sábado, dezembro 10, 2016

Crônica

Quase...

Sidney Borges
Acordei cedo. A manhã estava bonita, ensolarada, depois o céu ficou encoberto, mas quando fui passear no jardim tinha sol. Fiquei contemplando a grama, ontem o jardineiro cortou, depois choveu, a grama gostou, tive a sensação que sorria para mim. Foi quando notei alguma coisa no fundo do quintal, perto da pitangueira maior, tenho duas, ambas dadivosas, mas o momento não é de pitangas, é de acerolas, o chão está coberto de bolinhas vermelhas, bom para o teiú que aparece quase todos os dias e assusta os gatos. 

Não sei se assusta, mas eles ficam atentos ao bicho verde e lustroso que passeia silencioso. 

O que seria aquela coisa que vi de relance, um gato estranho, um gambá? Continuei observando o jardim e aproveitei para tirar algumas folhas secas da samambaia "Sua Boba", que me acompanha há mais de trinta anos, sempre verde e sempre alegre. Conversamos um pouco, como é de praxe. Quando saio para dar aulas ela fica rindo de mim. Sua Boba é gozadora, hoje ela perguntou quando eu ia me aposentar e estampou um sorriso amarelo nas folhas. 

Foi nesse momento que a coisa passou roçando meus calcanhares. Rápido como Bruce Lee me virei e tentei agarrá-la pelo rabo, a coisa tinha rabo. Não consegui, o ser furtivo escapou pela lavanderia e sumiu como fumaça que se esgarça no ar. 

Quase, faltou o quase, um dia agarro o tempo pelo rabo e seguro com força e ele para de derrubar meus raros cabelos. Um dia...

Física


Opinião

Sapateiros da República

Demétrio Magnoli
Marco Aurélio Mello crismou a solução de conservar Renan Calheiros na presidência do Senado afastando-o da linha sucessória como "meia sola constitucional".

De gambiarras o magistrado entende: foi ele que mandou tramitar na Câmara um processo de impeachment contra o então vice Michel Temer, mesmo se a Constituição não prevê o impedimento de vice-presidente. Mas a sapataria inferior tornou-se ofício permanente dos ministros do STF, que já nem simulam algum apego à tábua da lei.

No templo da Justiça, meia sola é a regra. Em maio, ao suspender o mandato de Eduardo Cunha, a Corte Suprema ignorou o princípio básico de que apenas os eleitos têm a prerrogativa de dispor do mandato dos eleitos. Na ocasião, os juízes ainda afetaram escrúpulos constitucionais, qualificando a sentença como "excepcional". Contudo, de fato, escudado na aversão popular ao corrupto caricatural, o STF erguia-se como Poder Moderador, árbitro dos conflitos da elite, e prestava ao governo Temer um serviço de higienização.

A sapataria de quinta operou novamente no último dia de agosto, pelas mãos de Ricardo Lewandowski, fatiando a Constituição para preservar os direitos políticos da presidente impedida. De tão porco, o serviço provocou reações nauseadas entre os pares do ínclito juiz –mas jamais foi impugnado pelo tribunal.

É que a manobra ilegal de absolvição parcial de Dilma descortina um caminho de redenção para incontáveis patifes cujos mandatos descerão pelo ralo no curso da megadelação da Odebrecht.

O caso Renan ilustra exemplarmente os mecanismos da conciliação por cima, em meio ao fogo quente da crise. O enredo desenrolou-se em quatro atos farsescos, até um pacto final que celebra a república dos privilégios.

Primeiro ato: em nome da "governabilidade", o STF posterga decisões sobre 12 inquéritos que envolvem o presidente do Senado. Segundo ato: quando, finalmente, os ministros togados o declaram réu no mais antigo desses escândalos, Renan saca o revólver e ameaça o Judiciário e o Ministério Público com a votação de projetos sobre abuso de autoridade e supersalários. Terceiro ato: sob o amparo de Rodrigo Janot e da indignação das ruas, Marco Aurélio saca sua própria arma, concedendo monocraticamente a liminar de afastamento de Renan. Quarto ato: em nome da "independência dos Poderes", Renan chama o blefe, unificando a mesa do Senado em desafio à decisão judicial e deflagrando uma confrontação institucional. Epílogo: os lados em conflito firmam nos bastidores um pacto indecente e, olhos nos olhos, lentamente, baixam suas armas.

Justiça? Uma liminar ilegal, inspirada na sentença "excepcional" sobre Eduardo Cunha, não retifica a longa omissão do STF sobre os inquéritos que pesam sobre Renan.

Interesse público? Tanto as partes razoáveis do projeto de lei de abuso de autoridade quanto a urgência de cortar as rendas exorbitantes de magistrados e procuradores foram manipuladas por Renan como pretextos no jogo de chantagem com o STF. De dia, os farsantes gritam à opinião pública. À noite, sussurram com suas respectivas corporações.

De dia, mas ao abrigo de pesadas cortinas, negociou-se o pacto da conciliação. Na véspera da decisão do STF, Cármen Lúcia recebeu o vice-presidente do Senado, Jorge Viana, um embaixador de Renan. A presidente do tribunal reuniu outros seis ministros togados na Sala da Harmonia. Viana terá enfatizado que, na guerra total, seriam empregadas armas químicas: a suspensão da votação da PEC do teto de gastos, destruindo a cidadela do governo Temer e devastando a economia do país. Os sapateiros manufaturaram, então, a meia sola que se conhece.

Terão fabricado outras, que não se conhecem, sobre as perspectivas judiciais de Renan e os supersálarios de juízes e procuradores? É trégua, não paz. Os sapateiros conservam suas armas –e suas habilidades.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 10 / 12 / 2016

O Globo
"Delatores citam Temer, Renan, Maia, Padilha, Moreira, Alckmin, Serra..."

E mais: Jucá, Eunício, Palocci, Kátia Abreu, Geddel, Agripino, Cunha, Jaques Wagner, Marco Maia, Ciro Nogueira, Gim Argelo

Ex-executivos da maior empreiteira do país começam a ser ouvidos pela Lava-Jato e relatam doações legais e ilegais para integrantes das cúpulas do governo e do PMDB, além de tucanos, petistas e partidos aliados do Planalto

Em delação para a Lava-Jato, o ex-diretor da Odebrecht Claudio Melo Filho citou o presidente Temer e integrantes das cúpulas do governo e do PMDB como beneficiários de doações, legais ou via caixa dois, em troca de apoio a interesses privados da empreiteira, segundo o “Jornal Nacional” da TV Globo. Melo afirmou que, em 2014, Temer pediu a Marcelo Odebrecht ajuda para campanhas e que o então presidente da empresa deu R$ 10 milhões para Skaf em SP e para Eliseu Padilha, hoje ministro. Parte do dinheiro teria sido entregue no escritório de José Yunes, amigo e assessor de Temer. Em nota, o presidente repudiou “com veemência as falsas acusações” e disse que as doações foram legais. Segundo o delator, foram repassados R$ 22 milhões ao senador Romero Jucá. Também foram citados os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Rodrigo Maia, e petistas como Jaques Wagner. Executivos da Odebrecht delataram ainda caixa dois para campanhas do governador Alckmin e do hoje ministro Serra, do PSDB. Os acusados negam irregularidades.     

O Estado de S.Paulo
"Delator da Odebrecht cita Temer e cúpula do PMDB"

Segundo ex-diretor, presidente pediu R$ 10 milhões e parte do dinheiro foi paga em escritório de seu amigo

O ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho disse que o presidente Michel Temer pediu a Marcelo Odebrecht “apoio financeiro” para as campanhas do PMDB em 2014 e o dono da empreiteira se comprometeu em pagar R$ 10 milhões. Segundo anexo de 82 páginas entregue ao Ministério Público Federal durante tratativas para acordo de delação premiada, uma das entregas de dinheiro foi feita no escritório de advocacia de José Yunes, assessor da Presidência. O delator cita ainda o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil), o secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos do governo, Moreira Franco, e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), além de outros parlamentares. Melo precisará confirmar as informações em depoimento formal, que será encaminhado para homologação do ministro do STF Teori Zavascki.                

Folha de S. Paulo
"Odebrecht diz ter pago caixa 2 em empresa de amigo de Temer"

Ex-executivo cita em delação cúpula do PMDB e chefe da Câmara; todos negam as acusações

Ex-executivo da Odebrecht disse em delação premiada, ainda não homologada pela Justiça, que parte do caixa 2 ao PMDB em 2014 foi entregue em dinheiro vivo no escritório de José Yunes, amigo e assessor de Michel Temer. O ex-vice de Relações Institucionais Cláudio Melo Filho disse que, além de Temer, outros caciques do PMDB (Renan Calheiros, Moreira Franco, Eduardo Cunha, Eunício Oliveira e Romero Jucá) receberam da empreiteira. Melo Filho citou à Lava Jato mais de 20 políticos, entre os quais Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara. O ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, seria um dos operadores de recursos para Temer. Ele nega. Segundo Melo Filho, foram pagos R$ 10 milhões ao PMDB após solicitação de Temer a Marcelo Odebrecht, herdeiro da empresa. A Presidência confirmou o encontro, mas disse que foram pedidos apenas recursos legais. Temer repudiou “as falsas acusações” de Melo Filho. Os demais citados negam o recebimento de verbas ilícitas. À delação do ex-executivo da Odebrecht ainda deverão ser acrescentadas provas e depoimentos.  

sexta-feira, dezembro 09, 2016

Paulistinha


Opinião

Reza brava

Celso de Almeida Jr.

Há alguns anos, eu e um amigo - muito religioso - preparávamos um cliente para um debate que ocorreria num ginásio poliesportivo, a noite.

Com direito a torcida, candidatos a prefeito seriam provocados sobre os mais espinhosos temas.

Naquela tarde, simulamos questões e sugerimos ajustes nas respostas.

Aos que nunca enfrentaram uma experiência destas, posso garantir que é inevitável enfrentar certa tensão.

Em nosso caso, a situação era mais complicada, pois teríamos a agitação das arquibancadas.

Pois bem...

Chegada a hora, credenciado como assessor, me posicionei junto ao cliente.

Olho para um lado, nada.

Olho para o outro, também nada.

Quem eu procurava?

Ué?! O amigo que, junto comigo, treinara o candidato para aquele momento crítico.

Sua presença próxima - conforme eu pensava - seria algo natural, pois era meu único aliado nas orientações rápidas, caso o candidato enfrentasse algum revés.

Acionei o celular.

Atendeu.

Onde estava?

"Celso, preferi ficar nos bastidores, em profunda oração, para que tudo dê certo..."

Soltei um sonoro palavrão que não escapou aos ouvidos atentos de nosso cliente.

Este, ao saber o motivo de minha irritação, relaxou, perdeu a tensão e caiu na risada.

Assim, descontraído, foi muito bem no debate; considerado vitorioso, tanto pela qualidade das respostas, como pela firmeza no posicionamento.

Ao final, o amigo da oração veio me abraçar, comemorando o desempenho do cliente.

Desisti de questionar a sua atitude.

Resignado, agradeci a reza.

Desisti da braveza.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Mesmo conhecendo as consequências de nossos atos, não deixaremos de agir

Contardo Calligaris
Todos conhecemos a história da rã e do escorpião (é uma fábula recente, parece que surgiu nos anos 50 do século passado).

O escorpião, querendo atravessar o rio, pede à rã que ela o carregue nas costas. A rã responde que ela não é boba: o escorpião vai picá-la. O escorpião argumenta que, se ele picasse a rã, eles afogariam juntos –e ele não quer morrer, certo?

A rã, convencida, topa carregar o escorpião, o qual, no meio da travessia, pica a rã. Os dois vão morrer afogados. A rã estranha: você também vai morrer. E o escorpião conclui: não posso fazer nada, querida rã, picar é minha natureza.

O roteiro é um pouco capenga. Se fosse a rã, eu recusaria o pedido do escorpião porque, afinal, um escorpião avisado esperaria termos chegado do outro lado antes de me picar. Mas, para que a história funcione, imaginemos que o escorpião possa picar a rã só quando ambos estiverem no meio do rio.

A fábula quer nos dizer que a ruindade está na "natureza" da gente e é irresistível. E há um corolário, que é o que me interessa hoje e que diz: como o escorpião, podemos conhecer perfeitamente as consequências ruinosas de nossos atos, não por isso deixaremos de agir.

Se você fizer "isso", será privado de lanche por um mês ou irá para a cadeia por um ano e para o Inferno para sempre. Por mais que a gente esteja convencido dessas consequências, agiremos sem levá-las em conta. Acrescente à lista o câncer no pulmão para os fumantes, a cirrose hepática para quem bebe demais, o aquecimento global –e, claro, o afogamento para quem pica a rã que o carrega.

Já ouvimos as respostas possíveis: vai que, quando a rã afundar, eu aprenda a nadar na hora, vai que a polícia não me pegue –sem contar que há muitos que fumam e estão ótimos"¦ O futuro não é sempre incerto? O que significa "conhecer" as consequências futuras de nossos atos?

Agora, contemple o mosaico do Juízo Final na igreja de Torcello (Veneza), ou o Juízo Final na capela Scrovegni, em Pádua, ou na Sistina, em Roma. É bem provável que o homem medieval e o renascentista tivessem uma experiência do tempo diferente da nossa –uma experiência realmente cristã, no sentido em que a primeira vinda do Messias já teria abolido o tempo.

Claro, o tempo linear existe para o cristão: podemos pecar e "depois" nos arrepender, sermos perdoados, evitar o Inferno passando um "período" no Purgatório etc. Mas, de novo, considerem aquelas representações gigantescas do Juízo Final: para nossos antepassados, o Juízo não é uma promessa nem uma ameaça, ele é agora, lá, na nossa frente. Ao pecar, nós temos a experiência da danação.

O escorpião medieval e renascentista, na hora de picar a rã, não estava imaginando seu afogamento futuro, ele já estava vivenciando seu afogamento. Mesmo assim, ele picou (ou pecou).

Pensei nisso assistindo a "A Chegada", de Denis Villeneuve, em que os terrestres recebem a língua dos ETs como presente. Gostei do filme porque admiro os antropólogos de campo, que conseguem aprender línguas totalmente desconhecidas de tribos nunca contatadas antes.

Quem fala a língua dos ETs muda sua experiência do tempo: será que seríamos muito diferentes se o tempo para nós não fosse linear? Ou seja, se o passado e o futuro habitassem simultaneamente o nosso presente?

No filme, supõe-se que isso nos torne mais sábios. Eu tendo a acreditar que o escorpião, mesmo vivendo seu afogamento na hora de picar, continuaria picando a rã. O assassino continuaria matando, embora sentindo o nó da forca se fechando no seu pescoço.

Se o conhecimento do futuro não garante nenhuma melhora, será que o passado funciona melhor? Afinal, tem aquela ideia de que é bom conhecer a história para evitar a repetição. Pois bem, não exageremos no otimismo.

Está em cartaz um filme estranho de Marco Bellocchio, "Sangue do Meu Sangue", em que coexistem duas histórias, pelas ruas e os porões de Bobbio (uma linda comuna medieval da qual já foi dito que ela é a paisagem de fundo da Mona Lisa de Leonardo –vai saber).

Moral da fábula de Bellocchio (para mim): o passado insiste no presente, mas não porque ele nos "ensinaria" a ser diferentes e melhores. Ele insiste porque se repete, só que, como dizia Marx, ele tende a se repetir primeiro como tragédia e depois como farsa"¦

Aliás, nestes dias, uma pergunta me tira um pouco de sono: qual será a repetição em curso no momento? 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 9 / 12 / 2016

O Globo
"Exclusão de bombeiro e PM agrava crise dos estados"

Categorias respondem por metade do déficit das previdências estaduais

Analistas criticam recuo do governo e lembram que União havia se comprometido com os governadores a incluir os regimes especiais. Regras de transição para os funcionários públicos serão mais suaves

A decisão do governo de retirar policiais militares e bombeiros da proposta de mudança nas regras da aposentadoria foi criticada por especialistas. As duas categorias respondem por um déficit de R$ 28,8 bilhões nas previdências estaduais, ou quase metade do rombo total de R$ 60,9 bilhões dos 26 estados e do Distrito Federal. Analistas lembram que o governo federal havia se comprometido com os governadores a incluir esses regimes especiais na mudança constitucional. A proposta de reforma da Previdência também prevê regras de transição mais suaves para funcionários públicos em relação a trabalhadores do setor privado. Para os servidores que foram admitidos antes de 2013, não haverá redutor no valor dos benefícios.     

O Estado de S.Paulo
"Planalto admite rever idade mínima para aposentadoria"

Regra de transição na Previdência também pode ser negociada com centrais sindicais para reduzir resistência à reforma

Para enfrentar resistências à reforma da Previdência, o Planalto está disposto a negociar com centrais sindicais mudanças na idade mínima de 65 anos incluída na proposta enviada ao Congresso na segunda-feira. Também poderá entrar na discussão o “pedágio” que obrigará homens de 50 anos e mulheres de 45 a trabalhar mais para se aposentar, além do “gatilho” que elevaria a idade mínima a 67 anos até o fim dos anos 2050. No texto da proposta de emenda constitucional encaminhada aos parlamentares, o governo estabeleceu uma regra de transição até a implementação completa da reforma, com um pedágio de 50% sobre o tempo de contribuição que falta para se aposentar. O valor é maior dos que os 40% discutidos inicialmente durante a elaboração do texto. Segundo interlocutores do governo, a proposta foi desenhada com uma “gordura” para negociação.                

Folha de S. Paulo
"Odebrecht diz ter pago caixa 2 a Alckmin em dinheiro vivo"

Segundo delatores, tucano recebeu R$2mi via cunhado; governadordiz só terautorizado doação legal

A Odebrecht disse à Lava Jato ter pago caixa dois em dinheiro vivo para as campanhas de 2010 e 2014 do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), informa Bela Megale. As delações ainda não foram homologadas pelo STF. Segundo a empreiteira, o empresário Adhemar Ribeiro, irmão da primeira-dama, Lu Alckmin, recebeu R$ 2 milhões em seu escritório em São Paulo. O caixa dois não foi discutido diretamente com Alckmin, afirmam executivos. Naquele ano, 2010, o tucano venceu no primeiro turno. Na eleição seguinte, Marcos Monteiro, hoje secretário de Planejamento do governo paulista, teria sido um dos intermediários das doações ilegais, segundo depoimentos. A Folha não obteve o valor do suposto repasse em 2014. Entre os delatores está o ex-diretor Carlos Armando Paschoal, que disse ter pago ilegalmente R$ 23 milhões em 2010 para a campanha presidencial de José Serra (PSDB). Procurado, Alckmin afirmou que só tesoureiros oficiais foram autorizados a arrecadar doações, todas em conformidade com a lei. O tucano disse ser prematuro tratar de vazamentos de delações não homologadas.  

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Física


Opinião

Cuba pré-castrista tinha saúde e educação notáveis como os atuais

Demétrio Magnoli
Na sua capa, à guisa de epitáfio, a Folha (27/11) ofereceu a Fidel Castro uma espécie de absolvição histórica: "A ditadura é reconhecida por ter melhorado as condições de saúde e educação na ilha caribenha". O mito da ditadura benigna emergiu, em formulações similares, nas declarações de FHC e José Serra, refletindo um consenso dos que, ao menos, recusam-se a elogiar fuzilamentos sumários ou o encarceramento de dissidentes. Temo estragar a festa contando um segredo de Polichinelo: a Cuba pré-castrista exibia indicadores de saúde e educação tão notáveis quanto os atuais.

Fulgêncio Batista dominou a política cubana durante um quarto de século, até a revolução de 1959. Em 1937, no seu segundo ano de poder, instituiu o salário mínimo e a jornada de oito horas, antes do Brasil (1940) e de qualquer país latino-americano. No início da segunda década da "era Batista", em 1955, a taxa de mortalidade infantil em Cuba (33,4 por mil) era a segunda menor na América Latina.

O embargo econômico dos EUA contra Batista (sim, Batista!) começou em 1957. Naquele ano, a taxa de mortalidade infantil cubana (32 por mil) estava entre as 13 mais baixas do mundo, perto da canadense (31) e menor que as da França (34), Alemanha (36) e Japão (40). Atualmente, segue baixa, mas já não está entre as 25 menores do mundo. No mesmo ano, Cuba aparecia como o país latino-americano com maior número de médicos per capita (um por 957) e a maior quantidade de calorias ingeridas por habitante (2.870).

Enquanto promovia centenas de execuções sumárias, o regime castrista conduziu campanhas de alfabetização rural tão inúteis quanto o Mobral de Emilio Médici. Como no Brasil, o analfabetismo reduziu-se quase à insignificância pelo efeito inercial da universalização do ensino básico. Mas Cuba partiu de patamar invejável: as taxas de alfabetização de 1956, quando os guerrilheiros chegaram à Sierra Maestra, colocavam a ilha na segunda posição na América Latina (76,4%), bem à frente da Colômbia (62%) e do Brasil (49%). Todas essas estatísticas estão na série da anuários demográficos publicados pela ONU entre 1948 e 1959, hoje disponíveis na internet. O jornalismo prefere ignorá-las, repercutindo a cartilha de propaganda castrista.

Batista fugiu para a República Dominicana no Ano Novo de 1959. Se, na época, a Folha aplicasse o critério que usa para Fidel, teria escrito que a ditadura de Batista "é reconhecida por ter melhorado as condições de saúde e educação na ilha caribenha". Por sorte, não o fez: Cuba não foi salva por Fidel nem pelo tirano que o precedeu. Médicos cubanos realizaram a primeira anestesia com éter em terras latino-americanas (1847), identificaram o agente transmissor da febre amarela (1881) e inauguraram a pioneira máquina de raio-X da América Latina (1907). Antes de Batista, em 1931, a taxa de mortalidade geral cubana (10,2 por mil) era menor que a dos EUA (11,1).

Governos têm importância menor que a "história profunda". Nos tempos coloniais, Cuba foi a "joia da coroa" espanhola no Caribe, um dos mais dinâmicos centros hispano-americanos, atraindo uma numerosa elite econômica e intelectual. A excelente faculdade de Medicina de Havana, os hospitais e as escolas do país nasceram no mesmo solo cosmopolita que produziu José Martí, apóstolo da independência, a Constituição democrática de 1940 e o Partido Ortodoxo, berço original do grupo revolucionário liderado por Fidel. Dia e noite já se sucediam em Cuba antes do triunfo final da guerrilha castrista, na Batalha de Santa Clara.

Frei Betto dirá que a presciente ONU falsificou preventivamente as estatísticas colhidas na era pré-revolucionária para presentear o imperialismo ianque com torpes argumentos anticastristas. Apesar dele, os malditos anuários teimam em narrar uma história inconveniente. Hasta siempre, Comandante! 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 8 / 12 / 2016

O Globo
"Desobediência premiada"

Por 6 votos a 3, Supremo mantém Renan à frente do Senado; Temer, FH e Sarney articularam solução

Apesar de ter sido desafiado por Renan Calheiros, o STF decidiu mantê-lo no cargo de presidente do Senado, mesmo sendo réu, impedindo apenas que assuma eventualmente a Presidência da República. O julgamento ocorreu 24 horas após a inédita decisão do Senado de desobedecer à liminar do ministro Marco Aurélio Mello que ordenava o afastamento imediato de Renan do posto. A crise deflagrou operação em que o presidente Temer e os ex-presidentes FH e José Sarney se empenharam em convencer ministros do STF a apoiar a solução que acabou vencedora. O Planalto comemorou, certo de que agora conseguirá aprovar emenda que limita gastos públicos.     

O Estado de S.Paulo
"Supremo mantém Renan na presidência do Senado"

Por 6 votos a 3, ministros decidem apenas tirar peemedebista da linha sucessória da Presidência da República

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu ontem, por 6 votos a 3, manter Renan Calheiros (PMDB-AL) no comando do Senado, mas proibi-lo de assumir interinamente a Presidência da República em caso de ausência de Michel Temer. Renan era o segundo na linha sucessória, atrás do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O resultado do julgamento da liminar do ministro Marco Aurélio Mello – que determinava o afastamento do peemedebista – significou uma solução de meio-termo para a crise entre Legislativo e Judiciário, acirrada anteontem quando Renan se recusou a cumprir a decisão judicial. Um dos articuladores do acordo, a presidente do STF, Cármen Lúcia, fechou a votação exortando “prudência”, “busca da conciliação” e “independência e harmonia dos Poderes”. Renan chamou a decisão de “patriótica”. O resultado foi recebido com alívio no Planalto, que atuou nos bastidores para baixar a temperatura da crise e evitar a suspensão da votação pelo Senado da PEC do Teto dos Gastos, marcada para a próxima semana.                

Folha de S. Paulo
"Supremo mantém Renan no cargo"

Presidente do Senado, entretanto, foi afastado da linha sucessória da Presidência da República por ser réu na corte

Por 6 votos a 3, o Supremo Tribunal Federal manteve Renan Calheiros (PMDB-AL) no cargo de presidente do Senado. O congressista, entretanto, deixou a linha sucessória da Presidência da República. Senadores, ministros do STF e aliados do presidente Michel Temer atuaram nos bastidores para evitar o afastamento do peemedebista e atenuar a crise entre poderes. Relator da ação, Marco Aurélio chamou a decisão de “jeitinho” e “meia-sola constitucional”. O magistrado havia determinado a saída, a pedido da Rede, porque Renan é réu sob acusação de desviar verba pública — ele nega. O Senado decidiu ignorar a ordem enquanto aguardava uma decisão do plenário. Votaram contra a saída do peemedebista os ministros Celso de Mello, Teori Zavascki, Dias Toffoli, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia, presidente da corte. Edson Fachin e Rosa Weber acompanharam o relator. Para Renan, a decisão do STF foi patriótica. “Ultrapassamos, todos nós, Legislativo, Executivo e Judiciário, outra etapa da democracia com equilíbrio.”  

 
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