segunda-feira, setembro 14, 2015

Opinião

Os futuros da Europa

Contardo Calligaris
Na imprensa italiana e nas ruas de Veneza, o tema dominante é a massa dos refugiados (já centenas de milhares), que fogem do sul (atravessando o Mediterrâneo ao deus-dará) e do leste (a pé ou escondidos em caminhões e trens). Mesmo mortos, eles batem à porta da Europa.

A Bienal de Veneza deste ano tem por título: "Todos os Futuros do Mundo". As obras parecem abstratas à vista do problema do dia. Claro, elas não foram realizadas hoje, mas a desculpa não vale: a última década é a longa crônica de uma crise anunciada.

Uma das poucas exceções está no pavilhão da Alemanha (justamente, um país generoso com os refugiados): depoimentos de quem vem fugindo há anos, de Eritreia, Sudão, Uganda, Gana, Camarões".

No pavilhão central da Bienal, foi montado um auditório para leituras públicas. Um dos projetos é a leitura de "O Capital", de Marx; outro é a leitura das notas de um fotógrafo libanês, Abdallah Farah, que escrevia o tema das fotos que tirava –no caso, centenas de rolinhos nunca revelados, entre 1997 e 2006. A descrição anotada toma o lugar das imagens, que ainda estão nos filmes, invisíveis. Hoje, das duas leituras, a segunda é a que me tocou mais.

Conversando com vizinhos venezianos que habitualmente execram os imigrantes chineses, haitianos etc., o que surpreende é uma generosidade quase sem reservas.

Ninguém parece recear que, desapercebidos na massa, os próprios carrascos dos refugiados se insinuem na Europa para alistar recrutas ou para exportar sua guerra.

Ninguém pensa que, de qualquer forma, a imigração produzirá também inimigos. Um dia, esquecida a gratidão pelo asilo, alguns filhos dos que chegam hoje serão desterrados: não serão mais sírios, líbios, sudaneses etc., e tampouco serão propriamente europeus.

Nesse dia, sentindo-se excluídos no país que os acolheu, mas os integrou só pela metade (porque não soube como, ou porque eles não quiseram), esses alguns preferirão ser mártires de primeira classe a cidadãos de segunda.

Seja como for, no momento, não há alternativa à generosidade da recepção. Mas é óbvio que a solução da crise está nos países de onde os refugiados fogem. Há poucos casos em que uma ajuda econômica poderia criar condições para que ninguém precisasse fugir da sua casa. E seria mais barato do que pescar cadáveres no Mediterrâneo.

Mas nenhuma ajuda econômica é suficiente quando os refugiados fogem de comunidades nacionais que os perseguem. Nesses casos, que são a maioria, só restaria meter-se nessas sociedades, à força, com intervenções militares.

Aqui, não tenho como não concordar com a coluna de João Pereira Coutinho na Folha de terça (8). Só que tomar partido nunca é simples: os libertadores de hoje geralmente são os opressores de amanhã.

Todos se indignam quando a França ou a Inglaterra não abrigam um número suficiente de refugiados; os mesmos se indignariam, evocando o colonialismo do passado, se soldados franceses ou ingleses colocassem suas botas na Síria, mesmo se a intenção fosse manter o país habitável para os sírios.

Além disso, duvido que o povo inglês ou o francês esteja disposto a encarar uma guerra. Em matéria de generosidade, mandar cobertores, arroz e penicilina é sempre mais fácil do que arriscar a vida dos filhos da gente.

Falando em filhos, não sei se a Europa tem mesmo interesse em ajudar a tornar a África e o Oriente Médio realmente habitáveis. Por quê? Porque a imigração maciça de hoje talvez seja a salvação da Europa.

A população europeia envelhece: daqui a pouco haverá um trabalhador ativo por cada aposentado.

Certo, os refugiados transformarão a Europa, mas ela já se transformou várias vezes ao longo dos séculos. Em compensação, eles podem evitar que o continente se torne um asilo para anciões cuja fatura ninguém conseguiria pagar.

A condição para que os refugiados de hoje salvem a Europa é que eles façam dela sua nova pátria. Alguns dizem que isso não tem chances de acontecer, por conta das diferenças culturais. É o que os romanos deviam pensar dos bárbaros longobardos nos anos 700 d.C.. E Milão é hoje a capital da Lombardia".

Um pouco por experiência, um pouco por ter me debruçado sobre o tema, acredito que a integração num novo país não depende da religião e dos costumes da gente, mas do sonho com o qual a gente chega.

O futuro, em suma, está na resposta à pergunta: o pequeno Aylan, deitado de bruços na linha d'água da praia de Bodrum, com o que ele sonha?

Original aqui

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