sábado, novembro 26, 2016

Física


Opinião

A fragmentação da opinião pública implode o diálogo

Demétrio Magnoli
Mark Zuckerberg escolheu seu lado. Vários anos atrás, em visita à China, ele foi recepcionado pelo banner viral "Bem-vindo à China, fundador do site Erro 404", difundido por blogueiros anônimos em protesto contra a censura oficial à internet. Do episódio, o CEO do Facebook extraiu a conclusão de que os negócios vêm sempre em primeiro lugar –e decidiu aliar-se aos censores. O Facebook desenvolve um software destinado a bloquear regionalmente conteúdos "impróprios" nos news feed de usuários. A ferramenta, passaporte de retorno da empresa ao mercado chinês, é uma prova brutal de que estava errada a associação entre a emergência das redes sociais e a democratização da informação.

Há provas menos brutais, mas não menos preocupantes. Nas eleições americanas, como evidenciou o Buzzfeed, notícias falsas obtiveram audiência maior que notícias verdadeiras. A constrangedora revelação conduziu o Google e o Facebook a anunciarem projetos de bloqueio de anúncios para sites engajados na divulgação de inverdades, mas ninguém deveria acreditar nisso. Numa ponta, o negócio da mentira é mais barato que o da verdade. Na outra, a mentira converteu-se em poderoso instrumento político, manipulado por partidos e movimentos ideológicos diversos.

A imprensa moderna, baseada na notícia, nasceu junto com o telégrafo e a telefonia, fincando um pilar vital dos sistemas democráticos. O advento dos grandes jornais configurou a opinião pública –isto é, a parcela da população informada pelas publicações de referência. O jornalismo organizou-se em torno de redações profissionais, regras de apuração noticiosa e um conjunto de princípios éticos destinados a separar a verdade da mentira. Nessa era de declínio da imprensa, experimentamos o outono da antiga fronteira: verdade e mentira misturam-se no caldo indiferenciado das redes sociais.

Os grandes jornais consolidaram-se como focos da "praça do mercado" das democracias. Toda a opinião pública reunia-se num espaço comum de diálogo, no qual floresciam as divergências. A retração da imprensa e o concomitante avanço das redes sociais vai destruindo a velha praça, que é substituída por incontáveis coretos tribais. Um palanque em cada esquina –eis a regra da "nova mídia", fragmentada em blogs iracundos e milhões de páginas pessoais alimentadas por fábricas de novidades de origens misteriosas. A fragmentação da opinião pública numa miríade de correntes rivais implode o diálogo: cada um conversa exclusivamente com seus iguais.

"Você tem direito às suas próprias opiniões, não aos seus próprios fatos", reclamou certa vez o senador e sociólogo americano Daniel Patrick Moynihan. Na "praça do mercado", a opinião pública discutia, às vezes ferozmente, sobre o significado e as implicações de fatos compartilhados.

O estilhaçamento da praça comum provoca um deslizamento cognitivo: nos universos paralelos das redes sociais, cada um tem direito a seus próprios fatos. Sob a égide da pós-verdade, o debate público fenece, dando lugar a uma gritaria dissonante.

Obama é um muçulmano que não nasceu nos EUA. Hillary Clinton cometeu centenas de assassinatos. George Soros comanda uma rede mundial de associados "globalistas" que conspiram contra as nações e os povos. Sergio Moro é um agente secreto do governo americano consagrado à missão de provocar a falência das empresas nacionais de engenharia. Na velha "praça do mercado", a mentira factual era confrontada pela refutação de veículos de imprensa concorrentes. Na era das redes sociais, sob névoa espessa, instaura-se uma "guerrilha da informação".

Steve Bannon era o editor do Breitbart News, um site da "direita alternativa", dedicado à manufatura de "notícias" do movimento nacionalista e nativista americano. Trump nomeou-o chefe-estrategista da Casa Branca. Pra que censura, se temos o Facebook? 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 26 / 11 / 2016

O Globo
"Contra crise, Temer acena com veto a anistia a caixa 2"

Acusação de tráfico de influência derruba Geddel, o 6º a cair em 6 meses

Demissão de ministro da Secretaria de Governo não encerra episódio, e procurador-geral da República pretende ouvir também Padilha, titular da Casa Civil, sobre pressão por liberação de imóvel polêmico

A demissão de Geddel Vieira Lima da Secretaria de Governo não foi suficiente para estancar a crise provocada pela denúncia de tráfico de influência feita pelo ex-ministro Marcelo Calero (Cultura), que envolveu também o presidente Michel Temer. Na tentativa de reduzir o impacto negativo da nova crise, Temer disse a interlocutores que vai vetar, caso seja aprovada no Congresso, a anistia a crimes eleitorais, como o de caixa dois. Também acusado por Calero de pressioná-lo, o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) será ouvido pela Procuradoria- Geral da República, que pode estender a investigação a Temer. O PSDB defendeu o presidente e criticou Calero.    

O Estado de S.Paulo
"Temer promete ‘alguém que não esteja metido em nada’ para lugar de Geddel"

Após saída de sexto ministro em seis meses, presidente nega ter ‘enquadrado’ Calero para ajudar aliado; mercado teme por reformas

Geddel Vieira Lima se tornou o sexto ministro a deixar o cargo em seis meses de governo Michel Temer. Ele se demitiu da Secretaria de Governo menos de 24 horas após ser divulgado o depoimento em que o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero acusa Temer de tentar “enquadrá-lo” para favorecer o aliado num caso que envolve autorização para erguer em área histórica de Salvador um arranha-céu em que Geddel comprou apartamento. “Ora vejam, quem me conhece sabe que eu não sou de sair ‘enquadrando’ ninguém. O que eu falei a ele foram coisas absolutamente normais”, disse Temer a Eliane Cantanhêde. “Não sei por que esse rapaz (Calero) reagiu dessa forma.” Sobre o substituto de Geddel, disse que terá de ser “alguém que não esteja metido com nada de nada”. O presidente do PSDB, Aécio Neves, defendeu que Calero seja investigado. A crise política afetou ontem o mercado, preocupado com a capacidade de o governo avançar nas reformas.               

Folha de S. Paulo
"Geddel cai, e Temer perde o 6º ministro em 6 meses"

Demissão ocorre um dia após Folha revelar que presidente pediu solução para caso de imóvel embargado

Com o intuito de contornar a crise política, o presidente Michel Temer (PMDB) definiu nesta sexta (25) a saída de Geddel Vieira Lima, um de seus braços direitos, da Secretaria de Governo. O aliado cedeu ã pressão de membros do governo e se demitiu. Em carta, disse ter chegado ao “limite da dor”. É o sexto ministro a deixar a função em pouco mais de seis meses de gestão Temer. O afastamento ocorreu um dia após a Folha revelar que o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero afirmou à PF que o presidente o pressionou a achar uma saída para um imóvel de Geddel. Na semana passada, Calero deixou o cargo e, em entrevista à Folha, disse que o colega lhe cobrou a reversão do veto de órgão federal a edifício na Bahia em que havia adquirido apartamento. Para o lugar do articulador político, Temer escolherá nome capaz de negociar no Congresso o avanço da reforma da Previdência e da emenda constitucional do teto dos gastos. 

sexta-feira, novembro 25, 2016

PZL Wilga


Coluna do Celsinho

Aprender para repartir

Celso de Almeida Jr.

Enquanto escrevo, ocorre a Feira de Ciências e Tecnologia-2016 do Colégio Dominique.

Ela vem de longe, desde 1993, quando ainda não tínhamos o ensino médio e estávamos com a implantação gradativa do ensino fundamental.

E, exatamente naquele ano, surgiu a ideia de criar o Instituto Salerno-Chieus, que iniciou o gerenciamento de todos os projetos culturais do colégio, incluindo a Feira de Ciências.

Hoje, o Salerno-Chieus passou de organismo auxiliar do Colégio Dominique para instituição autônoma de fomento cultural e estruturação de empreendimentos.

E, com este pensamento, esta edição da Feira de Ciências e Tecnologia, que é promovida por um dos núcleos do instituto - o Clube de Ciências José Reis - já revelou alguns projetos que serão aplicados no colégio.

Um deles é a captação e armazenamento de águas pluviais, em trabalho desenvolvido por alunos do 3º ano do ensino médio.

Em homenagem ao empenho da turma, que se despede da escola neste ano ao concluir o ensino médio, a casa sustentável desenvolvida - com catavento para bombear água captada do telhado - ficará permanentemente exposta.

Com os anos, será aperfeiçoada e servirá de ferramenta didática para todas as séries da escola, num constante processo de conscientização para o aproveitamento das águas de chuva.

Diversas atividades interessantes integram esta edição, que também conta com a participação de alunos de outros estabelecimentos de ensino, públicos e particulares, em dois dias de evento.

Ao integrar estudantes de diversas escolas o Colégio Dominique e o Instituto Salerno-Chieus já esboçam para os próximos anos uma feira com mais tempo de duração.

Quem sabe, até, num futuro próximo, promover uma semana de exposições?

O tempo, a dedicação e a perseverança de alunos, professores e escolas de Ubatuba podem tornar real este projeto.

Servirá como uma homenagem ao patrono de nosso clube de ciências, o médico, pesquisador e jornalista José Reis, que dedicou a sua vida à pesquisa e a divulgação científica.

Seu lema "Aprender para Repartir" fez com que - durante mais de 60 anos - popularizasse a ciência através de jornais, revistas e livros.

Para J. Reis o desenvolvimento do país só se daria com o avanço da pesquisa e sua divulgação para todos, de forma clara, didática.

Neste sentido, as feiras de ciências contribuem muito para esta nobre missão.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Será que há alguém para amar? Ou será que há razões para amar alguém?

Contardo Calligaris
A heroína e protagonista de "Elle", de Paul Verhoeven, chama-se Michèle Leblanc. Isabelle Huppert é perfeita no papel de Michèle, mas não foi o charme da atriz que me conquistou; eu fiquei encantado com Michèle mesmo. E vou explicar meu encantamento.

Um homem aparentemente sem sentimentos, quem sabe até calculador ou manipulador, é sempre (ou quase sempre) aceitável. Ele pode incutir medo e desconfiança, mas sua "frieza" é compatível com os clichês da virilidade e até do charme.

Para uma mulher, claro, acontece o contrário. Deve ser por isso que as próprias pesquisas acadêmicas tendem a "verificar" que os homens são psicopatas ou sociopatas muito mais frequentemente do que as mulheres.

Verdade seja dita, há vários pesquisadores que se perguntam se a psicopatia nas mulheres não é diagnosticada menos do que deveria. E há estudos para mostrar que, quando uma mulher é psicopata, ela não é menos intensamente psicopata do que um homem.

E há mais uma verdade na qual eu acredito. Por óbvias razões, grande parte das pesquisas sobre psicopatia são feitas na população carcerária, ou seja, com psicopatas que fracassaram em seu intento e acabaram presos. Que tal imaginar que as mulheres sejam psicopatas de mais sucesso do que os homens e, portanto, soltas pelas ruas em maior número do que presas nos cárceres?

Tudo isso sem contar que as psicopatas femininas podem se esconder muito bem atrás do clichê do descontrole. Como as mulheres poderiam ser psicopatas, frias e contidas, se elas são (não é?) vítimas de seus próprios afetos? A aparente falta de controle seria quase uma garantia de que a mulher não é facilmente psicopata.

Os vilões do cinema e da literatura podem ser gélidos. As vilãs, salvo exceções, situam-se entre a Alexandra (Glenn Close), louca de amor, de "Atração Fatal", e Carrie destruindo o mundo com seu furor mental (ou "uterino", só falta dizer) em "Carrie, a Estranha".

Grandes exceções: a marquesa de Merteuil das "Ligações Perigosas", Catherine Tramell (inesquecível Sharon Stone), de "Instinto Fatal", e, justamente, Michèle Leblanc, de "Elle" (ou do romance "Oh...", de Philippe Djian, que inspira o filme).

Suspeito que o descontrole amoroso (e geralmente sentimental) das mulheres tenha sido inventado pelos homens para eles se protegerem do desejo sexual feminino, ou seja, para se convencerem de que as mulheres não têm um desejo sexual autônomo (que eles poderiam, por exemplo, ser incapazes de satisfazer).

Para os homens, as mulheres podem ser loucamente apaixonadas sem desejo sexual algum. Ou, se elas forem mesmo entregues a incontroláveis desejos sexuais, só pode ser porque, naquela ocasião, elas seriam vítimas de paixões amorosas.

Em suma, as mulheres só podem amar sem desejar ou desejar justamente o objeto de seu amor. O que importa é que elas não tenham fantasias e desejos sexuais que não sejam "justificados" pelo sentimento.

Contra esse clichê, há poucas exceções: Madame de Saint-Ange, da "Filosofia na Alcova", de Sade, e Joe (Charlotte Gainsbourg), de "Ninfomaníaca", de Lars von Trier –e Michèle, claro.

Nota: Michèle não é nem se torna cúmplice de seu estuprador –não no sentido de que ela "gostaria" de ser estuprada (como os mais babacas entre os homens podem sonhar). Mas Michèle descobre a fantasia de seu estuprador, pode brincar com ele e, digamos assim, não são os sentimentos que vão impedi-la de matá-lo.

Michèle não ama ninguém. Esse, para mim, é seu maior charme. Ela não é nenhum monstro de egoísmo: ela apenas não é um clichê.

Em vez de criticá-la por ela não amar ninguém, talvez valha a pena colocar as perguntas: será que existe alguém para amar? E será que existem razões para amar alguém?

Os sentimentos, sobretudo os que são considerados "bons", em geral são tentativas de desculpar nosso ódio ou de compensar sei lá qual dano passado, ou pior, de alimentar nosso narcisismo (eu te amo para que você me ame).

Ou seja, os sentimentos, vistos de perto, são quase sempre sinistros.

Houve épocas em que os homens se entregavam aos sentimentos tanto quanto as mulheres –e eles não pareciam menos homens por isso. Por exemplo, os sentimentos de Aquiles movem a "Ilíada" inteira: sua ira com Agamemnon, seu ciúmes por Briseide, seu luto pela morte de Pátroclo, sua vontade de vingança.

Justamente por tudo isso, Aquiles sempre me pareceu um grandão meio desmiolado e vulgar.

Prefiro Michèle. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 25 / 11 / 2016

O Globo
"Acusado por Calero, Temer agora quer tirar Geddel"

Ex-ministro disse à PF que foi pressionado também pelo presidente

Planalto acredita que ex-titular da Cultura gravou uma das conversas de Temer sobre suposto tráfico de influência de seu ministro da Secretaria de Governo por obra irregular na Bahia

Uma semana após pedir demissão dizendo ter sido pressionado pelo ministro Geddel (Secretaria de Governo) a liberar construção polêmica mas de seu interesse em Salvador, o ex-ministro Calero (Cultura) disse à PF que foi “enquadrado” pelo presidente em favor do peemedebista. Calero contou que Temer o convocou e determinou que “construísse uma saída” porque o embargo da obra pelo Iphan criara “dificuldades operacionais” no gabinete dele. Segundo o colunista JORGE BASTOS MORENO, o Planalto desconfia que Calero gravou a conversa com o presidente, que já mandou recados para Geddel de que quer a saída dele. O porta-voz disse que o objetivo de Temer foi arbitrar conflito entre os dois ministros.    

O Estado de S.Paulo
"Ex-ministro diz à PF que Temer o pressionou para atender Geddel"

Depoimento foi encaminhado pelo STF à Procuradoria-Geral da República e pode virar inquérito

Conversas com presidente e ministros foram gravadas por Marcelo Calero

Reunião de emergência foi convocada no Palácio do Planalto

Oposição já fala em impeachment

O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero disse em depoimento à Polícia Federal que o presidente Michel Temer o “enquadrou” com o objetivo de buscar saída para o impasse na liberação de empreendimento imobiliário em Salvador, onde o ministro- chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, comprou apartamento na planta. Na semana passada, ao deixar o cargo, Calero já havia acusado o ex-colega de Esplanada de pressioná-lo para que a obra fosse autorizada. As acusações agravaram ainda mais a crise no governo ao atingir diretamente o presidente. Temer tem resistido a demitir Geddel, mesmo após as acusações. O depoimento de Calero foi encaminhado pelo STF à Procuradoria-Geral da República, que já teria decidido solicitar a abertura de investigação formal do caso – a PF pede inquérito. Uma reunião de emergência ocorreu ontem à noite, no Planalto. A oposição já fala em pedir o impeachment de Temer.               

Folha de S. Paulo
"Sofri pressão de Temer, diz Calero"

Ex-ministro afirma à PF ter sido cobrado a encontrar saída para imóvel barrado de Geddel; presidente nega acusação

O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero disse à Polícia Federal que o presidente Michel Temer (PMDB) o pressionou a encontrar uma “saída” para um imóvel embargado do ministro Geddel Vieira Lima (Governo), informam Natuza Nery e Paulo Gama. O depoimento foi revelado na noite desta quinta (24) pela Folha. Na semana passada, Calero se demitiu com a justificativa de que o colega cobrou a reversão de veto do Iphan (órgão de preservação do patrimônio) ao prédio na Bahia em que tem apartamento. O ex-ministro afirmou em depoimento que foi convocado por Temer no último dia 17 ao Palácio do Planalto. Segundo ele, o presidente disse que a decisão do Iphan havia criado “dificuldades operacionais” e pediu que encontrasse uma solução junto à Advocacia-Geral da União. Calero afirmou ter ouvido de Temer: “A política tem dessas coisas, esse tipo de pressão”. A transcrição do depoimento foi enviado ao Supremo Tribunal Federal e à Procuradoria-Geral da República. O peemedebista Geddel Vieira Lima é investigado pela Comissão de Ética da Presidência sob acusação de ter usado o cargo público em benefício próprio. Ele nega. Em nota, Temer admitiu ter conversado duas vezes com Calero sobre a divergência com o colega, porém negou que o tenha pressionado a reverter o embargo. Disse também ter sugerido uma avaliação jurídica da AGU. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que o ex-ministro da Cultura enlouqueceu. Opositores começaram a defender um pedido de impeachment de Temer. 

quinta-feira, novembro 24, 2016

Física


Opinião

Quando Temer diz que 'encarar a verdade é difícil', devia olhar seu governo

Elio Gaspari
Michel Temer foi à reunião do Conselhão e disse que o governo de Dilma Rousseff vivia com um "deficit de verdade", com "tentativas de disfarçar a realidade". Estava num cenáculo onde 96 notáveis enfeitavam um evento inútil. Pela sua composição e pelas normas do seu funcionamento, esse conselho seria mais produtivo se fosse incorporado à Escola de Samba da Mangueira, desfilando logo depois das baianas (70 figurantes). Elevaria a taxa de celebridades do desfile e daria mais notoriedade aos passistas. Estava vazia a cadeira do ministro Geddel Vieira Lima.

Temer fez um discurso pedestre informando que "a comunicação é fundamental". No melhor estilo do cerimonial de Brasília, citou nominalmente 26 ilustres autoridades nacionais presentes. Uma delas, o ministro Henrique Meirelles, estava ao seu lado, amenizando um desconforto cervical com exercícios fisioterápicos.

Seria mais uma cerimônia típica de Brasília se Temer não tivesse jogado um pote de pimenta na própria laranjada, mencionando o "deficit de verdade" do governo da doutora Dilma Rousseff, em cuja chapa se elegeu duas vezes. Bater em Dilma é amassar carta que já saiu do baralho, mas quando o presidente diz que "encarar a verdade é difícil, é delicado, é complicado, é desagradável", deveria olhar para seu governo e para a ausência do ministro de sua Secretaria de Governo.

Na verdade de Geddel está a afortunada transação de um apartamento no 23º andar de um empreendimento panorâmico que só tem autorização para subir até o 13º piso. Se ele e Temer acham que já se explicaram, o ministro poderia elaborar a resposta que deu para explicar seu apego aos R$ 20.354 que recebe como parlamentar aposentado, desde o seu 51º aniversário.

Somados aos R$ 33.763 que fatura como ministro, estoura o teto constitucional. Ele acha que nada há de ilegal nisso. Contudo, o procurador aposentado Michel Temer e o ministro Eliseu Padilha reduziram seus contracheques para respeitar o teto. Como diz Temer, encarar a verdade é difícil. Ou ele e Padilha jogaram dinheiro pela janela ou a verdade de Geddel é outra.

Dilma Rousseff sempre teve uma relação agreste com a verdade. Hoje, quem tem esse deficit é ele. Seu ex-ministro do Planejamento e atual líder no Senado foi grampeado por um correligionário articulando uma forma de estancar "a sangria" da Lava Jato. O ministro do Turismo foi-se embora depois de ter sido apanhado pela Procuradoria-Geral da República. Desde que o doutor entrou no Planalto, só um funcionário do governo foi demitido por má conduta expressa. Foi o garçom Catalão. Acusaram-no de tuitar informações sigilosas para Lula. Afirmação falsa porque o celular de Catalão não tinha aplicativo para tuitar.

É possível que Temer acredite nos milagres da comunicação. Afinal ela é "fundamental". Essa fé leva governantes a acreditarem que versões inverossímeis, eventos coreografados como o encontro do Conselhão, com a ausência estratégica de Geddel, possam fabricar uma realidade própria. Às vezes isso funciona. Sérgio Cabral foi um governador indiscutivelmente festejado. Foi até reeleito com dois terços dos votos. Deu no que deu. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 24 / 11 / 2016

O Globo
"Delação da Odebrecht deve atingir ao menos 130 políticos"

Ex-presidente e quase 80 executivos começam a assinar acordos

Depoimentos e provas a serem apresentadas pela maior empreiteira do país, após longa negociação com a Lava-Jato, devem abalar o sistema político e já provocam nervosismo em Brasília

Ex-presidente e herdeiro da Odebrecht, a maior empreiteira do país, Marcelo Odebrecht e mais 76 executivos e ex-dirigentes da empresa começaram a assinar ontem acordos de delação premiada com a Lava-Jato. Após nove meses de negociações, as revelações do grupo devem pôr em xeque o sistema de financiamento político do país. Nos depoimentos prévios, os delatores fizeram acusações contra líderes de diversos partidos, atingindo pelo menos 130 políticos. Os acordos são considerados devastadores também pela riqueza de detalhes e provas das ilegalidades. As assinaturas devem ser concluídas hoje.    

O Estado de S.Paulo
"Delação da Odebrecht só depende de multa dos EUA"

Americanos querem elevar valor negociado para acordo de leniência; expectativa é de assinar tudo até amanhã

A negociação da delação premiada e do acordo de leniência da Odebrecht com a Procuradoria-Geral da República no âmbito da Lava Jato está a um passo de ser concluída. Advogados e procuradores tentam assinar a documentação entre hoje e amanhã, antes de o procurador-geral, Rodrigo Janot, embarcar para a China, onde ficará até o dia 4. O último entrave ontem à noite era o valor que será pago pela empresa aos Estados Unidos como multa da leniência. O montante já estava acertado com a Odebrecht em torno de R$ 6 bilhões e seria repartido entre EUA, Brasil e Suíça. Mas a exigência de valor maior pelos americanos causou entrave. Há dois caminhos: elevar a multa a ser paga pela empresa ou fazer acordo em que Brasil e Suíça liberem parte da quantia. No caso das delações, restam apenas as formalidades de assinatura do acordo. Serão mais de 70 executivos delatores, que, com a colaboração, terão penas menores. O caso-chave é o de Marcelo Odebrecht. Ele deverá ficar até o fim de 2017 na prisão e cumprir o resto de uma pena de dez anos em regime domiciliar.               

Folha de S. Paulo
"Maia e líderes partidários acertam anistia ao caixa 2"

Acordão busca livrar a maioria dos investigados pela Operação Lava Jato

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e líderes partidários definiram nesta quarta (23) a emenda que pretende anistiar a prática do caixa dois eleitoral, que pode livrar a maioria dos alvos da Lava Jato. O acerto foi feito em almoço, horas antes da comissão que analisa o pacote de medidas anticorrupção do Ministério Público aprovar por 30 a 0 o texto do relator, Onyx Lorenzoni (DEM-RS). A intenção era incluir a anistia na votação do texto no plenário da Casa, que poderia ser realizada na madrugada desta quinta (24). A Folha apurou que a emenda estabelece na legislação que não sofrerá punição quem receber doações, contabilizadas ou não, de valores, serviços e bens para atividades eleitorais e partidárias até a data da entrada em vigor da regra. A medida deve livrar boa parte dos alvos da Lava Jato, já que políticos que receberam verba desviada da Petrobras, via empreiteiras, dizem tê-la usado em campanhas ou atividades partidárias, declaradas à Justiça ou não. Esse segundo caso constitui caixa dois. 

quarta-feira, novembro 23, 2016

Física


Opinião

Desconfio que a inveja tenha origem no medo humano do esquecimento

João Pereira Coutinho
Inveja? Ninguém tem. Quando olhamos para os sete pecados capitais, podemos admitir os outros seis. "Admitir"? Melhor escrever: assumir com cara alegre.

"Orgulho"? Todos temos –e com muito orgulho. "Ganância"? Uma outra forma de dizer ambição. "Luxúria"? Ah, nas sociedades hiper-sexualizadas em que vivemos, o verdadeiro pecado é não ter. "Gula"? Todos gostamos de um "bon vivant", sobretudo na era brega dos "chefs". "Fúria"? Um homem de verdade não é um banana.

E, sobre a "preguiça", há indústrias inteiras –do turismo à publicidade– a vender o produto com vocação evangélica.

Inveja é outra história. Uma confissão de inferioridade, uma revelação torpe de caráter. O meu vizinho tem o trabalho, a casa, a mulher e os filhos que poderiam ser meus; que deveriam ser meus; que têm de ser meus.

E nós, observando a alegria alheia, naufragando na infelicidade própria, tentando reprimir esse sentimento viscoso que cresce como um magma infernal. O leitor sabe do que falo. Ou não sabe?

Joseph Epstein ajuda a entender o assunto. Durante uma viagem de trem, li finalmente o seu delicioso ensaio sobre a inveja ("Envy", Oxford, 133 págs., em inglês). Aprendi muito. Concordei idem.

A inveja faz parte da natureza humana; mas é a ovelha negra da alma. Pobrezinha. Se no início era o Verbo, a inveja veio a seguir: Caim matou Abel por invejar certas preferências do Altíssimo. É um caminho.

Outro, proposto por Aristóteles, é cultivar a "boa inveja" e não matar ninguém. Pelo contrário: é imitar o ser invejado, aprender com ele –e, para usar uma palavra cara ao filósofo, "florescer".

Eu invejei. Eu invejo. A minha escrita –boa, má, assim-assim– é o produto dessa admiração magoada. Alguém escreve o que eu cobiço. Coloco meus óculos, retiro meu caderno, minha lapiseira. E, como um aluno aplicado, vou soletrando o talento alheio até conseguir resultado comestível.

Foi assim com heróis vários da minha juventude: Camus, Greene, Waugh. Quanta nobreza da minha parte confessar isso, certo?

Errado. Eu sei e você sabe que essa não é a inveja que corta fundo. Invejar Kafka é pose. Invejar os meus amigos deixa um sabor amargo –na minha e na sua boca. O prêmio que eu não recebi. O aplauso que não foi para mim. O dinheiro que não caiu na minha conta bancária.

Joseph Epstein tem razão: a pergunta do invejoso é sempre a mesma. "Por que não eu?" Ela revela, no essencial, três dimensões importantes.

Primeira: invejamos aqueles que navegam nas mesmas águas (eu invejo literatos, não futebolistas).

Segunda: invejamos aqueles que navegam nas mesmas águas e que não levam grande vantagem sobre nossos talentos (eu invejo meus colegas, não Philip Roth).

Terceira: a inveja não se cura com uma simples transferência de reconhecimento (vamos dividir o prêmio?). A inveja é totalitária: os holofotes sobre nós não bastam; é preciso que eles não estejam sobre mais ninguém em volta. É doloroso escutar isso?

Não deveria. Com elegância suprema (que inveja...), Joseph Epstein vai viajando pela história da civilização. Na Grécia antiga, não era de bom tom atingir certos patamares de sucesso; a ira dos deuses poderia punir a comunidade. A instituição do ostracismo –adeus, homem de sucesso, até daqui a dez anos– era uma medida preventiva para acalmar as consequências potenciais da "hubris", ou seja, desse orgulho insensato.

Hoje, é quase a mesma coisa: se você, profissional brilhante, não entende por que motivo os colegas da empresa ou da universidade ignoram ou hostilizam a sua pessoa, mil perdões, você tem que ler os gregos.

Ou, em alternativa, Karl Marx, o filósofo supremo da inveja. Observação luminosa de Epstein: o marxismo é uma filosofia de inveja que procura construir um mundo sem inveja. Faz sentido. É como destruir a paisagem campestre só para acabar com o ruído dos insectos.

Tenho os meus momentos de inveja, confesso. Mas também confesso que eles são cada vez mais raros e, pormenor fundamental, plenamente conscientes: observo o Diabo na sua visita sazonal e contemplo a forma infantil como ele bagunça o meu ego.

Joseph Epstein não consegue explicar de onde ele vem. Mas eu desconfio que a origem está no medo humano, demasiado humano, do fracasso, da solidão e do esquecimento.

Esse talvez seja um princípio de salvação: saber que aquilo que nos humilha não é o sucesso dos outros, mas o covarde que há em nós.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 23 / 11 / 2016

O Globo
"Estados e União fazem acordo por ajuste fiscal rigoroso"

Governadores receberão R$ 5 bi da repatriação que cobravam no STF

Acerto prevê apoio à reforma da Previdência e ao projeto de lei que cria limite para salários de servidores em todos os poderes, além de teto para gastos públicos também nos estados

O governo federal e os estados fecharam amplo acordo que prevê medidas duras de ajuste fiscal, como a fixação de um teto para as despesas estaduais e a criação de fundo com, no mínimo, 10% dos incentivos tributários concedidos a empresas à margem das regras do Confaz. Em troca, os estados receberão logo os R$ 5 bilhões que cobravam da União no STF pela multa do programa de repatriação. Os governadores em pior situação terão negociações paralelas.    

O Estado de S.Paulo
"RS decreta calamidade; União promete R$ 5 bilhões a Estados"

Governo gaúcho é o 2º a recorrer à medida; ajuda virá de repasse de repatriação de recursos e prevê contrapartidas

A União concordou em repartir com Estados R$ 5,3 bilhões de receitas obtidas com a multa do programa de repatriação de recursos enviados ilegalmente ao exterior. Como contrapartida, governadores devem desistir da ação no STF que bloqueava o uso da multa e se comprometem a apoiar a reforma da Previdência e a criação do teto de gastos, propostas pelo governo federal. Também assumem a responsabilidade de apresentar emenda elevando, por exemplo, a alíquota da Previdência de servidores ativos e inativos para 14% e um projeto para limitar despesas. Ontem, o governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori, decretou calamidade financeira. Trata-se do segundo Estado a recorrer à medida – o primeiro foi o Rio de Janeiro, em junho, que em seguida recebeu R$ 2,9 bilhões da União. Sartori, contudo, não acredita que será beneficiado da mesma maneira. “Nós não temos Olimpíada.” No decreto, ele cita crise, queda da arrecadação e aumento de gastos como razões.               

Folha de S. Paulo
"Parentes de Geddel integram a defesa de edifício barrado"

Ministro é acusado de ter usado o cargo para liberar imóvel; ele nega ter ligação com ações de sobrinho e primo, que é seu sócio

Dois parentes do ministro peemedebista Geddel Vieira Lima (Governo), um deles seu sócio, constam como representantes legais do edifício La Vue junto ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), informam João Pedro Pitombo e Matheus Magenta. O político responde a processo na Comissão de Ética da Presidência após ser acusado de atuar para liberar o prédio, no qual tem imóvel. O empreendimento foi barrado pelo Iphan por não se adequar a uma região tombada em Salvador. Na sexta (18), o ex-ministro Marcelo Calero (Cultura) disse à Folha ter se demitido porque foi pressionado pelo colega para reverter a decisão do órgão. Um documento anexado em maio inclui como procuradores os advogados Igor Andrade Costa e Jayme Vieira Lima Filho e o estagiário Afrísio Vieira Lima Neto. Uma irmã de Jayme, primo de Geddel e sócio dele em um restaurante, também tem imóvel no La Vue. Afrísio é filho do deputado federal Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA). Igor Costa disse ter sido o único a atuar no caso e que Geddel jamais interveio. “Não o conheço nem sabia que tinha imóvel no prédio.” O ministro negou pressão a Calero e disse não ter “nada a ver” com o trabalho do primo e do sobrinho. 

 
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