sábado, agosto 13, 2011

Concretistas

Geraldo de Barros

Colunistas

Livros, filmes e uma neo-humanidade

Nesses tempos desumanos, ler (ou reler) Malcolm Lowry ou assistir a filmes como Enterrado Vivo implica, não só em atos de coragem, mas em algo como uma espécie de renovação de fé na humanidade

Márcia Denser
O romance À sombra do vulcão (Under the Volcano), do inglês Malcolm Lowry (que virou filme do mesmo nome, dirigido por John Houston, produção de 1984, com Albert Finney, Jacqueline Bisset e Anthony Andrews) é desses livros canônicos, torturantes, definitivos. Algo que nasceu absolutamente perfeito. Como uma rosa ou uma laranja podem ser perfeitas.

Não o comprei, ganhei – aliás, herdei da viúva do escritor Osman Lins, Julieta Godoy Ladeira, morta em 1994. Deu-me precisamente este livro por razões não isentas de malícia – razões, que a ironia e o mau-humor, poderiam considerar moralistas – até porque, na época, eu absolutamente não seria um modelo de sobriedade. E bons modos. Muito ao contrário. Tava mais para “la belle dame sans merci”, a bela criatura lamentável, arranjando uma pá de saias justas sobretudo para os amigos, algo que, aliás, não abandonei de todo, afinal, eu me conheço.Mas amadureci, sinto-me mais vulnerável, quer dizer, fisicamente, na razão inversa da mente, esta bem menos vulnerável – plantada é a expressão correta. Posso não ter certeza de muitas coisas, posso, é claro, não saber de muitíssimas outras, mas sei precisamente o que quero, onde posso chegar e o que não quero. Enfim, conheço meus limites. Mais: a essa altura da vida, começo, mansamente, silenciosamente, a compreender Clarice e sua “Via Crucis do Corpo”.

Voltando ao romance: na essência, é a radiografia mais completa já escrita sobre o alcoólatra e a plena sistematização desta alquimia – quase uma ciência – chamada Alcoolismo. E sem nenhum proselitismo, não obstante a magnitude quase hipnótica da sua poesia. Então, fico pensando que o Osman, tão culto e tudo mais, pela óbvia impossibilidade da leitura deste livro no original, socorreu-se da edição portuguesa (Livros do Brasil – Lisboa, Rua dos Caetanos,22).

Como eu própria, mais tarde, faria com os romances de Faulkner. Por que estou relendo

À sombra do vulcão? Pelo estilo, acima de tudo, a exemplo deste fragmento magistral:

“Meus segredos são daqueles que precisam se manter inviolados. E é por isso que me imagino um explorador que, tendo descoberto uma terra extraordinária, jamais poderá abandoná-la para informar ao mundo sua descoberta, porque essa terra é o Inferno.”

Essa semana assisti, no cabo, Enterrado Vivo (Buried, 2010), produção espanhola dirigida por Rodrigo Cortés, com Ryan Reynolds. Quer dizer, comecei a assistir muito a contragosto e falta do que fazer, pensando, porra, mais um filme com claustrofobia, onde o personagem principal – motorista de caminhão americano trabalhando no Iraque – após um tiroteio, se acha confinado num caixão com um celular egípcio, lanterna falhando e um isqueiro.

Reynolds passa os, sei lá, 90 minutos do filme, tentando pedir socorro, teclando infinitamente para a mulher (que nunca está), operadoras diversas, cujo implacável jargão torna os diálogos filhadaputamente absurdos, a polícia (de Chicago!), o FBI, o Departamento de Estado, seus sequestradores – sim, porque é um sequestro, depois se fica sabendo ­– que pedem cinco milhões de dólares pelo seu resgate; um sujeito chamado significativamente Dan Brenner (clara alusão a L. Paul Bremer III, o enviado da Casa Branca em 2003 que, dentro da Zona Verde, representava o governo dos EUA (1) no Iraque pós-invasão, cujos “erros” político-administrativos no sentido de “privatizar” o mais rápido possível um país já devastado, inauguraram uma nova categoria de crime de guerra (2)) no caso, o chefe duma firma americana local especializada em resgates.

Em essência, o que o filme coloca com precisão claustrofóbica, daí sua eficiência, é que o único ramo de negócios florescente no Iraque atual é a Irak Seqüestros & Resgates Inc. e por uma razão muito simples: no intuito de “apagar o Iraque” e impor uma “democracia de araque” (com o perdão do trocadilho), os norte-americanos dissolveram todas as instituições do país – Estado, governo, exército, sistema de saúde, educação, transportes, saneamento, água, luz, comunicações, indústrias locais, universidades, bibliotecas, etc., tudo.

Literalmente, eles mataram uma nação, até porque, assim como a romana, a Pax Americana não é nada mais que um deserto, pontuado por algum Wall Mart, Big Mac ou Pizza Hut, aqui e ali.

Eis a Grande Revolução Neocon: um Estado oco recheado com batatas Pringles, cultura pop e filmes dublados.

Ainda em Buried, um derradeiro requinte macabro: nos instantes finais, Reynolds recebe uma ligação dos patrões informando-o que acabara de ser despedido por justa causa, pois, contrariando as normas de seu contrato, mantivera ligação amorosa com colega de trabalho (morta simultaneamente em outro sequestro) e, consequentemente, a firma se eximia de qualquer pagamento, compromisso ou ônus decorrente da presente situação (sequestro) do ex-funcionário. Portanto bye-bye, te encontramos no Inferno.

Nesses tempos desumanos, brutais, insensíveis, neo-truculentos, pós-antigos, natimortos, moralóides – essencialmente imorais,  preferencialmente amorais – ler (ou reler) Malcolm Lowry ou assistir a filmes como Buried (este, pelo lado negativo) implica, não só em atos de coragem (literalmente no caso do filme:haja saco), mas em algo como uma espécie de renovação de fé na humanidade.

Que ainda deve existir em alguma parte.

(1)Autoridade Provisória de Coalizão (CPA).
(2) o Capitalismo de Desastre, segundo Naomi Klein.

Publicado originalmente em http://congressoemfoco.uol.com.br/

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Opinião

Educação acadêmica ou profissional?

Claudio de Moura Castro - O Estado de S.Paulo
Os pais reclamam um ensino técnico para os seus filhos. Para muitos, aí está a solução para os problemas do ensino. Mas será mesmo a única?

Há muitas maneiras de adquirir uma profissão. As ocupações manuais qualificadas são atendidas no estilo Senai - que não examinaremos aqui. Outra possibilidade é o ensino técnico, voltado para ocupações com maior densidade de conhecimentos técnicos. Por exemplo, eletrotécnica e robótica. Essa solução é repetida no mundo inteiro, com amplo sucesso.

Mas tudo pode dar errado. O Banco Mundial pregava a inclusão de disciplinas profissionalizantes no ensino médio. Contudo uma pesquisa ampla, encomendada pelo próprio banco, mostrou o equívoco: de tudo o que se fazia em formação profissional, essa solução mista fracassava mais que todas as outras. E parece ser a que está sendo proposta no País.

Em escolas acadêmicas que preparam para o ensino superior, se oferecem também um programa profissionalizante, seu status é mais baixo e os professores, discriminados no ambiente acadêmico. Por essas e outras razões, os ramos profissionais da escola são desprestigiados e o programa acaba como um gueto dentro da escola. Se insistirmos nessa profissionalização aguada do médio, estaremos repetindo os erros do passado.

As escolas técnicas bem-sucedidas têm seu centro de gravidade no mundo do trabalho e nas empresas. Seus currículos acadêmicos podem ser sérios, mas sua alma e seu foco estão na profissão ensinada, não no vestibular. Há bons exemplos brasileiros, principalmente no Senai e na Fundação Paula Souza (SP).

Há, porém, alternativas de preparar mão de obra para profissões de menor densidade técnica. Desde sempre, as pessoas aprendem fazendo. Automação dificilmente se aprende espiando quem sabe. Mas há centenas de ocupações exigindo menos bagagem técnica ou teórica prévia. Portanto, podem ser aprendidas em cursos mais curtos ou ao longo da vida profissional, ainda que mais lentamente. Mas entra aí um fator crítico, que é a qualidade da base educacional. Se é muito fraca, estamos mal. O profissional termina capenga no lado da teoria.

A solução pode estar mais perto do que se pensa. Trata-se de repensar a velha e maltratada "escola acadêmica".

Nossa educação acadêmica está extraordinariamente distante do mundo real e de aplicações práticas do que é aprendido, o que quer que seja. O currículo não se transforma em habilidades que podem ser usadas pela vida afora, mas sim na memorização de fatos, datas e fórmulas que para nada servem. Isso é agravado pelo excesso de disciplinas que a escola tenta ensinar, com pífios resultados. Ainda pior, não há diversificação, pois todos dão as mesmas disciplinas, gostem ou não. Se uns querem ir para o mercado e outros para o vestibular, por que uma passarela única?

Consertar essa escola é um caminho pouco explorado e de grande potencial. Por que as escolas precisam ser tão enfadonhas? Por que os currículos não podem ser mais curtos, mais simples e focalizando o que cada perfil de aluno precisa para crescer na vida e na profissão futura?

Não se trata de ensinar "conhecimentos práticos" (sem teoria), como plantar uma horta ou arquivar correspondência. Já se disse: não há nada mais prático do que uma teoria. Trata-se de aprender a teoria mediante sua aplicação na prática. Por exemplo, aprender matemática lidando com os problemas de números que encontramos na nossa vida. Que tal aprender a medir, a ler gráficos e tabelas, a interpretar desenhos técnicos? Ou entender o que está no papel e redigir corretamente? É melhor do que ouvir falar da lei de Pouillet, de Kirchhoff, do teorema de Binet, de D"Alembert, ou do plano de Argand-Gauss, contidos em livros do ensino médio. Impossível aprender isso tudo no tempo disponível.

Na realidade, trata-se de dedicar tempo a aprender algumas poucas ideias mediante aplicações, exercícios e projetos próximos da vida dos alunos e das ocupações que podem almejar. O objetivo é usar a prática para aprender a teoria. Obviamente, alguns alunos querem estudar engenharia ou medicina. Mas com a pletora de conteúdos, a maioria consegue apenas decorar as fórmulas. Isso não serve para nada, pois o que está por trás delas não foi realmente aprendido. Não que esses alunos sejam incapazes de aprender tais teorias, mas dado o tempo disponível isso não é viável.

Todos os países sérios oferecem currículos ou escolas diferenciadas, de forma a se adequarem aos interesses e ao equipamento intelectual dos alunos que chegam. É pura hipocrisia acreditar que todos cheguem ao ensino médio equipados para lidar com níveis de abstração em assuntos que em muitos países avançados são ensinados somente nos cursos superiores. Ou que todos tenham os mesmos interesses.

Como seria uma tal escola, forte em teoria, justamente porque insiste na sua aplicação prática? Dado o espaço aqui disponível, tomemos apenas um exemplo real mostrando a direção proposta. A Espanha desenvolveu um projeto chamado Aula Galileu (adotado no Uruguai). Para esse programa a escola dispõe de uma oficina multidisciplinar: madeira, metal, eletrônica, informática. O objetivo não é virar carpinteiro ou eletricista, mas preparar pequenos projetos individuais (ou de grupos). Depois de redigido o projeto, os alunos passam para a bancada, construindo o que planejaram. As atividades manuais fundem-se com os conteúdos do currículo acadêmico. Por exemplo, a construção de um medidor de continuidade mescla teoria de circuitos elétricos com sua construção. Ao fim, os alunos preparam um manual de uso, em inglês!

A escola continua acadêmica, não vira profissional. Mas ilustra a direção para um verdadeiro programa acadêmico, não o pastiche que oferecemos.

DOUTOR E ECONOMIA, É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

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Manchetes do dia

Sábado, 13 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"'É pro governo, joga o valor vezes três', diz foragido"

Escuta da PF mostra empresário ligado ao Turismo orientando seu interlocutor a superfaturar contratos
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Conversas telefônicas interceptadas pela PF mostram suspeitos de desviar recursos do Ministério do Turismo discutindo como superfaturar e até falsificar documentos em licitações. “Superfaturamento sempre existiu”, conta o empresário Humberto Silva Gomes. Agora foragido, ele relata ao interlocutor que em Brasília corre a máxima: “Ah, é pro governo, joga o valor pra três, tudo vezes três”. Em outro diálogo, Sandro Saad, diretor do Ibrasi, pergunta se irão “falsificar os outros [concorrentes] ou tentar compor o jogo?”.

O Estado de São Paulo
"Juíza é assassinada no Rio; outros 69 estão ameaçados"

Linha dura contra milícias, Patrícia Acioli levou 21 tiros; magistrados reclamam de insegurança em todo o País

Uma juíza foi assassinada ontem com 21 tiros ao ser cercada em seu carro, quando chegava em casa, em Niterói (RJ). Patrícia Lourival Acioli, de 47 anos, era conhecida por atuar de forma rigorosa contra policiais envolvidos com milícias, grupos de extermínio e máfias de vans, combustível e caça-níquel, além de traficantes e bicheiros. O caso expôs a insegurança de juízes que lidam com o crime organizado –uma lista da Corregedoria Nacional de Justiça relaciona 69 magistrados sob risco no País. Patrícia contou com escolta policial entre 2002 e 2007, mas, quando soube que a proteção seria reduzida a apenas um PM, irritou-se e preferiu abrir mão dela. “Não há segurança nenhuma”, disse o juiz titular da lª Vara Criminal do Rio, Fábio Uchôa. Na Bahia, os magistrados temem ser mortos dentro do próprio tribunal.

sexta-feira, agosto 12, 2011

Arte

McSorley’s Bar por John Sloan (1912)

Coluna do Celsinho

Dando gás

Celso de Almeida Jr.
Na semana passada, uma audiência pública em Ilhabela acompanhou a apresentação do estudo e do relatório de impacto ambiental dos projetos de produção e escoamento de petróleo e gás natural no pólo pré-sal da bacia de Santos, encaminhados para licenciamento junto ao Ibama.

Dentre as piadas, Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião não foram citadas no estudo e no relatório, o que motivou a comitiva de Caraguatatuba a levar “três fantasmas”, com lençóis apresentando os nomes dos municípios “excluídos”.

Outra pérola foi a justificativa da Petrobrás para o uso do aeroporto de Itanhaém como base para a saída e chegada de helicópteros das plataformas.

De acordo com o gerente setorial de meio ambiente da unidade operacional da bacia de Santos, foi feito um estudo no município de Ubatuba, mas as condições meteorológicas não foram consideradas adequadas. “As aeronaves precisam pousar ou decolar e não podem ficar reféns do mau tempo”, destacou.
Só por curiosidade, eu gostaria que ele me informasse o grau de tecnologia destes helicópteros e, também, se as super máquinas que têm pousado no Aeroporto Gastão Madeira prestam serviços para a Petrobrás, ou não.

Estes e outros acontecimentos reforçam a necessidade das cidades do litoral norte manter a união na defesa de seus interesses.
A boa notícia é que entidades como a Amprogás; o Comitê de Bacias Hidrográficas do Litoral Norte, além de políticos e diversos representantes da sociedade organizada estão questionando os estudos apresentados.

Como bem disse o coordenador geral de petróleo e gás do Ibama, Cristiano Vilardo, que mediou a audiência pública, o encontro foi a primeira etapa da fase de licenciamento do empreendimento, ressaltando: “É possível alterar a área de influência, mas o Ibama não tem interferência nenhuma sobre os royalties neste sentido. Esta é uma competência da ANP (Agência Nacional de Petróleo) e é em um outro momento, com outros critérios, que a partilha é definida”.

Assim, é fundamental manter uma força tarefa competente para lutar por benefícios e conquistas para Ubatuba e região. Estamos numa disputa feroz por espaços e recursos. Exigir do estado, por exemplo, o mesmo tratamento que está sendo dado para o aeroporto de Itanhaém é um bom começo.

É necessário, portanto, utilizar toda a influência possível, das diversas correntes políticas ubatubenses, buscando colher bons frutos para a cidade.

A hora é agora e trata-se de briga que exige planejamento, determinação, profissionalismo e espírito público, minimizando diferenças políticas e interesses partidários ou eleitorais.

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Opinião

Na mesa do Planalto, questões inquietantes

Washington Novaes - O Estado de S.Paulo
Começa a aglomerar-se sobre a mesa da Presidência da República um complexo de problemas e equações econômicas, políticas e estratégicas - em muitos casos, contraditórias entre elas - de dificílima solução. E que lançam muitas perguntas sobre o futuro próximo e até de prazo maior.

O primeiro ponto parece estar na dificuldade de manter a aliança político-partidária que tem assegurado a permanência do esquema de poder do partido majoritário e o "aparelhamento" que o acompanha. Desde a campanha presidencial de 2002 - quando entendeu a ameaça que representava para sua candidatura a insatisfação dos setores e instituições internos e externos descontentes com as propostas de política econômica - a coalizão partidária liderada pelo PT definiu uma estratégia de política econômica da qual viria a ser o garantidor o ex-ministro Antônio Palocci. No quadro institucional interno, consolidou-se uma aliança multipartidária, com a repartição dos cargos de mais alto nível. E tudo isso permitiu levar adiante o barco durante oito anos.

Mas agora surgem muitos complicadores. O primeiro é a necessidade de "expurgar" o governo de aliados - ou até mesmo de membros exponenciais do partido dominante, como Palocci - por causa das acusações de improbidade. Como fazer isso sem romper alianças? Tem-se recorrido muito à mediação do ex-presidente - mas aí se esbarra em outra questão: como manter a imagem de uma presidente com pensamento, voz e ação próprios, ainda mais no quadro político brasileiro, em que a regra costuma ser a ruptura entre o eleito (em busca de autonomia e imagem próprias) e aquele que o escolheu para lhe suceder? Nesse quadro de difícil equilíbrio, como manter a maioria no Legislativo e assegurar a predominância política?

Tudo isso ocorre numa conjuntura político-econômica internacional que complica todo o panorama. As questões colocadas pela crise financeira global configuram outra equação inquietante. Reduzem-se impostos para assegurar a manutenção dos mercados interno e externo a vários setores (automobilístico, têxtil, calçados, móveis, etc.). E imediatamente saltam sobre a mesa muitas perguntas: vai-se continuar estimulando o transporte individual, em detrimento do coletivo, com todos os problemas e contradições que isso implica? E ainda sabendo que de janeiro a julho já foram vendidos 2,017 milhões de veículos e que 457,3 mil deles foram importados? Vai-se estimular mais poluição do ar (e mais problemas de saúde), mais adensamento do trânsito nas grandes cidades, mais necessidade de investimentos em infraestruturas viárias? Vai-se abrir mão de parcela importante da arrecadação de impostos no momento em que setores vitais como saúde, educação e ciência vivem à míngua? Vão-se dar mais argumentos a países, principalmente europeus, que veem nessas políticas subsídios a exportações brasileiras (de produtos industrializados e commodities agrícolas), vedados por convênios internacionais? Vai-se dar corda aos já presentes defensores de "cortes na Previdência" - sem cortar onde é preciso, e sim nos proventos de aposentados do setor privado? E que se fará com a política de juros, que, por manter a mais alta taxa real no mundo, transforma o País em refúgio de aplicações financeiras especulativas externas, com consequências complicadas no câmbio, na inflação, em tudo?

Mais ainda: e tudo se fará sem mexer realmente em nós fundamentais do comércio internacional, sem criar na proporção indispensável estímulos para a inovação, já que só 4,2% das empresas que inovam conseguem apoio público (Glauco Arbix e João Alberto Negri, Folha de S.Paulo, 4/8)? E sem benefícios diretos para o consumidor interno, pois mesmo com as isenções de impostos adotadas os preços por aqui não serão atingidos. E até montadoras de outros países se preparam para se virem beneficiar das novas condições internas.

Talvez, entretanto, o mais grave seja perceber que nesta hora grave não se percebem movimentos em direção a estratégias consentâneas com a conjuntura mundial. Já não há como fazer de conta que a crise não tem nada que ver com o "descolamento" entre os mercados financeiros e a realidade concreta. Pouco a pouco, muitos analistas vão chegando à questão central: como manter equilíbrio, se a movimentação nos mercados financeiros chega a US$ 600 trilhões e o produto mundial está em torno de US$ 62 bilhões, um décimo daquele valor? Que garantias reais podem ter os papéis? Que fazer quando, em determinado momento, o equilíbrio aparente se rompe - como foi o caso de hipotecas de imóveis nos Estados Unidos, com suposto valor de mercado muitas vezes acima das garantias reais - e começa a arrastar para o despenhadeiro papel atrás de papel, país atrás de país?

Nesta hora, um país como o Brasil, com a relativa abundância de fatores concretos - território, recursos hídricos, biodiversidade, possibilidade de matriz energética renovável e "limpa" -, detém enorme vantagem comparativa, que, cedo ou tarde, pesará fortemente no quadro mundial. Mas neste mesmo momento se vê que o próprio Ministério de Minas e Energia tem de intervir para anular decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de reduzir a meta de produção de energia renovável no País (Folha de S.Paulo, 4/8). Era um órgão da própria cúpula caminhando contra o bom senso.

Tão grave quanto é tomar conhecimento de que o desmatamento na Amazônia continua a crescer e não ficará, neste novo período, em números menores que o dos 12 meses anteriores - e isso significa aumento das emissões brasileiras de gases que prejudicam o clima, pois desmatamento, queimadas e mudanças no uso do solo significam quase 60% das nossas emissões totais (e estamos entre os cinco maiores emissores do planeta).

O quadro sobre a mesa presidencial é muito inquietante. Resta ver que desdobramentos terá.

JORNALISTA
E-MAIL: WLRNOVAES@UOL.COM.BR

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 12 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Dilma congelará em 2012 os gastos não obrigatórios"

De novo, a crise - Governo pretende deixar cerca de 25% do Orçamento do ano que vem sem correção pela inflação
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O governo Dilma Rousseff decidiu congelar a maior parte dos gastos obrigatórios no projeto de Orçamento para 2012. A determinação, reforçada pelo temor de efeitos da crise internacional, se refere à parcela de despesas em que o governo pode mexer livremente. Ações não obrigatórias mas consideradas prioritárias, como a plano de combate à pobreza extrema, o PAC e iniciativas como bolsas de estudo para jovens no exterior, serão poupadas.

O Estado de São Paulo
"Deputada do PMDB recebeu dinheiro desviado do Turismo"

Em depoimento à Polícia Federal e reiterado à reportagem do 'Estado', integrante do esquema aponta Fátima Pelaes (PMDB-AP) como beneficiária da fraude

Depoimentos de integrantes do esquema de desvio de dinheiro público do Ministério do Turismo por meio de ONGs de fachada apontam a deputada federal Fátima Pelaes (PMDB-AP) como beneficiária da fraude. Quatro envolvidos no caso disseram à Polícia Federal que ela recebeu parte dos recursos desviados pela quadrilha em convênios da pasta. A deputada é a autora das emendas que deram origem aos contratos sob suspeita. O Estado teve acesso aos depoimentos, revelados ontem com exclusividade pelo portal estadão.com.br. Um dos depoentes, Errolflynn de Souza Paixão, reiterou à reportagem a versão dada à polícia de que a deputada teria montado uma estrutura no Amapá para levar recursos públicos para sua campanha à reeleição no ano passado. A Operação Voucher, da PF, prendeu 35 pessoas na terça-feira.

quinta-feira, agosto 11, 2011

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Opinião

O Brasil e a crise: estresse, não catástrofe

José Serra - O Estado de S.Paulo
Não é possível prever a extensão e a profundidade do mergulho das economias da Europa e dos EUA, mas se pode esperar, no mínimo, uma estressante instabilidade financeira, ao lado da inflexão para baixo no crescimento da economia mundial.

No caso dos EUA, o impasse político sobre os limites do endividamento público ocorreu quando a economia apresentava sinais de fraqueza. A política monetária frouxa e a desvalorização do dólar nos últimos anos mostraram-se incapazes de reativar a demanda e o crescimento de maneira sustentada.

Paralelamente, o governo Obama não conseguiu promover uma expansão do gasto público que tivesse efeitos multiplicadores poderosos sobre os investimentos e o emprego, como num modelo keynesiano básico. O aumento do déficit e da dívida desde 2008 resultou em grande medida da absorção da dívida do setor privado. Agora, a simples perspectiva de cortes (suaves) naquele gasto piorou as expectativas em todo o mundo. Note-se que a guerra política no Congresso vai piorar até o fim do ano eleitoral de 2012.

Na Europa a crise é pior que nos EUA e diretamente proporcional às vicissitudes causadas pela implantação da moeda comum. A política monetária tornou-se única, nas mãos do Banco Central Europeu (BCE). No entanto, a mobilidade de capital e trabalho na área é baixa, o que exigiria um grande orçamento (ou fundo de estabilidade) para amortecer os possíveis choques assimétricos nos países-membros. Mas a política fiscal (impostos, gastos e dívida pública) não foi unificada e continuou sendo um assunto de cada país. O orçamento da União Europeia é relativamente irrisório - pouco mais de 1% do PIB. No Brasil, que é uma federação, a União detém mais de 20%. Na federação americana, a Califórnia representa um sexo do PIB, mas a falência financeira do Estado não trouxe grandes abalos ao país. A Grécia tem cerca de 2% do PIB europeu, mas seu colapso financeiro teve um quase efeito dominó no Velho Mundo.

A política monetária única, em si, também produziu distorções. Um exemplo? Até a crise financeira mundial de 2008 a Espanha vinha crescendo depressa, com inflação mais alta do que a média europeia e taxa real de juros próxima a zero. Era preciso elevar essa taxa, mas o BCE a manteve abaixo do necessário para estabilizar a economia espanhola e superior à de que necessitavam as economias alemã, francesa e italiana (dois terços do PIB da região), que cresciam mais lentamente. O dinheiro barato favoreceu a formação da bolha de crédito na Espanha, fator que levou o país à linha de frente da desconfiança dos credores.

Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come: largar o euro provocaria hiperinflação na Grécia e violenta deflação na Alemanha. Criar os Estados Unidos da Europa é impossível a médio prazo. Assim, entre os dois extremos - abandonar a moeda comum ou virar uma verdadeira federação -, os países dominantes vão preferir o meio do caminho, fórmula pouco segura para acabar com a instabilidade, mas que poderá servir à prioridade, a curto prazo, de evitar que a "crise" da dívida dos países-membros contagie diretamente o sistema financeiro europeu.

E o Brasil? Sua economia, nos últimos anos, exibiu um crescimento dentro da média da América Latina, abaixo da Ásia e acima dos centros desenvolvidos. Isso foi conseguido graças ao excepcional desempenho das exportações de matérias-primas e alimentos, na quantidade e, principalmente, nos preços. Nunca antes na História deste país os preços das exportações brasileiras cresceram tanto durante um período tão prolongado.

O estilo de desenvolvimento brasileiro tem combinado aspectos curiosos. O sistema financeiro privado é relativamente sólido. A taxa de juros é a mais alta do mundo, não obstante os riscos de crédito e câmbio terem declinado. A enorme diferença entre os juros domésticos e os internacionais apreciou a taxa de câmbio como em nenhum outro país, prejudicando as exportações de manufaturados e favorecendo suas importações. A carga tributária é a maior dos países emergentes, mas a poupança governamental é baixa. A taxa de investimentos é pequena em razão dessa reduzida poupança e da falta de oportunidades (rentáveis) de investimentos do setor privado, principalmente na indústria. O consumo expandiu-se a um ritmo bem superior ao do PIB. Há uma marcha forçada de desindustrialização em razão do câmbio e da carga tributária. O saldo da balança comercial tem caído, apesar do boom de preços, e o déficit em conta corrente cresceu rapidamente, juntamente com o passivo externo do País. Por causa dos juros muito altos e do real supervalorizado, vão se multiplicando os subsídios fiscais ao setor privado, sem planejamento nem controle da eficácia. Em suma, trata-se de um "modelo" de crescimento que não é sustentável por muito tempo, embora a curto prazo exiba indicadores razoáveis de emprego, renda e consumo, além de bons negócios nas áreas financeira e de commodities.

Os atuais transtornos das economias no norte vão estressar esse modelo, mas não necessariamente se afigurarão catastróficos para a economia brasileira. Tanto quanto é possível prever, pode haver retração, mas não colapso, numa variável-chave, que são os preços das commodities, indexados ao dólar. O compromisso do Federal Reserve de manter a taxa de juros no chão por mais dois anos manterá o dólar fraco. O imenso diferencial de juros continuará atraindo dólares e pressionando o valor do real para cima, talvez com mais força, em razão do encolhimento adicional de oportunidades nas economias centrais. A agressividade dos países exportadores de manufaturados deve tornar-se mais feroz ainda, competindo com as exportações brasileiras e assediando nosso mercado interno. Em suma, haverá manutenção ou reforço de algumas das condições do estilo de desenvolvimento acima esboçado - para mim, frágil - num contexto de menor dinamismo do crescimento.

EX-PREFEITO E EX-GOVERNADOR DE SÃO PAULO

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 11 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Bancos da França e dos EUA levam Bolsas para baixo"

De novo, a crise: Rumores de rebaixamento da nota de crédito de títulos franceses contaminam os mercados
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Um dia depois de apresentar recuperação, as Bolsas voltaram a cair fortemente ontem. Desta vez, a preocupação dos investidores era com a França. O Société Générale, muito exposto aos títulos da Grécia e da Itália, fez a Bolsa de Paris despencar 5,45%.

O Estado de São Paulo
"Cúpula do Turismo deu aval a fraude em convênios"

Gravação mostra também que secretário executivo orientou empresário a montar instituto de fachada

Uma gravação telefônica da operação da Polícia Federal no Turismo mostra o secretário executivo do ministério, Frederico Silva Costa, orientando um empresário a montar entidade de fachada para assinar convênio com o governo federal e liberar dinheiro, informa o repórter Leandro Colon. Frederico foi um dos presos na terça-feira sob a acusação de envolvimento em esquema fraudulento no ministério. O relatório do Ministério Público, que atuou em conjunto com a PF, mostra que a cúpula do Turismo avalizava as prestações de contas fraudadas entregues pelas entidades de fachada que faziam convênios. O Tribunal de Contas da União bloqueou novos pagamentos à entidade protagonista do escândalo no Turismo.

quarta-feira, agosto 10, 2011

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Opinião

O novo PT de sempre

O Estado de S.Paulo - Editorial
"O PT sempre foi muito cioso na defesa da aplicação correta dos recursos públicos e do combate à corrupção." Essa afirmação do presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, deputado Ruy Falcão, em declarações à TV Estadão, é um espanto. Na entrevista concedida para dar conta das decisões da reunião do diretório nacional do partido realizada no último dia 5 no Rio de Janeiro, a frase de efeito de Falcão é coerente com o discurso que vem sendo feito pelos petistas desde a fundação do partido, há mais de 30 anos. E foi com esse discurso que o lulopetismo chegou ao poder em 2002. Mas a realidade que transparece depois de dois mandatos presidenciais consecutivos, e se apresenta hoje como uma verdadeira herança maldita para a presidente Dilma Rousseff, é que o PT no poder, em nome de uma capciosa governabilidade, rebaixou ao nível do mais baixo fisiologismo o jogo político e a arquitetura do arco de alianças que desde a ascensão de Lula dá apoio ao governo.

O resultado está, diariamente, no noticiário: uma sucessão sem fim de denúncias de corrupção nos mais altos escalões da máquina administrativa e uma inevitável "faxina" que, pelo andar da carruagem, não poderá ficar restrita ao Ministério dos Transportes. A afirmação de Ruy Falcão é, portanto, apenas retórica. O mesmo tom, aliás, permeia todo o documento do diretório nacional do PT, numa clara tentativa de resgatar a imagem de partido "ideológico" que se dissipou ao longo de dois mandatos presidenciais marcados pelo pragmatismo nas alianças políticas. Como no plano nacional a situação política é delicada, o documento preferiu dar ênfase às questões internacionais. Sob o título geral O Brasil frente à crise atual do capitalismo: novos desafios, a primeira parte do documento se dedica a questões menos incômodas do que as sucessivas crises que o governo petista tem enfrentado. "A crise internacional - que é o subtítulo dessa primeira parte - está associada ao ideário e ao programa neoliberal", cujos defensores são "setores da oposição, da mídia e dos setores do grande capital, especialmente o financeiro".

Nenhuma referência, é claro, ao fato de toda a política econômico da administração petista ter-se baseado nos mesmos fundamentos "neoliberais" que promoveram o fim da inflação e a estabilidade econômica nos governos Itamar e FHC. O foco, com o maniqueísmo de sempre, está no combate ao Mal, com extrapolações que desviam as atenções para bem longe da realidade brasileira: "O PT expressa sua solidariedade aos jovens, aos trabalhadores, aos migrantes e a todos os setores que combatem o neoliberalismo e repudia o nacionalismo de extrema direita, que mostrou sua verdadeira face no atentado ocorrido recentemente na Noruega".

Em sua segunda parte, o documento petista desembarca, finalmente, no País. E, desde logo, deixa claro a que vem: "O programa de desenvolvimento do País levado a efeito pelo governo Lula projetou o Brasil no mundo, na medida em que se constituiu em alternativa efetiva às políticas neoliberais". E vai em frente mencionando as medidas "necessárias à ampliação das condições de financiamento do Estado"; diz que "parte do processo de democratização do Estado brasileiro depende, em grande medida, da realização da Reforma Política" - que não detalha - e sinaliza que o "controle social" da mídia ainda é meta a ser atingida: "Vem aí, neste segundo semestre, o debate sobre o novo marco regulatório dos meios de comunicação. Para o PT e para os movimentos sociais, a democratização dos meios de comunicação no País é tema relevante e um objetivo comum com os esforços de elaboração do governo Lula e os resultados da I Conferência Nacional de Comunicação".

Finalmente, nas duas últimas de suas 201 linhas, o documento faz rápida menção aos escândalos de corrupção que o governo petista enfrenta no momento: "O Diretório Nacional do PT manifesta, por fim, seu apoio às medidas que o governo Dilma - dando continuidade ao que fazia o governo Lula - adota contra a corrupção". E basta.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 10 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Devassa no Turismo leva PF a prender 35 pessoas"

Desvio teria sido de R$ 3 mi; não há prova contra ex-secretário-executivo, diz defesa
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A Policia Federal prendeu o secretário-executivo do Ministério do Turismo, Frederico Silva da Costa, e mais 34 suspeitos de envolvimento em um esquema que teria resultado no desvio de quase R$ 3 milhões destinados a capacitar pessoal. Entre os detidos, esta Mário Moyses, secretário-executivo na gestão anterior e ex-presidente da Embratur. Ele chegou a pasta em 2007, na gestão da hoje senadora Marta Suplicy (PT-SP), de quem foi assessor na Prefeitura de São Paulo.

O Estado de São Paulo
"PF prende 35 em escândalo no Ministério do Turismo"

Presos incluem o atual secretário executivo, ligado ao PMDB, e um ex-ocupante do cargo, vinculado ao PT

A Operação Voucher da Polícia Federal prendeu até a noite de ontem 35 pessoas vinculadas a um suposto esquema de corrupção no Ministério do Turismo. Entre os detidos estão o atual número dois da pasta, Frederico Silva da Costa, e um ex-ocupante do cargo, Mário Moyses, ligado à senadora Marta Suplicy (PT). A ação aumentou a crise entre PT e PMDB dentro do governo. O Turismo é comandado pelo peemedebista Pedro Novais, mas o contrato investigado foi celebrado na gestão do PT, em 2009. A investigação apontou fraudes e desvios de recursos em um convênio de R$ 4,4 milhões do ministério com uma ONG para suposta capacitação profissional no Amapá. Documentos obtidos pelo Estado revelam o uso de atestados falsos pela entidade para celebrar o contrato e duas emendas parlamentares, de R$ 4 milhões e R$ 5 milhões, da deputada Fátima Pelaes (PMDB-AP) destinando dinheiro para a ONG. Segundo a polícia, parte do dinheiro foi desviada e o objetivo do contrato não saiu do papel. Fátima negou responsabilidade pelo desvio.

terça-feira, agosto 09, 2011

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Opinião

Um velho estilo em ação

O Estado de S.Paulo - Editorial
Quando foram iniciadas, em 2007, as obras de transposição das águas do Rio São Francisco para o semiárido nordestino, Lula previa inaugurar, ainda no seu mandato, o Eixo Leste de um dos dois canais de escoamento, numa extensão de 400 km. Não só o ex-presidente não pôde incluir essa façanha nas suas grandes obras, mas há risco de que nem mesmo a presidente Dilma Rousseff possa dar por concluída essa parte do projeto, o mais caro do PAC. Balanço recente do Ministério da Integração Nacional indica que os primeiros testes do trecho inicial do Eixo Leste só poderão ser realizados nos últimos meses de 2014. Isso se tudo correr de acordo com o cronograma, se as licitações forem realizadas nos prazos previstos, se a licença ambiental for renovada e se não faltarem verbas. Tudo isso faz do projeto de transposição do São Francisco um dos melhores exemplos de falta de planejamento e má gestão de recursos públicos na história recente do País.

A obra está praticamente paralisada. Na última sexta-feira (5/8), a presidente Dilma Rousseff disse que a transposição não está parada, mas admitiu, em seguida, que "algumas parcelas" estão com obras interrompidas. Segundo o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, 5 dos 14 lotes em que a construção foi dividida estão hoje à espera de uma negociação para aumento dos preços dos contratos por meio de aditivos; 2 estão pendentes de licitação e outros 2 estão sendo tocados, mas em ritmo lento. O Ministério elevou agora o custo total da obra para R$ 6,8 bilhões, R$ 1,8 bilhão a mais do que o originalmente previsto, o que não teria ainda passado pelo crivo da alta cúpula do governo.

Apesar do que tanto se fala sobre a necessidade de projetos executivos para obras públicas - isto é, projetos que cumprem todos os requisitos técnicos para sua execução -, a polêmica transposição das águas do São Francisco continua sendo conduzida no estilo tradicional da administração pública brasileira, em cima do joelho.

Ao discriminar os gastos para dar andamento à construção, que seria retomada a partir de setembro, o ministro Bezerra disse que R$ 771 milhões serão destinados a aditivos aos contratos, além de R$ 282 milhões de reajustes de contratos assinados em 2006. A isso se somam R$ 180 milhões para renovação da licença ambiental. O que é muito estranho, uma vez que o governo já desembolsou R$ 170 milhões para licenciamento ambiental.

Ainda assim, os gastos mencionados não perfazem o valor adicional de R$ 1,8 bilhão. A diferença, segundo ainda o Ministério, é contabilizada como um aumento de 20% a 30% do custo previsto para os lotes 5 e 8, ainda não licitados, relativos a estações de bombeamento para o Eixo Norte e à construção de barragens. A explicação é que, como os projetos não foram detalhados, houve erro na projeção de custos. O ministro Fernando Bezerra considera que o aumento de 36% no custo final "é compatível com os reajustes de preços da construção civil", embora não mencione nenhum índice ou estudo em abono de sua afirmação.

Na realidade, tem-se a impressão de que a obra de transposição do São Francisco vai começar de novo, embora o governo já tenha gastado R$ 2,4 bilhões em sua construção e já tenha comprometido mais R$ 1,3 bilhão. Como estudos técnicos têm demonstrado, o custo original excedia em muito os benefícios do projeto, que, se e quando for concluído, beneficiará apenas 5% do semiárido. Mas mesmo os opositores da transposição consideram que as obras já avançaram a tal ponto que seria um desperdício não lhes dar continuidade. E, pelas pressões políticas que a iniciativa desencadearia, o redimensionamento do projeto também está fora de discussão.

De qualquer forma, espera-se que o governo, que diz lutar para introduzir no setor público padrões de gestão comparáveis aos da iniciativa privada, incumba um grupo de técnicos de reexaminar os custos do projeto de transposição do Rio São Francisco, tratando as estimativas do Ministério da Integração Nacional apenas como referência.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 09 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Investidor foge para papéis dos EUA e derruba Bolsas"

De novo, a crise: Sempre fomos e seremos nação AAA, diz Obama; Bovespa despenca
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Apesar do rebaixamento da nota de risco dos EUA pela agência de risco Standard & Poor's, investidores buscaram refúgio nos títulos do Tesouro americano. A fuga de capital das Bolsas derrubou índices pelo mundo. A Bovespa caiu 8,08%, e o dólar subiu para R$ l,61. O Dow Jones teve queda de 5,6%, a mais expressiva desde 2008. Em reação ao rebaixamento da nota dos EUA, Barack Obama disse que o país ainda é um investimento seguro. "Sempre fomos e seremos nação AAA".

O Estado de São Paulo
"Bolsas repetem queda de 2008 e Brasil promete aperto fiscal"

Mercado global desaba após rebaixamento da nota dos EUA - Crescem dúvidas de investidores sobre capacidade das nações ricas de pagar suas dívidas - Mantega diz que País não está imune à crise e fala em 'uma surpresa fiscal a cada mês'

O mercado global viveu ontem o dia mais turbulento desde o auge da crise que eclodiu em setembro de 2008. A queda foi generalizada, com exceção dos títulos do Tesouro dos EUA e do ouro. O motivo imediato foi o rebaixamento da nota dos EUA pela agência de classificação de risco Standard & Poor's, na sexta-feira à noite. O ministro Guido Mantega (Fazenda) afirmou que "o Brasil está preparado, mas não está imune à crise". Ele disse que o governo vai apertar as contas públicas: “Prometo a cada mês uma surpresa fiscal". O foco do problema é a dúvida dos investidores sobre a capacidade dos países ricos de honrar dívidas. Em alguns casos (Espanha, Grécia, Portugal e Itália), a desconfiança aparece já no curto prazo. Em outros, o temor está no médio e no longo prazo, como nos EUA e na França.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Renoir


Para ler e refletir...

"Sexo e poder: A face erótica da dominação"!
                                  
Guido Mantega, Cadernos do Presente 3, editora brasiliense.
"Para W. Reich, a repressão da sexualidade está a serviço das sociedades autoritárias. Foucault sustenta que o capitalismo avançado espalha o sexo e aumenta seu poder através dele. Enfim, alude-se a uma faceta do poder que não costuma ser abordada nos manuais de ciência política. Trata-se de um poder invisível, subterrâneo, que age na penumbra, e pode ser tão eficiente quanto a polícia ou as instituições judiciárias."
                   
"Um orgasmograma (inventado para medir a intensidade do prazer), nem se moveria diante da árdua labuta do camponês, enquanto chegaria rapidamente ao ápice no caso de uma relação sexual. Porém o orgasmo sexual tem vida efêmera, se bem que possa ser prolongado por uma atmosfera que estique as sensações agradáveis. Imagine-se agora uma nova forma de trabalho (diferente do trabalho alienado), escolhida e exercida com gosto. Aí, o orgasmograma poderia acusar uma satisfação menos concentrada, porém muitas vezes mais duradoura."
                  
"Atualmente, boa parte da população é mantida na miséria para ser obrigada a trabalhar e, assim, preservarem-se os interesses do sistema de dominação. Essa carência artificialmente mantida exige que a civilização exerça um grau de repressão sobre os instintos de prazer, perfeitamente dispensável caso o potencial acumulado fosse direcionado para o sustento da humanidade."
                   
"Na verdade, a relação afetiva ou sexual moderna, sofre uma limitação básica que a esteriliza no seu nascedouro. Pois é uma relação exercida por indivíduos fabricados pelo capitalismo, isto é, por homens individualistas, competitivos, egocêntricos, desconfiados dos outros e de si mesmos; e por tudo isso, incapazes de uma comunhão humana solidária. Nessas condições, o ato sexual fica compartimentado; dá-se entre um sujeito e um mero objeto. Nesse contexto, pouco adianta multiplicar as posições sexuais, ou inventar novos jogos amorosos, sem alterar substancialmente a qualidade das relações."
                   
"Então a luta deve dirigir-se não apenas contra o inimigo externo (imperialismo americano, alemão, etc.), como também deve centrar-se sobre o invisível alvo interno, tão perigoso quanto a águia americana. A instauração de uma ordem política mais livre e igualitária deve ser acompanhada pela caça ao autoritarismo em todos os seus redutos. Este deve ser desmascarado enquanto racismo, enquanto restrições sexuais (discriminando relações fora do "matrimônio", o sexo das crianças, o homossexualismo, etc.), machismo, etc." (Do Ex-Blog do Cesar Maia)

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Opinião

Davi e Golias

Fernando Henrique Cardoso - O Estado de S.Paulo
A propósito do atual dilema americano, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que pela primeira vez em muito tempo não havia um abismo tão grande entre poder, economia e sociedade. Pode parecer banal, mas não é: nos Estados Unidos, o "ideal americano" dava solidez a um caminho em comum para o país. Havia tensões, tendências mais progressistas chocavam-se com outras mais conservadoras, o grande business sempre quis controlar mais de perto o governo, os governos ora se inclinavam para atender aos reclamos das maiorias, ora assumiam a cara mais circunspecta de quem ouve as ponderações da ordem, da econômica em primeiro lugar. Mas, bem ou mal, liberdade, democracia, prosperidade e ação pública caminhavam mais ou menos em conjunto.

E agora?, poderia perguntar, perplexa, a secretária de Estado. Agora, digo eu, parece que as classes médias e os mais pobres querem gasto público maior e emprego mais abundante, os conservadores querem ortodoxia fiscal sem aumento de impostos, os muito ricos pouco se incomodam com o gasto social reduzido, desde que a propriedade de cada um continue intocável. No meio de tudo isso, a crise provocada pelo cassino financeiro surgiu como um terremoto. Logo depois veio o marasmo da semiestagnação e, pior ainda, se desenha o que há pouco era impensável, a moratória do país mais rico do mundo! Por trás da peleja econômica corre a outra, mais profunda, a do poder: o Tea Party - os ultrarreacionários do Partido Republicano - levou o governo Obama às cordas. A agenda política, mesmo depois de "resolvida" a questão do endividamento, passou a ser ditada por eles: onde e quanto cortar mais no orçamento de um país que clama por muletas para reavivar a economia.

Na Europa as coisas não andam melhores. Cada solavanco da economia americana aumenta o contágio, essa doença internética: as taxas de juros cobrados dos países ultraendividados vão às nuvens. A rua agita-se, não faltam movimentos dos "Indignados" que veem o povo sofrer as agruras do desemprego e da desesperança e ainda ser cobrado para que as contas se ajustem. E, naturalmente, como nos Estados Unidos, os que mais têm e os que mais especularam ou esbanjaram (inclusive governantes imprevidentes) balançam a poeira e querem dar a volta por cima. Esperam que mais aperto, mais rigidez no gasto público e menos salários resolvam o impasse. Não se estão dando conta de que a cada xis meses uma nova tormenta balança os equilíbrios instáveis alcançados. É como se daqui a 30 anos os historiadores olhassem para trás e dissessem: ah, bom, a Grande Crise dos Derivativos começou em 2007/2008, foi mudando de cara, mas prosseguiu até que novas formas de produzir e de distribuir o poder começaram a dar sinais de vida lá por 2015/2020...

E nós aqui, nesta periferia gloriosa, a quantas andamos? Longe do olho do furacão, cantamos glória pelo que fizemos, pelo que de errado os outros fizeram e pelo que não fizemos, mas, pensamos, pouco importa, o vendaval do mundo varreu a riqueza de uma parte do globo para outra e nos beneficiou. Será que é assim mesmo? Será que a proeza de evitar as ondas do tsunami impede que a malignidade do resto do mundo nos alcance? Tenho minhas dúvidas. Falta-nos, como impuseram os reacionários americanos a Obama, uma agenda, mas que seja nova, e não a desgastada do "clube do chá" americano. A nova agenda existe, está exposta cotidianamente pela mídia e não é propriedade de um partido ou de um governo. Mas onde está a argamassa, como o antigo ideal americano, para conter as divergências, o choque de interesses, e guiar-nos para um patamar mais seguro, mais próspero e mais coeso como nação?

Mal comparando, a presidenta Dilma está aprisionada num dilema do gênero daquele que agarrou Obama. Só que, se no caso americano a crise apareceu como econômica para depois se tornar política, em nosso caso ela surgiu como política, mas poderá tornar-se econômica. Explico-me: a presidenta é herdeira de um Sistema, como dizíamos no período do autoritarismo militar. Este funciona solidificando interesses do grande capital, das estatais, dos fundos de pensão, dos sindicatos e de um conjunto desordenado de atores políticos que passaram a se legitimar como se expressassem um presidencialismo de coalizão no qual se troca governabilidade por favores, cargos e tudo o mais que se junta a isso.

Essa tendência não é nova. Ela se foi constituindo à medida que o capitalismo burocrático (ou de Estado, ou como se queira qualificá-lo) amealhou apoios amplos entre sindicalistas, funcionários e empresários sedentos por contratos e passou a conviver com o capitalismo de mercado, mais competitivo. Na onda do crescimento econômico as acomodações foram-se tornando mais fáceis, tanto entre interesses econômicos quanto políticos (incluindo-se neles os "fisiológicos" e a corrupção). No início parecia fenômeno normal das épocas de prosperidade capitalista, que seria passageiro. Pouco a pouco se foi vendo que era mais do que isso: cada parte do Sistema precisa da outra para funcionar e o próprio Sistema necessita da anuência dos cooptáveis pelas bolsas e por empregos de baixo salários e precisa de símbolos e de voz. Esta veio com o "predestinado": o lulismo anestesiou qualquer crítica não só ao Sistema, mas a suas partes constitutivas.

É neste ponto que o bicho pega. A presidenta é menos leniente com certas práticas condenáveis do Sistema. Entretanto, quando começa a fazer uma faxina, quebram-se as peças da engrenagem toda. Sem leniências e cumplicidades entre as várias partes, como obter apoios para a agenda necessária à modernização do País? E sem ela, como fazer frente à concorrência da China, à relativa desindustrialização, ou melhor, "desprodutividade" da economia, e como arbitrar entre interesses legítimos ou não dos que precisam de mais apoio do governo, advenham eles de setores populares ou empresariais? É cedo para prever o curso dessa história, que apenas começa. Mas não há dúvidas de que para se desfazer da herança recebida será preciso não só "vontade política", como, o que é tão difícil quanto, refazer os sistemas de alianças. É luta para Davis e, no caso, Golias é pai de Davi.

SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 08 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Países do G20 decidem manter títulos dos EUA"

Banco Central Europeu indica que intervirá no mercado para conter crise
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Os países do G20, grupo das 20 maiores economias do planeta, não pretendem desfazer-se de títulos do Tesouro norte-americano, apesar da decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor's de rebaixar a nota desses papéis. Ao menos dois terços da dívida dos EUA com países estrangeiros estão nas mãos do G20, que realizou uma teleconferência de seus ministros da Economia e presidentes de bancos centrais.

O Estado de São Paulo
"BC europeu decide comprar títulos para evitar contágio"

Após reunião de emergência, Banco Central anuncia 'intervenção decisiva' para proteger Itália e Espanha

Em uma manobra de emergência, os Bancos Centrais europeu e de 17 países prometem fazer hoje uma "intervenção decisiva" para proteger Itália e Espanha da turbulência financeira global, informam os correspondentes Andrei Netto e Jamil Chade. O custo para rolar as dívidas italiana e espanhola deve disparar após o rebaixamento das notas de títulos dos Estados Unidos, na sexta-feira - o que aumentou suspeitas sobre a capacidade de países ricos honrarem compromissos. Autoridades que participam de fóruns com o G7 e G20 correram contra o relógio ontem para anunciar medidas antes da abertura das bolsas asiáticas. Além de comprar títulos da Itália e da Espanha, elas pretendem injetar liquidez para evitar uma paralisia de créditos entre bancos comerciais. Para investidores, o anúncio pode ter vindo tarde demais.

domingo, agosto 07, 2011

UFO (cautela!)

Coluna do Mirisola

Dia feio, seco e gelado de céu azul

"Logo na primeira semana da volta a São Paulo, tentaram levar meu celular, e eu bestamente reagi. A parte boa é que botei dois vagabundos para correr, a ruim é que eu acabava de receber boas-vindas"

Marcelo Mirisola
Perdi a conta das vezes que fui embora de São Paulo. Eu sou o cachorro que morde o rabo da cidade, e vice-versa. Quando volto, quero ir embora outra vez para ter a oportunidade de retornar e me queixar das mesmas coisas. O problema é que, dessa vez, “as mesmas coisas” não estavam exatamente nos mesmos lugares.

Aos poucos vou me acostumando a driblar os cadáveres caídos no meio do caminho, como se tivesse apenas lembranças de um tempo paulistano – muito recente – que, além de não existir mais, me subtraiu a empatia. Daí que não sei dizer se essas lembranças são boas ou ruins. A diferença brutal de três anos passados no Rio para o aqui e agora de São Paulo me impede até de ser nostálgico. O que resta é ser objetivo, atravessar ruas e driblar cadáveres.

Vamos lá.  O centro da cidade, lugar que escolhi para morar desde que atravessei pela primeira vez as galerias da 7 de abril (há 20 anos…), deteriorou-se. E muito. Sob vários aspectos. O ar está muito mais seco e poluído, as ruas imundas, muito lixo e merda recente misturada a merda ressecada. Eu fico imaginando o produto dessa mistura, mais o óleo diesel dos ônibus e todas as fumaças da cidade a evaporar junto com aquilo que num tempo remoto chamávamos oxigênio, imagino toda essa poluição fazendo raves sertanejas nos meus pulmões, e olho pro céu: tão azul e bonito quanto fraudulento. Depois de tragar a cidade e seus excrementos, fica difícil acreditar em qualquer forma de vida em São Paulo. Olhos injetados do prefeito, azuis.  E aí atravesso ruas e desvio dos antigos e dos novos cadáveres. Houve uma mutação. Os mendigos – talvez para se defender dos nóias craqueiros – abdicaram da invisibilidade, e agora também fazem parte da paisagem ameaçadora, como se materializassem, de fato, a fumaça que substituiu o horizonte e o ar pesado das ruas.

Quem é que não se compadece da gente que mora nas ruas?  A sensação de impotência, derrota e culpa, de certa forma, deve existir até mesmo para as donas-de-casa que trocaram o ser humano pelos poodles – não é piada: acredito na humanidade que existe apesar dos pet-shops. Acredito numa compaixão involuntária (porque a voluntária só causa prejuízos), algo muito comum, essa compaixão, nos tempos idos em que os mendigos, para o conforto das donas-de-casa que se sentiam culpadas, simplesmente eram invisíveis.

Até isso mudou. Hoje tenho medo dos mendigos. O mesmo medo que tenho dos executivos que almoçam no quilo com o crachá espetado no peito. Em São Paulo, o animal urbano sempre foi mal-encarado e cinzento. Assombrado, quase musgo. A diferença para o Rio é que aqui incorporamos a diferença social pelo ódio, e ninguém faz questão de esconder esse sentimento. Os cariocas ainda não descobriram que se odeiam.

Nós nos odiamos sem nenhuma cerimônia. A feiúra é pré-requisito, dos executivos do quilo e dos mendigos. Aqui se cumprimenta com um beijinho e olhe lá, dizemos mãos ao alto como se fosse bom-dia. Túmulo do samba, altar do Rap, dá para compreender…

Faz uns vinte dias estive na Praça Roosevelt. No lugar do Sebo do Bactéria, encontrei um IML. Vale dizer: reconheci o cadáver da felicidade que viveu comigo naquele lugar no começo dos anos zero-zero. Como é que um lugar pode morrer?

Pensando nisso, entendo meus três anos de solidão no Rio de Janeiro. Lá, a cidade não morre, e as almas penadas – as vivas e as mortas – têm abrigo nas tristezas pretéritas, presentes e futuras. São Paulo brocha até alma penada.

Os garçons do Planeta’s envelheceram. A comida do Estadão virou rancho de quartel. Logo na primeira semana da volta, tentaram levar meu celular, e eu bestamente reagi. A parte boa é que botei dois vagabundos para correr, a ruim é que eu acabava de receber boas-vindas. Talvez esse conjunto de coisas e mais o fato de ter sido escorraçado do bar dos Parlapatões, me conduzam a uma conclusão precipitada. Mas eu já havia chegado a essa conclusão (aliás, a palavra é certeza) antes de ter picado a mula  pela primeira vez – se não me engano foi no ano da graça de em 1986. Eu já sabia de tudo.

Seguinte. Aquilo que chamam de alma, que no meu caso tem lugar para doer e localiza-se entre a boca do estômago e a ponta dos dedos, minha alma – apesar de mim – está espanada no Rio, lá no alto do Morro do Livramento, entre o morros da Conceição e o da Providência. De onde, aliás, tenho uma vista privilegiada da baía de Guanabara e da ponte Rio-Niterói: passaria várias eternidades assistindo engarrafamentos na hora do rush, gosto disso, do mar engarrafado às sete horas da noite. Mas meu corpo, ah, esse que nasceu e nunca se livrou de São Paulo, cidade-inimiga, esse vai sofrer até a última golfada de ar podre e será enterrado por aqui mesmo – num dia feio, seco e gelado de céu azul. 
("publicado originalmente em http://congressoemfoco.uol.com.br")

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Opinião

O Brasil e a turbulência global

O Estado de S.Paulo - Editorial
O Brasil está pronto para enfrentar turbulências mais fortes no mercado internacional, garantem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. Se isso dependesse apenas do otimismo oficial, os brasileiros poderiam ficar tranquilos. Não é hora, no entanto, para relaxar. Se Estados Unidos e Europa afundarem numa segunda recessão, todo o resto do mundo pagará um preço muito alto. O comércio internacional será afetado, a concorrência nos mercados será muito mais dura e, se a economia chinesa perder impulso, os exportadores de produtos básicos, como o Brasil, terão muita dificuldade para faturar com as vendas externas. As empresas terão menos acesso ao financiamento internacional e a disputa pelo crédito interno será mais dura e as pequenas e médias companhias serão prejudicadas, como já foram na crise financeira de 2008-2009.

Mas é justo ressaltar pelo menos um detalhe positivo. Desta vez, nenhuma autoridade teve a imprudência de usar a palavra "marolinha" para descrever a possível consequência de uma piora do quadro internacional.

O Brasil tem a seu favor, para começar, um bom nível de reservas em moeda estrangeira. Entre o fim de julho e o dia 3 de agosto as reservas subiram de US$ 346,1 bilhões para US$ 348,5 bilhões. Se houver uma alteração brusca nos fluxos de capitais, por enquanto favoráveis ao País, será possível enfrentar a nova situação sem grande abalo imediato. Há alguma gordura para ser queimada. Quem defendeu a acumulação de reservas tem esse argumento a seu favor.

Mas há pontos vulneráveis nas contas externas. De janeiro a julho, o valor das exportações - US$ 140,5 bilhões - foi 31,5% maior que o de um ano antes. Mas isso resultou principalmente do aumento das cotações dos produtos básicos e semimanufaturados, classificáveis, de modo geral, como commodities. Os preços da soja foram 31,7% maiores que os de janeiro a julho do ano passado; os do suco de laranja, 69,2%; os do açúcar em bruto, 35,3%; os do minério de ferro, 23,3%; e os dos semimanufaturados de ferro e aço, 23,5%. Estes são apenas alguns exemplos.

Essas cotações dependeram basicamente do vigor econômico de vários países do Extremo Oriente. O Brasil conseguiu na Ásia 29,2% de sua receita comercial. A China, mercado individual mais importante, pagou 17,4% dos dólares faturados pelos exportadores brasileiros.

Se a economia desses países enfraquecer, o Brasil terá dificuldade para aumentar - e talvez para manter - seus ganhos com as vendas ao exterior. Isso dependerá também da evolução do câmbio. A situação ficará um pouco melhor se o dólar se valorizar, mas é arriscado apostar nisso. Se o Federal Reserve, o banco central americano, voltar a emitir grandes volumes de moeda para estimular a economia, o dólar voltará a inundar os mercados e seu valor tenderá a cair, prejudicando a indústria de vários países, incluída a brasileira.

Se a economia mundial se enfraquecer e o governo brasileiro insistir em estimular a demanda interna, o mercado continuará muito dependente da importação de artigos de consumo e de bens intermediários destinados à fabricação de produtos finais. A situação das contas externas ficará mais precária.

Ao mesmo tempo, as condições de financiamento poderão tornar-se menos favoráveis. O Brasil deverá chegar ao fim deste ano com um déficit em conta corrente superior a US$ 50 bilhões. Diante da perspectiva de piora do cenário externo, o governo deveria dar mais atenção a esse ponto. Não se pode esperar nenhum resultado importante do arremedo de política industrial anunciado na terça-feira passada.

No plano fiscal, o governo terá pouca folga para adotar novas medidas anticíclicas, porque o orçamento, já muito rígido, estará em 2012 mais comprometido com gastos salariais e previdenciários. Além disso, as obras da Copa de 2014 estão atrasadas e será necessário apressar vários projetos para se evitar um vexame. O governo enviará ao Congresso, no fim do mês, a nova proposta orçamentária. Se tiverem juízo, as autoridades tentarão preservar o máximo espaço de manobra para um ano difícil.

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