sábado, dezembro 17, 2016

Física


Opinião

Para chegar a 2018

Gabeira
Começou o fim do mundo com a delação da Odebrecht. Temer, creio, deu uma resposta adequada, pedindo celeridade nas investigações para poder tocar o barco da reconstrução econômica.

Ele pode não ter sido sincero, porque, segundo a imprensa, no Planalto se falou na anulação do depoimento do diretor da empresa. Mas a celeridade, respeitando simultaneamente direito de defesa e ritmo de uma investigação séria, é a melhor saída para libertar o processo econômico dos sobressaltos políticos. Para almejar essa celeridade, porém, é preciso primeiro responder a uma pergunta: se não existiu até agora, por que passaria a existir de uma hora para outra?

Ela é necessária também para o processo político em 2018. Muitos investigados vão querer se reeleger. Mas nem todos têm êxito em situação pós-escândalo. Lembro-me da CPI dos sanguessugas, deputados que ganhavam propina para emendas de compras de ambulâncias superfaturadas. A maioria foi derrotada nas urnas, em 2006.

Sem julgamento, contudo, o abismo entre sociedade e eleições em 2018 pode se aprofundar ainda mais. As ruas têm se manifestado, mas não se pode esperar delas a solução final do problema. No meu entender, ela está nas mãos do Supremo, que precisa fazer um extraordinário esforço de adaptação às necessidades do momento.

O Supremo parece-me perdido em suas prioridades. As duas últimas intervenções, proibição da vaquejada e descriminalização do aborto, posições com as quais posso concordar, não trilharam o bom caminho.

Existe uma diferença entre uma sentença e uma política para enfrentar os temas. No caso da vaquejada, um processo adequado seria definir o que os americanos chamam de phase out, para que todo o universo econômico que gira em torno da vaquejada se adaptasse. Pelo que vi, seu núcleo central é a criação e o comércio de cavalos de raça. No caso do aborto, o processo político se dá de outra forma. Discussão no Parlamento e referendo popular.

Embora o panorama político seja desolador, quando juízes assumem decisões que deveriam nascer no Parlamento ou nas urnas, eles são obrigados a pensar como categorias políticas. Apesar de ter desaguado no STF, na longa luta política para banir o amianto foi preciso negociar e até formular um projeto de adaptação.

O fim do mundo não é o fim de tudo. Se o Supremo, creio eu, se dedicar integralmente a julgar com rapidez e se reorganizar para a tarefa, pode se queimar menos do que buscando saída para tensões políticas.

As manifestações de rua conseguem fixar alvos. Hoje Cunha, amanhã Renan. Elas não trazem a saída: são contra a corrupção e, em alguns cartazes, pelo fim do cheque em branco dos governos, alusão ao ajuste fiscal.

Mas o nó só pode ser desatado pelas instituições. Agora, por exemplo, o Supremo vai entrar em recesso. Com a situação tão delicada, os responsáveis vão sair de cena. Creio que isso nasce do equívoco de subestimar o alcance da Lava Jato.

Gilmar Mendes, quando esteve no Senado, foi bastante explícito, as operações policiais existem todos os anos. Naquele momento, a Odebrecht fechava o maior acordo de leniência do mundo, pagando cerca de R$ 6, bilhões de multa. E a delação do fim do mundo começava.

Se o Supremo decidir trabalhar a fundo na sua tarefa específica, vai ajudar, indiretamente, a economia e também a política, na tarefa de buscar algum tipo de renovação que a aproxime da sociedade.

É uma difícil travessia. Nela o comandante Temer tem de enfrentar a tempestade e jogar alguns corpos ao mar. E evitar que ele próprio tenha de se jogar na água.

Mas são essas as circunstância e não é possível enfrentá-las suprimindo pedaços da realidade. A maior investigação da História do Brasil chega ao coração do atual governo, que era apenas a costela do governo petista. Agora, ele tem nas mãos a tarefa de conduzir a economia em frangalhos, sob suspeita e com baixa popularidade.

Temer disse que era preciso coragem para governar o Brasil e que ele teria essa coragem. 

Talvez seja preciso também um pouco de resignação diante do futuro pessoal.

A tarefa de conduzir a reconstrução econômica é decisiva, sobretudo, para os 12 milhões de desempregados. Temer e o mundo político não têm outro caminho exceto continuar trabalhando, enquanto a terra treme sob os seus pés.

Num mundo ideal, nem o Supremo nem os políticos entrariam em férias neste ano de 2016. Talvez todos nós precisemos de umas férias do Supremo e dos próprios políticos.

Mas assim que voltarem, a realidade pedirá respostas mais rápidas e complexas. Se houvesse um projeto de trânsito para 2018, o ritmo de julgamentos seria mais rápido, os vazamentos seriam evitados e o processo de renovação na política seria posto na agenda.

Existem forças poderosas tentando deter ou deturpar a Lava Jato. Elas se aproveitam da confusão, dos impasses. É uma tática que existe nos mínimos detalhes, como a atuação dos advogados de Lula, discursos no Parlamento, notícias inventadas.

Digam o que quiserem das ruas. Não houve violência nas manifestações contra a corrupção. Elas cumprem o seu papel. No fundo, acreditam nas instituições e na possibilidade de que encontrem uma saída.

Algumas instituições entraram em férias. Durante o recesso poderiam pensar no ano que entra. É possível fazer melhor e mais rápido.

É uma ilusão supor que o Brasil não mudou, que será governável com as mesmas práticas do passado. Hoje será menos doloroso avançar do que recuar no projeto de fortalecer a economia e dar à política uma chance de reconciliação com a sociedade. No meio de tanta confusão, na qual estou também envolvido, é assim que vejo o caminho imediato e os dois objetivos principais.

Deve haver centenas de outras visões. Seria salutar discutir como chegar a 2018, e não apenas o clássico quem comprou quem, quem é a bola da vez… A bola da vez é a ameaça de caos.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 17 / 12 / 2016

O Globo
"Jornada de trabalho flexível será permitida"

Governo pretende editar MP para legalizar contratação por hora

Ação faz parte do pacote para estimular a economia. Também será ampliado prazo de contrato temporário de 90 para 180 dias. Objetivo é a abertura de vagas pelas novas regras já este mês

O governo deve anunciar na semana que vem mais ações de estímulo à economia. Por medida provisória, será criada a modalidade de contratação por hora trabalhada, com jornada flexível, informa GERALDA DOCA. Na prática, a empresa vai acionar o funcionário a qualquer momento e dia da semana, sem precisar cumprir o horário comercial. O trabalhador poderá ter mais de um patrão, e os direitos trabalhistas serão pagos proporcionalmente. Além disso, o prazo para contratos temporários, que hoje é de 90 dias, será ampliado para 180, prorrogáveis por mais 45 dias. As mudanças visam a permitir a abertura de vagas já neste dezembro.     

O Estado de S.Paulo
"Cervejaria foi usada pela Odebrecht para comprar apoio político"

Em acordo de delação premiada, ex-executivos da empreiteira afirmaram ter feito repasses por meio da Itaipava; até R$ 100 mi foram transferidos para a empresa

Ex-executivos da Odebrecht afirmam no acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República que usaram empresas dos donos do Grupo Petrópolis, fabricante da cerveja Itaipava, para distribuir dinheiro a políticos por meio de doações eleitorais e entregas de dinheiro vivo. Nas negociações, Luiz Eduardo Soares, o Luizinho, funcionário do departamento de propina da empreiteira, prometeu contar como a Odebrecht injetou R$ 100 milhões em conta operada pelo contador do Grupo Petrópolis no Antígua Overseas Bank e construiu fábricas para a cervejaria. A contrapartida do grupo era fornecer dinheiro no Brasil que teria sido repassado a campanhas eleitorais e agentes públicos. No caso das doações, após compensado com pagamentos no exterior, o Grupo Petrópolis usava suas empresas para efetuar repasses a políticos. A Lava Jato já havia identificado que executivos ligados à Odebrecht e ao Grupo Petrópolis eram sócios no Meinl Bank Antígua, usado pela empreiteira para operar contas no exterior.                   

Folha de S. Paulo
"Réu pela 2ª vez, Cabral será julgado por Moro"

Ex-governador é acusado de desvios em obra da Petrobras; sua defesa nega

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) tornou- se réu na Lava Jato sob acusação de corrupção na obra do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), ligado à Petrobras. O juiz Sergio Moro aceitou nesta sexta-feira (16) a denúncia apresentada pela força-tarefa da operação. A mulher do peemedebista, a advogada Adriana Ancelmo, também se tornou ré. Preso em Curitiba, Cabral já era réu no Rio sob acusação de receber propina em obras estaduais, como o Arco Metropolitano e a reforma do Maracanã. Por determinação da Justiça, ele voltará à capital fluminense. Segundo a denúncia, o ex-governador recebeu da Andrade Gutierrez R$ 2,7 milhões em dinheiro pelo contrato— 1% do que foi destinado à empresa pelo serviço. O pagamento teria sido solicitado por ele em 2008, durante reunião no Palácio da Guanabara. De acordo com o Ministério Público, a verba foi usada para comprar artigos como roupas de grife e móveis de luxo. A defesa de Cabral disse que “demonstrará no processo a total improcedência da acusação” e criticou a tramitação na Justiça Federal do Paraná.   

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Cessna 337 Skymaster "Push Pull"


Coluna do Celsinho

Boa Esperança

Celso de Almeida Jr.

Escrevo de Boa Esperança.

Uma bela cidade no sul de Minas Gerais.

Nela, encontra-se a Serra da Boa Esperança, que virou música pelo talento de Lamartine Babo.

Há também o lago...lindo!

Soube que Rubem Alves é filho desta terra.

Pra  matar a saudade do grande escritor e pedagogo, revisitei alguns de seus pensamentos.
Lá vai...

“Somos donos dos nossos atos
mas não donos dos nossos sentimentos.
Somos culpados pelo que fazemos
mas não pelo que sentimos.
Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos.
Atos são pássaros engaiolados.
Sentimentos são pássaros em voo.”
“A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.”
“Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar.”
“O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor.
Uma semente há de ser depositada no ventre vazio.
E a semente do pensamento é o sonho.
Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos.”

 

Nas margens do Lago de Boa Esperança, leio estas e outras reflexões deste magnífico educador.
Uma paz extraordinária me invade a alma.
Viva a vida!

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com


Física


Opinião

Ambrose Bierce mostra os limites do cinismo como forma de pensamento

João Pereira Coutinho
Existem livros que li na adolescência e que nunca mais voltei a provar. Falta de tempo, com certeza. Excesso de medo, definitivamente. Haverá coisa mais triste do que reler um livro relevante que se revela, afinal, absolutamente irrelevante? É como descobrir, muitos anos depois, que uma namorada de boa memória foi infiel o tempo todo. Não mata. Mói.

Exatamente como Ambrose Bierce (1842-1913), velha paixão: reler o seu "Dicionário do Diabo" ainda provoca um sorriso aqui e ali. Mas como foi possível ter elevado este livro a bíblia cínica dos verdes anos? Falo em cinismo e falo bem.

Hoje, farejando o bicho, vejo que o melhor de Bierce está na elegância irônica, não no cinismo mecânico. Exemplo: como resistir à definição de "Macaco" ("Um animal arbóreo que se sente em casa em árvores genealógicas")?

Pena que o resto seja um deserto árido e, como todos os desertos, repetitivo. Avanço pelas páginas e, a certa altura, eu próprio já antecipo as definições. O amor é uma ilusão. A amizade é uma traição. O egoísmo é uma virtude. A orfandade é um benção. A democracia é uma piada. E etc. etc. –até ao abismo do tédio.

O problema, note-se, não está no amoralismo de Bierce. Está na previsibilidade. Uma previsibilidade que, ironicamente, converte o amoralismo numa forma postiça de moralismo. Um cândido do avesso não deixa de ser um cândido. A presunção de que vivemos "no pior dos mundos" é tão ridícula como a crença de que vivemos "no melhor dos mundos".

Ambrose Bierce é um moralista vulgar como qualquer moralista vulgar. E com uma séria desvantagem: ao contrário da sua "nêmesis", ele nem sequer tem a consolação de um dogma que esteja a salvo do dilúvio. Para repetir uma conhecida objeção aos limites do relativismo, se nada realmente interessa, rapidamente concluímos que o "Dicionário" é redundante. Bem escrito, sim, mas redundante.

Ler Ambrose Bierce, para além da curiosidade arqueológica, é uma lição sobre a falácia do cinismo como sistema. Ele é um recurso literário valioso quando usado com parcimônia e critério. Mas deixá-lo à solta como um potro selvagem, atropelando tudo que existe apenas porque existe, é uma forma de suicídio intelectual.

Evelyn Waugh, um falso cínico, dizia que ainda existem causas pelas quais vale a pena lutar contra. Mas como o próprio Waugh sabia e brilhantemente demonstrava, até para lutar contra é preciso lutar a favor.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 16 / 12 / 2016

O Globo
"Pacote incentiva redução de dívida e eleva ganho do FGTS"

Refis beneficiará pessoas físicas

Multa por demissão será reduzida

Plano prevê desburocratização

Em meio à recessão e ao agravamento da crise política, o presidente Temer lançou um pacote para estimular a economia que prevê amplo programa de regularização de dívidas tributárias para empresas e pessoas físicas. Até débitos recentes, vencidos em novembro, terão condições facilitadas. O governo também vai elevar o ganho dos trabalhadores com conta no FGTS, distribuindo parte do lucro do Fundo aos cotistas. O adicional de 10% sobre o FGTS que empresas pagam em caso de demissão sem justa causa será aos poucos extinto. Para analistas, a renegociação com o Fisco ajudará empresas e consumidores de imediato, mas o conjunto de medidas não terá impacto a curto prazo.     

O Estado de S.Paulo
"Temer lança pacote; mercado vê efeito só no longo prazo"

Medidas mudam FGTS e facilitam o pagamento de dívidas de empresas

O presidente Michel Temer lançou ontem um pacote de medidas para tentar reduzir endividamento de empresas, combater desemprego e burocracia e estimular a atividade econômica. “Depois da recessão é que nasce o crescimento e o emprego”, afirmou, ao lado dos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Rodrigo Maia. Para o mercado, porém, as medidas, apesar de positivas, só devem provocar efeito, se forem realmente implementadas, no longo prazo. A lista anunciada pelo governo inclui novidades, como distribuição do lucro do FGTS entre trabalhadores cotistas, e medidas que ainda não estão prontas, como redução do prazo para que lojistas recebam dinheiro de compras em cartão de crédito. Há ainda promessas já anunciadas por gestões anteriores, como criação de cadastros nacionais de imóveis e redução de tempo de exportação e importação, e iniciativas para tentar reduzir taxas de juros cobradas por bancos.                   

Folha de S. Paulo
"Temer esteve em reunião sobre doações, diz delator"

Presidente confirma encontro em 2010, mas nega favorecimento à Odebrech

Um ex-executivo da Odebrecht disse à Lava Jato que o presidente Michel Temer esteve em reunião em 2010, em seu escritório político em São Paulo, para tratar de doações à campanha do PMDB naquele ano, informam Marina Dias e Bela Megale.

A Folha apurou que o executivo ê Márcio Faria, então presidente da Odebrecht Engenharia Industrial, cuja delação ainda não foi homologada pela Justiça. Segundo ele, em troca do repasse ao PMDB, a empreiteira conseguiria projetos da Petrobras.

Na reunião estariam também Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e João Augusto Henriques — apontado como lobista, ele já afirmou a investigadores que um contrato de quase US$ 1 bilhão foi fechado em 2010 entre a Petrobras e a Odebrecht.

À época candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff (PT), Temer disse ter participado de reunião com empresário que “pode ser” Faria, mas sem discutir obras para a Odebrecht nem valores. A empreiteira não se pronunciou sobre o caso.   

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Física


Opinião

Como baratas em explosões nucleares, boçais resistem a mudanças políticas

Contardo Calligaris
Bob Dylan se sentiu honrado pelo prêmio Nobel de Literatura, mas deixou a Patti Smith a tarefa de representá-lo na cerimônia, cantando "A Hard Rain's a-Gonna Fall" (livremente: vão chover pedras).

A balada é um dos hinos da contracultura. A gravação que prefiro é de 1963, quando a voz de Dylan era um pouco menos nasal do que agora.

Em outubro de 1962, com a crise dos mísseis soviéticos em Cuba, o mundo passou perto de uma guerra nuclear entre as duas superpotências. Nasceu assim o mito de que a letra fizesse referência à chuva de resíduos radioativos, que se seguiria à explosão das bombas.

Essa interpretação mítica não condena a música a viver no antiquariato da Guerra Fria. Primeiro, Dylan desmentiu: a música tinha sido escrita antes da crise cubana. Segundo, o risco nuclear não terminou. Só precisa de um roteiro que combine, por exemplo, o terrorismo com os vários governos reféns do nacionalismo de pequenas burguesias frustradas.

Imagine que um grupo terrorista islâmico consiga montar e explodir uma bomba nuclear em Paris. O presidente François Fillon será obrigado a ripostar com o vigor exigido pela extrema direita da Frente Nacional (que, sem isso, ganharia o poder). Imagine que ele ataque a Síria: Putin poderia revidar para honrar sua amizade com Assad e para ganhar de volta as simpatias do mundo muçulmano em geral e fundamentalista em particular (perdidas nos anos 1980, na guerra da URSS contra o Afeganistão).

A França acionaria a aliança da Otan. Trump, por mais que goste de Putin, poderia achar que uma guerra é um bom jeito para distrair os brancos pobres que o elegeram e que, nesta altura, ele já terá ferrado economicamente.

Pronto, é um fim do mundo possível. Reveja os primeiros 20 minutos de "O Dia Seguinte" (1983), de Nicholas Meyer: a vida de todos parece normal, ninguém pensa que amanhã vai cair a primeira bomba.

Agora, tento entender por que Dylan não foi à cerimônia do Nobel e por que a canção escolhida foi "A Hard Rain's a-Gonna Fall".

Dylan é o grande poeta da contracultura dos anos 1960-70. Eu ainda penso, às vezes, que a revolução dos anos 1960 foi a única bem-sucedida do século 20 –a revolução que lutou contra o ódio tradicional pelo prazer, liberou os costumes e as escolhas de vida, combateu a estupidez sexista e nacionalista etc.

Além disso, como dizia um amigo que morreu de Aids na França nos anos 1980, foi uma revolução que não perseguiu ninguém, mas deixou todos mais livres –inclusive os boçais, livres para continuarem sendo boçais.

O prêmio a Dylan pareceria recompensar uma geração inteira, pela maneira como suas "vitórias" mudaram o mundo.

A ideia da "vitória" da revolução dos anos 1960 começou com a sensação de que a contracultura teria parado a guerra do Vietnã e, logo, acarretado a queda de Nixon. Depois disso, aos poucos, não houve menos guerras? Mais tolerância pelas diferenças? Um pouco mais de equidade? Não sei. O que houve, durante três décadas, foi uma volta ingênua da crença no progresso.

Mas hoje? Olhando para os EUA de Trump, para a Europa que se desfaz, para o agito de uma direita fascista mundo afora, surge a dúvida de que a vitória dos anos 1960 tenha sido apenas um show. Enquanto as bandas tocavam (e a gente dançava), os inimigos de sempre continuavam lá, nem sequer na sombra, conclamando idiotices e caretices e esperando voltar a impor suas frustrações como regra para todos.

Bob Dylan pode ter pensado que aceitar o prêmio significasse celebrar uma vitória que não aconteceu. E por isso mesmo ele pode ter escolhido "A Hard Rain's a-Gonna Fall", para lembrar que não só a contracultura não ganhou, mas talvez o pior esteja por vir.

Aqui, no Brasil, estamos especialmente bem colocados para entender: aparentemente, aconteceu com a contracultura e sua suposta vitória algo análogo com o que aconteceu com a democracia no Brasil.

Pensávamos ter conquistado uma democracia moderna, mas era apenas mais uma "modernização conservadora" (à la Barrington Moore Jr.). Quem sabe FHC, Lula e Dilma tenham pensado que os coronéis e os parasitas da máquina do Estado se extinguiriam por conta própria. Mas é a esperança democrática que está se extinguindo por conta própria –nem os coronéis, nem os parasitas.

Dizem que só as baratas sobrevivem a uma explosão nuclear. Os boçais também parecem sobreviver a qualquer mudança política e de costumes. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 15 / 12 / 2016

O Globo
"Supremo anula votação que desfigurou pacote"

Liminar do ministro Fux considerou irregular tramitação na Câmara

As dez propostas do projeto anticorrupção terão de ser novamente apreciadas pelos deputados e, desta vez, serem analisadas como o texto original de iniciativa popular

Liminar do ministro Luiz Fux, do STF, anulou a votação da Câmara que desfigurou o pacote anticorrupção. Respaldado por dois milhões de assinaturas de cidadãos brasileiros, o texto inicial com dez medidas anticorrupção terá agora de tramitar como proposta de iniciativa popular. Fux afirma que houve “evidente sobreposição do anseio popular pelos interesses parlamentares ordinários”. No mesmo dia, o presidente do Senado, Renan Calheiros, tentou votar a proposta que define crimes de abuso de autoridade de juízes e procuradores, mas não conseguiu.     

O Estado de S.Paulo
"STF manda Câmara votar de novo pacote anticorrupção"

Liminar de Luiz Fux manda deputados reavaliarem proposta original; Gilmar Mendes fala em ‘AI-5 do Judiciário’

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o projeto anticorrupção, desfigurado na Câmara e remetido ao Senado, volte à estaca zero, com a retomada das discussões sobre a proposta original. A decisão é mais um capítulo do embate de Judiciário e Legislativo. Fux sustentou que projetos de iniciativa popular não devem ser descaracterizados. A proposta teve 11 emendas aprovadas pelos deputados, entre elas a que trata de crimes por abuso de autoridade, e foi duramente criticada por entidades e pela força-tarefa da Lava Jato. Horas depois, o ministro Gilmar Mendes, também do STF, reagiu à decisão de Fux e a classificou como o “AI-5 do Judiciário”. Ele disse que seria “melhor fechar o Congresso” e “entregar a chave ao Dallagnol”, numa referência ao procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa e um dos articuladores do pacote anticorrupção.                   

Folha de S. Paulo
"Pacote anticorrupção causa choques no STF e na Câmara"

Ministro Luiz Fux devolve medidas a deputados; Gilmar e Maia reagem a ‘intromissão’

O ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou nesta quarta (14) que a Câmara dos Deputados analise novamente o pacote anticorrupção votado pelos deputados e enviado ao Senado. A decisão, em caráter liminar (provisório), abriu novo embate entre Judiciário e Legislativo e dentro do próprio Supremo. “Ê uma intromissão indevida”, disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “[Fux] deveria fechar o Congresso de uma vez e dar a chave à Lava Jato”, afirmou à Folha o ministro Gilmar Mendes. Segundo ele, o projeto foi feito pelos investigadores e “atende a interesses dessa equipe”. O projeto, de iniciativa popular, teve origem em campanha do Ministério Público e colheu mais de 2 milhões de assinaturas. Foi votado e alterado pelos deputados na madrugada de 30 de novembro. Fux determinou que a tramitação volte à estaca zero porque o texto foi alterado com emendas parlamentares, entre elas a que dispõe sobre abuso de autoridade de juízes e membros do Ministério Público.   

 
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