(Im) Pietá “Em memória dela” Márcia Denser O casamento de meu pai foi, como diziam os romances do século 19, uma mésalliance. Literalmente, segundo o Aurélio, “um casamento desigual, com pessoa de condição social inferior à sua”: ele fica com a rosa, ela com os louros. Ledíssimo engano. Não é bem assim, até porque uniões desastrosas são mesmo feitas de paradoxos, algo que Thomas Mann, nos Bunddenbrooks (história sobre a decadência de uma família), descreve duma forma deliciosamente sutil: comerciante da aristocracia hamburguesa, o mais velho da linhagem, Gotold, é deserdado ao se casar com “uma loja” – só lendo pra curtir tudo o que o autor quis dizer com isso. Álvaro, meu pai, seria uma mistura de imigrantes alemães – gente vinda de Berlim antes de 1860, urbanos, profissionais liberais, alguns intelectuais, quase todos boêmios (naquele tempo havia muitos boêmios, mas num sentido mundano, chic como o diabo), tipo homens do mundo, também como se definia até meados de 30/40, quando a ca...