terça-feira, junho 14, 2016

Opinião

A primeira mulher

Demétrio Magnoli
A "primeira mulher" candidata à Presidência dos EUA seria uma notícia tão histórica quanto o "primeiro negro" na Casa Branca, com a condição de que o nome dela não fosse Hillary. A verdadeira novidade da campanha eleitoral americana não é uma Clinton, mas um Trump —o Donald. A candidata democrata representa o establishment; o republicano, uma revolta contra o establishment. Desse contraste emana o perigo real de triunfo do Donald.

Hillary mantém o favoritismo, apesar do empate técnico registrado nas últimas sondagens. A demografia milita ao seu lado: Trump enfrenta a rejeição majoritária das mulheres, dos hispânicos e dos negros. O sistema eleitoral joga no campo democrata: nos 11 Estados oscilantes, campos de batalha decisivos, Obama obteve 11 vitórias em 2008 e dez em 2012. Contudo, Trump não é um McCain ou um Romney, expoentes da tradição republicana, mas um tipo diferente de candidato: a imagem do som e da fúria de uma nação profunda, imersa nas águas do rancor.

O Donald invoca sempre o nome de Reagan, sugerindo um falso paralelo: Ronald foi um candidato solar; Donald é um profeta das sombras. Hillary falará dos dilemas do presente, na linguagem política convencional; Trump falará da restauração de uma idade de ouro, na linguagem do salvacionismo populista. "Fazer a América grande novamente": é a "mudança" contra a "permanência", uma fórmula sedutora, empapada pela umidade da crise. O jogo segue regras complexas, desdobrando-se em equações pontilhadas de incógnitas.

O Donald é fruto do colapso de uma tradição. Na sua rebelião contra o centrismo republicano, o Tea Party declarou guerra ao Welfare State e flertou com o nativismo xenófobo da nação branca e protestante. Trump armou seu palanque no meio daquela rebelião, mas a reinventou de modos surpreendentes. Numa ponta, estendeu o discurso nativista às suas consequências extremas, fincando uma bandeira nas terras da intolerância e do racismo: a deportação em massa dos imigrantes ilegais, o banimento dos muçulmanos. Na outra, operando pela negação da negação, jurou conservar o Welfare State e proteger a indústria e os empregos americanos da concorrência estrangeira, fechando as estradas do livre comércio. Hillary enfrenta a força de uma mistura explosiva: ultranacionalismo + populismo.

Atrás do Donald, sopra uma ventania. A crise do sistema político americano expressou-se pela ofensiva do Tea Party sobre as paliçadas do Partido Republicano e, do outro lado, por dois levantes sucessivos no universo do Partido Democrata: o furacão memorável de Obama em 2008 ("Yes, We Can"), e a imprevista tempestade de Sanders nas primárias que se encerram ("Feel the Bernie"). A cidadela de Hillary ruiu sob o impacto do primeiro, mas resistiu ao segundo. Som e fúria: Trump investe suas fichas na soma de todos os levantes, organizando uma "marcha sobre Washington".

O Donald ataca, simultaneamente, pelos flancos direito e esquerdo. As invectivas odientas contra imigrantes e muçulmanos, uma radicalização dos discursos das franjas republicanas, miram a "nação branca". As promessas econômicas populistas e protecionistas, uma importação adaptada das miragens "socialistas" de Sanders, miram a "nação pobre". O solo que sustenta a árvore incongruente de Trump é composto por uma narrativa declinista. No mito do Grande Declínio, ou seja, da erosão do poder, da influência e da prosperidade americanas encontra-se a força persuasiva de sua candidatura. Hillary terçará armas contra um argumento que desconhece os limites habituais da razão.

O Donald é sintoma de uma crise geral dos valores das democracias ocidentais. Na sua candidatura, estão impressos marcadores ideológicos similares aos dos partidos nacionalistas que ameaçam a costura da União Europeia. O destino da "primeira mulher" interessa ao mundo inteiro.

Original aqui

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