sábado, novembro 12, 2016

Física


Opinião

Triunfo de Trump deveu-se à sedução pelo nacionalismo populista

Demétrio Magnoli
Lá atrás, em 1840, Alexis de Tocqueville apontou a fina linha que separa a democracia da tirania e alertou para o risco de que as massas caíssem sob o hipnotismo de um demagogo populista. O 9/11, Dia de Trump, prova que a "velha toupeira" está viva –e fazendo das suas.

A "velha toupeira", "nosso Robin Hood", aparece num discurso de Karl Marx, em 1856, na festa dos cartistas londrinos. É a classe trabalhadora, "que sabe tão bem trabalhar no subsolo para emergir subitamente: a Revolução".

Trump derrubou a muralha democrata nos Apalaches e no Meio-Oeste, bastiões da classe trabalhadora industrial americana. O seu triunfo deveu-se à sedução exercida pelo nacionalismo populista sobre eleitores desencantados de Obama e Bernie Sanders.

"O homem e a mulher esquecidos não serão esquecidos novamente", tuitou Trump na manhã de 9/11, convocando das profundezas de 1932 uma imagem de Franklin Roosevelt.

"Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos por uma África do Sul Branca." No início do século 20, essa divisa, decalcada do Manifesto Comunista, orientou a "revolta vermelha", um movimento grevista selvagem dos operários brancos das minas sul-africanas que exigiam o fim da contratação de mineiros negros. A toupeira sapeca fura túneis inesperados. O "brexit" não seria aprovado sem os votos das regiões industriais deprimidas de Midlands, antiga fortaleza eleitoral do Partido Trabalhista. Nos EUA, agora, como no Reino Unido, meses atrás, o "homem esquecido" segue o demagogo nativista que clama contra o "estrangeiro" –isto é, o imigrante mexicano ou o exportador chinês.

Uma chaga purulenta infecta a globalização. Hoje, nos EUA, os 1% mais ricos concentram 21% da renda total, perto dos 24% de 1929 e mais que o dobro dos 9% de 1975. A renda média dos 40% mais pobres caiu 8% em relação a 2006. A recuperação econômica significou estagnação ou retrocesso para muitos.

A tóxica mensagem do "trumpismo" foi ouvida pelos deserdados da globalização e da inovação tecnológica. Uma massa silenciosa de perdedores falou pelo voto, apertando os dedos nas teclas do racismo, da xenofobia, da aversão ao Islã e, sobretudo, da vingança contra a "elite globalista". Ohio, Iowa, Pensilvânia, Michigan, Wisconsin são as Midlands dos EUA. "America First" é a divisa da nova "revolta vermelha".

"Nada está escrito na pedra", rejubilou-se Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional (FN), candidata que lidera as sondagens para a eleição presidencial francesa de abril. Ela congratulou Trump, uma alma irmã, dizendo que o 9/11 abre caminho para dissolver o poder da "elite política e midiática".

O "brexit" antecipou o Dia de Trump, que anuncia o triunfo da FN, explicou, encaixando os eventos numa sequência inteligível. O "grande movimento que percorre o mundo", na expressão de Le Pen, é um extenso túnel da velha toupeira. Sobreponha dois mapas: no norte e no leste da França, anéis industriais em desintegração, o eleitorado da extrema-direita coincide com as antigas casamatas eleitorais do Partido Comunista Francês.

"Movimento" é a palavra. Trump escolheu-a num curtíssimo, improvisado discurso de vitória, para evocar seu desprezo pelos partidos. "O mundo deles entra em colapso; o nosso está em construção", comemorou Florian Philippot, chefe estrategista de Le Pen.

Mas quem são "eles", cujo mundo desaba? "Eles" são os políticos de centro-esquerda e centro-direita, os empresários das novas tecnologias, os financistas sem fronteiras, os profissionais qualificados –mas, também, os imigrantes, os refugiados, os muçulmanos, os judeus, as pessoas de cor ou religião diferente. "Make America Great Again": o "movimento" dirige-se contra o cosmopolitismo e quer restaurar as certezas antigas, reconstruir uma imaginária idade de ouro.

A toupeira é cheia de truques. Dela, Marx não sabia nem a metade.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 12/ 11 / 2016

O Globo
"Estado parcelará salário de outubro em até 7 vezes"

Anúncio foi feito após Pezão dizer que Rio ‘está ficando ingovernável’

Depois de pagar a servidores de Educação e Segurança, governo reconhece não ter dinheiro para os 38% restantes e divulga calendário que prevê desembolso de valores escalonados até 5 de dezembro

Num claro sinal da situação dramática que enfrenta para quitar sua folha de pessoal, o governo estadual anunciou no fim da noite de ontem que vai parcelar em até sete vezes os salários de outubro de parte dos servidores. Só receberam ontem funcionários da Educação e da Segurança. O estado divulgou novo calendário de pagamento que prevê, a partir do dia 16, até parcelas de R$ 200. Após o governador Pezão ameaçar pedir intervenção federal no Rio, o ministro Henrique Meirelles (Fazenda) descartou essa possibilidade. Ele informou que o Banco do Brasil prepara operação de crédito para tentar ajudar o estado a obter empréstimos internacionais, dando como garantia royalties do petróleo, e ressaltou que a situação do Rio é a mais “dramática, emergente e aguda” de todos os estados.    

O Estado de S.Paulo
"OMC manda Brasil rever incentivos fiscais dados para a indústria"

Juízes atendem a pedido de japoneses e europeus e exigem alterações em sete medidas das gestões Lula e Dilma; foi a maior derrota do País em duas décadas

Juízes da Organização Mundial do Comércio (OMC) aceitaram argumentos de Japão e Europa e condenaram a política industrial brasileira. Eles exigem que sete medidas de incentivos fiscais e redução de IPI adotadas nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff sejam abandonadas ou reformadas. A avaliação é de que as ações que beneficiaram setores como os de telecomunicações, automóveis e tecnologia afetaram empresas estrangeiras de forma “injusta”. A decisão foi a maior derrota do País na OMC em duas décadas. O governo indicou que deve recorrer e pode ter de apressar a reforma tributária para desmontar o pacote que resultou em isenção de milhões de reais em cinco anos. Caso contrário, o Brasil pode ser retaliado em bilhões de dólares.               

Folha de S. Paulo
"OMC condena incentivo fiscal brasileiro para setor industrial"

País, que deve recorrer, terá que mudar ou encerrar programas com subsídios

A OMC (Organização Mundial de Comércio) condenou sete programas da política industrial brasileira por considerar os incentivos ilegais. A maioria foi implementada no governo Dilma Rousseff. A decisão abre nova fase de um processo que começou em 2014 e deve se arrastar por anos. O Brasil vai recorrer. O órgão internacional impôs uma dura derrota ao país ao concordar com todos as reclamações feitas pela União Europeia e pelo Japão. Para evitar retaliações dos outros países, o governo terá que mudar ou encerrar ações. Os incentivos fiscais, que chegam a mais de R$ 7 bilhões, beneficiam os setores automotivo, eletroeletrônico e siderúrgico, entre outros.

Segundo a Folha apurou, o país viola três regras fundamentais da OMC: não atrelar subsídio a investimento no país, não exigir conteúdo local e não tributar de forma diferenciada os produtos nacionais e importados. O Itamaraty só vai se pronunciar em 14 de dezembro, data da decisão final. Em nota, o órgão exaltou a importância dos incentivos ao crescimento do país. 

sexta-feira, novembro 11, 2016

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Coluna do Celsinho

Donald

Celso de Almeida Jr.​

Sobre a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos é bom ouvir quem pensa.

Especialmente, se o pensador for da ativa, inserido no contexto mundial.

Fui às reflexões de Sérgio Amaral, embaixador do Brasil em Washington.

Amaral já foi embaixador em Paris e Londres, serviu na embaixada de Bonn, Alemanha, e na missão permanente do Brasil junto à ONU, em Genebra.

Entre outras atuações de destaque, também foi presidente da Associação dos Países Produtores de Café e do Conselho Empresarial Brasil-China.

Dele, separei alguns trechos de uma entrevista que deu ao jornal Estadão, em julho passado, 4 meses antes da consagração de Trump.

Confira algumas perguntas e suas respectivas respostas:

Se Donald Trump ganhar as eleições norte-americanas, o que muda nos Estados Unidos e na sua relação com o Brasil?
A tradicional administração americana é forte o suficiente para impedir a implantação de ideias ‘estranhas’ que o candidato vem apresentando?

Essas perguntas requerem uma percepção um pouco mais ampla: a análise do novo populismo na Europa e nos Estados Unidos.
O movimento parece refletir algumas coisas.
Uma delas é um esgotamento da democracia liberal, porque os partidos não foram capazes de captar a tempo a crescente insatisfação da sociedade e dar uma resposta.
Há uma crise de representatividade na Europa, onde se vê um conjunto de partidos antieuropeus.
Nos EUA também há uma crise de representatividade porque os partidos políticos esperavam que certos temas fossem absorvidos e não foram.

Como o tema dos imigrantes?

Sim, incluindo o tema das importações, sobretudo provenientes da China, que transferem empregos e estão aguçando um sentimento nacionalista protecionista.

Curiosamente, a Hillary Clinton tem hoje a seu lado o senador Bernie Sanders, que é uma espécie de socialista tardio.

Ele levantou uma série de questões socialistas exatamente no momento em que o socialismo no mundo está acabando.

O populismo, nesse sentido, significa líderes ou partidos que estão tomando lugar dos partidos tradicionais.

Trump fala para os desempregados cujas empresas onde trabalhavam foram fechadas.
Fala para os sindicatos que sofrem a concorrência dos produtos de fora ou cujos associados estão perdendo emprego.

Ele fala de maneira segmentada.

E como unir essas partes? Como unir o protecionismo em um partido liberal, como o Republicano?

De que maneira Trump vai implantar a ideia fantasiosa de fazer um muro entre EUA e México?
Ou proibir a imigração?

É fato que a imigração não se refere só ao imigrante em si, mas também às empresas que precisam de migrantes para serem competitivas.

Acredita que hoje quem não é politicamente correto é visto com bons olhos?
Não há nada mais politicamente incorreto que falar sobre o muro entre Estados Unidos e México, concorda?

Trump dá uma resposta radical, diferente dos partidos tradicionais, que deram respostas que não foram satisfatórias para setores e camadas que estão sofrendo esses problemas.

Pois é, prezado leitor, querida leitora...

Sérgio Amaral viverá, a partir de 20 de janeiro de 2017 - data da posse de Donald Trump - uma experiência certamente marcante em sua brilhante carreira.

Competente, preparado, sabe que a diplomacia americana não será contaminada por eventuais destemperos do presidente.

Afinal, no bastidor, a linguagem é outra.

Nele - em caso de não cumprimento de promessa de campanha - sempre se escolhe algo ou alguém para pagar o pato.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Trump pode se mostrar uma farsa e passar a agir de acordo com o cargo

João Pereira Coutinho
Donald Trump vence as eleições americanas e o mundo inteiro corre para o Google. Segundo a imprensa, eis as frases mais pesquisadas nas últimas 24 horas: "Como posso emigrar?" e "Fim do mundo". Ainda não há notícias sobre suicídios em massa, embora algumas estrelas de Hollywood estejam perto disso. Que fazer?

Existe uma frase inglesa que se aplica ao momento: "Keep calm and carry on". O cenário pode ser melhor do que parece –ou pior. Quem sabe? Precisamente: quando o assunto é Trump, ninguém.

Mas comecemos pelo pior. Jonathan Freedland, no "The Guardian", não poupa as palavras. Aqueles que acreditam que Trump vai mudar –mais moderado, mais "presidencial"– estão errados. A receita populista resultou para vencer a Casa Branca. Por que não continuar com ela, fechando a economia americana à competição internacional, abandonando a Otan ao seu destino ou estendendo uma passadeira vermelha a Vladimir Putin no Oriente Médio e no Leste da Europa?

Além disso, quer o Congresso, quer o Supremo estão em mãos conservadoras. O poder de Trump é, numa palavra, absoluto.

Será? Duvido. Escrevi repetidamente que Trump não tem preparação técnica ou temperamental para ocupar a Casa Branca. Mantenho. Mas é preciso admitir uma possibilidade: o homem pode ser realmente um farsante. Essa, aliás, é a última esperança do mundo: depois de vestir o terno do candidato delirante e grosseiro, Trump veste o terno presidencial e age em conformidade.

Isso significa abandonar certas aberrações –o muro no México, a deportação em massa de 11 milhões de imigrantes ilegais– e escolher uma versão mais moderada do velho Trump.

Até porque, convém lembrar, ele não atua sozinho como um monarca iluminado. O Congresso e o Supremo (com o próximo substituto de Antonin Scalia) podem jogar no campo republicano. Mas isso não significa, necessariamente, que congressistas e juízes são marionetes de Trump.

O Partido Republicano também tem as suas cicatrizes e, para evitar a destruição completa, terá de mostrar trabalho e respeitabilidade.

Se isso não acontecer, então Trump é o menor dos problemas; porque será o próprio sistema de "checks and balances" em plena ruína. E, com ele, a democracia americana.

Uma última palavra para os apoiadores de Trump: Hillary Clinton considerou metade deles 'deplorável'. Errado, sra. Clinton. Trump pode ser deplorável; mas os eleitores são pessoas reais, com medos reais, que comeram o pão que o diabo amassou com a crise de 2008 e fogem da "globalização" (econômica, cultural, demográfica) como o diabo, da cruz.

A solução não está em ignorá-los ou ridicularizá-los –e isso também é válido para a "intelligentsia" acadêmica e midiática que acredita sempre que o populismo é um castigo dos céus.

Não é. Sem responder à fúria dos desesperados, Trump não será uma exceção. Será a regra no Ocidente –e a Europa que se prepare.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 11/ 11 / 2016

O Globo
"Pezão ameaça pedir intervenção federal no Rio"

Após bloqueio de R$ 140 milhões, governador reclamou com Temer

Pela Constituição, medida impediria Congresso de votar emendas do ajuste fiscal

Após a União bloquear mais R$ 140 milhões do estado, o governador Pezão ameaçou pedir intervenção federal no Rio, revela GERALDA DOCA. Irritado, ele ligou para o presidente Temer e a secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi. Temer prometeu buscar solução com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. A intervenção não é cogitada pelo Planalto porque, pela Constituição, a medida inviabilizaria a votação de emendas constitucionais, como a que limita os gastos púbicos. Pezão busca também um plano B, depois de a Alerj devolver o projeto que eleva desconto de servidores para 30%.    

O Estado de S.Paulo
"Petrobrás tem R$ 16,5 bi de prejuízo, o 3º maior da história"

Limpeza no balanço do terceiro trimestre foi principal responsável pelo resultado; mercado esperava lucro

A Petrobrás registrou prejuízo de R$ 16,458 bilhões no terceiro trimestre, o terceiro maior da história, e surpreendeu analistas que projetavam lucro de até R$ 2,2 bilhões. A principal vilã foi a baixa contábil de R$ 15,709 bilhões, uma espécie de limpeza no balanço, feita quando uma companhia reavalia seus ativos. Sem isso, a estatal calcula que teria tido lucro líquido em torno de R$ 600 milhões de julho a setembro. O gerente executivo de controladoria da empresa, Mario Jorge da Silva, diz que o aumento do risco Brasil e a perda do grau de investimento medido pelas agências classificadoras de risco ampliaram a revisão do preço dos ativos. Também pesaram mudanças nas projeções das cotações do dólar e do barril de petróleo. Além disso, a estatal teve perda bilionária na venda da Petrobrás Argentina (Pesa), concluída no mês passado, gastou R$ 1,260 bilhão no Programa de Incentivo ao Desligamento Voluntário e registrou perdas por provisões de gastos com acordos em ações judiciais em Nova York.               

Folha de S. Paulo
"Tom cordial marca primeiro encontro de Obama e Trump"

Transição começa com conversa de 90 minutos e promessas de ajuda mútua

O presidente dos EUA, o democrata Barack Obama, reuniu-se na Casa Branca, em encontro qualificado por ele como “excelente”, com seu sucessor, o republicano Donald Trump, a fim de discutir a transição no governo. “Minha prioridade é, nos próximos dois meses, facilitar uma transição para que o presidente eleito seja bem sucedido”, disse Obama, que na campanha declarara que o empresário não tinha qualificação para sucedê-lo. Ao contrário da postura agressiva da campanha, o republicano vem adotando tom moderado desde a vitória. Pediu união a rivais, e a cordialidade do encontro com o presidente Obama é parte dessa nova estratégia. “A reunião durou uma hora e meia, mas por mim poderia ter durado mais”, declarou Trump. O presidente eleito disse esperar manter contato com Obama em seu mandato, inclusive para aconselhamento. 

quinta-feira, novembro 10, 2016

Física


Opinião

Na clínica psiquiátrica clássica, certeza absoluta é o traço distintivo do delírio

Contardo Calligaris
"No Fim do Túnel", de Rodrigo Grande, e "A Luz entre Oceanos", de Derek Cianfrance, são filmes muito diferentes. Prefiro os afetos mais perigosos da turma do filme de Grande. Resisto aos grandes sentimentos que estão ao centro do filme de Cianfrance. Também prefiro o espaço sufocante da cave de "No Fim do Túnel" às grandes paisagens (lindas demais) de "A Luz entre Oceanos".

Mas recomendo os dois filmes porque, em ambos, é difícil decidir se os protagonistas erram e quanto e como: o espectador fica numa incerteza moral, com a qual me sinto em casa.

Ao contrário, as certezas morais peremptórias me inspiram antipatia e um pouco de medo. E, por favor, que ninguém levante o exemplo das prescrições morais que todos acharíamos sempre válidas: justamente, qualquer um de nós saberia escrever uma longa lista de situações em que não fica claro se devemos ou não matar, furtar, respeitar o pai e a mãe etc.

Desconfio das certezas morais porque elas têm consequências inquietantes. Quem tem uma certeza moral absoluta sempre acaba querendo impor suas regras: vou te fazer viver do jeito "certo", mesmo que você não concorde, e será pelo teu bem.

Ou seja, as certezas de um ou de alguns indivíduos se transformam em ameaças à liberdade de todos os outros. Se eu for contra o casamento gay, deveria me bastar poder não ser gay e não casar. Por que me importaria impedir outros de serem gay e casarem? Resposta: pela certeza absoluta e incondicional de minha crença, que, aos meus olhos, a torna válida para todos.

Uma tamanha certeza é surpreendente, ao menos para mim: não me lembro de ter acreditado em ideias sem também duvidar delas, ou melhor, sem eu mesmo defender pontos de vista opostos diante de meu perplexo tribunal interior.

O que é, então, uma certeza suficiente para que, além de minha crença orientar minha vida, eu queira que ela oriente a vida de todos?

Na clínica psiquiátrica clássica, a certeza absoluta é o traço distintivo do delírio: uma tremenda crise subjetiva é compensada pela adesão a uma crença inflexível, que vem a ser o delírio.

A certeza é a parte crucial da função que o delírio preenche: num crepúsculo em que posso me perder (na loucura, por exemplo), uma crença absoluta e inabalável funciona para mim como uma âncora de salvação.

O que faz que uma ideia seja delirante, então, não é sua extravagância ou sua pouca verossimilhança, mas a certeza de quem acredita nela.

E o excesso de certeza é a prova de que estou delirando. Desse ponto de vista, um dogma, defendido e propagandeado com uma certeza sem falhas, é sempre delirante.

A própria certeza, aliás, faz que o indivíduo que delira não possa reconhecer que ele está delirando: quanto mais ele delira, mais ele tem certeza que não delira.

Agora, é óbvio que alguns discursos têm uma propensão especial a serem delírios: são todas as pregações que tentam arregimentar, converter, ganhar à causa do orador. O discurso religioso e o político são facilmente delirantes porque eles quase sempre propõem uma crença firme como remédio às dúvidas, aos medos, às incertezas de multidões que talvez possam ser convertidas em rebanhos. Exemplos.

Num breve espaço de tempo, Donald Trump foi favorável e contrário ao aborto, e também declarou que as mulheres que tentam abortar devem ser punidas e que não devem ser punidas. Nenhuma dessas ideias é um delírio em si. A própria contradição tampouco é um delírio.

O que permite que elas todas funcionem como um delírio possível é o caráter peremptório, normativo, ou seja, a certeza com a qual elas foram expressadas e propostas. Nada de "ao meu ver", "eu acho que", "parece-me que". Só um "dever" incontestado.

Mas cuidado: Donald Trump não esteve delirando, ele apenas foi mestre em propor o que seus seguidores queriam: uma certeza (que funcionasse como um delírio) num momento em que eles têm a sensação de ter perdido seu lugar no mundo. Você suspeita que foi esquecido por Deus e pela história? Pois aqui está o antídoto: uma crença, qualquer uma, à condição que seja absoluta.

Vender certezas e delírios é sempre um bom negócio, porque sempre há alguém que se sente injustiçado, esquecido, enganado, sem rumo e sem sentido.

Última hora: a coluna foi entregue na terça (8) às 17h; nada parecia sugerir que Donald Trump ganharia as eleições presidenciais dos EUA. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 10/ 11 / 2016

O Globo
"O efeito Trump"

Presidente eleito faz discurso conciliador, mas EUA e aliados mergulham na incerteza

Política econômica ainda é incógnita, e analistas temem guinada protecionista

Apesar do discurso de união nacional feito pelo 45º presidente eleito dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, a memória da campanha agressiva e das promessas polêmicas levou os americanos e seus parceiros mundiais a mergulharem em incertezas diante da falta de experiência e do estilo explosivo do futuro comandante do país. O presidente Barack Obama e a candidata democrata derrotada, Hillary Clinton, também defenderam uma transição amena, mas já no discurso da vitória Trump sinalizou que buscará viabilizar sua agenda conservadora e nacionalista: “Prometo que serei o presidente para todos os Estados Unidos. Vamos renovar o sonho americano.” A onda conservadora que as urnas irradiaram assustou grande parte do mundo, mas foi bem recebida pela extrema-direita europeia. Mesmo com maioria republicana na Câmara e no Senado, Trump não terá, porém, poderes ilimitados. Economistas temem uma guinada protecionista e um revés na globalização, ressaltando a falta de clareza sobre a política econômica que o futuro presidente deverá implementar. As Bolsas globais reagiram com fortes quedas na abertura dos mercados, mas depois reduziram as perdas diante da avaliação de que muitas das propostas do candidato não conseguirão ser postas em prática.    

O Estado de S.Paulo
"Perplexo e inseguro, mundo se questiona: Quais promessas Trump cumprirá?"

Presidente eleito terá maior base no Congresso em 88 anos, mas precisará negociar com o próprio partido para pôr planos em prática

Donald Trump assumirá a Casa Branca em 20 de janeiro com a maior base republicana desde 1928, informa Cláudia Trevisan. Mas precisará negociar com grupos do próprio partido para aprovar pautas como aumento do teto de gastos públicos. Democratas também poderão bloquear ou retardar projetos. Trump venceu com discurso populista e nacionalista, de rejeição da globalização e com compromisso de pôr os interesses americanos em primeiro lugar. “Homens e mulheres esquecidos de nosso país não serão mais esquecidos”, disse, após a vitória que surpreendeu o mundo e abalou mercados internacionais, num dia que começou com choque, mas se acalmou após o discurso conciliador e com pedido de união. Para especialistas, ainda não está claro que promessas Trump cumprirá, mas ele certamente poderá jogar por terra iniciativas de Barack Obama, como a reforma da saúde e o plano contra o aquecimento global. Já para deportar 11 milhões de imigrantes ilegais e separar os Estados Unidos do México por muro deve esbarrar na opinião pública.              

Folha de S. Paulo
"Após vitória inesperada, Donald Trump adota tom moderado e defende união"

Empresário bate Hillary no Colégio Eleitoral, com menos votos populares

45º presidente dos EUA promete parcerias internacionais e afaga rivais

Após meses de agressividade na campanha, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald John Trump, 70, adotou um tom conciliatório em seu primeiro discurso depois da vitória e procurou atrair adversários em busca de apoio para realizar suas promessas. O republicano elogiou o serviço prestado ao país pela rival democrata, Hillary Diane Rodham Clinton, 69, e acenou à comunidade global com parcerias, em contraste com manifestações isolacionistas na campanha, relatam Marcelo Ninio e Anna Virginia Balloussier.

Mais velho eleito à Casa Branca, o 45º presidente venceu vendendo-se como o forasteiro capaz de desafiar um sistema corrupto. Contrariou projeções e, até a conclusão desta edição, obteve no Colégio eleitoral 290 votos, de 270 necessários, ante 232 da democrata. O resultado será referendado no dia 19 de dezembro. No voto popular, não decisivo para definir o ganhador no sistema indireto, Hillary tinha 200 mil de vantagem até a noite desta quarta — 59,8 milhões (47,7%) a 59,6 milhões (47,5%). Propostas populistas de Trump atraíram eleitores brancos de zonas rurais e operárias em cinco estados com histórico pró-democrata. A ofensiva antiestablishment remeteu ao “brexit”, votação britânica para deixar a união europeia, e repeliu líderes republicanos. O empresário agora conclama rivais a “curarem as feridas da divisão”. 

Republicanos comandarão também a Câmara e o senado, mas o Legislativo e o Judiciário, fortes no país, devem dificultar as iniciativas mais controvertidas, como a deportação em massa de imigrantes ilegais, os cortes de impostos e a revisão de tratados comerciais. Está ameaçada parte do legado do governo Barack Obama, como os subsídios à cobertura médica de 13 milhões de pessoas. O atual presidente elogiou o eleito pela mensagem de união, e Hillary pediu a seguidores aceitação do resultado, mas à noite houve atos anti-Trump em ao menos oito cidades. 

terça-feira, novembro 08, 2016

Física


Opinião

Entendo o povão, mas é difícil explicar a atitude dos intelectuais de esquerda

Ferreira Gullar
Cada dia que passa me convenço mais de que, sobretudo quando se trata de política, as pessoas, em geral, têm dificuldade de aceitar a realidade se ela contraria suas convicções.

Recentemente, durante um almoço, ouvi, perplexo, afirmações destituídas de qualquer vínculo efetivo com a realidade dos fatos. Minha perplexidade foi crescendo tanto que, após tentar mostrar o despropósito do que afirmavam, fingi que necessitava ir ao banheiro e não voltei mais ao tal papo furado.

Não resta dúvida de que, até certo ponto, essa dificuldade de aceitar a realidade decorre do momento que estamos vivendo, tanto no Brasil como no mundo em geral.

Tem-se a impressão de que atravessamos um período de mudanças radicais quando os valores, sejam ideológicos, econômicos ou éticos, entram em crise.

Isso parece ter a ver tanto com as utopias quanto com a implantação de novos meios de comunicação. Estes tornaram o mundo menor ou, dizendo de outro modo, é como se todos os povos, nos diversos pontos do planeta, vivessem uma mesma atualidade. Sabemos, a todo instante, de tudo o que ocorre em qualquer região, em qualquer país, em qualquer cidade do planeta.

No caso de nós, brasileiros, acresce o fato de que chegamos ao fim de uma fase que culminou no afastamento da presidente da República e na implantação de um governo interino, agora permanente. Acresce o fato de que o governo que findou era a expressão de um regime populista, caracterizado por um ideologismo demagógico, apoiado no setor pobre e carente da população. Na verdade, versão primária de um regime dito de esquerda em aliança com o capitalismo corrupto, que ele fingia combater.

Pois bem: que o povão desinformado se deixe levar pelas benesses recebidas é compreensível. Difícil de explicar, porém, é a atitude de intelectuais de esquerda que aceitam a burla como verdade.

E era isso que transparecia na tal conversa do encontro a que me referi no começo desta crônica. Uma das pessoas presentes, dizendo-se contra Dilma Rousseff, tampouco admitia o governo Michel Temer. Quando a lembrei que o governo de Temer tinha apenas um mês de existência e que herdara do anterior uma situação crítica com mais de 11 milhões de desempregados, ela respondeu: "Na cidadezinha onde moro não há desemprego. Duvido muito desses números".

Lembrei-a que aqueles eram dados do IBGE, divulgados havia três meses, quando ainda era Dilma quem presidia o país, ela respondeu: "E o IBGE não podia estar infiltrado por adversários do governo?"

É que essa senhora se diz de esquerda e, embora não possa negar o estado crítico a que o PT conduziu o país, usa de argumentos infundados para colocar em dúvida o fracasso petista. Já observaram que os que defendem esse populismo nunca tocam nos escândalos revelados pela Lava Jato, no assalto à Petrobras, nas propinas dadas a funcionários e políticos inclusive do PT? É que têm dificuldade de aceitar a realidade dos fatos e admitir que estão errados. E se alguém faz referência a tais escândalos, gritam: "Mas isso é mentira!" Ou seja, para quem não suporta a realidade, só é verdade o que lhe convém.

Saí dessa roda e fui me sentar com outro grupo, que falava de futebol, particularmente do Vasco, meu time do coração, que anda mal das pernas, pois acabara de ser desclassificado, ainda na primeira rodada da Copa do Brasil. Mas eis que chega um velho companheiro, simpatizante do PC do B, do finado PCB e muda o assunto da conversa, de futebol para a polícia. Foi então que um dos presentes afirmou que o comunismo já acabara, uma vez que a própria China era hoje a segunda maior potência capitalista do mundo.

– Isso não, contestou o velho comuna. O comunismo está mais vivo do que nunca. A China encarna a nova forma que o regime socialista ganhou.

– Sim –brinquei eu–, é o comunismo capitalista! Todos riram, menos o autor daquela tese surrealista. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 8/ 11 / 2016

O Globo
"Tribunal e MP recorrem contra corte de vantagens"

Presidente da Alerj, porém, estima ter votos para aprovar ajuste fiscal

Bloqueados mais R$ 170 milhões do Tesouro estadual relativos à dívida com a União; três restaurantes populares no Rio fecharam as portas ontem por falta de pagamento a fornecedores

Com duras críticas, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho, ameaçou recorrer contra o pacote anticrise do governo estadual e disse que não deixará a Constituição ser rasgada. O procurador- geral de Justiça, Marfan Vieira, anunciou que vai ao Supremo contra o que chamou de confisco. O ajuste fiscal do estado afeta também os orçamentos do TJ e do MP, tirando vantagens que seus servidores têm em relação a funcionários do Executivo. Apesar da reação, o presidente da Alerj, Jorge Picciani, estimou já ter votos para aprovar as medidas. Três restaurantes populares fecharam ontem por falta de pagamento.     

O Estado de S.Paulo
"Correios farão PDV que dá até 35% do salário por 10 anos"

Objetivo é conseguir a adesão de 8 mil dos 117,4 mil funcionários para plano de demissão voluntária

Os Correios vão apresentar um plano de demissão voluntária (PDV) para obter a adesão de 8 mil funcionários com mais de 55 anos, tempo de serviço para se aposentar ou já aposentados, informa Murilo Rodrigues Alves. No total, são 117,4 mil empregados. Como incentivo, a empresa estuda oferecer a quem aderir parte do salário por dez anos. O porcentual não está fechado, mas a expectativa é de que fique em torno de 35% para os mais velhos e vá caindo para idades menores. Segundo fontes ligadas à empresa, a economia gerada pela medida pode chegar a R$ 1 bilhão por ano.              

Folha de S. Paulo
"Hillary chega à votação nos EUA com dianteira frágil sobre Trump"

Após campanha agressiva, democrata aposta em latinos, e republicano, na ‘maioria silenciosa’

Após 17 meses de campanha, a democrata Hillary Rodham Clinton, 69, ou o republicano Donald John Trump, 70, será escolhido nesta terça- feira (8) como o 45º presidente dos Estados Unidos. A divisão acentuada do eleitorado e insultos entre os rivais marcaram a campanha que ameaça como poucas a coesão projetada 240 anos atrás no nome da nação, relatam Anna Virginia Balloussier e Marcelo Ninio. A força da democrata vem das minorias, sobretudo a latina. Já o republicano aposta na “maioria silenciosa”, que que se contrapõe a demandas de minorias, como brancos sem diploma universitário. Partidários de ambos já discutem como cicatrizar as feridas eleitorais. 

 
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