sexta-feira, agosto 28, 2015

Opinião

Fim de semana no Rio

Contardo Calligaris
No fim de semana passado, um casal foi nosso hóspede, em São Conrado, Rio de Janeiro. A secretaria de Estado de Segurança afirma que "no Rio ainda há áreas com guerra"; não sei se São Conrado é uma delas.

Na sexta, às 21h30, o casal foi assaltado na frente da portaria do condomínio. Cenário tradicional: dois caras de moto, um desce e aponta a arma.

No caso, o ladrão pediu a senha dos celulares: meia hora mais tarde, nossos amigos entraram on-line para apagar seus celulares pelo aplicativo de busca (no iCloud) e descobriram que um dos telefones já tinha sido retirado da lista dos aparelhos que eles podiam controlar.

Os seguranças do prédio só intervieram para evitar que outros moradores saíssem na rua naquela hora e fossem também assaltados. Não estranhei: eles não estão armados.

Mas estranhei, sim, que os seguranças não chamassem a polícia –nem na hora, enquanto assistiam a um assalto que durou minutos (pedindo a mochila, escrevendo as senhas dos celulares etc.), nem depois, quando as vítimas entraram no prédio.

O estranhamento continuou ao constatar que nossos amigos, uma vez em casa, não se precipitaram para telefonar para o 190. Aliás, descobri na ocasião que ninguém sabia qual era o número certo: 190? 192? 193? Por que memorizar um número de emergência no qual ninguém confia?

Não sei qual é o tempo de resposta médio nas áreas urbanas do Brasil. Suponho que exista uma meta de tempo para emergências e uma luta para alcançá-la. Com um tempo de resposta maior do que cinco minutos, é melhor comprar uma arma ou sair buzinando com o doente no banco traseiro de seu carro.

Agora, na noite de sexta, a 150 metros do lugar do assalto, havia uma viatura. E há uma delegacia a 300 metros da porta do condomínio. Talvez o problema não seja o tempo de resposta, mas nossa certeza generalizada de que a resposta a um apelo será inadequada ou nula.

Os amigos não ligaram, a portaria do prédio não ligou, eu não liguei: ninguém achou que valesse a pena.

Se eles não precisassem de um boletim de ocorrência para refazer seus documentos, nossos amigos sequer denunciariam o crime no dia seguinte.

Na 11ª DP (Rocinha), nossos amigos souberam que a coisa poderia ter sido pior: houve mortes na área na noite anterior. Também a portaria do prédio nos informou que, às 22h da noite do assalto, os mesmos bandidos estavam no mesmo lugar, assaltando de novo. Se alguém tivesse ligado, isso não aconteceria.

Os amigos quiseram antecipar sua volta a São Paulo. Para remarcar a passagem, a companhia aérea pediu R$ 800 para cada um, apesar de o B.O. atestar que tinham perdido dinheiro e cartões de crédito.

Se eles fossem estrangeiros, sem amigos no Rio, esperariam sua embaixada abrir na segunda? Será que as companhias aéreas não deveriam ter uma política amigável com quem veio visitar a cidade e levou uma arma na cara?

Enfim, no sábado à noite, nossos amigos voltaram para a delegacia (eles precisavam de uma cópia do B.O.). Eu os acompanhei, às 23h30.

A delegacia (24h) estava trancada, fizemos gestos pela porta de vidro, no meio da qual uma mão ensanguentada deixara um rasto sinistro; um policial civil de plantão veio abrir, com a arma enfiada no bolso da calça, bem ao alcance da mão –gentil, mas desconfiado, como alguém que não exclui a possibilidade de um ataque.

No Rio, no primeiro semestre de 2015, o número de mortos por policiais aumentou 22,8%. É muito. No mesmo período, em São Paulo, o número de policiais mortos em serviço aumentou de 9, em 2014, para 11 (quase a mesma percentagem). Também é muito.

Última hora. A 11ª delegacia acaba de contatar nossos amigos, pedindo para eles reconhecerem um dos bandidos.

A milícia, corrupta e violenta, é uma organização criminosa de bandidos de farda. Os exterminadores (como os da recente chacina de Osasco) também são. Esses grupos eternizam o sentimento de que nossa ordem ainda seria administrada pelos jagunços e capangas dos coronéis da colônia.

Seria mais fácil a polícia preencher sua função se confiássemos nela –se conseguíssemos transmitir a nossos jovens e adolescentes a ideia de que, num estado democrático, a polícia não é a que te impede de fumar um baseado ou de fazer festa depois da meia-noite, a polícia é a primeira garantia de tua liberdade, a começar pela liberdade de circular pelas ruas sossegado, pensando na vida.

Original aqui

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