Opinião

Cheque em branco para Maduro

O ESTADO DE S.PAULO
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, obteve da Assembleia Nacional poderes "especiais" para governar. Com isso, Maduro amplia ainda mais o controle sobre o país em um ano de eleições parlamentares - que, a se confiar nas pesquisas de opinião mais recentes, podem resultar em duro revés para o regime chavista. O cheque em branco dado pelo Congresso permite que Maduro atue como ditador de direito (porque de facto ele já é) num momento crucial para a sobrevivência de seu governo.

É evidente que nada disso aconteceu por acaso, pois a Venezuela há tempos está entregue a um regime de exceção, que se empenha em dar verniz legal a seus atos arbitrários. Tal estado de coisas já deveria ter motivado alguma forma de censura por parte do Mercosul e da Unasul, blocos que a Venezuela integra e que têm entre suas cláusulas fundadoras o respeito às normas democráticas. No entanto, o que se tem observado é que essas entidades - das quais o Brasil deveria ser um líder natural - observam o autoritarismo de Maduro com uma complacência que beira a cumplicidade.

Para justificar o mais recente ataque à ordem democrática venezuelana, Maduro explorou uma decisão do governo dos Estados Unidos de punir sete integrantes do governo venezuelano acusados de corrupção, violações de direitos humanos e envolvimento em atos antidemocráticos. Esses funcionários tiveram seus bens congelados e não podem acessar o sistema financeiro americano.

Ao baixar essa ordem, o presidente americano, Barack Obama, classificou a Venezuela como "ameaça à segurança nacional" dos Estados Unidos. Tal classificação é uma exigência técnica da legislação americana que regula o poder do presidente de impor sanções por decreto a determinados países. Na prática, portanto, não é possível dizer que Obama realmente considere a Venezuela um perigo para a segurança americana.

Mas o momento escolhido pelo presidente dos Estados Unidos para rotular a Venezuela chavista como "ameaça", a fim de castigar alguns funcionários de Maduro, não poderia ter sido mais inconveniente. O gesto permitiu que Maduro, acuado por grave crise econômica e sob real ameaça de perder o controle da Assembleia Nacional, tivesse a chance de virar a mesa e aparecer como vítima do "imperialismo" americano.

Com isso, obteve licença para interferir no processo eleitoral como bem entender, além de manter encarcerados alguns dos principais líderes da oposição e intimidar todos os demais.

Com a pompa de quem se dizia estar pronto para declarar guerra aos Estados Unidos, em meio a salvas de tiros de canhões em homenagem ao falecido caudilho Hugo Chávez, Maduro recebeu de Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional e um dos principais chefes do regime, a "Lei Habilitante Anti-imperialista".

Leis habilitantes estão previstas na Venezuela desde os anos 50 e servem para dar poderes excepcionais ao Executivo em momentos de grande comoção ou crise, mas os chavistas as transformaram em instrumento para legalizar o exercício autoritário do poder.

A "Lei Habilitante Anti-imperialista" autoriza Maduro a editar decretos com força de lei para a defesa dos "direitos de soberania e proteção do povo venezuelano e da ordem constitucional da república". Pode-se dar a esse texto qualquer interpretação, e Maduro deixou claro que o usará para redobrar o vigor de sua ofensiva contra a oposição, apresentada ao público como braço do "imperialismo americano".

A escalada chavista contra uma ameaça exagerada ou mesmo inexistente, criada apenas para justificar a ditadura, foi respaldada vergonhosamente pela Unasul. Em nota, o bloco classifica a ordem executiva de Obama como "ameaça de ingerência à soberania" venezuelana e não reserva uma única palavra que expresse mal-estar com a prisão arbitrária de opositores do regime. Na semana passada, aliás, um deles foi encontrado morto em sua cela.

Original aqui

Twitter

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Acidente no Rio

Opinião