sábado, novembro 19, 2016

Física


Opinião

Donald Trump vai ampliar o isolamento de Angela Merkel

Demétrio Magnoli
Trump conservará a aliança estratégica dos EUA com a Europa, disse Barack Obama a Angela Merkel, expressando menos uma crença que uma torcida. Em janeiro de 1917, Woodrow Wilson conclamou sua nação a assumir responsabilidades sobre "a paz e a justiça" no mundo. Daquela declaração nasceu o engajamento americano na Grande Guerra e a Liga das Nações, que anteciparam a entrada dos EUA na guerra contra o Eixo, a ONU e a Otan. O triunfo de Trump anuncia a ruptura de cem anos de internacionalismo dos EUA, interrompido apenas pela recaída isolacionista do entre-guerras. No cenário atual, isso indica que Merkel está só.

Pouco antes da visita de Obama à Alemanha, Trump manteve sua primeira conversa telefônica com um líder estrangeiro na qualidade de presidente eleito. Notavelmente, o interlocutor não era Merkel, nem o francês Hollande ou a britânica May, mas o russo Putin. O americano expressou seu desejo de ter uma relação "estreita e duradoura" com a Rússia, eximindo-se de mencionar as palavras "Ucrânia" ou "Síria". Uma nota do Kremlin festejou o "alinhamento de pontos de vista" entre os dois líderes. Horas mais tarde, o regime sírio retomou os bombardeios contra Aleppo. O Trump presidente será o Trump candidato, menos as promessas demagógicas mais extravagantes.

Na campanha, Trump classificou a Otan como "obsoleta", recusou-se a condenar a agressão russa à Ucrânia e, referindo-se à crise dos refugiados, acusou Merkel de "arruinar a Alemanha". Um artigo de Dirk Kurbjuweit no Der Spiegel, semanário alemão de referência, diagnostica que os EUA abdicaram de seu papel de liderança –e conclui assim: "É a hora da Europa, e de Angela Merkel, preencherem o vazio". Fina ironia da história: aos olhos de muitos, sete décadas depois de Hitler, a Alemanha emerge como guardiã dos valores do Ocidente.

Na visão de mundo de Trump, não existe um lugar para os valores. Merkel, porém, definiu o lugar deles na sua mensagem de felicitação ao presidente eleito, que deve ser lida como uma enfática advertência: "A Alemanha e os EUA estão ligados por valores comuns –a democracia, a liberdade, bem como o respeito ao governo legal e à dignidade de cada indivíduo, seja qual for sua origem, cor da pela, credo, gênero, orientação sexual ou posições políticas. É com base nesses valores que quero oferecer plena cooperação, tanto comigo, pessoalmente, quanto entre nossos governos".

Merkel está tão só como uma ilha. Trump na Casa Branca, Putin no Kremlin e Erdogan em Ancara formam a paisagem de um desmoronamento: desglobalização, antiliberalismo, nacionalismo. A chanceler alemã não pode contar com a retaguarda dos parceiros europeus. Sob a égide do "brexit", que consome suas energias e o arrasta para o pântano da xenofobia, o Reino Unido desliza para fora do tabuleiro. Atordoada pelo terror, a França experimenta o fracasso retumbante do governo de Hollande. Na Itália, o gabinete de Matteo Renzi arrisca-se a implodir sob o impacto de uma derrota no referendo constitucional de dezembro.

A Rússia é uma ameaça externa, nas bordas dos mares Báltico e Negro. Multiplicam-se as ameaças internas. Governos populistas se instalaram na Polônia e na Hungria. O espectro de Marine Le Pen ronda a França; o de Beppe Grillo, a Itália. Partidos ultranacionalistas rondam a Áustria, a Suíça, a Holanda e a Dinamarca. Nigel Farage, líder da extrema-direita, é o principal interlocutor britânico de Trump. Nesse cenário caótico, a remoção do guarda-chuva estratégico americano pode ser fatal para a ordem europeia do pós-guerra.

O medo, porém, faz milagres. Stalin –isto é, o medo da URSS, da perda das liberdades– funcionou como unificador original da Europa. Trump, que personifica o medo da ausência americana, talvez funcione como o segundo unificador. Angela está só, mas tem o medo como seu trunfo. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 19 / 11 / 2016

O Globo
"Lava-Jato: esquema de Cabral irrigou PMDB do Rio"

Em e-mail, operador do grupo indica contas do partido a empreiteira

Delatora da Carioca Engenharia também relatou pagamentos em espécie a assessor do ex-governador que está preso; repasses ilegais aos acusados que seriam chefiados por Cabral somam R$ 28 milhões

E-mail apreendido pela Operação Calicute, que prendeu Sérgio Cabral, mostra que Carlos Miranda, operador do ex-governador, indicou contas do PMDB para que a Carioca Engenharia depositasse propina em forma de doação eleitoral em 2010. Dias depois, foram transferidos R$ 300 mil ao partido. Em delação, uma executiva da empreiteira contou que entregava dinheiro em espécie a Miranda. Delatores relataram repasses de R$ 28 milhões ao grupo político.    

O Estado de S.Paulo
"Vaquejada e brigas derrubam ministro; Freire assume Cultura"

Impasse sobre evento rural foi gota d’água para Marcelo Calero deixar o cargo

Marcelo Calero deixou ontem o cargo de ministro da Justiça e será substituído pelo deputado Roberto Freire (PPS-SP). A justificativa oficial é de que ele saiu por divergências com integrantes do governo. Também vinha reclamando de falta de verba. Segundo o blog da Coluna do Estadão, a gota d’água foi o impasse em torno do projeto aprovado no Senado semana passada que dá à vaquejada status de manifestação da cultura nacional e a eleva a patrimônio imaterial do Brasil.

Com relatório do Iphan em mãos, o ministro chegou a pedir a Michel Temer que vetasse a lei. Mas encontrou resistência de ministros próximos ao presidente. Surpreso com o convite, Freire disse que continuará o trabalho de Calero. “O governo Temer é de ponderação, diálogo.”               

Folha de S. Paulo
"Ministro acusa homem forte de Temer ao deixar Cultura"

Calero diz à Folha que se demitiu após Geddel Vieira Lima pressioná-lo a liberar obra de seu interesse

O ministro demissionário Marcelo Calero (Cultura) acusa o ex-colega Geddel Vieira Lima (Governo) de pressioná-lo a produzir parecer técnico favorável a seus interesses pessoais, informam Natuza Nery e Paulo Gama.

Calero disse que o articulador político do governo Temer (PMDB) o procurou para que o Iphan, órgão subordinado à Cultura, aprovasse projeto imobiliário perto de área tombada em Salvador, base política de Geddel.

De acordo com Calero — o quinto ministro a deixar o cargo desde que Temer assumiu a Presidência há seis meses, no lugar de Dilma Rousseff —, Geddel o contatou por telefone ou pessoalmente ao menos cinco vezes.

Geddel afirmou, segundo o agora ex-ministro, ter apartamento no empreendimento que dependia de aval federal para sair do papel. Calero disse que Geddel foi assertivo no contato, mas que ele tergiversou e não cedeu.

“Entendi que tinha contrariado de maneira contundente um interesse máximo de um dos homens fortes do governo”, afirmou Calero. 0 deputado federal Roberto Freire (PPS-SP) assumirá seu lugar na Cultura. 

sexta-feira, novembro 18, 2016

Navion L-17


Coluna do Celsinho

Novos Gestores

Celso de Almeida Jr.

Conversei com um futuro secretário municipal de uma cidade de Minas Gerais.

Animado, contou-me sobre a sua participação no Seminário Novos Gestores, promovido pela Confederação Nacional de Municípios (CNM).

Foi um evento focado na gestão de qualidade, voltado especialmente aos prefeitos eleitos e equipes.

Muita capacitação técnica em diferentes áreas, divulgação de lições bem-sucedidas, apresentação de inúmeras conquistas alcançadas nos últimos anos, entre outras orientações, reforçaram a obrigatoriedade de conhecimento e busca permanente de soluções para bem gerir um Município.

A CNM convidou todos os prefeitos eleitos para a Gestão 2017-2020 para o seminário que durou três dias e foi organizado em datas específicas de acordo com cada região.

Na programação constou ainda a Feira do Conhecimento, com a presença de parceiros e apoiadores focados em propiciar o desenvolvimento e a qualidade da gestão pública.

Sem dúvida, uma demonstração de organização e força da Confederação Nacional de Municípios que tem avançado muito nos últimos anos, dando voz aos anseios e necessidades das cidades brasileira.

Ao amigo que enfrentará a partir de 1º de janeiro de 2017 este grande desafio, os meus votos de muito sucesso!

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Trump vai receber US$ 1 e os marajás brasileiros poderiam respeitar o teto

Elio Gaspari
Donald Trump fixou em US$ 1 o seu salário anual. Perderá US$ 1,6 milhão, uma mixaria para quem tem um patrimônio estimado em US$ 3,7 bilhões. Pode-se dizer que isso é coisa de demagogo. Ou de vigarista. Esse foi o adjetivo que lhe dedicou Michael Bloomberg, outro bilionário. Como prefeito de Nova York de 2002 a 2013, ele assumiu o mesmo compromisso e recebeu exatos US$ 12.

Bloomberg foi um grande prefeito e Trump é uma grande ameaça. Ambos emitiram um sinal. Se alguém lhes contasse que no Brasil os governos da União e dos Estados têm tetos constitucionais para os salários de seus servidores, mas eles são sistematicamente descumpridos, veriam nisso uma oportunidade para mostrar aos eleitores por que entraram na política.

Quem estoura os tetos não são os servidores que tomarão ferro com a reforma da Previdência ou os que estão sendo chamados a pagar a conta da farra do Rio de Janeiro. Estourar teto é coisa para maganos, grandes burocratas, magistrados e até mesmo professores universitários. Ninguém faz nada ilegal, e aí é que está o problema. Dentro da legalidade, fabricam-se mimos que, livres da dentada do Imposto de Renda, custam à Viúva algo como R$ 10 bilhões anuais. Esse dinheiro seria suficiente para salvar as finanças do Rio por um ano e ainda sobraria alguma coisa.

Quando aparecem os mimos da magistratura e dos procuradores vem a grita de que se pretende mutilar a independência do Judiciário. Se alguém divulga a lista de premiados do magistério vê-se uma ameaça à autonomia universitária. Quem pede para ver o preço dos auxílios e vantagens do Legislativo é um perigoso cerceador das liberdades públicas.

Ministros da caravana de Temer, muito bem aposentados antes de completar 60 anos, informam que o Brasil precisa reformar sua Previdência e continuam acumulando os contracheques que produzem a ruína fiscal.

Cada corporação beneficiada embolsa em silêncio, deixando a defesa de seus interesses a cargo de vagas associações de classe. A dos magistrados chegou a criticar os ministros do Supremo que condenaram as "gambiarras" e "puxadinhos" que levam os salários de desembargadores a R$ 56 mil (MG), R$ 52 mil (SP) e R$ 39 mil (RJ), quando o teto salarial dos servidores é de R$ 33,7 mil. Um levantamento dos repórteres Eduardo Bresciani e André de Souza mostrou que a Justiça tem pelo menos 13.790 servidores ganhando acima do teto.

Chega a ser uma malvadeza acreditar que o Judiciário é o pai da farra salarial dos marajás. Ele é apenas o mais astuto e, muitas vezes, o mais prepotente. Podendo ser parte da solução, decidiu se transformar em paladino do problema.

Trump e Bloomberg toparam trabalhar por US$ 1, mas são bilionários. A magistratura brasileira poderia limpar esse trilho, decidindo que nenhum servidor, a qualquer título, pode levar para casa mais de R$ 33,7 mil mensais. Ninguém passará fome.

Infelizmente, em junho passado o juiz mineiro Luiz Guilherme Marques pediu para ficar sem o seu reajuste enquanto durar a crise da economia nacional. Dentro da lei, ele ganha R$ 41 mil líquidos. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais indeferiu seu pedido, pois salário é coisa "irrenunciável".

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 18 / 11 / 2016

O Globo
"Cabral é descoberto"

Corrupção teria desviado R$ 224 milhões

‘Oxigênio’, ou mesada, era de até R$ 500 mil

Propina pagou joias, lanchas e vestidos de luxo

Governador do Rio por dois mandatos (2007-2014) e que chegou a ser cotado para disputar a Presidência, Sérgio Cabral (PMDB) foi preso ontem por ordem de dois juízes, Sérgio Moro (Curitiba) e Marcelo Bretas (Rio), sob a acusação de chefiar esquema de corrupção que “saqueou” o estado, hoje na penúria. A prisão aconteceu menos de 24 horas depois de outro ex-governador, Anthony Garotinho, ser detido por compra de votos. Alvo da Operação Calicute, referência à expedição fracassada de Pedro Álvares Cabral às Índias, Cabral é acusado de cobrar propinas milionárias de empreiteiras em troca de contratos de obras e isenções fiscais, com desvio de R$ 224 milhões dos cofres públicos. Segundo a Lava-Jato, o ex-governador recebia mesadas de empreiteiras de até R$ 500 mil, usadas para pagar viagens, carros, lanchas, joias e vestidos de festas. Outras nove pessoas foram presas, entre elas os ex-secretários Wilson Carlos (Governo) e Hudson Braga (Obras).    

O Estado de S.Paulo
"Cabral é preso sob acusação de receber mesada de até R$ 500 mil de empresas"

Delatores disseram que ex-governador do Rio chefiava esquema que desviou R$ 224 milhões

Ele foi o segundo dirigente do Estado detido em menos de 24 horas

Juízes relacionam corrupção em obras a crise no governo fluminense

Atual governador pede ampla defesa

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB) foi preso na Operação Calicute, um desdobramento da Lava Jato. Alvo de dois mandados de prisão simultâneos, expedidos pelos juízes Marcelo Bretas, do Rio, e Sérgio Moro, de Curitiba, ele é acusado de liderar um esquema que rendeu pelo menos R$ 224 milhões em recursos desviados de contratos de quatro grandes obras públicas (Maracanã, Arco Metropolitano, PAC das Favelas e Comperj) assinados com a Carioca Engenharia e a Andrade Gutierrez entre 2007 e 2014. Delações de ex-executivos e sócios das empreiteiras revelam pagamentos mensais de R$ 200 mil a R$ 500 mil para Cabral em seus dois mandatos. Investigadores e juízes relacionaram a corrupção à grave crise financeira no Estado. A soma dos supostos R$ 224 milhões em propina e de R$ 450 milhões em impostos sonegados equivale a 34% da folha mensal de servidores. Cabral foi o segundo ex-governador do Rio preso em menos de 24 horas – anteontem, Anthony Garotinho (PR) foi detido por ordem de um juiz eleitoral. Em nota, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) pediu “amplo direito de defesa” ao padrinho político.               

Folha de S. Paulo
"Cabral é preso sob acusação de comandar desvio de R$ 224 mi"

Defesa do ex-governador peemedebista não se manifestou sobre investigação no Rio de Janeiro

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) foi preso sob acusação de chefiar esquema de propina ligado a contratos de obras públicas. Ele cobrava 5% dos custos e recebia repasses mensais, diz a Procuradoria. Os desvios somariam R$ 224 milhões. Segundo investigadores, os secretários da gestão Cabral (2007-14) Wilson Carlos e Hudson Braga cobravam “compromissos” e “taxa de oxigênio” das empreiteiras. O segundo chefiou a campanha do atual governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB). Quatro pessoas cuidavam da lavagem dos recursos via empresas de fachada e do repasse a Cabral e outros políticos, dizem os procuradores. O esquema incluiria o Maracanã, o Complexo Petroquímico do RJ, o ArcoMetropolitano e o PAC das Favelas. Polícia Federal e Procuradoria dizem que a propina era paga por Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia. O ex-governador do Rio foi denunciado sob acusação de integrar organização criminosa, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. A prisão preventiva (sem prazo) de Cabral foi autorizada com a alegação de que ele oferece risco às investigações. A defesa dele e as empresas não se pronunciaram. Os advogados de Braga e Carlos não foram localizados pela reportagem. 

quinta-feira, novembro 17, 2016

Física


Opinião

A democracia representativa continua imaginando que queremos confiar em partidos

Contardo Calligaris
Só para evitar mal-entendidos, digo já: penso que o sucesso de Donald Trump seja o efeito de uma crise ou de um declínio (irreversíveis, imagino) da democracia eleitoral representativa como sistema de governo.

O que me leva a essa conclusão não é minha antipatia pela campanha que o elegeu ou meu medo quanto ao que será a presidência Trump.

Trump não manifesta uma crise da democracia representativa por ser uma escolha "sinistra" ou preocupante, mas por ser um candidato atípico. Ele concorreu como republicano e com o apoio (parcial) do partido, mas foi, de fato, um candidato bagunçado exatamente como o eleitor médio.

A maioria de seus planos de governo corresponde a frases de botequim que qualquer um poderia dizer nas circunstâncias "certas". Toca uma música alta de mariachi no andar de cima, alguém fala "Malditos mexicanos, por que não ficam no seu país?", e Trump fecha: "Deveríamos construir um muro ao longo da fronteira"; todos riem e aprovam. Ou então ele lança: "Você quer irresistivelmente seduzir mulheres? É só pegá-las direto pela b...".

Trump pode ser truculento e vulgar, mas ele não é um homem de convicções e ainda menos o homem de uma convicção orgânica (nisso, aliás, ele é menos perigoso do que qualquer bispo de qualquer religião).

Claro, mesmo que Tump não faça um quinto do que ele prometeu fazer, eu dispensaria ter como presidente um piadista de botequim – pela boçalidade e pelos riscos implicados pelo fato de ele comprar e promover qualquer ideia que faça rir os que estão no bar com ele.

Mas volto à pergunta: como Trump ganhou a preferência da metade dos cidadãos dos EUA?

Convocar uma eleição é caro, e nos EUA se vota por mais coisas ao mesmo tempo. Vários Estados aproveitaram as eleições presidenciais para que os eleitores se expressassem, em plebiscito, sobre duas ou três propostas de lei.

Em alguns casos, a escolha do candidato à Presidência parece corresponder aos resultados dos plebiscitos. Por exemplo, na Califórnia, em Nevada e em Massachusetts, a maioria, democrata, votou em Hillary Clinton e também aprovou a legalização da marijuana para uso recreacional. Isso é o que era esperado de eleitores democratas –portanto, se a decisão tivesse sido deixada nas mãos da assembleia do Estado, os representantes democratas eleitos, presumivelmente, aprovariam a legalização da marijuana.

Mas a própria Califórnia rechaçou outro projeto de lei, que acabaria com a pena de morte no Estado (há, na Califórnia, mais de 700 presos à espera da execução).

Isso implica que ao menos uma parte dos eleitores que escolheram Hillary para presidente e legalizaram a marijuana também votou para manter a pena de morte na Califórnia. Essa decisão, se estivesse nas mãos de representantes democratas eleitos, seria diferente: eles provavelmente acabariam com a pena de morte.

O resultado dos plebiscitos, em outras palavras, revela que a vontade dos eleitores não seria respeitada adequadamente se eles apenas elegessem representantes de um ou outro partido.

Da mesma forma, por exemplo, no Brasil, você poderia ser favorável à pena de morte e oposto ao Estatuto do Desarmamento. Não por isso você se sentiria representado pela bancada da bala, porque, ao mesmo tempo, você pode ser favorável à legalização da marijuana, à descriminalização do aborto ou ao casamento gay.

Você pode ser conservador do ponto de vista econômico sem ser conservador do ponto de vista dos costumes. E inversamente.

Os plebiscitos simultâneos à eleição presidencial americana mostram que o eleitor não está (mais) a fim de se identificar com o conjunto das ideias de um candidato e ainda menos de um partido (democrata ou republicano, que seja).

Quem sabe esteja na hora de nossas democracias evoluírem na direção de uma consulta permanente dos eleitores sobre questões concretas, sem lhes pedir que escolham representantes, os quais serão sempre imperfeitos –por exemplo, monolíticos e coerentes, quando seus eleitores podem ser complexos e incoerentes.

A partir dos anos 1960, progressivamente, a nossa individualidade se tornou um valor maior do que os valores encarnados em grupos e partidos organizados. Mas a democracia representativa continuou imaginando que todos possamos ou estejamos a fim de confiar em representantes e em partidos... 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 17 / 11 / 2016

O Globo
"Ataques ao Legislativo"

Manifestantes invadem Câmara e tentam entrar na Assembleia do Rio

Grupo de cerca de 40 pessoas quebra vidraças, ocupa plenário e sobe na Mesa da direção da Casa, sendo detido após interromper a sessão dos deputados para, numa atitude antidemocrática, pedir intervenção militar no país

No dia em que servidores do Estado do Rio voltaram a atacar a Assembleia Legislativa, onde está sendo analisado o pacote do governo Pezão para conter gastos, um grupo de cerca de 40 pessoas invadiu o plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, para protestar contra a corrupção e pedir intervenção militar no país, o que é inconstitucional. Os invasores quebraram portas, enfrentaram policiais e interromperam a sessão. A direção da Câmara determinou a prisão dos manifestantes, que foram levados para a PF. O governo condenou o ato.    

O Estado de S.Paulo
"Cresce pressão no Congresso por anistia a caixa 2 e punição a juiz e promotor"

Na Câmara, deputados se articulam para mudar pacote anticorrupção; no Senado, Renan agenda votação de projeto de abuso de autoridade

Duas propostas que podem enfraquecer a Lava Jato avançam no Congresso. Na Câmara, deputados querem que o relator do pacote contra corrupção, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), mantenha no texto a previsão de crime de responsabilidade para juízes, procuradores e promotores, além da anistia retroativa a quem usou caixa 2. No fim do dia, após dizer que não admitiria “golpinho”, Lorenzoni sinalizou que poderá mudar o relatório. O procurador Deltan Dallagnol acusou “lideranças partidárias” de substituir integrantes da comissão especial que “votariam” a favor do pacote. No Senado, o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL) decidiu pôr em votação dia 6 projeto de abuso de autoridade, que prevê punições a ações policiais e do Ministério Público.               

Folha de S. Paulo
"Protesto contra arrocho no RJ acaba em confronto"

Governador desiste de taxar funcionalismo, mas pressiona por mais royalties

Protestos de servidores públicos contra o arrocho fiscal do governo fluminense terminaram em confrontos com a polícia em frente à Assembleia Legislativa do Rio.

O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) decidiu recuar de parte das propostas. Em entrevista, disse ter desistido da contribuição temporária de 30% sobre salários do funcionalismo. A medida renderia até R$ 7 bilhões. Pezão pediu aos manifestantes que trocassem atos violentos por ideias para equilibrar as contas públicas. O pacote de 22 propostas foi enviado há duas semanas para a Alerj. A primeira sessão, nesta quarta (16), mostrou que o governador terá dificuldade para aprová-lo. Em discursos, diversos deputados disseram que o arrocho atingiria os mais pobres. As votações só devem acontecer em dezembro. Pezão pressiona o governo federal pela revisão da fórmula de cálculo dos royalties do petróleo, que poderia render R$ 2 bilhões anuais. A Petrobras e outras petroleiras criticam a proposta. 

quarta-feira, novembro 16, 2016

Física


Opinião

Alguém deveria informar Brennan que a democracia evoluiu desde Platão

João Pereira Coutinho
Li com interesse a entrevista de Jason Brennan nesta Folha. Motivo duplo. Primeiro, porque escrevi sobre o seu "Against Democracy" (contra a democracia) menos de dois meses atrás. E, segundo, porque não é todos os dias que encontramos um cientista político sério a questionar os méritos do regime democrático.

Brennan acredita que a democracia premia a ignorância do eleitorado. Donde, a conclusão: epistocracia. Só deveria votar quem entende do assunto.

No livro, Brennan faz uma analogia –para mim, absurda– entre votar e dirigir um carro. Só podemos dirigir se tivermos licença. Em política, e uma vez cumprida a maioridade, todos podem votar. Faz sentido? Não faz, diz ele. Más escolhas democráticas provocam mais danos na vida de todos do que a incompetência rodoviária de alguns.

Não compro a tese. A política não é uma "ciência", ao contrário do que pensam os "cientistas políticos" (ridícula expressão); e pessoas politicamente analfabetas podem saber com lucidez aquilo que desejam para as suas vidas, mesmo que desconheçam macroeconomia ou sistemas eleitorais.

Além disso, e para retomarmos a metáfora do autor, pessoas com licença para dirigir continuam a provocar acidentes. Os sábios também falham. Quando o assunto é política, os sábios falham ainda mais.

E um desses sábios é Platão, o "pai espiritual" de Brennan (como Hélio Schwartsman escreveu com razão).

Depois de Atenas ter condenado à morte o seu mestre Sócrates; e depois da derrota traumática dos atenienses face a Esparta, Platão jogou a democracia no cesto dos regimes degenerados. Como é possível entregar os destinos da Cidade às paixões irracionais do povo?

A democracia só poderia ser corrigida pela emergência de um tirano que, após educação "epistocrática", talvez pudesse chegar ao trono do Rei-filósofo.

"A República" é um dos textos centrais da filosofia. Mas foi Aristóteles, discípulo de Platão, quem inaugurou as críticas à sua utopia.

Para dizer algo que, sem exagero, nunca mais foi esquecido na tradição democrática ocidental: a "pólis" precisa de saber equilibrar as paixões do povo com os interesses da elite.

Esse "regime misto", tão apreciado pelos romanos, encontrava-se no próprio funcionamento da República: os cônsules, os senadores e as assembleias populares, reunindo os elementos monárquico, aristocrático e democrático, permitiam que todas essas instituições se controlassem mutuamente.

Os "checks and balances" não nasceram com os Pais Fundadores dos Estados Unidos. Eles apenas aprenderam a lição com Políbio, Cícero e todos os seus herdeiros.

Hoje, as nossas democracias não são, ao contrário do que Jason Brennan acredita, regimes de "vontade geral" (para usar a sinistra expressão de Rousseau), em que as escolhas do povo são totais –e totalitárias.

Em qualquer democracia liberal civilizada, existem "elementos aristocráticos" (e epistocráticos) que complementam (e, claro, limitam) a mera vontade popular. Para ficarmos nos Estados Unidos, a existência de um Congresso bicameral ou de uma Suprema Corte são os melhores exemplos.

E, para lembrar Tocqueville, a existência de uma sociedade civil forte ou de uma mídia vigilante e livre também se assumem como "ilhas" independentes no meio da ignorância das massas.

Jason Brennan, para defender a sua proposta "epistocrática", apresenta uma versão de "democracia" que é uma caricatura das democracias liberais em que vivemos.

Alguém deveria informar esse "cientista político" que a democracia evoluiu muito desde Platão.

P.S. - Com as eleições americanas, a minha caixa de e-mail rebentou: havia leitores "conservadores" que se sentiam menos sós por eu não defender Trump; e havia leitores "conservadores" que me insultavam com vigor por eu não apoiar Trump.

O cenário divertiu-me porque revela um certo primitivismo no debate intelectual: para os fanáticos, a política não é uma conversa pluralista; é uma inquisição ideológica.

Na minha qualidade de herege, agradeço todos os insultos.

Eles são medalhas na lapela da minha liberdade. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 16 / 11 / 2016

O Globo
"Proposta prevê teto de R$ 15 mil para aposentados"

Medida é plano B do governo Pezão após alíquota de 30% ser descartada

Limite deve atingir também aposentadorias da Assembleia e do Judiciário do estado

O governo do estado vai propor teto de R$ 15 mil para novas aposentadorias e pensões do Rio, que deve atingir inclusive Legislativo e Judiciário, revela CARINA BACELAR. A medida faz parte do plano B do governo Pezão para substituir a contribuição previdenciária de até 30% dos salários dos servidores, descartada pela Alerj. Outro projeto estabelece contracheque único para submeter funcionários com duas funções no estado a um teto salarial. Será proposto, ainda, o fim do pagamento do bônus a auditores fiscais aposentados e pensionistas quando há aumento de arrecadação. Se aprovadas, as medidas economizarão R$ 1 bilhão por ano.    

O Estado de S.Paulo
"Lava Jato apura repasse em obra da Marginal do Tietê"

Em contratos que somam R$ 816,9 milhões, empreiteiras teriam transferido R$ 89,5 milhões a investigados

O Ministério Público Federal investiga o repasse de R$ 89,5 milhões para empresas ligadas ao operador Adir Assad e ao advogado Rodrigo Tacla Duran por dois consórcios de empreiteiras que executaram as obras de ampliação da Marginal do Tietê, em São Paulo, entre 2009 e 2011, informam Fábio Serapião e Ricardo Brandt. A forçatarefa da Lava Jato atribui a Assad e a Duran o papel de “operadores financeiros especializados na lavagem de capitais de grandes empreiteiras”. A obra foi feita em convênio entre o governo de SP, na época comandado pelo atual ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB), e a Prefeitura, na gestão de Gilberto Kassab (PSD), atual ministro das Comunicações, Ciência e Tecnologia. No total, os contratos dos consórcios Nova Marginal Tietê (Delta Engenharia e Sobrenco) e Desenvolvimento Viário (EIT e Egesa) somaram R$ 816,9 milhões. Os repasses considerados suspeitos foram feitos a empresas ligadas a Assad e a Duran. A Dersa, que contratou a obra, afirma que todos os pagamentos foram realizados diretamente aos consórcios. A assessoria de Kassab informou que a Prefeitura apenas “prestou apoio técnico e logístico”. Procurados, os outros citados não responderam.               

Folha de S. Paulo
"Justiça e TCU se unem para evitar intervenção na Oi"

Plano de recuperação da empresa, com dívida de R$ 65,4 bi, gera impasse com credores; governo estuda tomar o controle

A Justiça e o TCU (Tribunal de Contas da União) vão se unir em busca de uma saída que evite uma intervenção do governo na operadora Oi. Em recuperação judicial, a empresa de telefonia tem dívida de R$ 65,4 bilhões, e um impasse entre os credores pode levá-la à falência. A mediação será feita pelo juiz Fernando Cesar Ferreira Viana, responsável pelo processo de recuperação da Oi na Justiça do Rio, e o ministro do TCU Bruno Dantas. A reunião está prevista para a próxima semana. “Essa é uma possibilidade prevista na lei [das falências] e permitirá avaliar o que dá para fazer em favor da companhias em prejudicar o interesse público”, disse Dantas. Conforme antecipado pela Folha, o governo prepara medida provisória para pressionar empresa e credores a encontrarem uma solução. Banco do Brasil, Caixa, BNDES e Anatel têm, juntos, R$ 19,5 bilhões em créditos. O restante está com credores privados, principalmente estrangeiros que compraram títulos de dívida da empresa (bonds) no exterior. Um dos pontos controversos é o plano de recuperação apresentado pela Oi. Segundo a proposta, credores que aceitarem dar descontos de até 70% receberão seus pagamentos depois de três anos. Aqueles que quiserem o valor integral só receberão depois de dez anos em parcelas semestrais. 

 
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