sábado, outubro 22, 2016

Física


Opinião

Pensar Trump na Casa Branca é como entregar uma filha a um marginal

João Pereira Coutinho
Só as pessoas frívolas não julgam os outros pelas aparências. A frase é de Oscar Wilde e, como normalmente acontece, acerta na mosca. A mosca em questão é Donald Trump.

Quando escrevi nesta Folha o primeiro texto crítico sobre Trump, vários leitores não me perdoaram. Eu, um "conservador", desejava a vitória de Hillary Clinton?

Entendo o raciocínio das massas: se Trump é um "conservador" (ou, para não sujar a palavra, alguém que está à "direita"), então o dilema está resolvido. Os vícios do homem transformam-se em virtudes; e as virtudes são elevadas a um patamar insano, ao mesmo tempo que a adversária desce às profundezas da indignidade moral.

Essa atitude só revela uma mentalidade fanática e um certo grau de subdesenvolvimento intelectual. Não vale a pena lembrar que nem os Republicanos se comportam assim com Trump –e muitos deles, cedo ou tarde, se distanciaram do candidato.

Prefiro dizer que nenhuma pessoa adulta se comporta assim, sobretudo quando Trump, ao contrário do que pensam alguns "conservadores", nem sequer é um.

Mas antes de irmos à filosofia, relembremos a frase de Wilde: julgar os outros pelas aparências é o primeiro passo para um julgamento de carácter. Oscar Wilde não falava de coisas vulgares, como roupas ou penteados (embora, no caso de Trump, talvez se pudesse abrir uma exceção).

O objectivo do irlandês era outro: as maneiras antecedem a moral, como diz um personagem das suas peças. Mostra-me como te comportas e eu dir-te-ei quem és.

Desde o início que Trump representa o boçalidade mais extrema. As suas colocações sobre imigrantes, jornalistas, veteranos de guerra, deficientes, mulheres, adversários políticos - no fundo, qualquer ser bípede que não seja ele - denunciam uma espécie de "Homem de neandertal" que foi removido da pré-história e colocado em pleno século 21.

Não sou um puritano: gosto de rudeza no trato e abomino o pensamento politicamente correto com a fúria de um renegado. Mas até na rudeza e no pensamento politicamente incorreto tem que haver elegância e inteligência.

O caso tornou-se gritantemente óbvio nos três debates a que assisti por obrigação profissional. O dedo levantado; a gritaria e o insulto como argumentos políticos; a cara de náusea perante qualquer discórdia - tudo isso foi ganhando contornos paródicos e tristes.

Se Trump fosse um ator e se a sua candidatura fosse uma piada, eu até aplaudiria. O problema é que eu sou, acima de tudo, um vergonhoso pró-americano. Admiro a liberdade e a vitalidade dos Estados Unidos. Imaginar Trump na Casa Branca seria o mesmo que entregar uma filha a um marginal.

E aqui vamos à filosofia. Existem debates longos sobre o "conservadorismo americano". Todos eles confluem para a mesma pergunta: como é possível falar de "conservadores" nos Estados Unidos quando o país nasceu num contexto revolucionário?

A resposta possível é lembrar que os americanos têm algo de muito valioso para conservar: a sua Constituição. Esse, aliás, é o tema recorrente de vários autores - Rufus Choate, Peter Viereck, Russell Kirk etc. - que muitos leitores "conservadores" brasileiros leram mas não entenderam.

Nos três debates, o que menos me impressionou foi a total impreparação de Trump (alguém esperava outra coisa?). Pior, muito pior, foi ver um candidato à Presidência que, desprezando a Constituição, ameaçava a adversária com a cadeia; e que, confrontado com a possibilidade de perder, não apenas lançava dúvidas sobre a transparência do processo eleitoral como deixou uma sombra de ameaça se os resultados não lhe forem favoráveis.

Uma coisa dessas é normal na Venezuela ou no Zimbabwe. Não nos Estados Unidos. Ser "conservador" significa proteger valores ou tradições estabelecidos, por mais que isso perturbe a nossa paranoia narcísica. Entre esses valores ou tradições está o respeito pela democracia.

De resto, olhar para Trump como um "conservador" quando ele é esquivo em relação a Vladimir Putin (a maior ameaça ao Ocidente desde o fim da Guerra Fria) é um argumento anedótico. Ronald Reagan deve estar a dançar o twist na sepultura.

E Hillary? Conheço o bicho há muitos anos e não nego a natureza mendaz da senhora. Mas a política não é uma escolha maniqueísta; em certos casos, é uma opção pelo mal menor. Clinton é esse mal menor.

Os inimigos dos nossos inimigos, nossos amigos são? Prometo aceitar esse raciocínio infantil no dia em que muitos "conservadores" brasileiros colocarem Churchill e Stálin no mesmo retrato de família. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 22 / 10 / 2016

O Globo
"Petrobras baixa preço, mas... Gasolina fica mais cara"

Após corte de 3,2% nas refinarias, valor do litro sobe 4,64% nas bombas

Aumento no Rio foi maior do que na média do Brasil. Postos elevaram margem de lucro depois da decisão da estatal. Combustível sofre impacto também da entressafra da cana-de-açúcar, que pressiona etanol

Na semana seguinte à redução de 3,2% no preço da gasolina nas refinarias pela Petrobras, o litro do combustível ficou 4,64% mais caro nos postos de gasolina da cidade do Rio, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Na média do país, também houve aumento, embora menor, de 0,4%. Os preços sofreram influência do etanol, que representa 27% da composição da gasolina. Com a entressafra da cana-de-açúcar, o álcool subiu 9,9% desde o último dia 16. Além disso, segundo analistas, os postos aproveitaram a redução de preços da Petrobras para elevar suas margens de lucro.  

O Estado de S.Paulo
"Operação aumenta tensão entre Congresso e Lava Jato"

Prisão de quatro policiais legislativos também provocou troca de farpas entre ministro e presidente do Senado

A Polícia Federal prendeu quatro policiais legislativos do Senado, suspeitos de atrapalhar investigações da Lava Jato e de outras operações. Os agentes são acusados de fazer varreduras contra eventuais escutas colocadas pela PF em imóveis de políticos. Em reação, o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que “a Polícia Legislativa exerce atividades dentro do que preceitua a Constituição, as normas legais e o regulamento do Senado”. No fim do dia, ele e o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, trocaram farpas e três agentes foram liberados. Investigações mostraram que a Polícia Legislativa inspecionou casas de Fernando Collor (PTC-AL) e Gleisi Hoffmann (PT-PR), dias após mandados de busca e apreensão. Também houve “pente-fino” em endereços do ex-senador José Sarney (PMDB-AP), de Edison Lobão Filho (PMDB-MA) e até de terceiros.          

Folha de S. Paulo
"PF prende chefe da polícia do Senado e mais três agentes"

Um dos alvos é próximo a Renan Calheiros; investigação suspeita de esquema para obstruir Operação Lava Jato

A Polida Federal prendeu o diretor da polícia do Senado, Pedro Ricardo Carvalho,e mais três policiais legislativos sob suspeita de tentarem interferir nas investigações da Operação Lava Jato.

Segundo a PF, o grupo fez varreduras, contrariando as normas internas, para detecção de interceptação de conversas em endereços de Brasília, Curitiba e São Luís. 0 regulamento administrativo da Casa, entretanto, permite a atuação dos policiais fora do Congresso, “quando determinado pelo presidente do Senado”.

As operações teriam ocorrido em imóveis ligados aos senadores Fernando Collor (PTC-AL) e Gleisi Hoffmann (PT-PR) e aos ex-senadores José Sarney (PMDB-AP) e Lobão Filho (PMDB-MA). Carvalho é homem de confiança do chefe do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).


Renan disse que os policiais legislativos atuam dentro da lei e defendeu a “independência dos poderes”. Senadores decidiram fazer ofensiva contra o Judiciário, que avalizou a ação. 
 

sexta-feira, outubro 21, 2016

1931 Stinson Tri-Motor


Coluna do Celsinho

R1

Celso de Almeida Jr.

Conversei com os diretores do Canal R1, um veículo de comunicação multimídia que - a partir de Rondônia - expande-se rapidamente para toda a região norte do país.

Muito dinâmicos, inteligentes, posicionaram o canal entre fortes concorrentes, em menos de 100 dias de atividades.

Creio que o espírito empreendedor, o rígido controle financeiro e uma ampla rede de relacionamentos constituam o alicerce que gerou o sucesso do empreendimento em tempo recorde.

Admirei os mecanismos de cooperação que firmaram com instituições de comunicação que atuam no país e no exterior.

Exemplar, também, é a preocupação em cumprir um código de conduta, com a permanente apuração de veracidade das informações e das fontes.

Perguntei sobre compromissos.

A resposta foi imediata:

"Qualidade, ética, imparcialidade e independência editorial."

Com tamanha determinação, planejamento e competência explica-se a razão de conseguirem viabilizar parcerias comerciais para sustentar o empreendimento.

Empresários da região já perceberam que investir no canal é prática que estimula bons negócios.

E assim se dá o ciclo virtuoso.

Qualidade atrai investimento gerando mais qualidade.

Em tempos de crise, um bom exemplo do norte.

Fruto do talento e determinação de nossa gente.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Bangus e Carandirus

Gabeira
Não pensava mais em escrever sobre prisões. Elas escrevem por si próprias. Mas é importante combater o esquecimento. As prisões são um outro lado do mundo, muros cinzentos, uma guarita, o sentinela. Não posso reclamar da minha passagem. A Ilha Grande, com toda a sua carga de sofrimento, era um lugar bonito, com água de qualidade e um silêncio entrecortado pelos ruídos do mato. Na volta ao Brasil, resolvi seguir o conselho do escritor norte-americano Henry Thoreau. Segundo ele, todo cidadão deveria visitar as prisões do lugar onde vive, pois é um forte indicador do nosso nível de avanço social.

Visitei o máximo que pude, de Pedrinhas, no Maranhão, aos presídios do Sul, passando por Bangus e Carandirus no Sudeste. Observo, pelas sessões do STF, que o ministro Gilmar Mendes também as conheceu bem: organizou mutirões e visitou as prisões brasileiras quando presidente do Conselho Nacional de Justiça. Quando o ouço falar no tema diante de ministros que talvez não conheçam bem o estado das prisões, sinto-me representado. É mais uma pessoa lembrando a gravidade, para mim, de uma bomba-relógio que estamos empurrando para as novas gerações.

As cadeias falaram, então é preciso falar delas, neste momento de crise política e econômica. O primeiro episódio foi a morte do suspeito de ligações com os terroristas do Isis, um homem de 36 anos, Valdir Pereira da Rocha, numa cadeia de Várzea Grande (MT).

Quando os suspeitos foram presos na Operação Hashtag, antes da Olimpíada, critiquei o ministro da Justiça e o governo Temer por não cuidarem da questão do terrorismo com a seriedade e o profissionalismo que ela demanda. O ministro da Justiça isentou o governo de culpa, afirmando que o preso pediu para ser transferido para lá, para ficar perto da família, o que é razoável como política para condenados, mas não para um suspeito de terrorismo.

Nem todos os presos podem escolher em que presídio devem ficar. Se isso fosse levado ao pé da letra, haveria uma debandada em Curitiba. Não é, no entanto, o argumento principal que baseia a minha crítica ao governo Temer e sua incompreensão de certos fatos globais.

A política de manter fanáticos religiosos na prisão comum foi usada na França e com o tempo se constatou que muitos novos terroristas foram convertidos na própria cadeia onde cumpriam pena. É uma questão de segurança da sociedade. Mas também é uma questão de segurança do próprio suspeito de terrorismo. Embora não tenha lido ainda o inquérito sobre a morte de Valdir, terroristas que matam a esmo, até crianças, não têm grande popularidade entre os presos.

Mas os conflitos no presídio de Roraima, com dez mortos, e no de Franco da Rocha (SP), com fuga em massa, embora não tenham ligação entre si, mostram que o problema de segurança, que se supunha resolvido com a prisão de criminosos, explode e se expande do interior das próprias prisões.

Em outros artigos já mencionei o que me parece o erro fundamental: pensar que o problema está resolvido com a prisão dos condenados. Não há um trabalho de inteligência articulado, não há capacidade de prevenção, algo que os ingleses fazem com rigor.

Todos se esqueceram das prisões. PT, então, foi um fracasso retumbante. Simplesmente ignorou a gravidade da crise penitenciária Prometeu alguns novos presídios e pronto. Hoje o partido, com tantos dirigentes presos, já está em dívida com o sistema, que faz mais por eles do que recebeu do PT ao longo dos anos. É verdade que alguns deputados petistas se interessaram e organizaram caravanas pelos presídios e manicômios judiciários. Viajei com Marcos Rolim visitando manicômios e com Domingos Dutra, alguns presídios, incluído o de Pedrinhas. Ambos foram deputados do PT e saltaram do barco.

Surgiram relatórios basicamente centrados nos direitos humanos. Hoje, porém, acho que é uma visão incompleta. A questão da segurança pública a partir das tramas urdidas nas prisões coloca um desafio especial que passa por presídios decentes. Eles bem que poderiam ser anexados às multas dos empreiteiros. Hoje eles têm tudo para construir bons presídios.

No entanto, ela não se esgota nas condições de prisão. Em tempo de smartphones as relações dentro e fora do presídio passam a ser mais uma variável no enigma que parecia esgotado com a perda da liberdade. As pessoas poderiam dizer que é um raciocínio oco, pois existem os bloqueadores: pronto, solucionado o problema. Mas quem acredita mesmo nos bloqueadores do Brasil, se volta e meia explode um motim precisamente porque os carcereiros apreenderam os celulares nas celas? Ninguém iria amotinar-se apenas pelos games.

O governo Temer herdou uma situação calamitosa, que ele não percebeu depois de tantos anos ao lado do PT. Não tem condições de abrir novas frentes, sobrecarregado pela agenda econômica. A única saída é uma espécie de intercâmbio das pessoas que conheceram as prisões brasileiras, seja por visitas de ofício ou experiências familiares, e todas conversem sobre como desmontar essa bomba.

Ideias dispendiosas são inviáveis no momento. Será preciso pôr a cabeça para funcionar. É preciso demonstrar que a inércia custa mais caro. Já vi motins causando prejuízo de R$ 2 milhões, por uma economia de R$ 5 mil numa comida intragável.

Quanto mais esquecermos os presídios, mais falarão por si próprios. E eles não falam nada quando nos lembramos deles, inclusive de monitorá-los. Ou, então, falam como os presidiários de Linhares, em Juiz de Fora, que aprenderam a bordar a exportam seus trabalhos para a Europa e o Japão, por intermédio de uma jovem empresária.

As prisões do Brasil e da Venezuela têm algo em comum: tornaram-se um inferno maior durante os anos de populismo de esquerda. Quando Thoreau falava em visitar as cadeias para conhecer o nível da sociedade, tratava de um tema mais amplo. Conhecer as cadeias do Brasil revela muito sobre o governo que dirigiu o País por 13 anos.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 21 / 10 / 2016

O Globo
"Estados na penúria"

Um relatório do Tesouro Nacional mostra que a situação dos estados é bem pior do que os governos declaram. Os gastos com pessoal estão acima do limite fixado em lei em sete estados e no Distrito Federal. Pelos dados declarados pelos governos estaduais, apenas dois estariam nessa situação. Muitos estados maquiam os cálculos e não incluem despesas com terceirizados e com impostos sobre salários. Há discrepância também nos números sobre o rombo da Previdência. Para analistas, o quadro mostra como é importante aprovar as reformas econômicas.  

O Estado de S.Paulo
"Moro defende prisões e vê ameaça à magistratura"

O juiz federal Sérgio Moro defendeu ontem “aplicação vigorosa da lei” para superação da “corrupção sistêmica”. No dia seguinte à prisão do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o magistrado afirmou que as detenções provisórias da Operação Lava Jato são necessárias e “processos não podem ser um faz de conta”. Segundo ele, as críticas às prisões cautelares não encontram eco na análise de casos concretos. “Jamais e em qualquer momento se defendeu qualquer solução extravagante da lei na decretação dessas prisões”, disse a desembargadores e juízes. Moro também atacou projeto do Senado que muda a lei de abuso de autoridade e disse que ele pode ser “um atentado à independência da magistratura”. “Esse projeto representaria uma tentativa de retrocesso no contexto atual.” Para o juiz, “às vezes a Justiça é um labirinto” e “pode ser manipulada para não chegar a bom termo”.          

Folha de S. Paulo
"Aposentadoria faz disparar gastos de cidades e Estados"

Servidor inativo representa, em média, 24% da despesa estadual com pessoal

Gastos com aposentadorias e pensões puxaram as despesas de Estados e municípios em 2015, mostra levantamento do Tesouro Nacional. Em relação a 2014, o aumento real (descontada a inflação) estadual foi de 28,41% e o municipal, de 12,1%.

No ano passado, segundo o estudo, os servidores inativos representaram 24%, em média, da despesa com pessoal dos Estados e do Distrito Federal. Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina lideraram a alta de gastos no período comparado.

Entre medidas necessárias apontadas pelo Tesouro estão controle de reajustes e gastos com comissionados, redução de terceirizados e mudanças nos benefícios dos servidores. 0 governo federal pode incluir o último tópico na reforma da Previdência.

Hoje, 14 das 27 unidades da federação têm nota A ou B em 2016 em relação à capacidade de pagamento. A avaliação serve para aprovação pelo Tesouro de empréstimos com juros mais baixos, que são vetados aos nota C, como São Paulo. 
 

quinta-feira, outubro 20, 2016

Física


Opinião

Moralistas e 'engraçados' autorizam assassinos de transexuais e prostitutas

Contardo Calligaris
Assisti a "O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu", em São Paulo, no Sesc Pinheiros –em cartaz, de quinta a sábado, até 5 de novembro. Depois disso, a peça viaja para Europa. Espero que, na volta, tenha outra temporada mais longa.

É um monólogo, dirigido por Natalia Mallo e escrito por Jo Clifford, inglesa que mudou de sexo em 2006, aos 56 anos. Clifford mostra (a ela mesma e ao mundo) que o Cristo não é inimigo dela nem da vida que lhe coube. Ela tem razão.

A atriz é Renata Carvalho, travesti de 35 anos; ela consegue nos fazer rir e chorar como a peça manda.

Se você for cristão, não perca. E, se você for padre ou pastor, organize uma excursão de sua comunidade –será espiritualmente mais útil do que assistir a "Os Dez Mandamentos". Ou então contrate a peça para a homilia do terceiro domingo de Quaresma –é uma excelente ilustração do mistério da redenção.

Lucas (15, 1-2): "Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. Os fariseus e os escribas murmuravam: Este recebe pecadores e come com eles". Jesus responde explicando a alegria da redenção por três parábolas, a da ovelha perdida, a da dracma perdida (na peça, é o brinco perdido) e a do filho pródigo (na peça, é a filha expulsa de casa).

O leitor dos Evangelhos sabe que fariseus e escribas têm razão: Jesus tem simpatia por adúlteras, prostitutas e demais pecadores e pecadoras. Enquanto isso, ele tem antipatia por moralistas e hipócritas.

"Moralistas e hipócritas" é um pleonasmo. Se os moralistas não fossem hipócritas, não precisariam ser moralistas: por que me preocupar com o que faz meu vizinho, se não porque ele desperta em mim um desejo ou uma tentação que tento esconder de mi mesmo e do mundo?

Em 2003, meu filho, num intercâmbio, passou um ano letivo na PUC de Curitiba. Uma noite, ele foi convidado por alguns colegas para um programa que, foi-lhe dito, ele "adoraria": passar de carro por ruas semidesertas e jogar laranjas nas prostitutas travestis que esperavam clientes.

Meu filho ficou abismado. Pedras para machucar, ovos para sujar, bananas como gozação do pênis, daria para explicar. Mas por que laranjas? A psicanálise ajuda: laranja não é só um fruto, é também o testa de ferro, que colocamos no nosso lugar quando estamos a fim de fazer algo escuso. Os estudantes de Curitiba jogavam laranjas porque os travestis na rua eram os laranjas da tentação de eles mesmos, os estudantes, vestir peruca e sainha e vender-se pelas ruas. Laranjas nos laranjas.

O Brasil tem o recorde de 100 travestis e transexuais assassinados na rua a cada ano. Quem autoriza os apedrejadores ou "alaranjadores"? São os moralistas e os "engraçados".

Os moralistas (fariseus e escribas) querem que o "pecado" seja punido. De fato, dessa forma, eles acabam incitando um fiel ou outro a apedrejar "a puta" ou "o veado" que representam tentações "culpadas": mato "o traveco" para me liberar do traveco em mim.

E o "engraçado"? Pois é, o moralista denuncia os desejos, o "engraçado" pretende escondê-los, o que é pior. Os "engraçados" são os piadistas de padaria; eles permitem que seu público negue seus próprios desejos, que são transformados em objetos de riso e, graças ao riso, confinados nos outros. Nada a ver comigo; prova disso, estou rindo: olhe como é engraçado ver os travestis fugindo das laranjas, com saltos altos e trejeitos.

O moralista culpa, o "engraçado" desagrava. O moralista ainda pode achar discutível a ideia de jogar pedras. O "engraçado" sequer é sensível ao argumento do próprio Cristo (quem estiver sem pecado jogue a primeira pedra) porque ele não se reconhece como pecador.

Na semana passada, Rita Cadillac foi convidada a um programa "engraçado" para deixar a marca de sua bunda na "calçada da sarjeta". Para alguém achar isso engraçado, é preciso que ele esteja negando uma poderosa fantasia de ser atriz num filme pornô ou musa de um cárcere masculino. Para maior clareza: essas fantasias são ótimas, a negação "engraçada" dessas fantasias é sinistra e assassina.

Renata Carvalho, no fim da peça, lembrou que domingo retrasado, no parque do Carmo, em São Paulo, morreu Yasmin Montoy, travesti e prostituta de 20 anos. Só falaram disso alguns sites e o "R7". Os moralistas devem achar certo. E os "engraçados" devem achar engraçadíssimo. 

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 20 / 10 / 2016

O Globo
"Cunha é preso, mas não sai de cena"

Chamado por Moro de criminoso em série, ex-presidente da Câmara atemoriza o Planalto e o PMDB

Tudo sobre a prisão, as acusações e o que aguarda o deputado cassado que é alvo da Lava-Jato

Cassado há pouco mais de um mês, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi preso ontem por prazo indeterminado pelo juiz Sérgio Moro. A prisão de Cunha, até pouco tempo um dos políticos mais influentes do país e peça-chave no impeachment de Dilma, foi recebida com temor no Planalto. O receio é que o ex-deputado, guardião de segredos do Congresso e do submundo da política, envolva integrantes da cúpula do governo e do PMDB numa possível delação. A PF amanheceu na casa de Cunha no Rio, mas ele foi encontrado em Brasília, no início da tarde, e levado para Curitiba. Moro considerou que o ex-deputado não perdeu influência e poderia tentar obstruir as investigações e fugir do país, ressaltando que Cunha tem US$ 13 milhões ainda ocultos no exterior. O peemedebista é acusado de ter recebido propina no escândalo de corrupção da Petrobras e de movimentar contas na Suíça não declaradas.  

O Estado de S.Paulo
"Lava Jato prende Cunha e amedronta mundo político"

Preocupação é com possibilidade de delação; Moro também decretou indisponibilidade de R$ 220 milhões do ex-presidente da Câmara

Cassado há 37 dias, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi preso por ordem do juiz Sérgio Moro. O magistrado da Lava Jato autorizou a prisão sob argumento de que ela evita “obstrução da Justiça”, dificulta “ocultação e dissimulação do produto do crime” e previne fuga. A decisão – chamada de “absurda” na página do político no Facebook – foi tomada em ação na qual Cunha é acusado de receber mais de US$ 1,5 milhão de propina por contrato da Petrobrás na África. O peemedebista também teve R$ 220 milhões bloqueados. Por causa da ameaça velada de delação, sua prisão foi recebida com apreensão no Planalto, onde estão antigos aliados do PMDB, no Congresso, onde tinha ampla rede de apoio, e no PT – que comemorou, mas avaliou que decisão enfraquece discurso de que Moro só prende petista.          

Folha de S. Paulo
"Lava Jato prende Eduardo Cunha; governo e Congresso temem delação"

Peemedebista é criminoso serial e ameaçava investigação, diz juiz Moro; prejuízo ao erário pode chegar a R$ 221 mi

O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cosentino da Cunha (PMDB-RJ), 58, foi preso pela Lava Jato em Brasília nesta quarta (19), 37 dias após ter o mandato cassado. Ele havia perdido o foro privilegiado. A prisão preventiva (sem prazo definido) foi decretada pelo juiz Sergio Moro a pedido da Procuradoria. Na ação, ele responde às acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. “A dimensão e o caráter serial dos crimes estendendo-se por vários anos” representam riscos à ordem pública, disse o magistrado. Ele foi transferido para Curitiba. Segundo a apuração, Cunha recebeu R$ 5 milhões de propina em contas na Suíça, oriundos de desvios de contratos da Petrobras na África. A Justiça já havia decretado o bloqueio de bens até o valor de R$ 220,7 milhões, estimativa dos prejuízos ao erário. A prisão espalhou apreensão no governo Michel Temer (PMDB) e no Congresso. Aliados temem que uma eventual delação atinja o presidente e seus homens de confiança, como o secretário Moreira Franco. Para a Lava Jato, Cunha seguia com influência no Planalto. 
 

quarta-feira, outubro 19, 2016

Pitacos do Zé


Contribuições de Rubem Alves

Zé Ronaldo Santos
Há pouco tempo este pensador presbiteriano, mineiro e professor na Unicamp nos deixou. As suas obras, desde as primeiras a inaugurarem a Teologia da Libertação que tanto trabalho deu aos ditadores e suas crias, o imortalizaram. “Eu acho é pouco”! Hoje, em véspera de aprovarem medidas que detonam ainda mais o meio ambiente, a nossa “galinha dos ovos de ouro”, vale a pena recordá-lo, sabendo que ele está se referindo à mudanças ao mundo medieval, onde a burguesia assume o comando do mundo:

Perde a natureza a sua aura sagrada. Nem os céus proclamam a glória de Deus, como acreditava Kepler, nem a terra anuncia seu amor. Céu e terra não são poema de um Ser Supremo invisível. E é por isso que não existe nenhum interdito, nenhuma proibição, nenhum tabu a cercá-los. A natureza é nada mais que uma fonte de matérias-primas, entidade bruta, destituída de valor. O respeito pelo rio e pela fonte, que poderia impedir que eles viessem a ser poluídos, o respeito pela floresta, que poderia impedir que ela viesse a ser cortada, o respeito pelo ar e pelo mar, que exigiria que fossem preservados, não têm lugar no universo simbólico pela burguesia. Seu utilitarismo só conhece o lucro com padrão para a avaliação das coisas. Até mesmo as pessoas perdem seu valor religioso. No mundo medieval, por mais desvalorizada que fossem, seu valor era algo absoluto, pois lhes era conferido pelo próprio Deus. Agora alguém vale quanto ganha, enquanto ganha.

Física


Opinião

Desde John Lennon convivemos com a praga das 'celebridades humanitárias'

João Pereira Coutinho
1. Serão precisas mais mulheres na política? A pergunta, confesso, sempre me provocou urticária mental. E as respostas também: sim, diziam os eruditos, e depois não acrescentavam uma única razão válida para defender a "política no feminino" (ou, em casos extremos, "cotas para mulheres" em listas eleitorais ou cargos institucionais).

Havia sempre a palavra "igualdade", um vocábulo poético e nulo. Mas ninguém demonstrava –seriamente, empiricamente– que tipo de contributo extra as mulheres dão à política pelo simples fato de serem mulheres.

Perante esse vazio, eu defendia a minha posição inicial: igualdade de oportunidades, tudo bem; mas é o mérito, e não a anatomia, que as sociedades democráticas devem premiar.

Confesso que tenho de repensar os meus conceitos –por causa da eleição presidencial americana. Segundo informa esta Folha, a revista "The Atlantic" realizou uma enquete sobre Hillary Clinton e Donald Trump. Conclusão: se apenas os homens votassem, Trump seria eleito presidente dos Estados Unidos.

Acontece que as mulheres também votam e são elas que concedem uma maior vantagem para Hillary. Essa vantagem, de acordo com as últimas pesquisas, garante a vitória da donzela por dois dígitos.

Claro que, para sermos rigorosos, o voto feminino estaria sempre com Hillary. Primeiro, porque ela é democrata. Depois, porque é mulher. E, no caso particular de 2016, porque Trump ficou "persona non grata" entre as senhoras depois do "Pussygate".

Seja como for: se Hillary for eleita em novembro, é às mulheres americanas que o mundo deve agradecer.

2. Há mulheres e mulheres. De um lado, elas salvam os Estados Unidos de um destino grotesco; do outro, elas envergonham a restante classe quando andam pela Europa em "missões humanitárias".

Para começar, Pamela Anderson, "atriz", visitou Julian Assange na sua gaiola londrina e mostrou preocupação com a saúde do australiano.

"Muito pálido", disse ela, uma descrição que não me convence: Assange, repito, é australiano; Pamela, relembro, está habituada à pigmentação da série "Baywatch". Não admira que, aos olhos dela, Assange tenha as feições de um cadáver.

De resto, a pergunta fundamental é outra: o que levou Pamela Anderson a visitar Assange na embaixada do Equador? Saber que a "atriz" também é ativista dos direitos dos animais só serve de insulto ao pobre Assange.

Do outro lado do Canal da Mancha, o nome é Lily Allen, "cantora". No campo de refugiados de Calais, na França, a sra. Lily pediu desculpas públicas a um adolescente afegão de 13 anos. "Em nome do meu país", disse ela, com as câmeras a filmar o momento.

A frase é inane por motivos óbvios: a culpa pela tragédia dos refugiados deve ser depositada em Damasco e aos pés do terrorismo islamita, não em Londres. Mas a pergunta fundamental, uma vez mais, é outra: o que levou Lily Allen a visitar um campo de refugiados?

Bem sei que, desde John Lennon, a praga das "celebridades humanitárias" nunca mais nos largou. Falo de pessoas semialfabetizadas que, não contentes com o sucesso artístico, desejam consolar o ego com assuntos mais adultos.

Mas o meu problema com as "celebridades humanitárias" não está na megalomania delas, aliás legítima. Está na atenção igualmente infantil que os jornalistas profissionais concedem aos caprichos dessas crianças.

Será que, naquele dia, em Calais, nenhum jornalista questionou seriamente o que estava ali a fazer?

3. Bob Dylan venceu o Nobel da Literatura e a polêmica instalou-se entre os críticos: mereceu? Não mereceu?

Eu, modestamente, acho que sim –mas a questão que me move é outra: e será que isso interessa? Não, não vou recorrer ao argumento clichê de lembrar a longa lista de autores que não venceram a medalha. Todos conhecemos os casos de Tolstói, Joyce, Nabokov, Borges etc. etc.

Prefiro olhar para o problema do avesso e recordar os que venceram: Carducci, Spittler, Sholokhov, Mo Yan etc. etc. Aqui entre nós: o leitor conhece algum deles? Leu a obra? É capaz de citar de cor algum título memorável?

Em caso negativo, o melhor é escutar um pouco de Bob Dylan. A ideia de que o Nobel confere qualidade e imortalidade a um autor é uma fantasia desmentida pelos fatos. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 19 / 10 / 2016

O Globo
"Reforma só aliviará estados se incluir juízes e deputados"

Déficit com inativos cresceu até 80%

Governadores querem que novas regras de aposentadoria se apliquem a Judiciário, Legislativo e Ministério Público. Executivo muitas vezes assume aposentados de outros órgãos
Os governadores querem que a reforma da Previdência inclua não só o Executivo dos estados, mas também Judiciário, Legislativo, Ministério Público, Tribunal de Contas e Defensoria Pública. A proposta conta com o apoio da equipe econômica do governo Temer. Levantamento do economista Raul Velloso e do consultor Leonardo Rolim mostra que, sem isso, o Orçamento dos estados continuará engessado. No Rio, esses outros órgãos respondem por 16% dos gastos com inativos e pensionistas. O déficit com o pagamento de aposentados do TJ do Rio cresceu 80% desde 2012.  

O Estado de S.Paulo
"Proposta de delação de dono da Delta atinge PMDB e PSDB"

Aloysio Nunes, Sérgio Cabral e Marconi Perillo foram citados por Fernando Cavendish em tentativa de acordo

O dono da Delta Engenharia, Fernando Cavendish, negocia acordo de delação em que pretende detalhar supostos pagamentos de propina a políticos de PMDB e PSDB relacionados a obras em São Paulo, Rio e Goiás, além de estatais federais como o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes e a Petrobrás. A negociação se dá no âmbito da Operação Saqueador, da qual o empresário foi alvo em junho, informam Fabio Serapião e Beatriz Bulla. Na proposta feita ao Ministério Público Federal do Rio e à Procuradoria- Geral da República, Cavendish cita, ao tratar de São Paulo, pagamentos supostamente feitos ao senador tucano Aloysio Nunes Ferreira. A Delta integrou consórcio responsável por um dos lotes da nova Marginal do Tietê. No anexo sobre o Estado do Rio, o empresário detalha relação com o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e fala em desvios para conquistar obras como a do Maracanã. Outro anexo relata contratos com o governo do tucano Marconi Perillo.          

Folha de S. Paulo
"Recuperação deve ser mais lenta, dizem economistas"

Quedas nas vendas do comércio e na produção industrial pioram projeções

O fim da recessão da economia, antes previsto para a segunda metade deste ano, pode ser adiado. Dados recentes da atividade econômica, mais fracos do que o esperado, têm levado economistas a rever projeções. Com a queda verificada na produção industrial e nas vendas do comércio em agosto, diversos analistas preveem que a economia pode repetir, no terceiro trimestre deste ano, o tombo observado nos três meses anteriores. O Bradesco reviu para baixo, pela segunda vez, sua previsão do PIB (soma de serviços e bens produzidos).
Os economistas do banco esperam queda de 0,8% no terceiro trimestre. Para os três meses seguintes, as projeções se deslocaram para o terreno negativo (-0,2%). Segundo o Goldman Sachs, a crise fiscal dos Estados se soma ao contexto negativo para o consumo e pode afetar a melhora da confiança. Mas fatores como o recuo mais recente da inflação e o provável corte de juros, previsto para esta quarta (19), deverão impulsionar a economia em 2017. 
 

terça-feira, outubro 18, 2016

Física



Opinião

Você acha que 7 bilhões de pessoas querendo ser felizes pode dar certo?

Luiz Felipe Pondé
Na vida existem várias perguntas que não querem calar: "Dinheiro compra amor verdadeiro?", "vale a pena ser honesto?","o povo, de fato, sabe o que fala?". Enfim, muitas. Uma pergunta dessas é aquele tipo de pergunta que você reza para seu filho não lhe fazer. O normal é que você minta, mesmo: "Não, dinheiro não compra amor verdadeiro", "sim, vale a pena ser honesto", "sim, o povo sabe, de fato, o que fala".

Não, não quero parecer cínico, pelo menos não hoje. Dessas três perguntas, apenas a última me parece ter uma resposta mais evidente, se sincera: "Não, não acho que o povo saiba, de fato, o que fala". As outras são muitos mais sérias e complexas. Todavia, as respostas dadas acima, quando ditas assim, são mentiras. Às vezes, dinheiro parece comprar amor verdadeiro, e ser honesto nem sempre vale a pena. É normal mentir às vezes. O drama contemporâneo, parece-me, é que a mentira tomou conta do próprio pensamento dito qualificado. Todo mundo quer agradar, logo, só se fala o que parece legal para a sensibilidade infantil do "povo".

Mas não quero falar dessas perguntas; quero falar de outra, tão infernal quanto essas. A pergunta que não quer calar de hoje é: "Será que dá para todo mundo ser feliz e ter o que quer?". Sim, sei que é uma pergunta difícil de engolir. Inteligentinhos logo ficarão indignados com a simples questão posta assim. Mas inteligentinhos são infantis, quando não são eles mesmos os grandes mentirosos.

Repito, caso você não tenha entendido: será que cabem 7 bilhões de pessoas no pacote da riqueza? Dá para todo mundo ter tudo que quer? Ou, desgraçadamente, muitos ficarão sempre de fora? Será que todo mundo pode ter saúde, comida, lazer, casa, ar-condicionado, dinheiro, roupa, escola, direitos, aposentadoria, garantia de emprego?

Sim. Talvez algumas dessas coisas, sim. Mas será que dá para todo mundo ter tudo que seremos capazes de produzir no futuro? Digo isso porque, à medida que produzimos mais riqueza, o teto da demanda aumenta. Não é por acaso que há anos podemos falar de gente que considera injustiça social todo mundo não ter iPhone ou bolsa Prada.

Não se pode pensar numa questão como essa sem um certo sofrimento. Mas, é justamente a dimensão sombria da vida que é recusada pela sensibilidade fortemente retardada da contemporaneidade. Nunca houve tanta gente incapaz de pensar a ambivalência, contingência e insuficiência da vida como hoje em dia.

Mas façamos um reparo. Sim, reconhecer que não vai dar para todo mundo ter o que quer pode sim ser usado por gente que quer tudo para sua turminha. Este fato é que dificulta a percepção de que nunca vai dar para todo mundo ter o que quer. Você acha que sete bilhões de pessoas querendo ser felizes pode dar certo? Claro que não. Uma hora a conta estoura. Este é o verdadeiro problema da sustentabilidade: a insustentabilidade do desejo de 7 bilhões de pessoas querendo ser felizes.

Mas podemos pensar em opções para tornar mais viável "incluir" todo mundo. Primeiro, a tentativa de diminuir o número de "excluídos". Essa opção não é boa o suficiente porque sempre deixará um número grande de gente fora da festa. Sim, festa, porque o capitalismo é uma festa de riqueza que o mundo nunca viu antes, apesar de todo o "mimimi" generalizado sobre desigualdade social.

O "ideal" mesmo é se alguma instituição, sei lá, a ONU (essa estatal global) ou similar passasse a "distribuir" (termo amado pelos inteligentinhos) a riqueza. Como faríamos? Criaríamos uma burocracia infernal que controlaria a riqueza do mundo? Taxaríamos as grande fortunas (só ricos idiotas ficariam para ver isso acontecer). Quem decidiria quem recebe o que e quem perderia o que para que os "outros" recebessem o que?

Ou que tal reduzir por meio da força o número de pessoas no mundo? Esterilização compulsória de homens e mulheres? Quem decidiria quem seria esterilizado? Ou, mais fácil ainda, que tal determinar que o justo é todo mundo ser pobre?

Mas muita gente ainda vai ganhar muito dinheiro e poder dizendo que tem a solução para todo mundo ter tudo o que quer. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 18 / 10 / 2016

O Globo
"Perícia em 2% dos benefícios recupera R$ 139 milhões"

Dos 10 mil que já passaram por revisão, 85% serão cancelados

Pente-fino encontrou pessoas saudáveis que estavam trabalhando e recebiam do INSS

Com apenas 2% do total de auxílios doença que passarão pelo pente-fino do INSS já revistos, o governo obteve uma economia de R$ 139,3 milhões por ano. Até agora, foram analisados 10.894 benefícios, de um total de 530 mil que terão de passar por perícia.

Houve casos de fraudes explícitas, como o de um trabalhador que ganhava o auxílio-doença graças a uma decisão judicial desde 2006, mas mantinha dois empregos registrados na carteira de trabalho e, na perícia, não teve qualquer problema de saúde constatado. Ao todo, 77,55% benefícios já foram suspensos e outros 6,9% estão com o cancelamento agendado.  

O Estado de S.Paulo
"Empresa de ministro é acusada de vender vacas superfaturadas"

Ex-funcionária de empreiteira liga negócio com família de Picciani a caixa 2

Uma ex-funcionária da Carioca Engenharia, empreiteira investigada na Operação Lava Jato, disse ter comprado “vacas superfaturadas” da Agrobilara Comércio e Participações Ltda. A empresa é controlada por membros da família Picciani, incluindo o ministro do Esporte, Leonardo Picciani, e o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Jorge Picciani, ambos do PMDB. O objetivo seria movimentar dinheiro para o caixa 2 da construtora.

Tania Maria Silva Fontenelle deixou a empresa em 2015 e prestou depoimento em acordo de leniência firmado pela empreiteira com o Ministério Público Federal. Ela disse que “recebia solicitações de acionistas e diretores para providenciar dinheiro em espécie e assim procedia”. No caso da compra das vacas, afirmou que os animais foram efetivamente entregues, mas parte do valor pago foi devolvida em espécie à Carioca Engenharia.          

Folha de S. Paulo
"Juíza inocenta 14 acusados de acidente no metrô de SP"

Para Justiça, desabamento que matou 7 pessoas era imprevisível; Promotoria recorre

A Justiça inocentou os 14 acusados de responsabilidade em acidente nas obras do metrô de São Paulo que deixou sete mortos em 2007. O desabamento na estação Pinheiros abriu uma cratera que engoliu caminhões, maquinários e quem passava por uma rua no entorno. Após a tragédia na zona oeste paulistana, funcionários da estatal e do grupo construtor se tomaram réus.

A obra na linha-4 amarela era de responsabilidade do consórcio formado por Odebrecht (líder da obra), OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez.

Para a juíza Aparecida Angélica Correia, da Ia Vara Criminal de SP, não ficou provado que os técnicos do consórcio e do Metrô tinham condições de evitar o ocorrido.

Medidas de segurança foram adotadas, diz a sentença. “Os acusados não tinham como prever o acidente.” A Promotoria recorreu da sentença. Disse que o entorno da obra não foi isolado quando o desabamento começou. Seis das sete vítimas passavam pela via.

Para o filho de uma delas, a decisão “abre caminho para que uma tragédia dessas volte a acontecer”. 
 
 
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