sábado, dezembro 31, 2016

Física


Opinião

Trump é fruto inesperado dos desvios dos liberais americanos

Demétrio Magnoli
"Um liberal não passa de um fascista em férias." O Ênio, um pitoresco colega de faculdade, acreditava mesmo na sua boutade, cunhada há 40 anos. Lembrei dele, e dela, nesses dias de "transição trumpiana". Nos EUA, usa-se a palavra "conservador" para o que chamamos "liberal" (pois, por lá, "liberal" é algo mais ou menos próximo de um social-democrata). Os liberais ("conservadores") americanos saltam às dúzias no barco de Trump, ainda que subsistam bolsões de resistência, como McCain e os Bush, no establishment republicano, e a revista Commentary, na franja ideológica do movimento conservador. A adesão em massa indica que o maior derrotado no 9/11 não foi o Partido Democrata, mas o pensamento liberal americano.

Trump obviamente não é um fascista (mesmo Marine Le Pen não o é), porém representa o que de mais próximo do fascismo foi produzido pela história americana. O presidente eleito está tão distante do credo liberal quanto a Lua da Terra. O conflito estende-se pelos domínios da política, da cultura e da economia. Trump é nacionalista; os liberais, internacionalistas. Trump é nativista; os liberais, cosmopolitas. Trump é protecionista; os liberais, livre-cambistas.

Que liberais são esses dispostos a abraçar um líder que promete destruir os acordos de livre comércio dos EUA e cercar a economia do país com uma muralha chinesa de taxas aduaneiras? Com que cara admitem a hipótese de expulsão de 11 milhões de imigrantes, cujo pressuposto seria a edificação de uma máquina estatal de deportação de natureza totalitária? Seduzidos por Trump, os liberais americanos já estão prontos para seguir seu improvável líder, cortejando antiliberais como o britânico Farage, a francesa Le Pen e o russo Putin?

Nos anos Obama, sob a inspiração dos radicais do Tea Party, os republicanos começaram a fazer experiências antiliberais, divertindo-se no pátio do nativismo e da xenofobia. Trump não é um raio no céu claro, mas um fruto inesperado desses desvios. Contudo, seu triunfo tem consequências: o partido dos liberais foi sequestrado pela "alt-right", uma sombria "direita alternativa" que singra nas águas do neonacionalismo e do populismo econômico. Os liberais americanos sempre alertaram para o perigo do abuso de poder estatal; hoje, silenciam diante da tragédia de Aleppo. Esses liberais sempre pregaram o equilíbrio fiscal; hoje, adulam o magnata dos negócios suspeitos que anuncia uma torrente de gastos públicos e a expansão descontrolada dos deficits orçamentários. Para ganhar acesso à Casa Branca, deixam na porta a bagagem de suas crenças.

Os nomeados de Trump, um círculo de extremistas antiliberais, dão uma ideia dos rumos de seu governo. Steve Bannon, estrategista-chefe, é o editor do Breitbart News, o site oficioso da "alt-right", navegado por supremacistas brancos e repleto de proclamações islamofóbicas. Mike Flynt, assessor de Segurança Nacional, é o general aposentado que sentou-se ao lado de Putin, em Moscou, depois de proferir um discurso no qual pediu a prisão de Hillary Clinton e qualificou Obama como um "mentiroso". David Friedman, embaixador em Israel, é um fervente adversário da partição da Palestina em dois Estados, a linha política oficial, compartilhada por democratas e republicanos, cuja fonte encontra-se no princípio da autodeterminação dos povos. Wilbur Ross, secretário de Comércio, é o autor da frase "livre comércio é como almoço grátis; não existe almoço grátis".

Na campanha, Trump pregou o uso da tortura contra suspeitos e terrorismo e, depois de eleito, sugeriu casualmente que o assassinato de familiares de terroristas seria uma tática adequada na "guerra ao terror". Não concordei, e ainda não concordo, com o Ênio do passado distante. Mas os liberais americanos —e uns tolos brasileiros que os mimetizam— empenham-se em dar-lhe razão. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 31 / 12 / 2016

O Globo
"Decisão sobre aumento de ônibus será de Crivella"

Paes suspende reajuste de passagens após crítica de seu sucessor

Coronel Paulo César Amêndola, que será secretário municipal de Ordem Pública, anuncia que nova gestão terá tolerância zero com camelôs e a falta de educação de motoristas no trânsito

O prefeito Eduardo Paes suspendeu o aumento da tarifa dos ônibus após seu sucessor, Marcelo Crivella, informar, por meio de seu vice, Mac Dowell, que é contra o reajuste. Paes já tinha anunciado que a passagem subiria amanhã de R$ 3,80 para R$ 3,95. O coronel Paulo César Amêndola, que assumirá a Secretaria de Ordem Pública, anunciou ontem que a gestão Crivella terá tolerância zero com camelôs e desrespeitos no trânsito.    

O Estado de S.Paulo
"Lava Jato prevê operações em mais 7 Estados em 2017"

Força-tarefa avalia que delações da Odebrecht podem levar investigação a obras do metrô e estádios da Copa

A força-tarefa composta por Polícia Federal e Ministério Público Federal prevê desdobramentos da investigação da Operação Lava Jato em pelo menos mais sete Estados em 2017. A conta leva em consideração as suspeitas sobre obras e desvios de dinheiro público. A expectativa dos investigadores é de que a delação de executivos e ex-executivos da Odebrecht dobre o número de operações. Quase três anos depois do início da Lava Jato, o acordo com a empreiteira agrega 77 delações às 71 já existentes no processo. Após o desmembramento imposto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e o compartilhamento de informações com o Ministério Público de outros Estados, operações “filhotes” já foram deflagradas em São Paulo, Rio, Goiás, Pernambuco, Rondônia e no Distrito Federal. Apenas nos documentos apreendidos na 35.ª fase da operação, a Ommertá, foram encontrados e-mails e pedidos de pagamento via Setor de Operações Estruturadas, batizado como “departamento da propina”, atrelados a 27 projetos em 11 Estados – RJ, SP, BA, RS, PE, RN, PR, CE, PI, GO e ES. São obras que vão da expansão do metrô em São Paulo e no Rio aos estádios da Copa em Pernambuco, Rio e Bahia.                     

Folha de S. Paulo
"Prefeitos assumem com mais cortes e sem investir"

Redução de gastos e estrutura, dívidas e salários atrasados afetam capitais

Depois de dois anos de crise, os novos prefeitos iniciam seus mandatos, neste domingo (1º), num cenário de maior contenção de gastos e menos investimentos. Onze capitais tiveram queda real de receitas desde o início do mandato, e em só seis a arrecadação não caiu neste ano. Muitas iniciaram um rigoroso ajuste fiscal, que deve continuar em 2017. Em São Paulo, João Doria (PSDB) anunciou a venda da maior parte da frota municipal —mandou os servidores usarem Uber— e reduziu as secretarias de 27 para 22. A Prefeitura de Vitória (ES) não reajusta salários há dois anos, e atê o horário de expediente foi reduzido. Na capital capixaba, onde o prefeito Luciano Rezende (PPS) foi reeleito, servidores com celular tiveram verba para a conta reduzida a um terço —quem gasta mais tem o valor descontado em folha.

“Tem de saber lidar com a escassez”, diz o prefeito de Belo Horizonte, Mareio Lacerda (PSB), presidente da Frente Nacional de Prefeitos, que será sucedido por Alexandre Kalil (PHS). Mesmo com os cortes, alguns assumirão com salários atrasados. Em Porto Alegre, cuja dívida triplicou, a prefeitura parcelou o 13°. Especialistas veem risco de que as prefeituras encolham e a qualidade do serviço seja afetada.   

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Física


Opinião

Tributo aos campeões

Gabeira
A repercussão do anúncio dos EUA sobre a ação global da Odebrecht provocou um temporal político na América Latina. Bem maior do que tivemos notícia pelos jornais e TV. Foi um intenso movimento no Twitter, que começou com gente perguntando quem eram os corruptos do governo de cada país, passou por desmentidos de presidentes e ex-presidentes, nomes suspeitos, acusações. Alguns importantes projetos, como assegurar a navegabilidade do Rio Magdalena, na Colômbia, estão ameaçados. Começaram a duvidar até do estudo de impacto ambiental da Odebrecht.

Ao ver aquele furacão durante a semana, não podia perder de vista que tudo aquilo havia sido causado por uma empresa brasileira. Ironicamente, o programa do BNDES para estimular as empresas campeãs nos deu apenas um título mundial: o do maior escândalo de corrupção.

Em termos de política externa, penso eu, seria ideal que o Brasil fizesse o comunicado, informando, como fizeram os americanos, quanto se usou em corrupção e o lucro obtido em cada lugar. Em termos ideais, porque, dados as circunstâncias brasileiras, o ritmo do STF, a delicada posição do governo na Lava Jato, não temos as mesmas condições dos norte-americanos. Verdade é que o próprio relatório divulgado lá destacou as investigações feitas no Brasil, pois trabalhou com dados, essencialmente, obtidos aqui.

Todos estão conscientes da abertura brasileira para compartilhar as informações. Em termos ainda ideais, seria preciso um outro passo: uma legislação disciplinando o comportamento das empresas no exterior.

Quando todo esse movimento rumo ao exterior começou, confesso que tentei formular uma lei que punisse o suborno de autoridades. Alguns assessores da Câmara ajudaram. Mas as possibilidades de êxito eram muito remotas. Não só pela força das empreiteiras. Havia um argumento muito forte: era uma iniciativa ingênua que acabaria reduzindo a competitividade de nossas empresas.

Com as voltas que o mundo deu, uma legislação que discipline as empresas brasileiras pode ser precisamente um instrumento para que não percam a competitividade depois do furacão Odebrecht.

O relatório americano não menciona o papel que o BNDES teve em cada um dos projetos da Odebrecht. Quando tudo isso vier à luz, talvez se desvende que o dinheiro da propina eram recursos públicos.

Uma legislação mais precisa pode evitar que instituições sejam levadas para uma engrenagem criminosa internacional. Mas talvez não seja a falta dela o ponto essencial.

Havia toda uma política, da qual o BNDES era um instrumento, destinada simultaneamente a abrir caminhos para a Odebrecht e fortalecer a imagem de Lula. Os métodos escolhidos para isso resultaram num desastre, pois fecharam os caminhos da Odebrecht e atingiram profundamente a imagem de Lula na América Latina.

A escolha equivocada jogou-os num enredo e crime e castigo. Mas a Odebrecht era considerada a maior empreiteira brasileira atuando no exterior, Lula é o ex-presidente do Brasil. Por mais que tenha nascido e se desenvolvido aqui a investigação que revelou o gigantesco esquema, o Brasil tem um delicado problema externo a superar.

O passo que sugiro é criar legislação que possa atenuar a desconfiança em torno de empresas brasileiras no exterior.

Enquanto o esquema era revelado somente dentro do Brasil, alguns lugares do mundo não se interessaram por ele. Mas agora que pelo menos nove países se deram conta da interface Odebrecht-Lula com os seus próprios políticos e administradores, a América Latina tornou-se uma única aldeia escandalizada.

Outra resposta brasileira que poderia inspirar outros países envolvidos no escândalo seria romper o vínculo entre empreiteiras e governo. Para isso é preciso aprovar um projeto, que já está no Congresso, obrigando a mediação de empresas seguradoras, responsáveis por fiscalizar as obras.

Governo e Congresso estão pisando em ovos com a Operação Lava Jato. Em vez de definirem as alternativas que se abrem com seu desdobramento, preferem discutir como contê-la. No entanto, não acho insensato pressioná-los a se dar conta do que está acontecendo em torno de nós, depois que o relatório americano foi divulgado. Muitos são investigados na Lava Jato. Investigadas ou não, as pessoas podem fazer as coisas certas quando se colocam problemas nacionais. Isso, todavia, não vai absolvê-las nem condená-las.

A dimensão da Lava Jato nos obriga a ir um pouco além do quem recebeu quanto para quê, quando eles serão julgados. O escândalo anexou uma dimensão internacional ao drama e atingiu a imagem do Brasil, por causa do comportamento de seu Lula e das empresas que gravitavam em torno do BNDES.

Pode-se escolher a tática de fingir que não foi conosco, submergir à espera de um melhor momento. Isso costuma falhar. Um título mundial de corrupção não se esquece rapidamente. É preciso correr atrás da credibilidade perdida. O julgamento dos artífices do gigantesco esquema de corrupção será, certamente, uma grande resposta.

E, antes dela, também ajudaria a transparência sobre a delação da Odebrecht. Não é confortável ler algo que aconteceu no Brasil, foi apurado aqui, narrado em inglês com os políticos sendo chamados de brazilian officials e numerados.

O brazilian official número 1, por exemplo, deveria dar uma parada para pensar no rastro de raiva que deixou essa aliança entre corruptos latino-americanos. A prática de roubar o próprio povo transcendeu as fronteiras nacionais. Um fato histórico.

Os líderes comunistas do passado criaram internacionais para marcar posições políticas diferentes. A decadência chegou ao ponto de se criar a partir do Brasil uma internacional da corrupção. Nela, América Latina e África foram unidas pelos seus defeitos, e não pelas qualidades.

Há todo um caminho a reconstruir.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 30 / 12 / 2016

O Globo
"País deve ter mais um milhão de desempregados em 2017"

Temer prevê recuperação das contratações no segundo semestre

Já são 12,1 milhões de brasileiros à procura de trabalho, de acordo com dados de novembro do IBGE. Indústria e comércio são setores que ainda cortarão vagas até junho, estimam especialistas

O país ultrapassou a marca de 12 milhões de pessoas à procura de trabalho em novembro, com uma taxa de desemprego de 11,9%, divulgou o IBGE. Mais um milhão de brasileiros deverão ser demitidos em 2017, segundo projeções de especialistas. Indústria e comércio são dois setores que continuarão cortando vagas até junho do próximo ano. Ao fazer balanço de seus primeiros meses de governo, o presidente Michel Temer estimou que o desemprego cairá no segundo semestre.    

O Estado de S.Paulo
"Desemprego recorde atinge 12,1 milhões de brasileiros"

Taxa de desocupação no País chegou a 11,9%, a maior da série histórica do IBGE, iniciada em 2012

O mercado de trabalho voltou a se deteriorar no fim do ano, período em que o desemprego historicamente dá uma trégua. No trimestre encerrado em novembro, o País chegou a 12,132 milhões de pessoas sem emprego, um recorde, e a taxa de desocupação atingiu 11,9%, a mais alta da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012 pelo IBGE. Há 3,018 milhões de pessoas a mais buscando uma vaga e 1,941 milhão de postos de trabalho foram fechados. Só a indústria cortou 1,026 milhão em um ano e o setor de construção, 702 mil. Já o comércio dispensou 178 mil. Para analistas, a situação ainda deve piorar. “Projetamos que essa tendência continue à frente, uma vez que a contração da atividade econômica não teve seu impacto completo no mercado de trabalho”, avaliou Thales Caramella, do Itaú Unibanco.                     

Folha de S. Paulo
"Alckmin decide congelar tarifas de trem e metrô"

Governador tucano segue o prefeito de SP, Joao Doria, que não reajustará passagem de ônibus; subsídios devem ser de R$ 5 bi

Em decisão conjunta, governo paulista e prefeitura decidiram que as tarifas de trem, metrô e ônibus em São Paulo serão mantidas em R$ 3,80 no próximo ano. Logo após vencer a eleição municipal, João Doria (PSDB) prometeu congelar a tarifa de ônibus, causando desconforto no governador Geraldo Alckmin, seu correligionário, e na direção do Metrô, empresa ligada ao governo. A companhia temia uma fuga de usuários, já que as passagens de ônibus ficariam mais baratas, e o governador, o ônus político de arcar sozinho com um reajuste nos bilhetes do metrô. Nesta quinta (29), Alckmin mencionou estudos “para tentar evitar reajustes” no metrô e na CPTM (trens) e ajudar a população em momento de queda nos salários e aumento no desemprego. O congelamento, entretanto, terá um forte impacto nas contas estadual e municipal, já que a revisão da política de gratuidades não será adotada imediatamente. Somados, os gastos com subsídios —dinheiro repassado às empresas para cobrir a diferença entre o que os passageiros pagam e os custos reais dos serviços — podem chegar aos R$ 5 bilhões em 2017.   

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Física


Opinião

Lembranças da velha Aleppo: o horror é um companheiro que não nos deixa

Contardo Calligaris
Era um agosto no começo dos anos 1960, e a gente estava descendo, de carro, de Milão até Aqaba, na beira do mar Vermelho.

"A gente" significa meus pais, meu irmão e eu. Era uma das viagens pelas quais meu pai nos levava, para conhecer o mundo. Fomos várias vezes para o Oriente Médio, uma vez até a Índia, outra pela África do Norte inteira etc.

Ele tinha uma confiança ilimitada nos nossos automóveis sucessivos e nele mesmo como motorista. Além disso, era como se acreditasse que nada de ruim pudesse nos acontecer porque a intenção da viagem era justa e respeitosa.

Carregava consigo uma malinha cheia de remédios para nós, caso adoecêssemos, e também para os eventuais doentes que encontrássemos. Com isso, durante suas férias, ele se tornava uma espécie de clínico geral sem fronteiras, ambulante.

Não consigo reconstruir o ano exato dessa lembrança. Era antes de 1967 (me lembro que Jerusalém era em parte jordaniana). E devia ser depois de 1961, porque, como você vai ver, a Síria estava num período de grande instabilidade (o começo dos anos 1960).

Entramos no país vindo da Turquia. Nossos vistos funcionaram na fronteira. Mas, antes de chegar a Aleppo, fomos parados por uma blitz na estrada (aliás, deserta). Os responsáveis pela blitz eram armados, mas à paisana –eles usavam uma braçadeira preta, como revolucionários que não tivessem tido tempo de mandar fazer seus uniformes.

Meu pai, resistente na luta armada menos de 20 anos antes, contra o fascismo italiano, não devia achar isso exótico. Ele já tinha feito parte de um "exército" sem uniforme, com apenas um lenço azul no pescoço.

Os homens armados tentaram nos mostrar que nossos carimbos de ingresso não valiam nada para eles. Meu pai, calmo e cordial, conseguiu convencê-los a colocar o próprio carimbo deles numa outra página de nossos passaportes. Tudo isso sem falar uma língua comum.

Enfim, não nos mataram. E o resto da viagem pela Síria foi assim, com paradas periódicas por homens que se indignavam à vista do carimbo anterior.

Aleppo, onde ficamos dois ou três dias, estava nas mãos do Exército oficial. Havia metralhadoras atrás de sacos de areia diante dos edifícios públicos. E, digo para que viva a lembrança, a cidade era lindíssima.

Na primeira noite, depois do toque de recolher, ficamos na varanda do hotel, tomando chá de menta. Ouviam-se tiros de armas automáticas, mas nunca suficientemente próximos para que a gente se refugiasse no hall ou nos quartos.

O garçom que nos servia falava francês, e meu pai lhe perguntou o que estava acontecendo na cidade e no país, explicando que a gente tinha entrado na Síria naquele dia, sem saber de nada"...

Era um homem idoso, de cabelos brancos, com uma barriga jovial –lembro-me mais dele do que da Cidadela ou da Grande Mesquita de Aleppo. Ele olhou para o meu pai e disse, como se fosse uma resposta: "Je suis Georges, l'arménien" –eu sou Georges, o armênio. Ele e meu pai se encararam um tempo, com simpatia, e não houve mais perguntas.

Depois de um tempo, com aquele barulho de armas automáticas que não parava na distância, eu perguntei por que o fato de Georges ser armênio implicava que ele não pudesse nos dizer o que estava acontecendo. Meu pai tinha uma extraordinária qualidade: nunca dourava pílulas para crianças. Se a realidade era horrível, problema de todos e problema das crianças também.

Conclusão, ficamos lá, naquele restaurante da Aleppo deserta durante o toque de recolher, tomando o chá de menta que era trazido por Georges sorridente e escutando a história do genocídio armênio. Georges, pela idade que aparentava, era um sobrevivente: devia ter chegado à Síria menino, nas marchas da morte, com mulheres e crianças morrendo de fome, de estupro e de maus tratos pelo deserto.

Talvez, concluiu meu pai, dizendo que ele é armênio, ele quisesse nos dizer que ele já pagou seu tributo ao horror do mundo. Que nada mais o toca mesmo, porque ele já morreu. Naquela noite, não dormi. Fiquei escutando os tiros.

Não me esqueci de Georges e das palavras do meu pai. O que prova que ele tinha razão: as viagens nos ensinavam coisas. Pensei em Georges vendo este vídeo sobre as crianças de Aleppo.

E desculpe, leitor, se este meu cartão de ano novo é piegas. Também, você pode achar que Aleppo é longe. Para mim é perto, como a voz do meu pai naquela noite. Desejo a todos, mundo afora, um ano melhor. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 29 / 12 / 2016

O Globo
"Governo costura alívio emergencial para estados"

Rio estará entre os beneficiados, após veto de Temer a moratória

Novo projeto criando o regime de recuperação fiscal, com contrapartidas, será apresentado em fevereiro

O presidente Michel Temer encomendou à equipe econômica medidas emergenciais que deem fôlego aos estados em situação crítica, como o Rio. Ele vetou o regime de recuperação fiscal, que concedia moratória de três anos da dívida, e só apresentará novo texto em fevereiro. O alongamento dos débitos por 20 anos foi sancionado.    

O Estado de S.Paulo
"Temer veta ajuda a Estados falidos sem contrapartida"

Decisão é reação às mudanças feitas pela Câmara, mas preserva alongamento para débitos com a União

Em reação à manobra da Câmara dos Deputados na semana passada, o governo federal decidiu vetar as mudanças no projeto de renegociação das dívidas dos Estados, que já tinha sido aprovado no Senado. O presidente Michel Temer vai vetar o Regime de Recuperação Fiscal (RRF), programa que dá aos governadores de Estados em situação de calamidade a carência, por três anos, do pagamento das dívidas com a União. Com a decisão do Planalto, o programa de renegociação que passará a valer é o mesmo aprovado na Câmara em agosto, que prevê o alongamento, em 20 anos, do prazo de pagamento dos débitos com a União. Os governadores terão de cumprir apenas uma contrapartida: limitar, por dois anos, o crescimento das despesas à inflação do ano anterior. O porta-voz da Presidência, Alexandre Parola, afirmou que a decisão de vetar parte do projeto foi tomada “tendo em vista que as contrapartidas (que constavam no RRF) não foram mantidas”. O governo deve retomar o projeto do RRF, mas ainda não definiu como isso será feito. O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, chegou a dizer que seria derrubado todo o projeto da Câmara. O Planalto, porém, esclareceu que a medida atingiria apenas parte do texto.                     

Folha de S. Paulo
"Após veto, Temer quer novo plano para Estados falidos"

Presidente barra moratória de 36 meses e já renegocia com governadores

O presidente Michel Temer decidiu vetar a criação de um programa de recuperação fiscal para os Estados. O projeto, aprovado pelo Congresso, permitiria que os governos em situação de calamidade passassem 36 meses sem pagar suas dívidas. A renegociação dos passivos com taxas inferiores às dos contratos originais, para todas as unidades da Federação, ainda será sancionada. Temer optou por barrar a moratória após a retirada das contrapartidas do texto aprovado pelo Congresso. Em reunião com a equipe econômica, o presidente pediu novo plano para socorrer no curto prazo os governadores dos Estados em situação de insolvência. Rio, Rio Grande do Sul e Minas Gerais têm problemas para pagar salários e dívidas. O governo federal promete apresentar novo projeto de lei para a criação do programa de recuperação fiscal. A votação da proposta reformulada, entretanto, ficaria apenas para a volta do recesso do Legislativo, em fevereiro de 2017.   

 
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