sexta-feira, dezembro 02, 2016

British Aerospace 146-100


Coluna do Celsinho

Palpitar

Celso de Almeida Jr.

A queda do avião da LaMia com o time da Chapecoense, na Colômbia, marcou a semana.

Comoção mundial, ofuscou inclusive as propaladas cerimônias fúnebres de Fidel Castro.

Pois é...

Teremos que esperar a criteriosa análise dos especialistas para saber os motivos da queda da aeronave.

Apesar das evidências, quem gosta de aviação sabe que não é prudente emitir opiniões sobre acidentes desta natureza, antes de algum parecer técnico credenciado.

Foi curioso, entretanto, ver a quantidade de especulações - e bobagens - veiculadas na imprensa sobre as prováveis causas do acidente.

Especialistas em tudo, escreveram e palpitaram sem cerimônias, contribuindo para aumentar o pânico naquele que, por alguma razão, tem medo de voar.

Infelizmente, é sempre assim.

Falar pelos cotovelos deve ser um defeito de fabricação do ser humano.

Tal falha parece amplificar na classe política, nacional e internacional.

Se Hugo Chávez estivesse vivo, sabendo que a aérea LaMia nasceu venezuelana, possivelmente diria que foi um atentado da CIA.

E por aí vai...

Segue a vida, entretanto, sinalizando que - assim como pilotar aviões - pilotar palavras exige prudência e zelo.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Enquanto o Brasil chorava

Gabeira
Na madrugada, como costumam sempre fazer, os deputados votaram um texto destinado a golpear a Lava Jato e intimidar os procuradores e juízes. Dessa vez uma madrugada de luto pela queda do avião da Chapecoense, desastre que impactou o mundo.

Temer prometeu vetar a anistia para o caixa 2 e outros crimes. Mas não mencionou o tema da represália à Justiça, uma das grandes aspirações de Renan Calheiros.

O Brasil está diante de uma afronta espetacular: deputados investigados por corrupção determinam os limites dos próprios investigadores. Denunciar sua manobra não significa conciliar com abuso de autoridade, mas apenas enfatizar que legislaram em causa própria. No Brasil são os bandidos que determinam como e o que pode ser feito contra eles.

O que existe mesmo, como ação central, é uma tentativa de neutralizar a Operação Lava Jato, sobretudo às vésperas da divulgação dos depoimentos da Odebrecht. O caminho foi interferir nas “10 Medidas Contra a Corrupção”.

Interferir na proposta, na verdade, é um atributo do Congresso. Assim como não deve simplesmente carimbar medidas do governo, o Congresso não pode apenas carimbar medidas que se originam na sociedade.

Não há nenhum problema em cortar exageros, em adequar ao texto constitucional, etc. A crise começa quando decidem confrontar a Lava Jato e outras investigações. Em primeiro lugar, com manobras sobre uma anistia impossível; em segundo lugar, aprovando uma lei de controle de autoridade que não pertencia à proposta original.

Aliás, esse tema pertence a Renan Calheiros, com 12 investigações no Supremo Tribunal Federal. A Câmara dos Deputados antecipou-se a ele porque, com o êxito da Lava Jato, a contraofensiva parlamentar tornou-se a principal tarefa para bloquear as mudanças.

Não dá. Assim como não deu para o governo transformar-se num grupinho de amigos do Geddel e pressionar para que o prédio La Vue fosse construído com 30 andares.

Renan Calheiros segue sendo a maior ameaça. É curioso como um homem investigado 12 vezes coloca como sua tarefa principal controlar a Justiça. Com a votação da Câmara ele recebeu um alento. Renan e os deputados caminham para impedir que o Brasil se proteja dos assaltantes que o levaram à ruína.

Renan tem influência. Há os que pensam, como ele, que é preciso torpedear a Lava Jato e há os que não ousavam combatê-lo, mas agora começam a perceber que foi longe demais. E o derrotaram no plenário do Senado, impedindo a urgência na lei da intimidação.

Renan desenvolve o mesmo estilo de Eduardo Cunha, o cinismo, e usa o cargo para se proteger da polícia. Enfim, Renan delira, como Cunha delirava. A melhor saída é eles que se encontrem em Curitiba. Na ânsia de sobreviver, não hesitam em agravar a situação do País, já em crise profunda.

A votação escondida num momento de luto, tudo isso é muito esclarecedor sobre a gravidade do desafio que lançaram. O sonho dourado dos políticos corruptos ainda em liberdade não é apenas deter as investigações. Eles querem reproduzir o momento anterior, em que assaltavam os cofres das estatais, vendiam artigos, emendas, frases, às vezes até um adjetivo.

Romero Jucá é um craque nessa arte. Ele conseguiu passar uma lei que permite a repatriação do dinheiro de parentes de políticos. E não se expôs. Jogou apenas com a incompetência da oposição.

Os membros da apodrecida cúpula do PMDB precisam ser julgados. Enquanto estiverem no poder, estarão tramando uma volta ao passado, porque é esse o território em que enriqueceram. Eles sabem que nada é tão fácil como antes, caso contrário Sérgio Cabral estaria em Paris aquecendo o bumbum em privadas polonesas.

O problema no Brasil é julgar para gente com foro especial. O Supremo é um órgão atravancado por milhares de processos.

Uma razão a mais para julgar os políticos investigados com urgência é que estão legislando em causa própria. Depois de tantas investigações, tanta gente na rua, é incrível que o Brasil continue sendo dirigido pelo mesmo grupo que o assaltou.

É inegável que houve avanços, muito dinheiro foi restituído. Dirigentes do PT estão na cadeia, assim como alguns do principais empreiteiros do País. Entretanto, quem conseguiu escapar até agora organiza a resistência, prepara-se para o combate e só descansará quando puder de novo roubar em paz.

Esta semana me lembrei do Glauber Rocha. Num de seus diálogos mais geniais, um personagem dizia: “Já não sei mais quem é o adversário”. Se a sociedade e a Justiça tiverem dúvidas sobre quem é, podem pagar caro por essa hesitação.

O movimento inspirado por Calheiros e iniciado com êxito na Câmara é, no fundo, uma provocação irresponsável. O Congresso, recentemente, já foi invadido por gente indignada com a corrupção. Toda a luta pelo impeachment foi conduzida de uma forma pacífica. Todavia se torna mais difícil evitar a radicalização, uma vez que deputados e senadores já mal podiam andar pelas ruas antes mesmo de golpearem a Lava Jato.

Será preciso muita habilidade e paciência para julgá-los e prendê-los. Se isso não for feito logo, o Brasil merecerá o nome que Ivan Lessa lhe dava nos seus textos bem-humorados: Bananão. Não nos deixam outro caminho senão lutar com todas as forças, como se tivéssemos sido invadidos por alienígenas de terno e gravata.

Depois de nove anos, o primeiro inquérito em que Renan Calheiros é acusado finalmente entrou na pauta do Supremo para ser julgado. O silêncio dos ministros ao longo de todos esses anos contribuiu para que ele se sentisse impune. Se escolheram esta semana para absolvê-lo, então aí terão, ainda que involuntariamente, se tornado numa força auxiliar do crime político. Se condenado na primeira ação, Renan começará a arrumar as malas para Curitiba. Lá nasceram os demais inquéritos e lá já estão outros que deliram com riqueza e poder. Como Eduardo Cunha.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 2 / 12 / 2016

O Globo
"Odebrecht pede perdão, paga R$ 6,8 bi e começa a delatar"

Emílio e Marcelo Odebrecht assinam acordo com a Lava-Jato

Proprietários, executivos e ex-executivos da maior empreiteira do país reconheceram envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras e outras estatais, além de obras em estados

A maior empreiteira do país formalizou ontem acordo de leniência com a Lava-Jato, e seus donos assinaram a delação premiada. Após nove meses de negociação, Emílio Odebrecht e seu filho, Marcelo, e 75 executivos e ex-dirigentes da empresa reconheceram envolvimento em esquemas de corrupção e se comprometeram a pagar multa de aproximadamente R$ 6,8 bilhões. A empresa pediu desculpas por ter participado de “práticas impróprias”. Pelo acordo, em que a empreiteira deve citar cerca de 200 políticos, Marcelo Odebrecht permanecerá preso até o fim de 2017, totalizando dois anos e meio de prisão. A partir de então, cumprirá prisão domiciliar.    

O Estado de S.Paulo
"Odebrecht fecha delação, pagará R$ 6,8 bi e pede desculpas ao País"

77 acionistas, executivos e ex-executivos do grupo fornecerão informações à Lava Jato; empresa fala em ‘grande erro’ e combate à corrupção

No dia em que 77 acionistas, executivos e ex-executivos do grupo Odebrecht começaram a assinar acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal no âmbito da Lava Jato, a empresa fechou acordo de leniência de R$ 6,8 bilhões, a ser pago em 23 anos. O valor será dividido entre Brasil, EUA e Suíça. No País, o acerto é condição para a empreiteira seguir com contratos de obras públicas. Em carta aberta, o grupo pediu desculpas aos brasileiros por ter participado de práticas “impróprias”, reconhece que pagou propina e se compromete a adotar princípios “éticos, íntegros e transparentes” na relação com agentes públicos e privados. “Reconhecemos nosso envolvimento, fomos coniventes com tais práticas e não as combatemos como deveríamos. Foi um grande erro (...) Não admitiremos que isso se repita.” A empresa deve R$ 110 bilhões.               

Folha de S. Paulo
"Por 8 votos a 3, Supremo torna Renan réu pela primeira vez"

Acusado de desviar verba pública, presidente do Senado afirma que provará sua inocência

Por 8 votos a 3, o Supremo Tribunal Federal tornou réu pela primeira vez o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). A Procuradoria-Geral da República o acusa de peculato (desvio de verbas). De acordo com o Ministério Público, ele pagou com recursos ilícitos pensão a uma filha entre 2004 e 2006. Em 2007, Renan chegou a renunciar à presidência da Casa quando a investigação teve início. Edson Fachin (relator), Cármen Lúcia, Celso de Mello, Marco Aurélio, Luís Barroso, Luiz Fux, Rosa Weber e Teori Zavascki aceitaram a denúncia. Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, não. Em novembro, a maioria do Supremo votou para que réus não integrem a linha sucessória da Presidência da República, caso de Renan. Mas o julgamento foi interrompido por um pedido de vista de Toffoli. Em nota, o presidente do Senado negou a acusação. Disse não haver provas contra ele, mas suposições. 

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Física


Opinião

Em 'Sully', Clint Eastwood mostra que a imperfeição pode ser uma salvação

João Pereira Coutinho
Em janeiro de 2009, um avião pousou de emergência no rio Hudson. Quem não se lembra da história? O nome do piloto era Sully Sullenberger e as 155 pessoas a bordo foram salvas por uma manobra impossível, perigosa, milagrosa.

Um amigo brasileiro enviou-me um e-mail em que comentava: não é impressionante que a presidência de George W. Bush tenha começado com aviões de morte e termine agora com um avião de vida?

Bem visto. Eis a diferença entre o Ocidente liberal e o fanatismo islamita: eles amam a morte; nós fazemos tudo para preservar a vida. Sully virou herói e eu, confesso, nunca mais perdi tempo com o caso. A lenda estava criada.

Agora, Clint Eastwood revisita a lenda para contar o que aconteceu depois do milagre: uma investigação, uma séria investigação às competências do capitão Sully Sullenberger. Ele salvara 155 pessoas, ninguém contestava. Mas foi mesmo necessário pousar no Hudson? Ou o gesto revelou uma imprudência criminosa, sobretudo quando havia opções terrenas mais sensatas?

Fizeram-se simulações de computador. E a máquina deu o seu veredicto: era possível ter evitado as águas do rio e pousar nos aeroportos de LaGuardia ou Teterboro. O próprio Sully começou a duvidar das suas competências. Todos falhamos. Será que ele falhou?

"Sully: O Herói do Rio Hudson", filme que estreia na próxima quinta-feira, é talvez o mais conservador dos filmes de Eastwood. Filosoficamente conservador, digo, e por causa dele reli um dos ensaios que me formaram a cabeça.

Foi escrito em 1947 por Michael Oakeshott (1901""1990) e o título é "Rationalism in Politics". Argumenta Oakeshott que, a partir do Renascimento, o "racionalismo" tornou-se a mais influente moda intelectual da Europa. Por "racionalismo", entenda-se: uma crença na razão dos homens como guia único, supremo, da conduta humana.

Para o racionalista, o conhecimento que importa não vem da tradição, da experiência, da "vida vivida". O conhecimento é sempre um conhecimento técnico, ou o conhecimento de uma técnica, que pode ser resumido ou aprendido em livros ou doutrinas.

Oakeshott argumentava, com uma inteligência serena, que o conhecimento humano não pode ser resumido a um mero "conhecimento técnico". O conhecimento humano depende sempre de um conhecimento técnico e prático, mesmo que os ensinamentos da prática não possam ser apresentados com rigor cartesiano.

Em política, por exemplo, não basta conhecer macroeconomia. É preciso estar atento a uma história, uma tradição –ao "caráter" de um povo, por mais intangível (ou "irracional", dirá o racionalista) que isso possa parecer.

Pessoalmente falando, o ensaio de Oakeshott impediu-me de levar a sério qualquer ideologia que prometa resultados perfeitos de acordo com uma receita qualquer. Isso é válido para ideologias de esquerda ou de direita que propõem as suas soluções independentemente da realidade. Não há "livros sagrados" em política porque a experiência humana é sempre mais vasta do que as fantasias dos teóricos.

Clint Eastwood revisita a mesma dicotomia de Oakeshott para contar a história –e a decisão– de Sully Sullenberger. O avião perde os seus motores na colisão com aves; o copiloto, sintomaticamente, procura a resposta no manual de instruções; mas é Sully quem, conhecendo o manual, entende que ele não basta para salvar o dia.

E, se os computadores dizem que ele está errado, ele sabe que não está –uma sabedoria que não se encontra em nenhum livro porque a experiência humana não é uma equação matemática.

As máquinas são ideais para lidar com situações ideais. Infelizmente, o mundo comum é perpetuamente devassado por contingências, ambiguidades, angústias mas também súbitas iluminações que só os seres humanos, e não as máquinas, são capazes de entender.

Quando li Michael Oakeshott pela primeira vez, encontrei um filósofo que, contra toda a arrogância da modernidade, mostrava como a nossa imperfeição pode ser, à sua maneira, uma forma de salvação. O ensaio era, paradoxalmente, uma lição de humildade e uma apologia da grandeza humana.

Clint Eastwood, aos 86 anos, traduziu para imagens a mais séria lição da minha vida. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 1 / 12 / 2016

O Globo
"Câmara provoca forte reação ao desfigurar pacote anticorrupção"

STF critica, Lava-Jato ameaça renunciar, e ruas fazem panelaço
Saiba como votaram os deputados durante a madrugada
Renan também tenta votar, mas é derrotado no Senado


A Lava-Jato, o Judiciário e o MP reagiram à decisão da Câmara de desfigurar o pacote anticorrupção apresentado por procuradores. Apenas duas das dez medidas originais foram integralmente mantidas, entre elas a criminalização do caixa dois. Presidente do STF, a ministra Cármen Lúcia disse que a tipificação do crime de abuso de autoridade para promotores e juízes contraria a independência do Judiciário. O procurador Deltan Dallagnol chamou de “o começo do fim da Lava-Jato”, e a força-tarefa ameaçou renunciar às investigações. PT, PMDB e PDT foram os que mais votaram pelas mudanças.    

O Estado de S.Paulo
"Força-tarefa ameaça abandonar Lava Jato; aumenta tensão entre Poderes"

Presidente do STF diz que não se conseguirá calar a Justiça; presidente do Senado afirma que proposta original só seria aceita no fascismo

A aprovação durante a madrugada do pacote anticorrupção com emendas que preveem punições a magistrados, procuradores e promotores por abuso de autoridade causou forte reação de Judiciário e Ministério Público. Representantes da força-tarefa ameaçaram deixar a Operação Lava Jato caso o texto seja ratificado pelo Senado e sancionado por Michel Temer. Em nota, a presidente do STF, Cármen Lúcia, lamentou o “texto que pode contrariar a independência do Judiciário”. “Nunca se conseguiu, nem se conseguirá, calar a Justiça.” O procurador Rodrigo Janot falou em “retaliação” e disse que não existem mais as 10 medidas contra a corrupção, que receberam mais de 2 milhões de assinaturas, e o País foi posto “em marcha à ré”. As críticas foram rebatidas pelos presidentes do Senado, Renan Calheiros, que disse que a proposta só seria aceita em regime fascista, e da Câmara, Rodrigo Maia, para quem a Casa exerceu seu papel.               

Folha de S. Paulo
"Recessão prolongada no país eleva pessimismo sobre 2017"

PIB recua 0,8% no 3º trimestre, na 7ª queda seguida; BC reduz juros para 13,75%

O recuo de 0,8% no PIB (Produto Intemo Bruto) no terceiro trimestre frustrou a expectativa de o Brasil sair mais rápido da recessão. É a sétima queda consecutiva e a mais longa sequência de retrações verificada pelo IBGE desde o início da atual série do PIB, há 20 anos. A diminuição na atividade se deu em todos os grandes grupos da economia (investimento, indústria, agropecuária, serviços e consumo). Os dois primeiros haviam registrado desempenho positivo no segundo trimestre. A dificuldade em superar a crise leva analistas a preverem que o PIB continuará retraído no começo de 2017. De acordo com Igor Velecico, economista do Bradesco, o PIB cairá ainda mais em 2016 (3,6%, e não 3,4%) e sua alta será menor no ano que vem: 0,3%, e não 1%. O Banco Central baixou pela segunda vez seguida a Selic, taxa básica de juros, que passou a ser de 13,75% ao ano. A redução dos juros ê vista como essencial para a retomada do crescimento do país. 

quarta-feira, novembro 30, 2016

Física


Opinião

O capitalismo trumpariano se aproxima do nacionalismo nazista

Farreira Gullar
Se a vitória de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos, sob certos aspectos, foi uma surpresa, sob outros resulta coerente com determinadas mudanças verificadas nas últimas décadas na realidade contemporânea a partir do fim do sistema soviético.

O término da Guerra Fria, que dividia o mundo em duas facções hostis, provocou uma série de mudanças políticas, econômicas e ideológicas.

Elas geraram desde o radicalismo islâmico no Oriente Médio até o populismo latino-americano, que vive seus últimos momentos. Mas não só: provocou também reações diversas tanto no capitalismo europeu quanto no capitalismo norte-americano, de que a eleição de Trump é, sem dúvida, uma das consequências mais graves.

É claro que o fim do sistema soviético fortaleceu o capitalismo tanto econômica como ideologicamente, mas também provocou divisões no próprio capitalismo, de um lado favorecendo a tendência mais moderna –que aprendera com o socialismo a lição da igualdade social– mas, de outro, estimulando ideologicamente o capitalismo atrasado, que se valeu do sectarismo comunista para justificar a exploração sem limites e o lucro máximo.

Não é novidade dizer que o sonho da sociedade justa que o comunismo inspirava estimulou o surgimento de partidos e movimentos políticos que, durante quase um século, puseram em questão o regime capitalista, cujo caráter explorador do trabalho humano é indiscutível.

Esses movimentos e partidos, por sua vez, provocaram da parte dos setores mais conservadores reações –nazismo e fascismo foram exemplos extremos, mas não os únicos. Em muitos momentos e países, estabeleceu-se uma divisão insuperável, que se define até hoje como esquerda e direita.

Se é verdade que os erros do regime comunista –mesmo antes de sua derrocada final– impediram uma pretendida hegemonia mundial, o fim dele como realidade política e econômica teria consequências diferentes nos diferentes países capitalistas, indo desde certa socialização do capitalismo em alguns países até, contraditoriamente, a exacerbação da exploração capitalista, já que –segundo estes– ficara demonstrado pela história como a tese de que o capitalismo seria um mal a ser extirpado era resultado de um preconceito e de um erro da esquerda.

E essa tese não foi aceita apenas pelos militantes anticomunistas, mas também pelos setores mais diversos de alguns países europeus que optaram recentemente por governos de direita, não radicais como o de Donald Trump, mas igualmente dispostos a apagar, de uma vez por todas, o pesadelo do anticapitalismo que os assustou por décadas e décadas.

Esse anticomunismo é, portanto, bem mais radical que o europeu, porque a ele se soma a necessidade de erradicar do capitalismo todo e qualquer preconceito socializante, o que o opõe não apenas ao falecido comunismo como também ao chamado capitalismo moderno, minado de intenções progressistas.

Esse caráter do capitalismo trumpariano caracteriza-o como uma opção abertamente reacionária que, não por acaso, o aproxima do nacionalismo nazista, do qual estão excluídos quaisquer sentimentos de solidariedade com o sofrimento humano. Tudo isso é encarado como hipocrisia.

O capitalismo, assim entendido, é o regime dos mais capazes e dos vitoriosos, como Donald Trump.

O que importa é o lucro, ou seja, o aumento do capital e da riqueza, não importando que consequências tenham. Azar daqueles que a natureza criou incapazes.

Por isso mesmo, Trump nega que o desenvolvimento industrial gere o aquecimento do planeta e ameace a sobrevivência da humanidade. Ou seja, "après moi, le déluge" (depois de mim, o dilúvio).

Gostaria de concluir esta crônica tranquilizando o leitor com a seguinte lembrança: todas as tentativas semelhantes a essas, que ignoraram a realidade do processo econômico, político e científico, fracassaram.

Puderam até por algum tempo ganhar o apoio dos menos lúcidos e ressentidos, mas não sobrevivem porque são fruto do sectarismo, de ilusões e de ressentimentos, sem base na realidade. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 30 / 11 / 2016

O Globo
"A tristeza é verde"

Queda de avião que levava Chapecoense mata 71 na Colômbia

Tragédia comove o planeta e deixa futebol mundial de luto

Falta de combustível na aeronave da Lamia é a principal suspeita

A queda do avião que transportava a delegação da Chapecoense e 22 jornalistas para Medellín, onde a equipe catarinense realizaria o sonho de disputar pela primeira vez uma final da Copa Sul-Americana, deixou apenas seis sobreviventes — três atletas, um repórter e dois tripulantes — e comoveu o mundo, especialmente o dos esportes. Especialistas em aviação civil disseram que o fato de não ter havido explosão e a concentração de destroços numa mesma área levantam suspeitas de que a aeronave da Lamia, modelo Avro RJ-85, não tinha combustível suficiente para completar o trajeto entre Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, e a cidade colombiana. Clubes brasileiros se ofereceram para emprestar jogadores à Chapecoense e pediram à CBF que a equipe não sofra rebaixamentos nos próximos três anos. O maior gesto, porém, veio do rival da Copa Sul-Americana, com quem a Chapecoense jogaria hoje: o Atlético Nacional requisitou à Conmebol que a taça seja entregue ao clube brasileiro. A tragédia atingiu também a imprensa brasileira, que perdeu 21 profissionais.    

O Estado de S.Paulo
"Tragédia com Chapecoense mata 71 e comove o país"

Seis pessoas sobreviveram ao acidente, entre elas três jogadores e um repórter

Entre os mortos, 20 profissionais da imprensa

Time catarinense viajava a Medellín para disputar final da Copa Sul-Americana

Autoridades apuram se falta de combustível derrubou avião

A maior tragédia aérea da história envolvendo um time de futebol matou 71 pessoas ontem na Colômbia. Dezenove eram jogadores da Chapecoense que estavam indo disputar a primeira final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional. O avião da LaMia caiu à 1h30 (horário de Brasília), a 30 km do aeroporto de Medellín. Sete pessoas foram retiradas com vida dos destroços, mas o goleiro Danilo morreu no hospital. Sobreviveram o também goleiro Jackson Follmann, que teve uma perna amputada, o lateral Alan Ruschel, com lesão na coluna, e o zagueiro Neto, com hematoma craniano, no abdômen e no tórax. Dos 21 profissionais de imprensa a bordo, só Rafael Henzel, narrador da Rádio Oeste Capital, se salvou. Entre os mortos está o ex-jogador da seleção Mario Sérgio. Autoridades apuram as causas do acidente. Uma hipótese é falta de combustível.               

Folha de S. Paulo
"Queda do avião da Chapecoense mata 71 pessoas; 6 sobrevivem"

Time catarinense viajava para Medellín, na Colômbia, onde disputaria 1ª final fora do Brasil; 20 jornalistas morreram

Um acidente aéreo nesta terça (29) matou 71 pessoas, sendo 19 jogadores da Chapecoense, perto de Medellín ( Colômbia). O time disputaria sua primeira final fora do país. Em homenagem, os colombianos do Atlético Nacional pediram que o rival fosse declarado campeão da Copa Sul-Americana. Vinte profissionais de imprensa também morreram. Seis pessoas sobreviveram. O horário da queda e as causas do acidente são desconhecidos. O avião Avro RJ85, da empresa boliviana La-Mia, saiu de Santa Cruz de La Sierra às 20h15 (horário de Brasília). Por volta da 1h, os pilotos reportaram falha elétrica ao controle aéreo. Não houve contato em seguida. A tragédia interrompe a surpreendente ascensão do time de Chapecó (SC), cidade de 210 mil habitantes. Em apenas sete anos, subiu da quarta para a primeira divisão do Brasileiro e tornou-se sensação no país. É um dos raros exemplos de sucesso dentro e fora do campo. O presidente Michel Temer decretou luto oficial de três dias. A Confederação Brasileira de Futebol adiou a final da Copa do Brasil e a última rodada do Brasileiro. As vítimas foram homenageadas em estádios no exterior e na Arena Condá, casa da Chapecoense. 

terça-feira, novembro 29, 2016

Física


Opinião

O álcool gel é o símbolo de uma 'vida platônica' vendida nas farmácias

Luiz Felipe Pondé
O mundo não acabará com um grito de horror, mas sim com uma overdose de álcool gel na boca.

Há alguns dias, num "Roda Viva" especial na TV Cultura em que influenciadores digitais entrevistaram o meu amigo Leandro Karnal e eu, um dos entrevistadores me perguntou se eu acreditava que, com o avanço da inteligência artificial e das ferramentas de realidade virtual, chegaríamos a um dia em que o sexo com pessoas reais deixaria de existir. Muitos acreditam que sim. Eu, como disse no programa, acredito que o sexo com pessoas reais terá acabado antes. Você deve estar se perguntando a razão de eu achar isso. Explico: o álcool gel acabará com o sexo em nome de uma vida mais segura.

Entre as várias formas de distopias, uma das que mais me fascina é a distopia da limpeza. Uma distopia é algo que nasce de um projeto por um mundo ideal que sempre dá errado. A modernidade é obcecada, desde a "Nova Atlântida", de Francis Bacon (1561-1626), pela ideia de um mundo perfeito, construído a partir de nossa capacidade técnica, cultural e política.

Os idiotas do bem são aqueles que não entenderam ainda que utópicos são os grandes destruidores modernos da vida. Pois bem, um idiota do bem não entende que "limpinhas e limpinhos" não gostam de sexo porque sexo é sujo.

Filosofemos um pouco mais sobre esse horror ao "imundo". Grande parte da filosofia e das religiões sempre temeu as paixões, vendo nelas uma forma de impureza mesmo ontológica, isto é, os "pathos", como diziam os gregos para se referirem às paixões, eram para gente como Platão formas negativas de destruição do ser (por isso, um mal ontológico, porque ontologia é a parte da filosofia que se dedica ao ser).

Limpar o mundo das paixões, das sujeiras e ambivalências, é o projeto moderno por excelência, mesmo que carregue em si laivos românticos aqui e ali. Portanto, o álcool gel é o símbolo de uma "vida platônica" vendida a R$ 10 nas farmácias. Temos medo de tudo que desordena a vida, e com razão, uma vez que a vida é frágil, breve, bruta e efêmera. A beleza é sempre a primeira vítima em toda forma de violência.

Voltando ao programa. Minha resposta gerou uma série de mensagens em que mulheres afirmavam ser "sujinhas" e não "limpinhas", portanto, não estariam no grupo daquelas e daqueles que temem a sujeira do amor.

Para além da "brincadeira" envolvida no acontecimento, a mania de higiene se espalha por toda parte. Alimentação sem sangue, sexo sem secreções, beijos sem saliva, amor sem ciúmes, almas sem inveja, sociedades sem ressentidos, casais sem inseguranças, enfim, um mundo que deixaria a Branca de Neve atordoada.

Nelson Rodrigues, que deveria ser mais estudado em nossas escolas, disse tudo sobre o desejo: "O desejo pinga". É exatamente essa gota, esse resto do amor, que tememos.

No fundo, mesmo os idiotas do bem e da liberação sexual (essa grande mentira recente) temem essa mancha na cama e na alma que o amor deixa, às vezes de forma indelével.

Não tenho nenhuma dúvida que é o sucesso mesmo no controle da vida, que nosso mundo contemporâneo produziu, que irá esmagar o desejo, porque, de novo, segundo nosso filósofo de "A Vida como Ela É": "O desejo é triste", e ninguém suporta a tristeza quando temos o direito à felicidade.

A tristeza do desejo está no fato mesmo dele ser infinito e intratável, a menos que morra de alguma forma. E o mundo nunca foi tão covarde quanto em nossos dias. O truque da liberação sexual é a eliminação do desejo em si como garantia de uma liberdade com segurança.

A desumanização, que muitos temem vir trazida pelas mãos das máquinas inteligentes, é, ela mesma, a causa do sucesso das máquinas em nossas vidas: queremos desaparecer para garantir um mundo melhor.

Suspeito que o desaparecimento do humano, que muitos temem ser uma possibilidade no futuro, é ele mesmo nosso projeto mais profundo. Não são as máquinas que nos levarão à irrelevância, somos nós mesmos que chegamos à conclusão que atrapalhamos o projeto de felicidade moderno. O Sapiens era uma espécie muito triste. 

Original aqui

 
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