sábado, novembro 05, 2016

Maule M260B


Coluna do Celsinho

Azeite

Celso de Almeida Jr.

Aprendi com o Alfredo Pereira de Campos.

Antes das muitas cervejas no inesquecível Café Concerto.

Uma colher de sopa de azeite de oliva.

Eu preferia Gallo ou Carbonell.

"Doutor" Alfredo dizia que minimizava a ressaca.

Uma película protetora nas paredes do estômago e do intestino retardava a absorção do álcool.

Na prática, esta demora para sentir o efeito contribuía para o consumo de mais cervejas.

Até hoje, não sei se o Alfredo era comissionado pelas vendas.

Pois é...

A lembrança de tantas décadas chegou depois da leitura de notícias recentes.

As últimas delações premiadas, quando completamente reveladas, implodirão muitas e muitas carreiras políticas.

Figuras que já mereceram alguma confiança ou admiração serão desmascaradas e jogadas na vala comum dos corruptos.

A intoxicação que o país sofreu com esta gente inescrupulosa e irresponsável garantirá uma ressaca de longa duração.

O Brasil foi desidratado por estes criminosos que, alicerçados num discurso sedutor, enganaram aos mais humildes, sofridos e/ou ingênuos.

O estrago está feito e teremos anos de sacrifício para a nação sair desta lambança.

Dores de cabeça...

Pontadas no fígado...

Dado o aperto, terei que trocar de marca.

Dureza...

Sobrou o composto de oliva e soja.

Lata conhecida.

Óleo Maria.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Podem ficar tranquilos: ninguém chega atrasado ao próprio funeral

João Pereira Coutinho
Um homem caminha no centro da vila. A Morte aparece, apresenta-se e diz: "Temos encontro marcado para as seis da madrugada." O homem, aterrorizado, vende todos os seus bens e, cavalgando sem parar, afasta-se da vila com a velocidade de um trovão.

Muitas horas depois, e muitas milhas depois, sente-se cansado, dorido, com sede. Decide parar junto a uma fonte para recuperar energias. E a Morte, olhando o seu relógio, surge novamente em cena com um sorriso: "Curioso. Eu poderia jurar que o senhor não ia chegar em tempo."

Li essa história em crónica antiga de Victor Cunha Rego, um colunista português que também escreveu nesta Folha muitos anos atrás. E lembrei-me dela no Dia de Finados, quando fui ao cemitério visitar a família.

Havia gente, havia flores, havia velas. Mas, entre os presentes, não havia uma única criatura que pudesse ostentar o grotesco título de "jovem". Não quero exagerar, embora a minha função seja essa. Mas penso que era o mais novo naquele cenário de mármores brancos. E eu sou um cavalheiro de meia-idade, ou a caminho de. Respeito.

O caso não constitui surpresa: quem leu o historiador Philippe Ariès em "O Homem Diante da Morte" sabe que o medo do fim é coisa recente.

Na Idade Média, por exemplo, a Velha Senhora fazia parte da vida e o condenado (não seremos todos?) preparava-se para a despedida com uma serenidade ritual. O quarto enchia-se de gente –família, vizinhos. Obviamente, crianças.

E os cemitérios também "normalizavam" o assunto: na Antiguidade, os mortos eram enterrados fora da cidade. No período medievo, eles estavam no centro da vida –e da vila: espaços de encontro para os vivos como os shoppings de hoje.

Quando li Ariès, lembro-me de rir alto com a preocupação crecente das autoridades eclesiásticas para proibirem certas práticas nos cemitérios. Como dançar. Ou jogar. Ou tocar música. Ou montar certos negócios.

No século 18, o espectáculo mudou: a morte passou a ser vista como uma importante separação –para os mortos (da vida) e para os vivos (do morto). A morte era uma experiência "estética" e quase bela, para certas almas românticas; ou, então, era uma ópera dramática, com lágrimas (abundantes) e lápides (artísticas).

Os cemitérios portugueses ainda expressam essa monumentalidade com figuras de anjos que choram ou, pelo contrário, dormem serenamente sobre os braços. Suspeito que no Brasil é a mesma coisa. Confesso que essa estatuária sempre me pareceu –como dizê-lo?– obscenamente "kitsch".

No século 20, nova mudança. Ou, como defende Ariès, o início da ocultação. Morrer é quase uma vergonha –para o próprio e para a família. Morre-se no hospital, não em casa; os funerais são rápidos para não perturbar demasiado; as crianças são "protegidas" dessa "infâmia"; e o ideal é não haver lápide, mas cinzas. Espalhadas no mar, na montanha, no vaso sanitário. Quanto mais depressa a evidência da morte desaparecer da paisagem, melhor. Como explicar essa fobia?

Se a memória não me falha, Ariès não oferece nenhuma explicação espiritual profunda. Sim, o desenvolvimento econêmico teve uma palavra. Sim, a "tirania da felicidade" também –vidas felizes não admitem momentos infelizes.

Mas parece-me evidente que o declínio da religião gerou um certo temor inconsciente nos homens contemporâneos. Se a festa não continua do outro lado do pano, é preciso aproveitar enquanto o pano não desce.

Não admira que as nossas sociedades tenham elevado a Saúde e a Juventude (com maiúsculas) a patamares verdadeiramente histéricos. A Saúde e a Juventude sempre são uma ilusão de imortalidade. Nietzsche sabia do que falava: depois da "morte de Deus", a adoração orgásmica do corpo. É tudo que nos resta.

Longe de mim "moralizar" sobre o assunto. Mas pergunto, honestamente, se a negação da morte é a forma mais saudável de celebrar a vida. E, já agora, se a devoção pelo corpo, pela saúde e pela felicidade perpétua são a forma mais saudável de a viver.

Duvidoso. Indiferente. Como na história, podemos cavalgar toda a noite para longe da vila. Mas, à hora marcada, ninguém vai chegar atrasado. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 5/ 11 / 2016

O Globo
"Desconto maior de salário de servidor pode durar 20 anos"

Estudo prevê prazo longo para alíquota extra cobrir rombo da previdência

Funcionalismo e Tribunal de Justiça criticam medidas e alertam para ações judiciais contra propostas do pacote

O aumento da contribuição previdenciária de servidores ativos e aposentados do estado para 30% poderá durar mais que os 16 meses propostos no pacote enviado ontem à Alerj pelo governador Pezão e o vice, Dornelles. Estudos mostram que o Rio precisaria da alíquota maior por 20 anos para cobrir o rombo da previdência. Servidores do Executivo e o Tribunal de Justiça reagiram ao pacote dizendo que poderá haver contestações judiciais. A Firjan criticou o aumento do ICMS. Para o governo, mesmo se todas as medidas forem aprovadas, as contas só sairão do vermelho em 2024.     

O Estado de S.Paulo
"Quebrado, Rio arrocha salário de servidores e eleva impostos"

Pacote do governo para reequilibrar contas ainda corta 8 secretarias; para secretário, déficit só acaba em 2022

Em estado de calamidade pública e com rombo de R$ 17,5 bilhões, o governo do Rio anunciou ontem pacote para reequilibrar as contas. O plano é obter R$ 13,3 bilhões em 2017 e R$ 14,6 bilhões em 2018 com cortes de despesas e aumento de alíquotas, incluindo cobrança de 30% na contribuição previdenciária de servidores ativos e inativos e elevação do ICMS de energia, comunicação, gasolina, fumo, cerveja e refrigerante. O pacote inclui ainda congelamento dos salários até 2019 e redução no número de secretarias – de 20 para 12 –, de cargos comissionados e de gratificações. “São medidas duras. Ninguém aqui está satisfeito”, disse o governador Luiz Fernando Pezão. Para o secretário da Fazenda, Gustavo Barbosa, mesmo com as medidas, o Rio só deixará de ter déficit em 2022 ou 2023. Sindicatos e associações de servidores protestaram no centro do Rio.              

Folha de S. Paulo
"Rio lança arrocho anticrise, e servidores já protestam"

Pacote taxa funcionalismo, eleva tributos e extingue programas sociais

O governo do Rio de Janeiro lançou um pacote anticrise que prevê aumento para 30% da contribuição previdenciária dos servidores e aposentados, gerando forte manifestação contrária das categorias mais atingidas. Funcionários da saúde e da educação protestaram nesta sexta (4) em frente à Assembleia Legislativa contra as medidas, que preveem ainda aumento de impostos, cortes de secretarias e extinção de programas sociais. Endividado, o Rio precisa recorrer a “medidas amargas”, disse o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Com o pacote, que tem de ser aprovado pela Assembleia, o Estado espera superavit de R$ 13,3 bilhões em 2017. Para o presidente do Tribunal de Justiça do RJ, Luiz Fernando de Carvalho, haverá várias ações coletivas e individuais. “Algumas medidas agridem a Constituição, atentando contra direitos fundamentais.” 

quinta-feira, novembro 03, 2016

Física


Opinião

Que tal cada um entrevistar os ex-parceiros do outro?

Contardo Calligaris
O filme de Tate Taylor, "A Garota no Trem", é adaptado de um bom romance de Paula Hawkins (Record). É difícil comentar a história sem estragar o prazer dos futuros espectadores. Então apenas apresentarei meus pensamentos na saída do cinema.

1) Poucas coisas são tão chatas quanto o casamento com um parceiro ou uma parceira alcoolistas.

É chato subjetivamente, por razões narcisistas. Quem não bebe é levado a acreditar em uma das duas: a) o outro bebe porque a convivência comigo deve ser insuportável; b) não sei por que o outro bebe, mas, para ele/ela, conviver comigo não é uma razão suficiente para ele/ela ficar sóbrio/a.

É chato objetivamente. Imagine o sexo com alguém que pode adormecer no meio de uma transa. E imagine as catástrofes sociais que a bebedeira do outro pode produzir quando você se aventura a compartilhar a vida social com ele/a.

A própria relação é chata, porque o alcoolista é facilmente ciumento e paranoico. O homem, em particular, está convencido de que ele está lutando contra a adversidade do mundo, enquanto sua companheira (que não bebe) estaria aproveitando a vida (eventualmente com amantes). Com isso, o alcoolista pode se tornar estupidamente violento.

Alguns se imaginam resolver o problema bebendo junto com seu parceiro ou com sua parceira, mas as relações de casais alcoolistas são tempestuosas: a bebedeira do casal nunca consegue ser "coordenada".

Em suma, alcoolismo não condiz com casamento: se beber, não case.

2) Na adolescência, voltando para casa nos fins de tarde de inverno, eu olhava para as janelas acesas, onde aconteciam vidas parecidas com a minha, mas que eu imaginava melhores, cheias de afetos ternos e alegres. Eu permanecia no frio da rua de propósito, para idealizar melhor o aconchego das outras famílias, as vidas supostamente mais plenas que a minha –e, claro, os amores que, atrás daquelas janelas, deviam ser perfeitos, absolutos.

Tive sorte: comecei a imaginar que toda paz aparente escondia um mistério. À luz de lustres e abajures, os outros pareciam felizes, mas, de fato, quais horrores se escondiam na obscuridade dos closets? Conselho: pratique essa pergunta sem moderação.

Idealizar o amor de outros casais não alimenta a esperança, mas o desespero.

3) Geralmente, separações acontecem por boas razões, mas, na hora, a gente se esquece disso.

Ou seja, sabemos que o que tinha a perder já foi perdido –ou talvez nunca tenha existido. Mas lamentamos as separações como se, nelas, sempre estivéssemos perdendo "algo". Qualquer separação produz o fantasma de uma perda.

Talvez a gente se sinta humilhado por ter fracassado na realização de um conto de fadas ou de um sonho de nossos pais: o fato é que, frequentemente, a separação é vivida como um dano irreparável, embora ela seja para ambos uma libertação.

4) Hoje é frequente que as pessoas se casem ou se juntem numerosas vezes ao longo da vida. Um novo casamento é quase sempre visto como a solução dos problemas amorosos anteriores, ou como a compensação dos defeitos do casal anterior. Isso lisonjeia os novos amores: ele ou ela nos "salvam", segundo o caso, da "bruxa" ou do "ogro".

De fato, os casamentos que se sucedem são menos diferentes do que parece –a gente muda pouco, e nossos casais também mudam pouco. Em vez de negar essa realidade (decretando a absoluta novidade de nossa escolha mais recente), seria mais sábio fazer um bom uso da série de nossas uniões e desuniões.

Afinal, quem conhece melhor nosso novo amor é seu parceiro ou sua parceira anterior. E ex-parceiros/as nos conhecem melhor do que nosso novo amor. Portanto, que tal cada um entrevistar os "ex" do outro? Seria um bom jeito de antecipar (quem sabe resolver) problemas antigos que se repetirão, mais cedo ou mais tarde, no novo casamento.

Essa prática tornaria as separações mais civilizadas, porque seria perigoso deixar uma lembrança sinistra em companheiras ou companheiros anteriores.

Sem esperar esse costume ser instituído, note-se que o fato de ter mantido boas relações com seus ou suas "ex" deveria ser considerado um ponto a favor de qualquer "candidato" prospectado.

Na hora de empregar alguém, a gente pede referências aos empregadores anteriores. Por que não fazer o mesmo na hora de casar? 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 3/ 11 / 2016

O Globo
"Rio tem recorde de apreensão de fuzis"

Pesquisa revela aumento de 60% em nove anos

Em 2007, 214 armas de guerra foram recolhidas no estado das mãos de bandidos contra 344 no ano passado

Nos últimos nove anos, de 2007 ao ano passado, o Estado do Rio registrou aumento de 60% nas apreensões de fuzis, considerados armas de guerra. Os números saltaram de 214 para 344, revela ANTÔNIO WERNECK. Ao comparar as estatísticas do Rio com as de outros estados, pesquisa do Instituto Sou da Paz constatou que a polícia fluminense foi a que mais apreendeu este tipo de armamento na Região Sudeste, em 2014. Ontem, foi preso o terceiro suspeito da morte da dentista Priscila Nicolau, que teve o carro perfurado por 17 tiros, inclusive de fuzil, no Itanhangá. À tarde, um tiroteio fechou a Linha Amarela.     

O Estado de S.Paulo
"FGTS inflou contas da Caixa em R$ 15 bi, mostra estudo"

Segundo economista, fundo de garantia antecipou recursos para o banco e isso fere norma do BC

A Caixa Econômica Federal está inflando seu balanço com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) dentro do Minha Casa Minha Vida. Estudo do economista Marcos Köhler mostra que, desde 2009, pelo menos R$ 15 bilhões foram lançados indevidamente no balanço da instituição, que concentrou os financiamentos subsidiados do programa habitacional. Segundo o estudo, o FGTS adianta para o banco o valor dos subsídios que deveriam ser pagos ao longo de todo o financiamento habitacional, prática que é proibida pelas normas do Banco Central. Esse adiantamento ainda incluiria os juros futuros. A Caixa argumenta que recebe por “serviços prestados”.               

Folha de S. Paulo
"Metrô diz que plano de Doria estimula fuga de passageiros"

Com congelamento de tarifa, ônibus deve ficar mais barato que a rede sobre trilhos 

A direção do Metrô de São Paulo disse à Folha ser necessário o reajuste da tarifa em 2017 e, por extensão, teme que o congelamento da passagem de ônibus na capital paulista afugente usuários da rede sobre trilhos. O prefeito eleito, João Doria (PSDB), anunciou que manterá o valor de R$ 3,80. Se houver correção próxima da inflação oficial, a tarifa do metrô pode atingir R$ 4,10. Nos últimos cinco anos, o preço dos sistemas estadual e municipal foi idêntico, decidido em comum acordo. “Sempre que você tem esse descolamento é natural que exista um fluxo de transferência de usuários de um sistema para outro”, disse José Carlos Nascimento, diretor financeiro do Metrô, ligado à gestão Alckmin (PSDB). A empresa enfrenta queda de usuários pagantes e aumento de gratuidades, subsidiadas pelo Estado. Mas, em 2015, R$ 66 milhões previstos não foram pagos ao Metrô. A promessa de Doria, que custará até R$ 1 bilhão aos contribuintes, deve desgastar Alckmin. 

quarta-feira, novembro 02, 2016

Física


Opinião

Gente 'cult' tende a ser chata e afetada em suas opiniões

Luiz Felipe Pondé
O mundo pós-moderno em que vivemos é um prato cheio para frescuras. A palavra "frescura" pode soar um pouco estranha para quem não possui um repertório um pouco mais sofisticado em filosofia. Se isso acontece com "frescura", quanto mais com a palavra "desconstruído", que tem em sua história gente chiquérrima, como o filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Quanto a "pós-moderno", então, nem me fale. Nada é mais chique do que algo ser pós-moderno. Voltaremos já ao que seria "pós-moderno".

Vamos por partes. Dizer que algo é uma "frescura" implica dizer que ela tem um frescor que lhe é peculiar, um certo tom de "novo", "avantgardiste", diria alguém versado em teoria da arte moderna. Portanto, sua raiz está no âmbito da natureza e da arte, ao mesmo tempo! Talvez, lá atrás, encontremos algum fenômeno a ver com mudança de estação do ano. Tal conceito também afeta qualquer teoria da moda.

Um detalhe: "frescura" sempre carrega alguma nuance de afetação. Quando algo ou alguém é "fresco", quer dizer que ele ou ela é um tanto exagerado (afetado) nas suas ações. Os mais velhos diriam: uma nota acima do necessário.

Na sua evolução semântica ("evolução semântica" quer dizer mudança de significado de uma palavra ao longo do tempo), a palavra "frescura" acabou assumindo um sentido próximo a "wannabe". O que quer dizer isso? Simples: "(to) want to be", em inglês, significa "querer ser algo","wannabe" significa "querer ser algo chique que não se é de verdade". Tipo gente que queria ser culta e por isso frequenta lugares "cult" para todo mundo pensar que é culta. Sacou? Conhece alguém assim? Aposto que sim. Gente "cult" tende a ser chata e afetada em suas opiniões.

E "descontruída"? Essa tem a ver com nossa época pós-moderna. Filósofos franceses chiques do final do século 20 se puseram a dizer (Jean-François Lyotard entre eles) que nossa época havia se cansado de "grandes narrativas". Em língua dos mortais, isso quer dizer ficar de saco cheio de muita teoria complicada e que é preciso ler muito para entender e, por isso mesmo, gastar o cérebro demais. Para os pós-modernos tudo é relativo e Shakespeare é igual a alguém batendo tambor repetidas vezes em algum recanto perdido do mundo.

Os pós-modernos começam então a misturar coisas que normalmente não iriam juntas, como bolsa Prada com pijamas no Iguatemi, paletós caros com sandálias Havaianas no Copacabana Palace e, assim, desconstruir tudo o que foi tomado como evidência antes deles. Daí chegamos a "frescuras desconstruídas" de nossa conversa de hoje.

Uma coisa que se adora desconstruir hoje em dia é a comida. Quando todo mundo acha que pode fazer comida gourmet, é melhor você se ater à comida da sua avó. Vou dar um exemplo real que me foi contado por uma amiga, recentemente. Olha só que primor de frescura (comida fresca que quer parecer inteligente e chique).

Um restaurante "top" na França. Num dado momento, é servido a ela uma "espuminha" com uma coisa escura e dura no meio do prato, completamente indecifrável. Mulher educada e com trânsito no mundo sofisticado, fica perplexa diante da dificuldade de identificar tamanha "desconstrução" do que seria muito banal, como carne, peixe, salada ou algo semelhante. Na sua modéstia típica de quem é de fato elegante, pergunta para o inteligente chef o que viria a ser aquilo.

Surpresa! Você não imaginaria a resposta, assumindo que você não seja uma dessas pessoas frescas que acham que comida deve ser inteligente.

A revelação máxima: a coisa escura era uma pedra. Pedra com espuminha. A desconstrução máxima do que seria comida: uma pedra. Nenhum animal come pedra. Mas humanos desconstruídos, sim. Hoje em dia está na moda fazer espuminha de tudo na comida. De todas as cores: vermelho, amarelo, azul, verde, marrom...

A ideia dessa comida desconstruída é que você chupe a pedra molhando ela na espuminha até secar o prato e a pedra. Alguém poderia se perguntar qual o limite da desconstrução gourmet. Que tal baratas africanas com espuminha de fezes seca? 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 2 / 11 / 2016

O Globo
"Polícia pede ajuda para manter delegacias"

Edital é lançado para obter doações e serviços por 2 anos

Objetivo é garantir funcionamento de unidades que enfrentam rotina de penúria devido à crise financeira do estado

Com o agravamento da crise do estado, a Polícia Civil decidiu lançar um edital público para que empresários possam doar material ou prestar serviços para garantir o funcionamento de delegacias. A ideia do programa “Juntos com a polícia” é formalizar, em contratos com duração de dois anos, uma prática que já vinha acontecendo de forma espontânea. Atualmente, moradores do Flamengo recolhem doações para abastecer a delegacia do Catete, onde falta até papel para os registros policiais.    

O Estado de S.Paulo
"Repatriação rende R$ 50,9 bi e governo quer repetir projeto"

Proposta de novo programa de regularização de dinheiro do exterior será apresentada terça-feira no Senado

Com reforço de R$ 50,9 bilhões no caixa deste ano graças à Lei da Repatriação, que permitiu regularizar ativos mantidos no exterior, o governo já negocia com o Senado novo projeto para reabrir o programa no ano que vem. O senador Romero Jucá estima em mais R$ 30 bilhões o reforço dessa segunda etapa, “o valor de uma CPMF”, nas palavras dele. De acordo com o presidente da Casa, Renan Calheiros, a abertura de um novo programa de repatriação a partir de janeiro foi acertada com o presidente Michel Temer. O projeto será apresentado na terça-feira. Depois de aprovado, terá de passar pela Câmara. O programa de repatriação cujo prazo de adesão terminou na segunda- feira foi proposto pela ex-presidente Dilma Rousseff e aprovado pelo Congresso.              

Folha de S. Paulo
"Marcelo Odebrecht ficará na prisão até fim de 2017"

Acordo de delação na Lava Jato prevê redução da pena e saída do regime fechado

Herdeiro da empreiteira que leva seu sobrenome, Marcelo Odebrecht deve ficar preso até o final de 2017. É o que estabelece acordo entre advogados da empresa e o Ministério Público Federal na negociação de delação premiada na Lava Jato. A pena total para o empresário, condenado a 19 anos e 4 meses por envolvimento no petrolão, será reduzida para dez anos, sendo um quarto em regime fechado, informam Marina Dias e Gabriel Mascarenhas. Ele está preso desde junho de 2015. A delação da Odebrecht é uma das mais aguardadas pelos investigadores. Cerca de 80 executivos e outros funcionários da construtora negociam com a força-tarefa da Lava Jato. Há a expectativa de que o acordo seja assinado até o final deste mês. Nas tratativas da delação, vários políticos foram citados, entre eles o presidente Michel Temer (PMDB), os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff (PT), o ministro José Serra (PSDB), governadores e congressistas. Todos negam irregularidades. 

terça-feira, novembro 01, 2016

Física


Opinião

Carros autoguiados pertencem a um mundo que não é para seres humanos

João Pereira Coutinho
Carros autoguiados? É um cenário hipotético que encontro em todo lado. O excelente Robert Moor, por exemplo, escreveu na revista "New York" um artigo a respeito ("What Happens to American Myth When You Take the Driver Out of It?") onde não esconde o entusiasmo.

Em 20 anos, ou até menos, os velhos carros com motorista vão desaparecer da paisagem. Vantagens? Mil. Carros autoguiados não provocam acidentes (tradução: milhões de vidas salvas) e são ecologicamente sustentáveis (tradução: adeus, poluição).

Mas há mais: essa tecnologia gloriosa significa uma libertação para todos. Para crianças e velhos, que terão possibilidades de mobilidade em segurança. E até para os pais das crianças, que poupam tempo em deslocações fatigantes.

De resto, e para não espantar os cavalos, Robert Moor fala precisamente de cavalos. Explico melhor: nos Estados Unidos, parece que existem 5 milhões de cavalos para atividades de lazer.

Um mundo de carros autoguiados transforma os carros de hoje nos cavalos de amanhã: haverá pistas próprias para que os nostálgicos, em parques de diversões apropriados, possam dirigir e só matar saudades.

Converso sobre o tema com um amigo que entende do assunto. Ele concorda com o otimismo tecnológico e depois conclui: "Você já vive neste mundo".

Verdade, verdade: tenho licença para dirigir desde os 18. Mas, sempre que posso, dispenso. O meu problema é a preguiça, entenda-se, e não qualquer princípio filosófico elaborado. (Exceto se considerarmos a preguiça o mais importante princípio filosófico. Eu considero. Mas divago.)

Só que existe um problema: de vez em quando, gosto de dirigir. Acontece à noite, depois de um dia extenuante de trabalho, e o prazer é semelhante ao do cigarro-clichê depois da intimidade.

Vou deambulando pelas ruas da cidade, sem música, como um personagem de ficção científica em visita ao planeta Terra. Nas noites de verão, quando existe uma brisa de misericórdia, a experiência é literalmente narcótica –a janela aberta, o sentimento de controlo sobre a máquina. A sensação tangível de liberdade rumo a nenhum destino. Quando regresso a casa, sinto que renasci.

Por isso pergunto ao meu amigo: "E que fazer às pessoas que gostam de dirigir?" Ele fica em silêncio, como se eu tivesse falado uma barbaridade genocida, e balbucia o óbvio: "Não podem".

"Mea culpa": a pergunta não foi inocente. Ela sempre foi o espinho fatal para qualquer proposta utópica. Regularmente, formulo a mesma questão quando discuto política: alguém defende um modelo coletivista e eu, falsamente ingênuo, interrogo: "E que lugar nesse paraíso para quem discorda da doutrina oficial?".

O interlocutor, com paciência de santo, responde pedagogicamente: educação, persuasão, otimismo sobre a natureza humana. Certo, certíssimo. "E se mesmo assim o indivíduo recusa a doutrina oficial?".

A conversa termina porque eu estou a "desconversar". Pois estou: todos sabemos qual seria o tratamento para esse "inimigo do povo". Cadeia ou coisa pior.

Longe de mim comparar as experiências totalitárias do passado com as evoluções tecnológicas do futuro. Até porque o futuro, já ensinava Karl Popper nas suas críticas ao historicismo, só existe na cabeça dos cartomantes, como Marx e seus discípulos.

Mas, se os carros autoguiados são para levar a sério, isso representa mais uma limitação à liberdade humana, como o grande escritor J.G. Ballard, citado no artigo da "New York", acertadamente avisa.

Em nome da "vida" e do "ambiente" –como a legislação antifumo, certo?– a ciência, hoje convertida em religião oficial do Ocidente, irá determinar como devemos viver –e até morrer.

Aliás, se a ideia é evitar a morte a todo custo, é fácil imaginar um mundo onde os nossos filhos e netos serão robôs programados para beber, comer, caminhar, viajar, estudar e até trepar de acordo com um manual rigorosamente científico.

Será um mundo seguro, sem dúvida: como uma jaula de jardim zoológico. Mas será também um mundo pós-humano, onde tudo aquilo que nos define (autonomia, consciência, surpresa, falibilidade, paixão, contingência, responsabilidade etc.) será assunto de arqueologia.

Há quem aplauda esse mundo. Pessoalmente, ele é tão perturbante que o melhor é eu pegar o carro e dirigir enquanto posso pela noite quente da cidade.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 1 / 11 / 2016

O Globo
"Nova regra reduziria partidos de 35 para 9"

Proposta para acabar com farra de legendas está em discussão no Senado

Se aprovada, mudança tira repasse de recursos públicos e tempo de TV caso meta não seja atingida

Levantamento do GLOBO mostra que, se a eleição municipal fosse usada para a aplicação da regra que impede a proliferação de partidos, só nove das 35 legendas existentes hoje estariam aptas a receber recursos públicos e a ter tempo de TV, revelam BERNARDO MELLO E GABRIEL CARIELLO. Para superar a cláusula de barreira, em discussão no Senado, os partidos precisariam atingir 2% dos votos válidos em todo o país, sendo distribuídos por ao menos 14 estados. A regra atingiria siglas que conquistaram prefeituras de seis capitais, entre elas o PRB de Crivella, no Rio. Sem os benefícios da lei, essas campanhas seriam inviáveis.    

O Estado de S.Paulo
"TCU investiga calote de Estados em banco público"

Estão na mira garantias dadas pelo Tesouro a empréstimos para unidades em crise, como Rio de Janeiro e Roraima

O Tribunal de Contas da União (TCU) vai investigar garantias dadas pelo Tesouro a empréstimos contratados por Estados em péssimas condições financeiras, que apresentavam maior risco de dar calote. De 2012 a 2015, contrariando recomendação da Corte, a União garantiu R$ 73 bilhões em operações de crédito a governos estaduais com as piores notas (C e D), enquanto Estados com menor risco de inadimplência tiveram aval para obter R$ 44,9 bilhões. A exceção foi na gestão Joaquim Levy, em que Estados com elevado risco de inadimplência nada receberam. A manipulação de garantias é uma das vertentes da maquiagem nas contas dos Estados, que foram irrigados com recursos de BNDES, Caixa e Banco do Brasil. O calote já chega a R$ 1 bilhão neste ano. Rio de Janeiro e Roraima não quitaram parcelas e o governo já admite que outros podem seguir o mesmo caminho.              

Folha de S. Paulo
"Metade dos prefeitos se reelege em meio à crise"

Mesmo à frente da máquina pública, mandatários centralizaram insatisfação

Cinco em dez prefeitos do país que tentaram a recondução ao cargo obtiveram sucesso na eleição deste ano. Segundo compilação inédita do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), tabulada pela Folha, 2.945 prefeitos se candidataram à reeleição e 1.385 conseguiram— taxa de 47%. Nas capitais, 15 dos 20 mandatários se reelegeram (75%). A máquina pública, a princípio útil no primeiro pleitos em doações empresariais, teve efeito relativo. O presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, diz que a insatisfação com o prefeito é fruto do impacto da recessão nos serviços básicos. A maioria das prefeituras do país têm a maior parte de suas receitas em fontes externas, como repasses dos governos federal e estadual. A decepção com os eleitos ocorrerá em até dois anos porque não há perspectiva de retomada, diz Ziulkoski. Para especialistas, a insatisfação do eleitorado com a política também pesou sobre as candidaturas de prefeitos. O índice de votos brancos e nulos bateu recorde, e candidatos com discurso antipolítico tiveram êxito em grandes cidades, como Belo Horizonte e São Paulo. 

 
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