula o máximo votaram no tucano José Serra, assim como a metade dos que consideram bom o seu governo, sabe-se lá qual teria sido o desfecho do pleito se a maioria concluísse que Dilma não era bem aquilo que Lula dizia.

Embora esta tenha sido a vitória mais apertada de um candidato ao Planalto desde 1989, a vencedora pode se gabar de que não fez feio na comparação com a última disputa do padrinho, considerando o abismo que os separa como caçadores de votos. No segundo turno contra Geraldo Alckmin, em 2006, Lula colheu 58,4 milhões de sufrágios. Dilma, agora, obteve 55,7 milhões. A julgar pelas urnas de anteontem, pelo menos, não será descabido prognosticar que há base para o surgimento de um lulo-dilmismo. É óbvio que não se pode prever qual será o grau de dependência da criatura em relação ao criador quando ela ocupar a cadeira que ele vagará a contragosto em 1.º de janeiro de 2011.

No discurso da vitória, por sinal no único trecho em que ela se emocionou abertamente, contendo as lágrimas, Dilma avisou que baterá "muito" à porta desse homem "de tamanha grandeza e generosidade". Mas várias de suas declarações chamaram a atenção por se referir a questões em relação às quais Lula fez má figura. Sobre corrupção, por exemplo, ela prometeu que "não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito". Em contraste com o governante de um país democrático que se permitiu investir contra a imprensa do alto dos palanques, ela agradeceu à mídia e disse que não carregará "nenhum ressentimento" pelas críticas recebidas porque prefere "o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras".

Tão ou mais importante do que isso, a eleita devotada a um líder que fez praça de dividir os brasileiros em "nós e eles" - por classe social, renda e região -, afirmou que "agora é hora de união" e que será "presidenta de todos, respeitando as diferenças de crença e de orientação política". Por fim, exortou os políticos, "independente de cor partidária" a somar esforços pelo País. Dir-se-á que seria espantoso se ela dissesse algo diferente ou calasse sobre qualquer desses temas. Dir-se-á também que a distância entre intenções e atos é irremediavelmente imensa. Mas não há como negar que Dilma começou bem o percurso entre as urnas e o poder e que a sua primeira fala desperta esperanças que não apareciam no horizonte da campanha.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 02 / 11 / 2010

Folha de São Paulo
"Palocci e Dutra assumem a transição, decide Dilma"

Ex-ministro será coordenador técnico, enquanto o presidente do PT cuidará de temas políticos

A presidente eleita Dilma Rousseff decidiu dividir o comando da transição de governo. O ex-ministro Antonio Palocci será o coordenador técnico, cuidando dos programas e de outras iniciativas do Executivo. O presidente do PT, José Eduardo Dutra, atuará como coordenador político, fazendo a negociação com todos os partidos aliados. Dutra marcou reunião para esta noite com o vice-presidente eleito Michel Temer (PMDB-SP). Setores peemedebistas ficaram enciumados por não terem sido convidados a participar da primeira reunião sobre a transição, realizada ontem pela manhã. No encontro de trabalho só havia petistas. Palocci e Dutra terão o apoio direto do deputado Jose Eduardo Cardozo e do ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel. Dilma sairá de cena hoje para descansar até domingo. Em seguida, viaja com o presidente Lula para Seul, para a reunião do G20. Na viagem, deve tratar do ministério com o seu padrinho político.

O Estado de São Paulo
"Dilma faz reunião de transição só com petistas e irrita PMDB"

'Eles não vão governar sozinhos', avisa peemedebista; processo será conduzido por Dutra e Palocci

A primeira reunião da presidente eleita Dilma Rousseff (PT) com auxiliares para definir a equipe de transição, realizada, ontem em Brasília, teve presença só de petistas, sem ninguém do PMDB, principal aliado na campanha. Ficou acertado que o presidente do PT, Jose Eduardo Dutra, e o ex-ministro Antonio Palocci comandarão o grupo que fará a passagem do governo Lula para o de Dilma. Peemedebistas demonstraram insatisfação com o episódio. "Eles não vão governar sozinhos", avisou o deputado Eduardo Cunha (PMDB-SP). O governador eleito do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, disse ao Estado que o PT quer negociar com um PMDB unido. Para ele, a legenda "terá mais importância quanto mais se unificar como partido de centro”.

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Mosca bebendo água

segunda-feira, novembro 01, 2010

Coluna do Rui Grilo

Trabalho, conhecimento e cultura

“A palavra "trabalho" tem sua origem no vocábulo latino "TRIPALIU" - denominação de um instrumento de tortura formado por três (tri) paus  (paliu). Desse modo, originalmente, "trabalhar" significa ser torturado no tripaliu. Quem eram os torturados? Os escravos e os pobres que não podiam pagar os impostos. Assim, quem "trabalhava", naquele tempo, eram as pessoas destituídas de posses.”*

Rui Grilo
Além da idéia acima, o conceito de trabalho também está relacionado ao castigo infringido ao homem por ter desobedecido a Deus, experimentando a fruta do conhecimento do bem e do mal. Enquanto no paraíso tudo lhe era oferecido gratuitamente, agora, para sobreviver teria que trabalhar.

Marx retoma a discussão do tema trabalho, central em sua obra, como um elemento necessário à reflexão e ao conhecimento. É pelo trabalho que o homem cria relações e objetos antes inexistentes, o que o torna semelhante a Deus devido ao seu poder criador. Com a Revolução industrial o operário torna-se mão-de-obra barata, uma ferramenta de produzir; não conhece todo o processo daquilo que ajuda a produzir e contribui para a produção de algo que provavelmente nunca poderá adquirir.

Para a Antropologia, cultura é tudo aquilo que é criado pelo homem. No filme “Uma Odisséia no Espaço” há uma significativa ilustração desse conceito. O macaco, representando o homem primitivo, joga um osso para cima e, ao pegá-lo na trajetória de cair, percebe que tem no osso um instrumento para aumentar a força de seu braço, uma arma para usar contra os inimigos, ou uma alavanca para remover uma pedra. O macaco atribui um novo significado ao osso: arma ou alavanca. Esse conhecimento torna-o mais poderoso na luta contra os seus iguais submetendo-os. O conhecimento se torna um importante elemento de dominação e de escravização do outro.

A atribuição de nomes e de novos significados, a criação de coisas e objetos a partir de matérias primas existentes na natureza, a estruturação da sociedade e de relações de poder e de sociabilidade é cultura.

Os grupos sociais atribuem diferentes significados ao mesmo objeto. Ao ver uma árvore, um capitalista pensa no quanto ela pode render em dinheiro; um artista pode pensar na beleza de suas formas e cores; e um ambientalista pode pensar no quanto ela pode contribuir para a melhoria do clima. Assim constroem diferentes culturas. Mas todos têm uma cultura, pois todos criam cultura ou vivem e sobrevivem num meio cultural em que há regras e valores a obedecer ou a transgredir.

Na cultura antiga, o trabalho era uma questão de classe pois, enquanto aos pobres era destinado o trabalho braçal, ao aristocrata cabia o trabalho intelectual. Marx rompe essa dualidade ao ver no trabalho a superação dos limites humanos, sua forma de sobreviver às forças da natureza e a criação do conhecimento.

Para proteger-se do frio, do sol e do ataque dos insetos e animais, o homem escolhe na natureza quais as matérias primas para confeccionar as roupas e os instrumentos para confeccioná-las: fibras vegetais, peles de animais e produtos minerais. Ao confeccionar suas roupas aperfeiçoa sua forma de maneira a melhor protegê-lo, dando-lhe praticidade e bem estar. Também pensa na beleza, usando desenhos, estampas e cores. Cria-se todo um conhecimento e um planejamento de como produzir mais e melhor através da linha de montagem, da racionalização do trabalho. Com isso, rompe-se de novo a unidade entre quem planeja, quem cria e quem executa.

Cabe a quem planeja e aos donos a melhor remuneração e o lucro; o trabalho mecânico dos outros transforma-os em máquinas para produção. Para sobreviverem, vendem seus corpos para serem transformados em máquinas de produção de outras máquinas ou objetos: carros, geladeiras,... Essa situação, bem ilustrada no filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, dificulta a percepção do todo, pois cada homem faz apenas uma parte do objeto. Como não se percebe como criador, perde a sua divindade pois não se percebe mais como criador. Seu objetivo é apenas conseguir o dinheiro que permita a sua sobrevivência. Como não se percebe mais como criador, aliena-se de si próprio.

Pensando no papel do trabalho como integrador do ser humano, unindo o cérebro e as mãos, educadores como Freinet e Ferrer colocam o trabalho na escola, como um instrumento que permite a construção e a consolidação do conhecimento. A criança que limpa a sua sala sabe o esforço que é gasto para limpá-la, tornando-se mais cuidadosa para mantê-la limpa, valorizando o trabalho do pessoal da limpeza. Também será um adulto que será mais independente, pois terá mais cuidado com a organização e limpeza do seu espaço. Não verá na mulher, apenas a faxineira, lavadeira ou cozinheira.

A luta contra o trabalho infantil não pode perder essa perspectiva do trabalho como uma forma de integrar mãos e cérebro, a alegria de perceber-se como criador e produtor de novas coisas e de cultura.

A luta contra o trabalho infantil tem tudo a ver para impedir que a criança se perceba como escravo, como se estivesse vendendo o seu corpo e tendo como único objetivo o dinheiro para se manter ou manter sua família, impedindo-a do acesso à cultura sistematizada que lhe permita o acesso à profissões mais valorizadas.

Já vimos que o conhecimento traz poder de um sobre o outro. Mas também serve como arma de libertação, motivo pelo qual a educação para todos era um dos objetivos da Revolução Francesa e dos iluministas. O conhecimento era a luz que permitiria acabar com a escravidão. O conhecimento permitiu a criação das máquinas que libertaria o homem do trabalho braçal e de jornadas extenuantes, permitindo-lhe o ócio e tempo para reflexão.

Mas a burguesia, ao dominar a antiga aristocracia, para manter o seu privilégio, reservou para si o acesso à escolas de qualidade e, ao povo o ensino profissionalizante, pois ao operário não cabe o mando. A ele cabe apenas a obediência. Esse tem sido um dos temas das últimas campanhas eleitorais.

Mas não só ao pobre lhe cabe os cargos inferiores. Também a mulher sofre restrições e discriminações como se fosse incompetente para cargos superiores.

A vitória de Dilma representa uma vitória contra essa discriminação.

Rui Grilo
ragrilo@terra.com.br

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