sábado, julho 28, 2012

Penso, logo existo...


Coluna do Mirisola

Uma pomba-do-mato decola a partir da copa de um abacateiro

“Quem disse que uma vida não valeu a pena somente porque não deu certo?”

Marcelo Mirisola
A iminência de uma guerra nuclear no Oriente Médio, a partir de Damasco. A Europa – como diz meu amigo Paulinho de Tharso – pronta para virar geléia. O colapso xavecando o quarto cavaleiro que roda bolsinha nas esquinas de Wall Street: já fizeram contato visual, e parece que vai rolar um programinha barra-pesada. Eu aqui, do alto dessa colina sem nenhuma vontade de dichavar listas nem de fazer qualquer tipo de associação, esgotado. Como se Damasco já tivesse ido – a minha foi – pro beleléu. Se tenho algum sentimento autêntico, é a inveja de mim mesmo, ou melhor: invejo aquilo que eu fui quando, na época em que eu era a bola da vez, me sabotei com tanto empenho e selvageria. Os suplementos culturais do país – jornais, revistas, tevês, Gabis & Gabrielas, etc – me acusavam de ser um gênio. Depois de passar a vida sendo tratado como um imbecil, nada mal. Embarquei. Foi bom. Foi ótimo. Só um imbecil ou um gênio de verdade para não vestir a carapuça. Conheci dezenas de pessoas em questão de poucos meses, fiz um milhão de amigos e passei a acreditar que, além de gênio, eu também devia ser um cara legal.

A função precípua de um gênio é realizar desejos. Fui cobrado. E aí descobriram que eu não era nem um gênio nem um imbecil. Me diverti um bocado, e não desperdicei a oportunidade de realizar meus desejos. Zoei demais. Somente sendo um filhodaputa – acredito nisso –, eu não perderia minha alma de uma vez por todas. Hoje estou sozinho. Dei de ombros para a genialidade que não me dizia respeito e, agora, depois de dez anos, percebo que fui muito inocente e ao mesmo tempo muito arrogante: apostei que o talento prevaleceria em detrimento do jogo sujo. Claro não.

Além do jogo sujo, o ramerrame de sempre e, da minha parte, a preguiça de acompanhar a história se repetir ao som de Chitãozinho & Xororó. Francisco de Assis voltou desiludido da Síria, Paulo de Tarso se converteu a caminho de Damasco. Eu sei que a roda do mundo vai girar, talvez gire a partir de uma hecatombe. Se eu fosse um megalômano diria que contribuí significativamente para colocar mais um graveto de lenha nesse reator nuclear, como não é 100% o caso, deponho a favor da vida depois da morte, e acredito na vida antes da morte também. Otimista ? Sei lá, eu escrevi meus livros. E chamo a lição de casa de vingança.

Cheguei onde queria. À guisa de testamento e roupa suja lavada em público, queria pedir desculpas aos inocentes que destruí no meio do caminho, aos filhosdaputa, porém, aos que mereceram, eu os destruiria e os amaria irrestritamente se fosse o caso, outras mil vezes, portanto fodam-se. O balanço é um desastre, vá lá, mas eu fiz a coisa que devia ser feita, My Way numa versão – muitas vezes – redondamente enganada. Arrependimento nenhum. Assino embaixo de todos os minutos que permaneci pasmo, pelo transe e pelo tesão viveria tudo outra vez.

Um muro de diamantes coberto de ervas daninhas, e daí? Quando rezo o Pai Nosso – difícil me livrar dessa mania –, não me atenho mais ao esforço sobrenatural de perdoar nem de ser perdoado, às vezes não consigo passar daquele trecho que diz para ser feita a vontade Dele, assim na terra como no céu. Ou seja. Aguardo. Persisto na espera, e assimilo apenas a parte mais dolorida da lição. Perdi? Se perdi, foi porque voltei para casa de mãos abanando e braços abertos. Não encontrei a garotinha de olhos tristes e amendoados que chorava por mim na porta da escola. Vou fazer de conta que ela é o bem que vai me cobrir e me enterrar junto às outras maldições, e desse modo me reconciliarei com os quarenta e seis anos que a esperei. A verdade, filha, é que não floresci. Escolhi ser o pesticida, e você naturalmente não vingou, eu bem que tentei, mesmo sabendo que minha vocação era o deserto, acreditei que podia fertilizar, se não fosse assim, sucumbiria ao meu próprio veneno e não conseguiria sequer enganar a mim mesmo, e isso, enganar a si mesmo e à distinta platéia, ao menos nisso, logrei êxito, meus poucos leitores são testemunhas dos engodos que, desde meu primeiro livro, eu empenhei como se fossem a última vez. Dessa vez é.

Depois de tudo – vejam só –, o máximo que consegui foi chegar até o alto dessa colina e pedir pelo amor de Deus. Ah, daqui de cima eu vislumbro o desastre que foi minha vida. Talvez tenha valido a pena. Quem disse que uma vida não valeu a pena somente porque não deu certo? Daqui de cima a vista é magnífica, o ar é puro e quando eu gritar pelo amor de Deus pela última vez, tenho certeza que uma pomba-do-mato vai decolar a partir da copa de um abacateiro. Deixo os direitos autorais dos meus livros para a Apae. Não tenho mais nada a dizer nem coisa alguma a acrescentar. Ninguém ia dar bola mesmo. Iguais a eles, têm mais de milhão. Iguais a mim, nem tanto.

Qual a diferença entre um sujeito se jogar dentro de um caminhão de lixo (Sergio Leone, Era uma Vez na América), e um xarope esperar a próxima pomba-do-mato decolar a partir da copa de um abacateiro?

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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Opinião

Insensatez na educação

O Estado de S.Paulo
Comemorada por estudantes, professores, movimentos sociais e ONGs, a destinação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, aprovada pela Câmara às vésperas do recesso legislativo de julho, é uma insensatez que está se convertendo em enorme problema político para o governo. O primeiro equívoco foi cometido em 2010 pelo Ministério da Educação. Apesar de o Brasil ter elevado os investimentos no setor de 3,9% para 5,1% do PIB, entre 2003 e 2009, aproximando-se do porcentual aplicado pelos países desenvolvidos e vários países em desenvolvimento, a equipe do ministro Fernando Haddad cedeu a pressões e previu o gasto mínimo de 7% no projeto do Plano Nacional de Educação (PNE) da atual década.

O segundo equívoco foi cometido há um mês. Preocupados em levantar uma bandeira política para as eleições de outubro, deputados de todos os partidos - inclusive da base aliada - aumentaram de 7% para 7,5% do PIB o gasto mínimo do poder público em ensino. A elevação de 0,5% do PIB no orçamento da educação representa R$ 25 bilhões a mais em investimentos. Mas, na hora da votação, os líderes partidários, argumentando que havia necessidade de recursos para a implantação do regime de tempo integral no ensino fundamental, aprovaram 10% do PIB.

Às vésperas da votação, o Ministério da Fazenda tentou persuadir as lideranças partidárias a rejeitar a proposta de 10% do PIB, mas o fez de forma pouco enfática, para não atrapalhar a campanha de Haddad à Prefeitura de São Paulo. Esse foi o terceiro equívoco. Ao cobrar responsabilidade fiscal e orçamentária da Câmara, o governo ouviu que o Senado poderá derrubar a proposta de 10% do PIB sem maiores constrangimentos políticos, depois das eleições de outubro.

Como estudantes e professores já afirmaram que se mobilizarão para impedir a reeleição dos senadores que votarem contra a proposta, o Palácio do Planalto teve de se mexer para evitar que esses equívocos se convertam em desastre, quando ela for votada pelo Senado. Depois de passar o primeiro semestre tentando se equilibrar entre a austeridade fiscal e a demanda por mais gastos federais feita por entidades que sempre estiveram na base do PT, o ministro Aloizio Mercadante finalmente foi taxativo.

"É impossível cumprir a decisão da Câmara. Para chegar a 10% do PIB, são necessários R$ 210 bilhões - o equivalente a cinco CPMFs - e não há espaço para a criação de novos impostos", disse ele. Mercadante também lembrou a relação entre demografia e educação - tema que Haddad desprezou, por conveniência eleiçoeira. Como a população está envelhecendo, o número de pessoas em idade escolar começou a diminuir. Entre 2009 e 2011, houve redução de 1,8 milhão de matrículas na rede pública de ensino fundamental. Em 2010, havia 47,1 milhões de brasileiros em idade escolar e, segundo o IBGE, haverá 41,5 milhões, em 2020.

Por causa do envelhecimento da população, a equipe econômica do governo alega que, se os municípios, os Estados e a União mantiverem o atual nível de gasto de 5,1% do PIB, seria possível aumentar o investimento por aluno em 45%, até 2020, já descontada a inflação. O mesmo argumento também é invocado pelas ONGs do setor. "Do jeito que as coisas estão, dinheiro a mais não causará impacto", diz a diretora do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, depois de afirmar que o problema do setor não é de escassez de recursos, mas de gestão.

O que se teme é que, além de prejudicar programas de saúde e saneamento, a destinação de 10% do PIB para a educação aumente os gastos perdulários. A partir de 2003, por exemplo, o governo Lula expandiu sem planejamento as universidades federais. Além de ter criado instituições onde não havia demanda e não ter cobrado resultados, ele negligenciou a formação básica de crianças e jovens, menosprezando a qualidade da formação técnica. Não há dúvida de que a educação é prioritária. Mas a destinação de recursos para a área deve ser compatível com as realidades demográfica e orçamentária. É isso que o Senado tem de compreender, quando votar o PNE.

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Manchetes do dia

Sábado, 28 / 07 / 2012

Folha de São Paulo
"Mensalão foi o mais "atrevido" esquema, afirma procurador" 

Responsável pela acusação, Roberto Gurgel diz em peça enviada a ministros do STF que escândalo foi o maior do país

Às vésperas do julgamento do mensalão, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, enviou documento aos ministros do STF em que diz que o caso “foi, sem dúvida, o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público” do país. O procurador diz que pinçou das 50 mil páginas do processo as principais provas. Ele visa, assim, facilitar o trabalho dos ministros caso as defesas dos réus contestem provas da acusação. O procurador conclui que se colheu um “substancioso conjunto de provas”. Segundo Gurgel, elas “não deixam dúvidas à procedência de acusação” e dizem que o Ministério Público tem convicção de que a “atuação do STF servirá de exemplo [...] a toda a sociedade”.

O Estado de São Paulo
"Dilma exige empregos para manter incentivos à indústria" 

Redução de IPI para montadoras termina em 31 de agosto; Anfavea rebate críticas e nega onda de demissões

A presidente Dilma Rousseff advertiu ontem que a indústria nacional e, principalmente, as montadoras, não continuarão a receber incentivos fiscais se isso não se reverter em empregos e no fim das demissões. A redução do IPI se encerra em 31 de agosto. “Todos os setores que receberem incentivos do governo, não só as montadoras, têm de saber que nós fazemos isso por um único motivo: garantir o emprego e a renda do povo brasileiro”, disse. AGM pode demitir 1,5 mil trabalhadores da fábrica de São José dos Campos. A Anfavea, associação das montadoras, rebate as críticas e diz que os fabricantes encerraram junho com 127 mil empregados, 3 mil a mais do que há um ano.

sexta-feira, julho 27, 2012

Planador sobre Tatuí

Foto: Carlos Werner Dierkes

Coluna do Celsinho

Retrovisor

Celso de Almeida Jr.
Na estrada movimentada, sinalizada, segura, olhei no retrovisor.

Tráfego intenso.

Num flash, a minha vida.

O que fiz pelos outros?

O que fiz por mim?

Voltei os olhos ao horizonte.

Estimei a chegada.

Por instinto - esta defesa misteriosa - dei seta.

Entrei num caminho vazio.

Asfalto antigo, trechos de terra.

No retrovisor, agora, apenas poeira.

Silêncio profundo.

Olho apenas para frente.

Não imagino quando chegar, como chegar.

Sigo sem pressa, em paz.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Opinião

Lições olímpicas

O Estado de S.Paulo
Começa hoje, oficialmente, o maior evento esportivo da Terra, a Olimpíada de Londres, para a qual os brasileiros devem olhar com atenção redobrada, não em razão das eventuais medalhas, que obviamente serão bem-vindas, mas no que diz respeito à relação custo-benefício do esforço britânico para organizar os Jogos. Afinal, a próxima competição será no Rio de Janeiro, em 2016, e, ao que tudo indica, ainda não temos a dimensão exata do que significa ser sede olímpica, sobretudo em termos econômicos.

Os britânicos estão vivendo esse dilema, como afirma reportagem do jornal Financial Times (FT) republicada no Valor (26/7). Especialistas mostram que, embora possa até gerar ganhos econômicos consideráveis, a maior parte deles estará concentrada nas mãos de uns poucos investidores envolvidos no empreendimento.

Estima-se oficialmente que o gasto com a Olimpíada, previsto inicialmente em 2,4 bilhões de libras (R$ 7,6 bilhões), tenha chegado a 9 bilhões de libras (R$ 28,4 bilhões). No entanto, apenas 10 mil vagas de trabalho foram criadas no país por conta dessa enorme injeção de recursos.

Ademais, diz o FT, o transtorno causado pelas obras na vida dos britânicos ao longo dos últimos anos, o chamado "custo de perturbação", resultou em perdas que não foram consideradas nas contas oficiais. Também não foram mensurados, por outro lado, os ganhos de longo prazo com imagem e com as obras de infraestrutura.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse estimar que a Olimpíada, financiada com dinheiro público, vai gerar 13 bilhões de libras (R$ 41 bilhões) em benefícios. Mas o FT sustenta não haver dúvida de que, se esses recursos fossem gastos em projetos de infraestrutura não ligados aos Jogos, e sim às demandas gerais dos britânicos, isso teria gerado benefícios mais significativos.

E então chegamos ao ponto que talvez interesse mais diretamente ao Brasil. A pergunta é se todo o enorme investimento que está sendo feito para atender às exigências da realização da Olimpíada no Rio não seria mais bem gasto em áreas de infraestrutura essenciais para a vida do País. No Brasil, diferentemente do que acontece na Grã-Bretanha, as necessidades básicas estão em toda parte - convém lembrar, por exemplo, que a atividade econômica nacional enfrenta diversos nós logísticos e 50% das casas brasileiras não têm esgoto.

Além disso, há o problema crônico da falta de transparência no uso do dinheiro público. O governo de Dilma Rousseff tanto fez que conseguiu afrouxar as regras de licitação para as obras consideradas estratégicas para a Olimpíada e a Copa do Mundo. O objetivo é acelerar o processo para cumprir os prazos combinados com as entidades esportivas, mas a iniciativa enseja todo tipo de oportunismo, que normalmente resulta em aumento de custos para o contribuinte.

Esse desperdício de dinheiro público pode ter efeitos importantes. A esse propósito, é conveniente olhar não para Londres, e sim para Atenas. A capital grega sediou os Jogos de 2004, fazendo reviver os sonhos de grandeza da antiga cidade olímpica. Em nome disso, a Grécia escancarou seus cofres para concluir obras de infraestrutura e as instalações esportivas a preços muito acima do que foi pago pelos australianos para fazer os Jogos de Sydney, em 2000. Hoje, oito anos depois, essas instalações estão abandonadas e os gregos ainda não sabem exatamente quanto gastaram com essa aventura, mas já conhecem bem um dos seus efeitos: ajudou o país a quebrar.

Para o Brasil, o maior impacto esperado por aqueles que se esforçaram para trazer a Olimpíada para o Rio é o de imagem - esperam eles que o País seja visto como uma potência que, por ter sido capaz de realizar um evento dessa magnitude, está apta a perfilar-se, política e economicamente, entre os países desenvolvidos. Conta-se, também, com o sentimento de satisfação dos brasileiros com os Jogos e tudo de bom que eles envolvem - e contribuintes contentes, mostra o FT, também acabam gerando mais riqueza.

Mas tudo isso talvez não seja o bastante para compensar, como se viu no desastroso caso grego.

Original aqui

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 27 / 07 / 2012

Folha de São Paulo
"Após punir teles, governo agora mira as montadoras" 

Dilma ameaça suspender redução do IPI de carros para evitar demissões

Com o objetivo de evitar demissões nas montadoras, o governo Dilma ameaça suspender a redução do IPI de veículos, que vigora até 31 de agosto. Quando o incentivo foi dado, para enxugar estoques, uma das condições era a preservação dos empregos do setor. A ação ocorre uma semana após o governo federal ter decidido punir operadoras de celular com a suspensão de vendas de linhas.   

O Estado de São Paulo
"Governo anuncia pacote para reduzir conta de energia" 

Ministro diz que indústria deixará de pagar três encargos; renovação de concessões beneficiará consumidores

O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) informou que o governo acabará com pelo menos três encargos setoriais que oneram a tarifa de energia elétrica: a Conta de Consumo de Combustíveis, a Reserva Global de Reversão e a Conta de Desenvolvimento Energético. Os valores que deixarem de ser arrecadados serão cobertos pelo Tesouro. O Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica também deverá ser extinto. O setor industrial comemorou o anúncio. O ministro confirmou que as concessões do setor, que vencem a partir de 2015, serão renovadas. Como concessionárias não poderão mais incluir em seus cálculos o investimento feito no passado, calcula-se que haverá redução de cerca de 10% no custo da energia para residências e de 15% a 30% para a indústria.

quinta-feira, julho 26, 2012

Universo Caiçara

Astrogilda G. Conceição e Silvaro Rita da Conceição são casados. Silvaro nasceu no Saco das Bananas e Astrogilda na Praia do Pulso, ambos em 1922. Casal simpático, falante e orgulhoso de suas histórias, vive atualmente no Morro das Moças.

Texto e imagem do livro "Os caiçaras contam".

Mais um astro

José Ronaldo dos Santos
Ontem, à 15:00 horas, sepultamos a tia Astrogilda, caiçara da praia do Pulso.

“Ali, onde hoje é a casa do Bernadino do Prado, antigamente era a casa do tio Anastácio, o pai da tia Astrogilda”. Assim me mostrou recentemente o papai, explicando como era aquela praia e os seus moradores no começo do século XX. E continuou: “Depois de casada com Silvário, filho do Estevan Marcolino, a titia foi para Santos. Era assim naquele tempo: muita gente buscava melhores condições e trabalho em Santos”.

Atualmente, depois de passar alguns anos morando na Enseada, há mais de duas décadas que o simpático casal se fixou no bairro Morro das Moças, na rua que foi batizada com este nome diferente: Astrogilda da Conceição. Além dos depoimentos de ambos recolhidos pelo Domingos, também é possível apreciá-los no livro Os caiçaras contam, publicado no ano 2000.

Dela guardarei muitas recordações. Uma expressão interessante: quando queria fazer a gente pensar um pouco mais, lançava a seguinte frase: “No fim deste dia, você pense no que fez e nas pessoas que encontrou. Veja se não carece tentar arrematar um dia mal alinhavado”. Foi com este pensamento que eu desci o morro do cemitério do Ipiranguinha na tarde garoenta de ontem.

Recorrendo às crenças primitivas, eu prefiro olhar o céu estrelado a partir da praia do Pulso, imaginar mais uma estrela luminosa e dizer aos meus filhos que a tia Astrogilda virou astro, se compôs na estética e na poesia do Universo. Enfim, será mais uma pessoa que permanecerá viva nas nossas lembranças como um modelo de simplicidade de vida caiçara.

Ao tio Silvário, aos primos e primas só desejamos firmeza para continuar sem o apoio desta mulher, deste esteio essencial.

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Opinião

Essa encrenca chamada Maluf

Eugênio Bucci
A coisa complicou-se um pouco. Agora consta nos autos: a dinheirama bem guardada no paraíso fiscal de Jersey, no Canal da Mancha, está mesmo relacionada a Paulo Maluf. Pelo menos foi isso que reconheceram os advogados da offshore Durant, que tinha Flávio Maluf como diretor, no processo que corre em Jersey - no qual a Prefeitura de São Paulo tenta recuperar US$ 22 milhões que teriam sido desviados de seus caixas quando Maluf foi prefeito da cidade. Os advogados admitiram que a família Maluf controlava contas na ilha britânica e que o próprio ex-prefeito recebeu "comissões" nessas contas.

Com essa notícia, que foi publicada por este jornal há uma semana, em reportagem de Jamil Chade (Defesa admite dinheiro de Maluf em ilha, 19/7, A6), o lado obscuro de Maluf retornou às manchetes. Não que a defesa da Durant tenha confessado a prática de algum ilícito: ela reconheceu os fundos, mas fala em pagamentos por "negócios legítimos" - como uma comissão recebida pelo ex-prefeito pela intermediação de venda de empresas. O que aumenta as suspeitas não é - ainda - a corrupção comprovada, mas a incongruência entre as alegações disparatadas. Se os dólares no Canal da Mancha têm origem limpa, por que nunca foram reconhecidos pelos titulares? O que eles querem esconder?

Maluf sempre negou a existência da fortuna em Jersey. Com aquela entonação de voz que faz a delícia dos imitadores de rádio, ele repetiu e repetiu: "Eze diiêro dao é beu!" - ao que o humorista José Simão costumava responder: "Não é dele mesmo, é nosso!". Agora, depois da reportagem de Jamil Chade, o bordão caiu por terra e, naturalmente, o interesse jornalístico pelo caso recrudesceu. O que levou os advogados a protocolar em Jersey uma nova versão para o tesouro mal explicado?

A coisa complicou-se, de fato. Quanto a Maluf, apenas sorri, como se a coisa complicada não fosse com ele - e, suprema esperteza, talvez não seja mesmo com ele. A sua imagem pública vai descambando, em desmoronamentos sucessivos, esboroando o que já parecia suficientemente esboroado, mas ele mesmo, em pessoa, trafega, folgazão, para lá e para cá, em renovada lua de mel com a política. Nada perturba o bom humor zombeteiro do seu trololó em barítono rachado. Ele se diverte, ou, mais exatamente, se diverte-se à custa de outro. Guardou para si o lado cômico desse enredo farsesco e, num golpe maligno, terceirizou a tragédia de sua imagem pública. Ele a terceirizou para o PT. Ao firmar seu apoio aos petistas nas eleições municipais, deu um jeito de empurrar-lhes o ônus moral da sua conduta pregressa. A tragédia moral de Maluf virou um problema do PT.

Quanto ao PT, evita o assunto, como se algo o inibisse. Está intimidado, mas não deveria estar. Para começar, não se deveria envergonhar de se aliar ao PP (o partido de Paulo Maluf), que já integra a base aliada do governo federal. Elementar: reeditar, no âmbito municipal, a aliança que já existe no âmbito federal não constitui um erro político. O problema - o golpe maligno - foi que, em São Paulo, o pacto PP-PT se deixou coroar por uma cena de mau gosto, e foi dessa cena que nasceu o atual constrangimento petista.

Na hora de anunciar a aliança, Maluf conseguiu atrair Lula e seu candidato a prefeito, Fernando Haddad, para uma sessão de fotos nos jardins da sua casa. O ritual era uma armadilha. Por meio dela, o anfitrião transformou o que deveria ser um acordo formal entre dois partidos numa cerimônia de congraçamento. Nas imagens, o ex-prefeito acusado de desvios na Prefeitura e procurado pela polícia internacional faz afagos em seus visitantes, num clima que sugere compadrio e cumplicidade.

Ora, esse clima não traduz - ou não deveria traduzir - as reais relações políticas entre as forças ali representadas. Portanto, o PT poderia muito bem denunciar como falsas as impressões deixadas por aquelas imagens, assim como deve reafirmar suas críticas ao malufismo.

Se antes das novidades de Jersey as lideranças petistas achavam que tinham espaço para silenciar, agora não têm mais tempo. Ou vão a público expor sua oposição radical ao modo malufista de governar, ou a coisa, que já se complicou, vai piorar.

Maluf desfila como quem foi anistiado por Lula. Se o PT não quer anistiá-lo, deve declarar com todas as letras que sua aliança é com o PP, não com a conduta pessoal do ex-prefeito. Deve dizer isso com gestos e palavras fortes, em pronunciamentos oficiais e reiterados. Neste momento, o silêncio corre o risco de fazer coro com o cinismo. Ou, pior, com o deboche.

O deboche, vale registrar, tem sido o gênero discursivo predileto de Maluf. Pouco depois de posar para os retratistas em sua casa, Maluf concedeu entrevista a Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, em que exibiu o seu talento para a velhacaria: "Eu, perto do Lula, sou comunista". Sim, sabemos que o próprio Lula já se definiu como "metamorfose ambulante", recusando ser um político "de esquerda". Mesmo assim, Maluf extrapola e zomba dos aliados de seu partido: "Da maneira que exerceu a Presidência, eu diria que ele (Lula) está à minha direita".

Brincadeiras à parte, a situação é mais delicada do que uma gincana escolar para saber se Lula é "de esquerda" ou não é. Se este é metamorfose, Maluf é ideologicamente líquido e já foi com quase todos: apoiou Fernando Henrique Cardoso em 1998, Lula em 2002 e hoje defende a reeleição de Geraldo Alckmin no governo paulista. O que está em jogo, agora, não são os rótulos de "direita" ou "esquerda", mas a seriedade com que o PT trata um processo judicial em que a Prefeitura paulistana é parte.

O eleitor talvez esteja perplexo. Por isso, sem abrir mão da aliança com o PP, o PT faria bem se exigisse publicamente esclarecimentos de Paulo Maluf. Isso tudo, claro, se tivermos uma interpretação otimista dessa história chata.

* JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP E DA ESPM

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 26 / 07 / 2012

Folha de São Paulo
"Homicídios sobem 22% na cidade de SP no 1º semestre" 

Dados divulgados pelo governo confirmam escalada da criminalidade; assassinatos crescem 8% em todo Estado

Com uma média de 14 mortes por dia, junho foi o período mais violento no Estado de São Paulo nos últimos 18 meses, quando o governo passou a divulgar dados sobre a criminalidade. A violência no mês passado fez com que o índice de homicídios nos seis primeiros meses deste ano ficasse 8% acima do primeiro semestre de 2011. Na capital, o aumento foi de 22%.   

O Estado de São Paulo
"União prepara nova rodada de apoio aos Estados" 

Planalto negocia com governadores projetos para estimular investimentos e recursos virão do BNDES

O governo prepara um novo pacote de apoio financeiro aos Estados para apressar investimentos prioritários em 2013. Diante da escassez de projetos considerados viáveis, o Palácio do Planalto negocia com governadores o programa “Agenda do Desenvolvimento Regional”, informam Adriana Fernandes e Renata Veríssimo. A estratégia da presidente Dilma Rousseff é direcionar as ações estaduais para setores considerados fundamentais, como a melhoria da malha logística. O BNDES será novamente o braço financeiro das operações. O governo avalia o espaço fiscal para Estados obterem mais financiamentos, mas o banco vai destinar recursos também para empresas que quiserem participar dos projetos. Com o aceno de mais verba, o governo espera obter o apoio dos governadores no projeto de reduzir o custo da energia por meio da redução da cobrança de ICMS.

quarta-feira, julho 25, 2012

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Opinião

Para romper com o analfabetismo funcional

Priscila Cruz
A recente divulgação dos dados da oitava edição do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Ação Educativa, com apoio do Ibope, oferece um painel extenso e consistente dos níveis de alfabetismo de jovens e adultos brasileiros nos últimos dez anos.

Diferentemente das estatísticas fornecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que se baseiam em dados autodeclarados, o Inaf é realizado por meio de uma entrevista e um teste, avaliando efetivamente as habilidades de leitura, escrita e Matemática de brasileiros entre 15 e 64 anos de idade, classificando-os em quatro níveis de alfabetização: analfabetos, alfabetizados em nível rudimentar - estes dois considerados como analfabetos funcionais -, alfabetizados em nível básico e alfabetizados em nível pleno - considerados juntos como alfabetizados funcionalmente. É este último nível, o pleno, que precisamos universalizar, pois é a condição necessária para a inserção digna e autônoma na atual sociedade, crescentemente complexa.

Os dados revelam que o Brasil parece ainda não se ter dado conta da urgência e da gravidade dos problemas que enfrenta no campo da educação.

Ainda que se tenha reduzido a proporção de analfabetos funcionais e aumentado os que estão no nível básico, é preciso mais, bem mais. Nossas atenções devem estar voltadas para o nível pleno de alfabetismo - e aqui houve retrocessos preocupantes. Entre 2001 e 2011, o domínio pleno da leitura caiu de 22% para 15% entre os que concluíram o Ensino Fundamental II, e de 49% para 35% entre os que fizeram o ensino médio. Com ensino superior, 38% não chegam ao nível pleno.

Como referência, no nível pleno estão as pessoas que conseguem ler e compreender um artigo de jornal, comparar suas informações com as de outros textos e fazer uma síntese dele. Em Matemática, as que resolvem problemas envolvendo porcentuais e proporção, além de fazerem a interpretação de tabelas e gráficos simples.

Não conseguimos avançar do básico para o pleno, nível estagnado há dez anos. Mesmo que o Inaf não seja um indicador escolar, pesquisando até mesmo pessoas que nunca tiveram acesso à escola, podemos atribuir parte desses resultados, justamente, à falta de acesso e à insuficiente aprendizagem dos alunos ao longo da educação básica. Ainda hoje não conseguimos garantir que todas as crianças e todos os jovens estejam na escola e adquiram as habilidades esperadas em cada série em disciplinas básicas como Português e Matemática.

Tal situação evidencia a urgência de um investimento eficiente, consistente e focado nos anos iniciais. É neles que todo o problema começa, mas também é neles que a solução deve nascer.

Portanto, como sociedade, precisamos exigir que todas as crianças estejam plenamente alfabetizadas até os 8 anos de idade. Sem se perder em discussões ideológicas estéreis, sem concessões de espécie alguma. É um direito de nossas crianças, que precisa ser assegurado.

Esse é o primeiro passo, e ainda estamos muito longe de considerá-lo um patamar vencido. A Prova ABC - a primeira avaliação externa da alfabetização das crianças de 8 anos realizada em 2011 pelo movimento Todos Pela Educação, pelo Instituto Paulo Montenegro/Ibope, pela Fundação Cesgranrio e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) - mostrou que pouco mais de metade das crianças avaliadas apresentara aprendizado adequado em leitura e escrita no final do terceiro ano do ensino fundamental, e essa proporção cai para pouco mais de 40% em Matemática. As que não conseguem alfabetizar-se nessa etapa passam a acumular lacunas cada vez maiores, o que dificulta ou até mesmo impossibilita a sua aprendizagem nas etapas posteriores.

Dessa maneira, os dados revelados pelo Inaf 2012, somados aos indicadores produzidos pela Prova ABC, expõem o grande desafio educacional deste início do século 21: garantir a todos a alfabetização plena, pré-requisito para a garantia do aprendizado ao longo de toda a vida escolar de crianças e jovens.

Para mudar esse cenário é fundamental avançarmos rapidamente na agenda que deveria ter sido cumprida no século passado e romper com o descaso histórico com a qualidade da educação, direcionando muito mais esforços para assegurar que todos os alunos atinjam a competência em leitura, escrita e Matemática. E para isso é necessário começar pela base, desde a Educação Infantil.

O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) - a avaliação bianual realizada pelo Inep para monitorar a aprendizagem no final de cada ciclo - comprova essa tese. A pontuação média em Língua Portuguesa dos alunos do terceiro ano do ensino fundamental que não cursaram a Educação Infantil é de 169, enquanto a dos que a cursaram é de 187. Se a Educação Infantil tivesse uma qualidade muito boa no Brasil, esse impacto seria ainda maior.

Todas as evidências científicas apontam para a qualidade dos professores como fator determinante. Um bom professor é um ótimo começo. Assim, é preciso atrair os melhores professores para essa etapa do ensino, os mais experientes e mais bem preparados para trabalhar com as crianças que cursam os anos iniciais. As faculdades de Educação precisam ser reformuladas, colocando o foco na aprendizagem dos futuros alunos de seus alunos.

É vergonhoso que o país que tem o sexto produto interno bruto (PIB) do mundo esteja entre os piores em educação. Não obstante o Brasil conseguir acumular riquezas, não consegue distribuí-las de forma justa, e a má distribuição de renda é reflexo da educação de baixa qualidade.

Mais do que garantir escola para todos, é preciso universalizar a aprendizagem.

* DIRETORA EXECUTIVA DO MOVIMENTO TODOS PELA EDUCAÇÃO

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 25 / 07 / 2012

Folha de São Paulo
"Governo quer plano de teles para Copa e Olimpíada" 

Exigência é condição para que seja liberada venda de linhas de celular

Como condição para liberar as vendas das operadoras de celular TIM, Oi e Claro, o governo exigiu que elas apresentem um plano de investimentos que leve em conta o crescimento da demanda na Copa de 2014 e na Olimpíada de 2016. A Vivo, que não foi punida, também terá de oferecer um plano para os eventos, mas poderá continuar vendendo linhas mesmo sem proposta aprovada, segundo João Rezende, presidente da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).   

O Estado de São Paulo
"Arrecadação cai em junho e Receita já revê projeções" 

Lucro menor das empresas motivou queda de 6,55%, a primeira desde dezembro; governo vê 'viés de baixa’

A arrecadação federal teve, em junho, a primeira queda mensal desde dezembro de 2011. O pagamento de impostos e contribuições federais somou R$ 81,1 bilhões, 6,55% a menos que em junho de 2011. A principal razão é a redução no lucro das empresas, que estão deixando de pagar Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Diante desse novo cenário, a Receita reduziu a previsão de crescimento da arrecadação em 2012 para algo entre 3,5% e 4%. A estimativa anterior era de 4% a 4,5%. “O viés é de baixa. Mas o crescimento deve ser mais próximo de 4%”, disse a secretária adjunta da Receita, Zayda Manatta. Desde abril, a arrecadação vem desacelerando como reflexo do baixo desempenho econômico.

terça-feira, julho 24, 2012

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Opinião

A Europa assusta de novo

O Estado de S.Paulo
O medo espalhou-se de novo pelos mercados de todo o mundo, abalados pelos sinais de piora da quarta maior economia da zona do euro, a Espanha, e pelo risco crescente de um abalo mais grave da Itália, a terceira maior potência da união monetária. O socorro ao governo e aos bancos espanhóis poderá custar entre 400 bilhões e 500 bilhões em três anos, segundo estimativa do banco Barclay's. Se o governo italiano pedir ajuda, a conta do auxílio aos dois países poderá chegar a 1,3 trilhão, de acordo com a mesma fonte.

Não será pedido esse tipo de ajuda, insistem as autoridades dos dois países, mas a especulação cresce nos mercados, alimentada tanto pelas más notícias da Espanha quanto por avaliações de especialistas famosos, como Kenneth Rogoff, professor de Harvard e ex-economista-chefe do FMI. Segundo ele, dificilmente o governo espanhol deixará de pedir um resgate total, mesmo contra a sua vontade.

Se essa previsão se confirmar, a União Europeia, o FMI e o BCE terão de mobilizar recursos muito maiores que aqueles necessários, até agora, para o resgate da Grécia, da Irlanda e de Portugal. Além do mais, os mercados estão de novo em alerta em relação à Grécia. A crise agravou-se no país, o desemprego chegou à faixa de 22% e o governo, comprometido com um duríssimo plano de ajuste, continua apresentando resultados muito modestos. Nem é preciso pensar num desastre na Itália para compor um quadro assustador. Um agravamento da crise europeia custará muito a dezenas de países, por seus efeitos financeiros e comerciais. O Brasil será afetado tanto pela piora das condições de financiamento quanto pela deterioração das condições de comércio.

O governo espanhol conseguiu a promessa de 100 bilhões dos fundos europeus de resgate para ajuda aos bancos do país. Tentou isolar o Tesouro nacional da operação de socorro ao setor bancário, para evitar a supervisão dos funcionários da troica - a União Europeia, o BCE e o FMI. Na semana passada, as autoridades espanholas anunciaram um ajuste adicional de 65 bilhões nas contas públicas, em mais um lance para comprovar seu esforço de austeridade.

A tensão no mercado voltou a aumentar, no entanto, depois de duas péssimas notícias: 1) a recessão já durou três trimestres e deverá prolongar-se: 2) é grave a situação dos governos regionais e seis deles poderão pedir ajuda financeira. A cada dia o governo central parece mais próximo, portanto, de ter de negociar um programa completo de resgate.

Não se pode prever com segurança se isso ocorrerá, mas a especulação nos mercados tende a continuar e também isso limitará as escolhas das autoridades. Ontem, o Tesouro espanhol chegou a pagar 7,56% para rolar seus títulos. Taxas acima de 7% ao ano têm sido consideradas insustentáveis por muitos analistas. De acordo com esses profissionais, governos incapazes de conseguir financiamento a custos abaixo desse nível serão forçados, em pouco tempo, a pedir socorro.

Se a Espanha chegar a esse ponto, o próximo grande alvo da especulação será a Itália. O governo italiano já tem sido forçado a pagar juros elevados, ocasionalmente, para refinanciar a dívida pública. Mas tem conseguido vender os papéis oferecidos ao mercado, às vezes até com folga. Mas a pressão especulativa retorna, de tempos em tempos, e agências de classificação de risco já cortaram mais de uma vez a nota da dívida soberana da Itália. Se a Espanha cair, a economia italiana ficará imediatamente exposta ao efeito dominó.

O agravamento da situação espanhola comprova, mais uma vez, a insuficiência das políticas anticrise adotadas na Europa nos últimos anos. Grande parte do esforço de ajuste será perdido, se faltar um crescimento mínimo para reduzir o desemprego e alimentar as contas públicas.

Não há como evitar a correção dos enormes desajustes fiscais acumulados na maior parte dos países, mas é igualmente necessário criar algum dinamismo nas economias. Dificilmente algum país poderá seguir sozinho um rimo diferente daquele adotado até agora - e apontado pelas autoridades alemãs como o único possível. É necessária uma decisão conjunta. O desafio é muito mais político do que econômico.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 24 / 07 / 2012

Folha de São Paulo
"Síria ameaça usar arma química, e EUA reagem" 

Ditadura admite revidar agressão externa; Obama diz que seria ‘trágico erro’

Pela primeira vez, o governo sírio admitiu possuir armas químicas e ameaçou usá-las caso sofra uma intervenção militar externa, informa Marcelo Ninio. “A Síria jamais usará qualquer arma química contra seus civis e as usará só em caso de agressão externa”, disse o porta-voz da Chancelaria, Jihad Makdissi.  

O Estado de São Paulo
"País vai julgar Supremo por mensalão, diz corregedora" 

Para Eliana Calmon, há ‘expectativa muito grande’ por parte da sociedade sobre o desfecho do processo

A ministra Eliana Calmon, corregedora nacional da Justiça, afirmou ontem que o Supremo Tribunal Federal (STF) será julgado pela opinião pública ao julgar o processo do mensalão, maior escândalo da era Lula. “Há por parte da Nação uma expectativa muito grande e acho também que o Supremo está tendo o seu grande julgamento ao julgar o mensalão”, disse. Eliana Calmon ressalvou que não conhece o processo, mas alertou: “Não é que o Supremo vá se pautar pela opinião pública, mas todo e qualquer poder, no regime democrático, também se nutre da confiabilidade daqueles a quem ele serve.” Ela observou que os 11 ministros do STF estão mais sensíveis. Indagada se a pressão pública poderá influenciar nos veredictos, disse: “O Supremo não se deixa muito influenciar pela opinião popular, sempre se manteve meio afastado. Mas começamos a verificar que, efetivamente, já não é com aquela frieza do passado.”

segunda-feira, julho 23, 2012

Pitacos do Zé Ronaldo



E por falar em civilidade... (XVI)

José Ronaldo do Santos
A imagem (margem do Rio Tavares) mostra mais um depósito de lixo.

Por que será que alguns candidatos a vereadores, ao contribuírem com a poluição visual nos muros do município, omitem o nome do candidato ao qual estão atrelados ao cargo de prefeito?

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Opinião

Jornalismo e violência

Carlos Alberto Di Franco
Impressiona-me o crescente espaço destinado à violência nos meios de comunicação. Catástrofes, tragédias, crimes e agressões, recorrentes como as chuvaradas de verão, compõem uma pauta sombria e perturbadora. A violência não é uma invenção da mídia. Mas a sua espetacularização é um efeito colateral que deve ser evitado. Não se trata de sonegar informação. É preciso, contudo, contextualizá-la.

A overdose de violência na mídia pode gerar fatalismo e uma perigosa resignação. Não há o que fazer - imaginam inúmeros leitores, ouvintes, telespectadores e internautas -, acabamos todos paralisados sob o impacto de uma violência que se afirma como algo irrefreável e invencível.

Não é verdade. Podemos todos, jornalistas, formadores de opinião, estudantes, cidadãos, enfim, dar pequenos passos rumo à cidadania e à paz.

Os que estamos do lado de cá, os jornalistas, carregamos nossas idiossincrasias. Sobressai, entre elas, certa tendência ao catastrofismo. O rabo abana o cachorro. O mote, frequentemente usado para justificar o alarmismo de certas matérias, denota, no fundo, a nossa incapacidade para informar em tempos de normalidade. Mas, mesmo em épocas de crise - e estamos vivendo uma gravíssima crise de segurança pública -, é preciso não aumentar desnecessariamente a temperatura.

O jornalismo de qualidade reclama um especial cuidado no uso dos adjetivos. Caso contrário, a crise real pode ser amplificada pelos megafones do sensacionalismo. À gravidade da situação - inegável e evidente - acrescenta-se uma boa dose de espetáculo e, claro, uma indisfarçada busca de audiência. E o resultado final é a potencialização da crise.

Alguns setores da imprensa têm feito, de fato, uma opção preferencial pelo negativismo. O problema não está no noticiário da violência, e sim na miopia, na obsessão pelos aspectos sombrios da realidade. É cômodo e relativamente fácil provocar emoções. Informar com profundidade é outra conversa. Exige trabalho, competência e talento.

O que quero dizer é que a complexidade da violência não se combate com espetáculo, atitudes simplórias e reducionistas, mas com ações firmes das autoridades e, sobretudo, com mudanças de comportamento. Como salientou o antropólogo Roberto DaMatta, "se a discussão da onda de criminalidade que vivemos se reduzir à burrice de um cabo de guerra entre os bons, que reduzem tudo à educação e ao 'social', e os maus, que enxergam a partir do mundo real, o mundo da dor e dos menores e maiores assassinos, e sabem que todo ato criminoso é também um caso de polícia, então estaremos fazendo como as aranhas do velho Machado de Assis, querendo acabar com a fraude eleitoral mudando a forma das urnas". O que eu critico não é a denúncia da violência, mas o culto ao noticiário violento em detrimento de uma análise mais séria e profunda.

Precisamos, ademais, valorizar editorialmente inúmeras iniciativas que tentam construir avenidas ou ruelas de paz nas cidades sem alma. A bandeira a meio-pau sinalizando a violência não pode ocultar o esforço de entidades, universidades e pessoas isoladas que, diariamente, se empenham na recuperação de valores fundamentais: o humanismo, o respeito à vida, a solidariedade. São pautas magníficas. Embriões de grandes reportagens.

Denunciar o avanço da violência e a falência do Estado no seu combate é um dever ético. Não é, todavia, menos ético iluminar a cena de ações construtivas, frequentemente desconhecidas do grande público, que, sem alarde ou pirotecnias do marketing, colaboram, e muito, na construção da cidadania. É fácil fazer jornalismo de boletim de ocorrência. Não é tão fácil contar histórias reais, com rosto humano, que mostram o lado bom da vida.

A juventude, por exemplo, ao contrário do que fica pairando em algumas reportagens, não está tão à deriva. A delinquência está longe de representar a maioria esmagadora da população estudantil. A juventude real, perfilada em várias pesquisas e na eloquência dos fatos, está identificando valores como amizade, família, trabalho. Existe uma demanda reprimida de normalidade.

Superadas as fases do fundamentalismo ideológico, marca registrada dos anos 60 e 70, e o oba-oba produzido pela liberação dos anos 80 e 90, estamos entrando num período mais realista e consistente. A juventude batalhadora sabe que não se levanta um país na base do quebra-galho e do jogo de cintura. O futuro depende de esforços pessoais que se somam e começam a mudar pequenas coisas. É preciso fazer o que é correto, e não o que pega bem. Mudar os rumos exige, acima de tudo, a coragem de assumir mudanças pessoais.

A nova tendência tem raízes profundas. Os filhos da permissividade e do jeitinho sentem intensa necessidade de consistência profissional e de âncoras éticas. O Brasil do corporativismo, da impunidade do dinheiro e da força do sobrenome vai, aos poucos, abrindo espaço para a cultura do trabalho, da competência e do talento. O auê vai sendo substituído pela transpiração e o cartório vai sendo superado pela realidade do mercado. A juventude real, não a de proveta, imaginada por certa indústria cultural, manifesta crescente desejo de firmeza moral. Não quer a covarde concessão da velhice assanhada. Espera, sim, a palavra que orienta.

A violência está aí. E é brutal. Mas também é preciso dar o outro lado: o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem fazer do jornalismo um refém da cultura da violência.

*DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, PROFESSOR DE ÉTICA, É DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO DO INSTITUTO INTERNACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS E-MAIL: FRANCO@IICS.ORG.BR

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 23 / 07 / 2012

Folha de São Paulo
"Ocupação de hospitais privados chega ao limite" 

Enquanto planos de saúde crescem, rede de atendimento encolhe na cidade de SP

Hospitais da rede privada da cidade de São Paulo trabalham com taxa de ocupação máxima, informam Cláudia Collucci e Talita Bedinelli. O índice de ocupação é de 95% - o ideal é de 85%, para evitar a falta de leitos em urgências. Com crescimento econômico, mais pessoas têm contratado planos de saúde. Na capital paulista, o número de conveniados subiu de 13% desde 2009. Mas a rede hospitalar encolheu. O número de leitos de internação e de UTI caiu 8,4% no período. 

O Estado de São Paulo
"Desapropriações provocam disputa judicial e travam PAC" 

Ações movidas tanto pelo governo quanto por proprietários cresceram 20% em um ano e já chegam a 5,4 mil

Aposta da presidente Dilma Rousseff para amenizar o impacto da crise mundial no Brasil, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) enfrenta atrasos provocados por 5.405 processos judiciais relativos a desapropriações de terras e imóveis. Os dados constam de levantamento feito pela Advocacia Geral da União (AGU) a pedido do Estado, informa a repórter Renée Pereira. Nos últimos 12 meses, o número de ações movidas tanto pelo governo quanto por proprietários cresceu 20%. Entre os empreendimentos com maior volume de processos estão grandes projetos, como a Ferrovia Transnordestina. Iniciada em 2005, ela terá impacto sobre 5 mil propriedades, mas as desapropriações ainda não foram concluídas.
 
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