O que fizeram do Natal?

Pedro Paulo Teixeira Pinto* - Professor
Não existe data que mais consagre a sociedade de consumo do que a do Natal, a ponto de ofuscar o seu verdadeiro sentido, que é o de homenagear um homem simples e sábio idealista, inconformado com as injustiças que infelicitavam (e infelicitam) a humanidade, contra as quais lutou até a morte, na cruz, decidida que foi por um tirano e pela aclamação popular.
E assim vem sendo conduzida a história, até hoje, pelas mãos dos poderosos que se sucedem, mas nunca se descuidam de incentivar a celebração dos grandes heróis populares que eles próprios cuidam de liquidar. Assim é, assim foi, assim será.
A celebração do Natal não é festa alegre nem triste. É acima de tudo de reflexão, de busca de sentido legítimo da vida, ancorada na simplicidade e na sabedoria e não nas formas da propaganda enganosa do consumismo cruel, que afasta o sentido cristão do Natal, impregnando de futilidade tudo aquilo que toca.
Mas, como reformar o mundo é tarefa que matou, mata e matará todo reformador autêntico, haja vista a crucificação de Jesus Cristo, resta-nos, entre outras coisas o recurso da poesia e da ironia. Mário Henrique Simonsen dizia que “o brasileiro costuma ser otimista entre dezembro e fevereiro”.
De seu lado, Manoel Bandeira, no poema “Versos de Natal”, assim se expressa.
“Espelho, amigo verdadeiro
Tu refletes as minhas rugas ...
... Mas se fosses mágico
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr seus chinelinhos atrás da porta”.
Tem também Quintana, o Mário, em seu poema Natal, que segue assim:
“No seu berço de palha o menino Jesus veio lembrar-te as pequeninas vidas que já levam no mundo a sua cruz. E o seu olhar parece que te implora: Tu já me viste e me adoraste... agora só te resta fazer o que puderes pelas outras crianças desvalidas”.
Do poema, Cartão de Natal, João Cabral de Melo Neto nos ensina: ... “pensam os homens reinaugurar a sua vida e começar novo caderno, fresco como o pão do dia; pois que nestes dias a aventura parece em ponto de vôo...”
Feliz Natal.

*Ex-prefeito de Ubatuba

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