sábado, outubro 08, 2016

Física


Opinião

É difícil votar porque ninguém nunca realmente representa ninguém

Contardo Calligaris
A cada eleição, decidir em quem votar me parece mais difícil. Para escolher alguém que me represente, eu estou ficando estranhamente exigente.

Nas primeiras vezes em que votei (na Itália, no fim dos anos 1960), parece-me que a decisão era relativamente simples. Os candidatos não eram perfeitos; nenhum deles era meu "sonho de consumo" político. Com poucas exceções, aliás, eles eram tão ruins ou medianos quanto a maioria dos de hoje. Conclusão: os candidatos não mudaram, quem mudou fui eu.

No passado, escolhia um candidato porque ele pertencia a um movimento pelo qual eu me sentia, de alguma forma, levado. Nesse contexto, não votar em Fulano por algo que ele disse ou por ele ter feito uma aliança sinistra era apenas uma demonstração de que nosso engajamento era morno.

Quem hesitasse em votar em um candidato por causa dessas "picuinhas" só poderia ser um individualista enrustido: uma antipatia ou um dissenso "pontual" não valia nada diante da causa coletiva e maior que seria servida pela eleição do candidato. Pois bem, isso mudou. Ou melhor, como já disse, a gente mudou.

Mariza/Mariza/Editoria de Arte/Folhapress
Ilustração da coluna Contardo de 06 de outubro de 2016
Hoje, o sacrifício das "picuinhas" me parece injusto e quase impossível. Cada coisa "mínima" me dá vontade de votar alhures ou de não votar. Quando converso sobre escolhas eleitorais, minha fala é parasitada por um exército de adversativas; qualquer hipótese esbarra num "mas".

Em novembro, para as eleições presidenciais americanas, votarei em Nova York. Se minha residência eleitoral fosse num Estado disputado, como a Flórida, seria uma outra história. Mas o Estado de Nova York é solidamente democrata, e meu voto não faz diferença. Curiosamente, a sensação de que meu voto não conta é reconfortante, porque nem Hillary nem Trump me representam.

No fim, votarei democrata, mas, idealmente, deveria me reconhecer no Partido Libertário, que tem um candidato, Gary Johnson. Só que Gary Johnson me parece falar qualquer coisa e seu contrário: ele tampouco me representa.

Obama foi uma espécie de ventania, uma onda. As pequenas diferenças se tornavam irrelevantes na sensação de a gente se juntar, para usar uma expressão antiga, ao movimento da história (que não existe, claro). Hoje essa sensação sumiu, e eu me tornei estranhamente exigente.

Não é só o meu caso. Escuto os amigos paulistanos ao redor de mim:

Haddad foi um bom prefeito, MAS não quero votar no PT, para "eles" aprenderem que a gente não é trouxa e não gosta de alianças esdrúxulas (Temer, Maluf, Chalita, quem mais?).

Erundina é ótima, MAS ouvi ela atacando Doria só por ele ter dinheiro. Desde quando ter feito dinheiro trabalhando é uma culpa?

Marta fez os CEUs e o Bilhete Único, sem contar a TV Mulher, MAS... o que foi que ela disse? Que ela nunca foi de esquerda?

E a relação do Doria com Alckmin? E a história de que ele vai aumentar a velocidade máxima na marginal? E aquele cashmere no pescoço, vintage anos 1960?

Na verdade, se não formos carregados por uma onda coletiva, nenhum candidato vai ter o que precisa para nos representar nunca.

Aqui seria o momento em que muitos lamentariam o "fim dos grandes ideais" e a volta "iníqua" aos particularismos ou, pior ainda, aos nossos gostos singulares. Os mesmos também chorariam sobre o fim da política etc.

Penso diferente. A democracia representativa funcionou até aqui à condição de aderirmos a um grupo e de votarmos segundo a sugestão ou o mandato do grupo, aparando as arestas de nossas exigências singulares. Ou seja, à condição de que a gente sacrificasse nossas "picuinhas" sobre o altar do bem coletivo, considerado supremo.

Hoje, acho difícil votar em alguém que me represente –porque, simplesmente, parece-me que ninguém nunca realmente representa ninguém.

Eu enxergo essa mudança como um sucesso civilizatório: diminuiu nossa disposição a adotar as ideias e as condutas de um grupo, diminuiu nossa capacidade de renunciar, pelo bem do grupo, às exigências do que há de singular em nós e em nossas esperanças políticas.

Talvez, a médio prazo, isso seja incompatível com a democracia eleitoral representativa. Mas não por isso deveríamos ser nostálgicos de nosso passado partidário. Ao contrário. Seria a ocasião de inventar novas formas de democracia –uma democracia para cidadãos ciosos de sua singularidade, desconfiados de grupos e coletivos. Vamos ver.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 8 / 10 / 2016

O Globo
"Estado terá programa de demissão voluntária"

Corte de gastos prevê também redução do número de secretarias

Governo busca fonte de receita para pagar indenizações a servidor que aderir ao plano

Mergulhado numa crise financeira sem precedentes, o governo do Estado do Rio decidiu, entre outras medidas, lançar um plano de demissão voluntária para os servidores e reduzir as 20 secretarias para dez a 12, informa CARINA BACELAR. O governo federal também pode assumir empréstimos externos feitos pelo Rio que não estão sendo pagos. Mas uma intervenção é descartada pelo estado e pela União. (Pág. 10 e editorial “Tratamento de choque para a crise fiscal fluminense”.

O Estado de S.Paulo
"No QG da delação premiada"

EXCLUSIVO. HOTEL DE BRASÍLIA VIRA ‘BUNKER’ DA ODEBRECHT; MAIOR EMPREITEIRA DA AMÉRICA LATINA TENTA FECHAR COM PROCURADORES ACORDO QUE PODE SER O MAIS EXPLOSIVO DA OPERAÇÃO LAVA JATO

Em reuniões que entram madrugada adentro, regadas a água, café e vinho, o empresário Emílio Odebrecht, patriarca do grupo Odebrecht, dá ordens e debate com os advogados que negociam aquela que pode ser a mais explosiva delação premiada da Operação Lava Jato, informam Beatriz Bulla e Fábio Serapião. Ele, a filha Mônica, o marido dela, Maurício Ferro, responsável pela área jurídica do grupo, e Newton de Souza, atual presidente, ditam os rumos da tentativa de acordo com a Procuradoria-Geral da República para que Marcelo, filho de Emílio, e cerca de 50 executivos confessem crimes em troca de punição menor. A cena se repetiu várias vezes na semana passada na cobertura do Windsor Plaza Brasília, um dos mais caros da cidade. Ali, a Odebrecht alugou, além de salas de reunião, quartos para cerca de 20 pessoas, refeitório e lounge para secretárias. A maior empreiteira da América Latina tenta fechar um dos maiores acordos judiciais do mundo. Marcelo, que presidia o grupo até ser preso, há um ano e quatro meses, e os executivos estão dispostos a contar bastidores da distribuição de milhões de reais a políticos em troca de redução da pena. A empresa também tenta virar a página da história que a arrastou ao maior escândalo de corrupção do País.        

Folha de S. Paulo
"Maia lança ultimato por mudança na repatriação"

Chefe da Câmara diz que, sem acordo político, projeto vai ser abandonado

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse à Folha que, se não houver entendimento até terça (11) entre União, Estados e cidades sobre alterações na Lei da Repatriação, o projeto será abandonado na Casa. A principal divergência é a pressão de governadores e prefeitos por fatia maior da receita prevista com a regularização de valores mantidos ilegalmente no exterior. Estados e municípios esperam receber R$ 5,3 bilhões, caso a arrecadação chegue a R$ 25 bilhões, pelo rateio do Imposto de Renda. Estuda-se o repasse a eles também de parte do obtido com pagamento de multas.

O projeto suaviza regras do programa de repatriação, definindo parâmetros menores para a tributação e a multa para os contribuintes. Hoje, a cobrança incide sobre todos os valores e bens a serem regularizados. Pelo novo texto, o cálculo se restringe ao saldo fora do país em uma data específica, 31 de dezembro de 2014. O projeto ainda deixa clara a anistia aos crimes tributários que foram cometidos. Para Maia, os governadores têm de fechar questão com o governo federal “para não ser texto de batalha”.
 

sexta-feira, outubro 07, 2016

Taylorcraft Auster


Coluna do Celsinho

Novo prefeito

Celso de Almeida Jr.

Enfim, prefeito eleito.

Gostei das primeiras declarações do Sato.

Manteve o ritmo da pré-campanha e campanha, evitando promessas, mostrando que fará um governo pé no chão.

Isso é bom sinal.

Pelo recado que as ruas mandaram - por todo o Brasil - não é mais aceitável criar expectativas no eleitorado durante a campanha para esquecê-las durante a gestão.

E Sato - político e gestor público experiente - sabe que o desafio é gigante, os problemas são muitos e a saída é profissionalizar a administração da prefeitura.

Não é jogo fácil, sabemos.

Mas Sato vem de uma longa jornada no exercício da política e, certamente, já aprendeu o caminho que melhor resultado garante para o município.

Agora é trilhá-lho com firmeza, equilíbrio e sabedoria.

Para tanto, é justo que conte com o apoio de todos, inclusive dos demais candidatos a prefeito que concorreram com ele.

Nesta hora, o que vale é o desprendimento e a torcida para que tudo dê certo.

Para o bem de Ubatuba.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Votando e aprendendo a votar

Gabeira
Não tenho o hábito de comemorar derrota de adversários, porque me lembro de que também já tive as minhas, aritmeticamente, humilhantes. No entanto, o resultado das eleições é uma espécie de confirmação eleitoral do fim de uma época.

Na verdade, o marco inaugural foi o impeachment, que muitos insistem em dizer que foi produto de uma articulação conservadora e dos meios de comunicação. Os defensores dessa tese têm uma nova dificuldade. Se tudo foi mesmo manobra de uma elite reacionária, se estavam sendo punidos pelo bem que fizeram, por que o povo não saiu em sua defesa nas urnas?

Sei que a resposta imediata é esta: a Operação Lava Jato, o bombardeio da imprensa, tudo isso produz uma falsa consciência. Esse argumento é uma armadilha. Nas cartilhas, exaltamos a sabedoria popular. Vitoriosos nas urnas, é para ela que apontamos, a sabedoria popular. De repente, foram todos hipnotizados pela propaganda?

Considero que estas eleições mostraram também uma grande distância entre campanhas e eleitores. No entanto, o declínio geral do sistema político não pode servir de refúgio para esconder a própria derrota.

Em certos momentos da História é difícil delimitar a fronteira entre um movimento político e uma seita religiosa. Mesmo antes do período eleitoral, tive uma intuição do que isso representa. Estava pedalando pela Lagoa, no Rio de Janeiro, e uma jovem com fone no ouvido gritou: “Golpista!”. Saía da natação, era uma bela manhã de setembro, sorri para ela.

Na verdade, estava a caminho de casa para ler o relatório da Polícia Federal sobre as atividades de Antônio Palocci que envolvem os governos do PT. Imaginava o que iria encontrar. Ao chegar em casa pensei nela, na moça com dois fios saindo do ouvido. Se pudesse ler isso que li e tudo o que tenho lido, talvez compreendesse o que é ser dirigido por uma quadrilha de políticos e empreiteiros.

Num raciocínio de rua, pensei ao cruzar com operários da Odebrecht que trabalham nas obras do metrô na Lagoa: esses são gentis, dizem bom-dia.

Bobagem de manhã de setembro, mas uma intuição: enquanto se encarar a queda de um governo que assaltou e arruinou o Brasil como um golpe de Estado, será muito difícil deixar os limites da seita religiosa e voltar à dimensão da vida política.

Há derrotas e derrotas. A mais desagradável é quando não existe uma única voz sensata, dizendo a frase consoladora: o pior já passou.

Quem lê o que se escreve em Curitiba, não só os contos de Dalton Trevisan, mas os relatórios da Lava Jato, percebe que muita água vai rolar.

As eleições não mostraram apenas uma derrota do PT, mas revelaram a agonia do sistema político. Certamente, as de 2018 serão ainda mais decisivas para precipitar a mudança.

Esse é um dos debates que já correm por fora. Às vezes, tocando em aspectos do problema, como o foro privilegiado, o número de partidos; às vezes, discutindo uma opção mais ampla, como a mudança do próprio regime.

Certamente, um novo eixo mais importante de debate se vai travar entre as forças que apoiaram o impeachment. Não são homogêneas, têm diferentes concepções.

A derrocada do populismo de esquerda não significa que não possa surgir algo desse tipo no outro lado do espectro político. Os eleitos de agora têm uma grande responsabilidade não somente com a aspereza do momento econômico, mas também com sua própria trajetória.

Se o sistema político está em agonia, isso não significa que será renovado a partir do zero. A História não começa nunca do zero. Um novo sistema político carregará ainda muitos feridos das batalhas anteriores. E talvez alguns mortos, por curto espaço de tempo.

Creio que o alto nível de abstenção e votos nulos possa fortalecer esse debate. Embora a abstenção elevada seja um fenômeno internacional.

No mesmo dias das eleições municipais no Brasil, a Colômbia votou o referendo sobre o acordo de paz. Abstenção: 62%. Na Hungria, votou-se o projeto europeu de cotas para receber imigrantes. O número de eleitores foi inferior a 50%, invalidando a votação.

Cada lugar tem também suas causas específicas para que tanta gente não se importe com algo que nos parece.

As eleições confirmaram que a qualidade dos políticos representa muito no aumento do descrédito. Mesmo em países com voto facultativo e, relativamente, altos níveis de abstenção, isso parece confirmar-se. Uma campanha como a de Obama atraiu mais gente para as urnas nos EUA.

Depois das eleições começa a etapa em que a superação da crise econômica entra para valer na agenda. Sempre haverá quem se coloque contra todas as reformas e projete nelas todas as maldades do mundo.

Mas entre os que consideram as mudanças necessárias é preciso haver a preocupação de que os mais vulneráveis não sejam atingidos. O instrumento para atenuar o caminho é um nível de informação mais alto sobre cada movimento.

Tenho a impressão de que o Ministério da Educação compreendeu isso na reforma do ensino médio. Outros fatores contribuem para que a discussão seja adequada ao momento. Várias vozes na sociedade já se manifestam a respeito da reforma.

E, além disso, é um tema bastante debatido. Lembro-me de que em 2008 Simon Schwartzman me alertou para o absurdo do ensino médio brasileiro. Defendi a reforma e não me recordo de ninguém que defendesse o ensino médio tal como existe hoje. Por que conter o avanço?

É o tipo do momento em que é preciso esquecer diferenças partidárias. Os índices negativos estão aí para comprovar.

O Congresso pode discutir amplamente o tema, apesar da forma, por medida provisória. Mesmo as críticas sobre a retirada da obrigatoriedade da educação física devem ser consideradas – embora eu ache a educação física facultativa mais eficaz que a obrigatória. E mais agradável para o corpo.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 7 / 10 / 2016

O Globo
"Limite para gasto público avança na Câmara"

Meirelles diz que governo Temer teve de assumir ‘prejuízo de R$ 170 bi’

Proposta que proíbe alta de despesas acima da inflação por 20 anos é aprovada em comissão especial por 23 votos a favor e 7 contra em meio a protestos da oposição; governo teve de ceder

Apresentada pelo governo como uma das principais medidas do ajuste fiscal, a proposta que fixa um teto para gastos públicos foi aprovada em comissão da Câmara por 23 votos a 7. A votação em plenário deve ocorrer na próxima segunda. O texto prevê que, por 20 anos, as despesas não poderão subir acima da inflação. Para facilitar a aprovação, o relator retirou a ampliação da vigência da regra que flexibiliza a destinação de 30% das receitas da União. O ministro Henrique Meirelles foi à TV defender o teto e disse que o governo Dilma deixou “prejuízo de R$ 170 bilhões”.

O Estado de S.Paulo
"Rio pede R$ 14 bi à União e negocia intervenção branca"

Sem dinheiro para pagar contas, Estado quer novo socorro do governo federal; equipe econômica resiste

Em grave crise, o governo do Rio quer que a União libere cerca de R$ 14 bilhões de socorro. Embora a equipe econômica esteja resistente, o Estado tenta convencer o presidente Michel Temer a fazer uma “intervenção branca”, nos moldes da feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em Alagoas, em 1997. A intervenção é vista como inevitável por autoridades. Mas pode atrapalhar a PEC do Teto. Pela Constituição, não se pode aprovar emenda durante intervenção. Ontem, o Rio suspendeu novas compras e contratações de serviços por 30 dias. O problema se agravou depois que sua dívida ultrapassou em cerca de R$ 1 bilhão o limite permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, o que impede novos empréstimos. O Estado estaria disposto a aceitar indicação de um nome pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para gerir suas contas emergencialmente.        

Folha de S. Paulo
"Subsídio pode subir R$ 1 bi em SP com tarifa congelada"

Medida anunciada pelo prefeito eleito, João Doria, bancaria 30 km de corredores

O congelamento da tarifa nos ônibus municipais em 2017, anunciado pelo prefeito eleito, João Doria (PSDB), pode elevar em R$ 1 bilhão os subsídios pagos pelo poder público às empresas do setor. O valor seria suficiente para construir 30 quilômetros de corredores exclusivos de coletivos na capital paulista. Hoje, a passagem custa R$ 3,80. A prefeitura cobre gastos com despesas não previstas em contrato,como as gratuidades para idosos, desempregados e estudantes. Neste ano, os repasses podem somar R$ 2,2 bilhões. Sem subsídio, cujo valor é atualizado pela inflação do setor, a passagem precisaria custar cerca de R$ 5. Se o valor da tarifa fosse corrigido no começo de 2017 pela prefeitura, passaria para cerca de R$ 4,15. A gestão Fernando Haddad (PT) buscava negociações com o governo Geraldo Alckmin (PSDB) para um reajuste simultâneo das tarifas de ônibus, trens e metrô— os dois últimos serviços são de responsabilidade estadual. Em 8 de janeiro de 2016,as passagens subiram de R$ 3,50 para R$ 3,80.
 

quinta-feira, outubro 06, 2016

Física


Opinião

Uma espécie em extinção

Gabeira
Antes mesmo de conhecer Ulysses Guimarães já sabia de sua importância no processo de democratização, sua presença inspiradora no front pacífico de luta contra a ditadura.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo e até de participar de reuniões com ele e Tancredo. Foi quando, junto com Paulo Sérgio Pinheiro, fomos falar de política de direitos humanos para o governo que seria montado.

Ulysses e Tancredo de vez em quando cochilavam. Estavam cansados de tantas reuniões. Ulysses vinha de uma intensa luta contra o governo militar, enfrentando cães policiais nas ruas de Salvador.

Em seguida, veio a campanha das Diretas, a Constituinte, seu papel no período foi decisivo.

Um homem que exerceu 11 mandatos sem fazer campanhas, contando apenas com sua atuação em Brasília, era uma espécie em extinção. Não só pelo longo período em que os eleitores confiaram nele, mas também pela escolha de passar quase meio século naqueles corredores. Gostava de política, acima de tudo. De política e de poire, uma aguardente de pera, feita para delicados paladares.

Quando Ulysses Guimarães cumprimentou um corneteiro numa cerimônia oficial foi um deus acuda. As pessoas pensaram, equivocadamente, que a lucidez desaparecia.

Mesmo se assim fosse, a forma de caducar de Ulysses Guimarães era das mais inofensivas e simpáticas. Quantos não ficam ranzinzas e ressentidos?

Infelizmente, coube-me cobrir as buscas pelo helicóptero em que Ulysses viajava quando desapareceu no mar. Trabalhava para a Rádio Gaúcha e estava presente no momento em que acharam o corpo de Severo Gomes, de quem gostava muito.

Refleti um pouco sobre aquela tragédia e concluí que Ulysses tenha morrido mais por um ímpeto de juventude. Desafiar o mau tempo naquele dia era um ato de coragem.

E pensei no quanto poderiam ter influenciado as questões políticas, os assuntos urgentes que pesavam nas nas suas costas.

Líder estudantil, advogado, escritor, político, Ulysses talvez tenha sido o último grande nome de uma tradição parlamentar brasileira onde figuram personalidades, como a de Joaquim Nabuco.

A verdade é que alguma coisa também começava a decair com intensidade: o próprio sistema político brasileiro. No palanque das diretas, ao lado de Ulysses e outros da velha guarda, dois novos nomes emergiam: Collor e Lula. Eles disputaram as eleições de 89 que Ulysses perdeu.

Hoje, Lula e Collor vivem um inferno astral. O que significa também, ressalvadas as responsabilidades individuais, que alguma coisa está errada no sistema que construímos a partir das Diretas.

Uma boa homenagem a Ulysses seria retomar o caminho perdido. Havia muitas esperanças no processo político a partir das Diretas. E alguma fraternidade numa trajetória que azedou nos últimos anos.

Leio na revista “Piauí”, em reportagem de Julia Dualibi, que Ulysses ajudou ao pai de João Doria Junior a fugir do país, perseguido que era da ditadura militar.

Apesar de ter trilhado caminhos diferentes na luta contra a ditadura militar, compreendi muito rapidamente o papel dos que ficaram e generosamente lideraram a travessia.

Ao responder a um repórter que atribuía a luta contra a ditadura aos grupos armados, disse que estava equivocado. Os grupos armados podem ter sido mais espetaculares e mais glorificados com a construção da imagem de Dilma.

Quem derrubou a ditadura foi a sociedade, respondi, foi o seu pai, sua mãe. Se o encontrasse acrescentaria: todos eles muito bem representados por gente como Ulysses Guimarães.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 6 / 10 / 2016

O Globo
"Condenados em 2ª instância terão de ir para a cadeia"

STF decide que réus não poderão mais ficar soltos até fim dos recursos

Ministros derrotados argumentaram que a regra pode levar a prisões injustas, mas em votação apertada (6 a 5) prevaleceu a tese de que o abuso de apelações estimula o aumento da criminalidade

Por 6 votos a 5, o STF decidiu que réus deverão ser presos depois de condenados por um tribunal de 2ª instância, sem direito de recorrer em liberdade até que sejam esgotados os recursos. Os ministros contrários argumentaram que a regra pode levar a prisões injustas, mas prevaleceu a tese de que o excesso de apelações gera impunidade. “Um sistema desacreditado colabora para o aumento da criminalidade”, disse Luís Roberto Barroso. Juiz da Lava-Jato, Sérgio Moro comemorou.

O Estado de S.Paulo
"STF mantém prisão em 2ª instância e fortalece Lava Jato"

Decisão dos ministros, por 6 a 5, terá de ser seguida por todos os tribunais

Por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal decidiu manter a possibilidade de execução de pena – como a prisão – após condenação pela Justiça de segundo grau e, portanto, antes do esgotamento dos recursos. A decisão, que fortalece a Operação Lava Jato, deverá ter efeito vinculante para os juízes de todo o País. Em fevereiro, a maioria dos integrantes do Supremo já havia se posicionado dessa forma, alterando jurisprudência adotada desde 2009. O caso gerou reação no meio jurídico, o que fez com que duas ações, propostas pela OAB e pelo Partido Ecológico Nacional (PEN), questionassem o tema na Corte. O julgamento de ontem foi acompanhado por diversos advogados criminalistas – grande parte deles atua para empresários ou políticos na Lava Jato. A Defensoria Pública argumentou que a determinação fere o princípio da presunção de inocência. O Ministério Público defendeu a decisão do STF.        

Folha de S. Paulo
"STF reforça a determinação para prisão após 2a. instância"

Em votação apertada, por 6 a 5, os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram reforçar nesta quarta (5) a determinação de que réus condenados em segunda instância podem ser presos. A sentença manteve entendimento de fevereiro para caso específico. Como agora se refere a ações diretas de inconstitucionalidade, todos os tribunais devem segui-la. Caberá recurso se um juiz não a cumprir. Há oito meses, por 7 votos a 4, o STF decidiu que era possível a prisão antes da condenação definitiva. Mas, como a decisão não obrigava instâncias inferiores a adotar a prática, ministros derrotados na ocasião continuaram a dar veredictos contrários à sentença. 

O STF analisou ações que defendiam que a presunção de inocência não permite a detenção enquanto houver direito do réu a recurso. Votaram pela prisão após a segunda instância Cármen Lúcia, Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Teori Zavascki. Marco Aurélio Mello, Celso de Mello, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli — o único a mudar o voto — foram contrários. Agora, o Ministério Público deve reivindicar a prisão de quem foi condenado por um colegiado e continua solto. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse que a decisão pode afetar a Lava Jato e as delações premiadas, incitando os acusados a negociar.
 

quarta-feira, outubro 05, 2016

Física


Opinião

Freixo levou o Rio para a vida real

Elio Gaspari
Na noite de domingo (2), quando já se definira o naufrágio da candidatura de Pedro Paulo à Prefeitura do Rio, ele estava reunido com os conselheiros do PMDB. O chefe de uma das grandes famílias do grupo sustentou que se deveria patrocinar um suave deslizamento de seus votos na direção de Marcelo Freixo. Eleito, ele seria um prefeito tão ruinoso que ajudaria o PMDB a continuar no governo do Estado em 2018 e garantiria seu retorno à prefeitura em 2020.

A reunião aconteceu na Gávea Pequena. Nada a ver com a propriedade da família Corleone nas cercanias de Nova York.

A mobilização do apocalipse contra Marcelo Freixo durante a campanha eleitoral é uma fava contada, mas a proposta da Gávea Pequena era muito mais que isso: o conselheiro não ameaçava com o fim do mundo, desejava-o, para dele tirar proveito.

Todo resultado eleitoral contém diversos recados e, no do Rio, esteve o repúdio ao modo de mando do PMDB. Não seria apenas um modo de fazer política, mas um modo de mandar, um coronelismo cosmopolita. A galeria de notáveis do PMDB do Rio junta Pezão, Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, duas gerações de Piccianis e Eduardo Paes. Produziram uma calamidade e foram batidos por um candidato que tinha 11 segundos de tempo na propaganda pública.

O modo de mando do PMDB do Rio criou uma realidade virtual e deu-se mal porque acreditou nela. O eleitorado não comprou a ideia de que o Estado faliu, mas a prefeitura olímpica não teria parte nisso. Não houve aí um erro de estratégia, defeito de marquetagem ou coisa do gênero. O que aconteceu foi o colapso de uma empulhação.

Um dos símbolos da fantasia cosmopolita é o teleférico do Alemão. Custou R$ 253 milhões, foi inaugurado duas vezes e madame Christine Lagarde, diretora do FMI, viajou nele, sentindo-se no Alpes. A engenhoca está parada e a Operação Lava Jato está de olho na licitação vencida pela Odebrecht. (Isso para não se falar nos negócios da campeoníssima empreiteira Delta.) No mundo real o teleférico não fica nos Alpes, o Rio não é Barcelona e, por isso, o PMDB não conseguiu o voto dos cariocas.

O cosmopolitismo tem um pé nos Alpes de madame Lagarde e o outro no coronelismo. Os hierarcas do PMDB apresentam-se como grandes gestores porque condenam os subsídios dos transportes públicos. Eduardo Paes e, até 2013, quando o povo foi para a rua, Sérgio Cabral foram campeões dessa retórica. Durante muito tempo, Marcelo Freixo foi uma voz solitária na condenação da privataria dos transportes públicos da cidade.

A nova campanha será decidida nos debates de Marcelo Crivella com Freixo. É uma eleição municipal e todo mundo ganhará se neles forem expostas ideias para a cidade. Espiritualizar o debate leva a nada. Crivella é evangélico, mas não se deve esquecer que a religião já foi manipulada, sem sucesso, para demonizar um candidato católico. Chamava-se John Kennedy. Puxar temas como o aborto pode parecer útil, mas também não serve para nada. Em 1996, Sérgio Cabral usou essa bandeira para demonizar Luiz Paulo Conde e, nove anos depois, defendeu o aborto com o pior dos argumentos: o controle da natalidade nas comunidades pobres. Hoje Conde dá seu nome nome à orla olímpica e Cabral cultiva obsequioso silêncio.

A ida de Freixo para o segundo turno teve o mérito de colocar a eleição do Rio na vida real.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 5 / 10 / 2016

O Globo
"Governo eleva gasto com Saúde para aprovar teto"

Setor terá mais R$ 9 bi antes de ser atingido por limite a despesas

Executivo poderá compensar gasto maior de Judiciário, Legislativo e MP

Com aval do governo, o relatório final da proposta que limita o crescimento dos gastos públicos eleva de 13,2% para 15% da receita o montante destinado à Saúde em 2017, o que representa mais R$ 9 bilhões. O objetivo é facilitar a aprovação do texto, amanhã, em comissão especial. No caso do Judiciário e do Legislativo, o Executivo poderá cobrir parte do que ultrapassar o teto.  

O Estado de S.Paulo
"Governo quer reduzir salários iniciais do funcionalismo público"

Remunerações de recém-concursados superam as da iniciativa privada

Sob pressão para reduzir gastos com pessoal, o governo federal estuda rever o salário inicial das principais categorias de servidores. A ideia é reduzir as remunerações de ingresso consideradas altas e ampliar a distância em relação ao salário de fim da carreira. Hoje, recém-aprovados em concursos públicos têm salários bem acima dos da iniciativa privada. Um advogado da União ganha, por exemplo, R$ 18,28 mil no início de carreira e chega a R$ 23,76 mil até o final. A diferença relativamente pequena entre o início e o fim do período profissional acaba incentivando a pressão por benefícios extras. Várias categorias têm pleiteado bônus de produtividade, iguais aos da Receita Federal. Integrantes da Advocacia- Geral da União, da Procuradoria- Geral da Fazenda Nacional e de procuradorias de ministérios e do Banco Central já estão recebendo desde agosto honorários por causas ganhas pela União. Também serão autorizados a exercer advocacia privada, desde que não sejam causas contra o governo.        

Folha de S. Paulo
"Mais de 50% dos colégios têm piora na nota no Enem"

Desempenho de 9 em cada 10 escolas públicas ficou abaixo da média do país

O desempenho das escolas no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2015 mostra que mais da metade teve queda na nota em relação ao ano anterior. A redução foi mais acentuada na rede pública: 59%. Na particular, a piora no desempenho ficou em 53%. De acordo com o governo, nove de cada dez colégios públicos (91%) registraram nota abaixo da média nacional. Entre as escolas privadas, o número não chega a duas de cada dez (17%). O resultado corrobora a tese de que a condição socioeconômica do estudante é um dos fatores que pesam no sucesso educacional. Dos 200 colégios com notas maiores no Enem, 180 possuem níveis socioeconômicos alto ou muito alto. Entre as escolas que se destacaram aparecem as particulares pequenas (com até 60 alunos matriculados) e/ou com maioria dos estudantes “importados” (haviam frequentado antes outra instituição de ensino). Os melhores colégios públicos são federais ou técnicos, que selecionam alunos. No total, 8.732 escolas públicas e 6.266 particulares tiveram a nota no Enem divulgada. O exame é usado como vestibular por praticamente todas as universidades federais do Brasil.
 

terça-feira, outubro 04, 2016

Física


Opinião

Frase 'Viagra fez mais pelos humanos que o marxismo' ressoa entre 'haters'

Luiz Felipe Pondé
Há alguns anos, na primeira vez que fui entrevistado no "Roda Viva" da TV Cultura (2011), disse uma frase que até hoje ressoa: "O Viagra fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo".

Legiões de "haters", essa nova atividade nascida com as redes sociais, abominam essa afirmação e a tomam como "alienada". O "hater" é o irmão gêmeo do "loser" –a diferença é que o "loser" não é histérico.

De fato, pode parecer uma comparação absurda, mas ela é, na verdade, bastante séria em termos filosóficos, sociológicos e psicológicos.

Mas, antes, deixemos claro que o contexto era de crítica ao marxismo, óbvio. Mas não ao marxismo como método materialista enquanto tal. Considero o método materialista uma ferramenta, entre outras, bastante eficaz na análise da história e da sociedade.

O que considero delirante é sua dialética metafísica envergonhada em nome do "bem político": a história não está caminhando para lugar nenhum, e a violência entre as "classes" é parte da violência generalizada do mundo, sem foco, sem destino, seu causa "racional", e quem se diz a favor do "bem político" é só gente autoritária e mentirosa.

Os marxistas estão errados em sua análise histórica metafísica. O marxismo se tornou (não era) um cabide de emprego para professores e intelectuais medíocres em geral.

Prefiro métodos mais modestos, como o do filósofo Isaiah Berlin (século 20). O autor inglês dizia que você pode ser um porco-espinho ou uma raposa em matéria de método de estudo ou pensamento.

Porcos-espinhos, como Marx e Freud, pensam que uma ferramenta grandiosa, à qual dedicam suas vidas inteiras, pode iluminar o mundo todo, ou quase todo ele.

Raposas, como o próprio Berlin, são intelectuais "vadios" e "volúveis", como raposas que cheiram tudo e usam tudo que lhe é útil sem "fidelidades conceituais quaisquer" ou respeito pela "totalidade" de conceito algum.

Para uma raposa nunca se está chegando perto de alguma "verdade definitiva", nem em termos de método, nem em termos de objeto.

Considero-me mais uma raposa do que um porco-espinho, por isso considero o materialismo histórico essencial como análise de mundo, mas o "resto" profético marxista (o que de fato é pregado pelos seus apóstolos) em nome do "bem social dos mais fracos", parece-me um delírio metafísico infantil ou perverso.

E o Viagra com isso? Filosoficamente, diríamos que ele faz parte do espectro materialista bioquímico, "apenas". Trata-se de uma molécula, "apenas". Fruto da pesquisa farmacêutica.

Quando afirmo que ele fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo, quero dizer que uma "mísera" molécula faz mais pela humanidade do que um monte de gente "bem-intencionada" masturbando-se intelectualmente a fim de atingir seu próprio gozo moral de "gente legal" com o mundo.

Cientistas trabalhando em troca de salários ajudaram muito mais a humanidade com sua "mísera molécula" do que os revolucionários da igualdade.

Sociologicamente falando, uma medicação é fruto do interesse em lucro da indústria farmacêutica, normalmente vista pelos bonitinhos como malvada e porca capitalista, enquanto o marxismo é um grupo de pessoas pensando para o "bem" da humanidade. E aí vem o susto!

Os porcos capitalistas e seus alienados cientistas fizeram mais pela humanidade do que 200 anos de gente bonitinha junta "rezando".

Psicologicamente falando, o Viagra é a prova de que o materialismo bioquímico pode causar transformações psíquicas e psicossociais, às vezes, mais determinantes do que teorias mirabolantes sobre o que fazer para as pessoas superarem um dia a dia esmagador e sem sentido.

Com isso, não quero negar o valor da psicanálise nem certos efeitos nefastos de alguns psicofármacos, apenas dizer que, às vezes, a simples recuperação de funções fisiológicas essenciais leva a vida "para o lugar certo" rapidamente, sem discursos sofisticados sobre o que vem a ser a vida psicológica sã.

Esse é um caso semelhante ao da pílula anticoncepcional e o feminismo. Sem a pílula, o feminismo seria uma mera seita, como o marxismo se tornou. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 4 / 10 / 2016

O Globo
"Crivella e Freixo duelam por 2,4 milhões de eleitores"

Com voto pulverizado, corredor do Recreio à Zona Norte deve decidir eleição

Disputa para conquistar essa parcela do eleitorado terá estratégias diferentes: enquanto o candidato do PRB busca alianças políticas, representante do PSOL tentará desconstruir imagem do adversário

Adversários no 2º turno, Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) farão um duelo por cerca de 2,4 milhões de eleitores, que vivem no trecho que vai do Recreio à Zona Norte e optaram, no 1º turno, por diferentes candidatos, sem um padrão consistente, revelam FÁBIO VASCONCELLOS e DANIEL LIMA. No restante da cidade, houve domínio claro de um ou outro candidato, sendo Crivella na Zona Oeste e Freixo na Zona Sul e Grande Tijuca. Para atrair esse eleitor, o candidato do PRB aposta em alianças, e o do PSOL, em desconstruir a imagem do adversário.  

O Estado de S.Paulo
"Vitória de Doria antecipa disputa por 2018 no PSDB"

Alckmin e Aécio já falam em prévias para decidir quem será o candidato do partido à Presidência

Triunfo político do governador Geraldo Alckmin, a vitória de João Doria no primeiro turno em São Paulo trouxe à tona a rivalidade dentro do PSDB. O resultado, que fortaleceu Alckmin como possível candidato à Presidência em 2018, precipitou nos bastidores disputa que a princípio só ocorreria em 2017. Em maio, o partido elegerá sua Executiva Nacional. O comando do partido é considerado trunfo para a definição do próximo presidenciável. Além de Alckmin, o ministro José Serra e o senador Aécio Neves postulam a indicação. Anteontem, o governador introduziu o tema da sucessão ao defender prévias partidárias. Aécio foi ontem na mesma linha. “Eu, Geraldo, Serra, todos nós estimulamos esse debate. A prévia pode ser um bom caminho.” Já Serra evitou comentar o assunto. “Eu não tenho interesse (em falar de eleição). Sou ministro do governo e estou preocupado com questões de Argentina e Paraguai”, disse, durante viagem aos países vizinhos.        

Folha de S. Paulo
"Doria afirma que vai congelar tarifa de ônibus em 2017"

Prefeito eleito de São Paulo anunciará sua equipe até 30 de novembro e reitera a privatização de Interlagos e Anhembi

O prefeito eleito em São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que não haverá aumento no preço da tarifa de ônibus, taxas ou impostos municipais em 2017, ano em que começa sua gestão. Ele não decidiu se manterá o congelamento no futuro. Em entrevista a um grupo de jornalistas, um dia após vencer a disputa, o tucano declarou que apresentará a equipe de governo até 30 de novembro. O grupo teria um mês de transição com a gestão Fernando Haddad (PT). Para aliados, seu secretariado deve se assemelhar à composição da equipe da campanha. O grupo mescla quadros partidários, jovens promessas do tucanato e pessoas próximas a ele. Ex-secretário de Gestão do Estado, Julio Semeghini (PSDB) coordenou a campanha de Doria e é visto, hoje, como o único nome certo no futuro governo do tucano. Ele chefiará a transição. Segundo o novo prefeito, não haverá partilha de cargos em troca de apoio. Doria tratou a própria eleição no primeiro turno, feito inédito em São Paulo, como um “fato histórico” e disse que as urnas deram recado de “reçhaço profundo ao PT” e repulsa à velha política. O tucano reafirmou que vai privatizar o Anhembi e Interlagos, para o qual sugeriu a criação de um museu de automobilismo. “Isso não vai implicar em demissões. Essas pessoas [...] serão priorizadas para que sejam contratadas pela iniciativa privada.”
 

segunda-feira, outubro 03, 2016

Física


Opinião

Obras da Bienal pretendem expressar traço essencial de nossa época

Ferreira Gullar
Sem pretender questionar a importância da 32ª Bienal de São Paulo como acontecimento cultural, permito-me tecer aqui algumas considerações que a sua realização me suscita.

Pelo que li a respeito do projeto e de sua realização, a mostra difere radicalmente do que se entende por simples exposição de arte, uma vez que, meses antes de sua inauguração, foi precedida de viagens, pesquisas e discussões sobre os diversos problemas da nossa atualidade caracterizada pelas mudanças rápidas –tanto da vida social quanto das relações predatórias do homem em relação à natureza.

Por esse motivo, a Bienal que foi franqueada ao público no começo de setembro seria a expressão de todas aquelas pesquisas, descobertas e discussões dos problemas da vida atual, tanto no plano da sociedade como no planetário.

Outra originalidade desta exposição está no fato de que as obras nela expostas –não sei se todas– foram realizadas no próprio espaço da mostra, transformando-o por assim dizer num amplo ateliê, o lugar onde os artistas costumam realizar suas obras.

A novidade, porém, não está apenas aí, mas também no fato de que as obras deixarão de existir com o encerramento da Bienal. São, portanto, deliberadamente efêmeras, feitas para não durarem. É como se elas e a Bienal fossem uma obra só, com a diferença de que, dentro de dois anos, a Bienal voltará a existir e as obras, não.

Aproveito para lembrar que, tempos atrás, ao escrever sobre outra Bienal, referi-me a instalações nela expostas que deixariam de existir quando a exposição se encerrasse.

Pois bem, por isso mesmo, talvez, o tema desta Bienal é Incerteza Viva, denominação que pretende expressar, conforme os responsáveis por ela, a característica essencial de nossa época, que seria a imprevisibilidade, ou seja, a impossibilidade de certezas.

Arrisco dizer que essa é uma suposição discutível, uma vez que a total impossibilidade de certezas tornaria a existência do ser humano inviável. É certo, porém, como afirma o curador da mostra, que toda obra de arte envolve incertezas.

Se substituirmos a palavra incerteza pela palavra acaso –que é o outro nome da probabilidade–, veremos que, de fato, na vida como na arte, o acaso é um fator inevitável.

Mas, na vida como na arte, há um outro fator, que se chama necessidade, de modo que, tanto num como noutro, o casual só é a elas incorporado quando se torna necessário. Por exemplo, José conhece, por acaso, Maria, mas, se nenhum dos dois necessita do outro, não rolará nada.

Outro exemplo: quando o poeta vai escrever um poema –vamos dizer, sobre o cheiro da tangerina–, não sabe como começar. Tudo o que tem em mente é a lembrança daquele espanto ao sentir, dias atrás, o cheiro da fruta que seu filho descascava. Como começar o poema? Ele não sabe, já que o poema ainda não existe.

Mas eis que, de repente, surge-lhe um verso inesperado: "Com raras exceções, os minerais não têm cheiro", e o poema começa com a ideia surgida naquele primeiro verso. E, assim, palavra por palavra, ele vai se compondo. Só que, agora, já ganhou um rumo, a partir daquele primeiro verso, surgido casualmente. O controle sobre o inesperado é cada vez maior, isto é, agora só entrará no poema o que for necessário a sua plena realização. Desse modo, o poeta supera o acaso e o poema ganha a forma agora inevitável.

Na pintura ocorre a mesma coisa. O que o pintor tem diante de si é uma tela em branco, em que tudo pode acontecer. Mas, depois que lança as primeira pinceladas, o casual vai se tornando necessidade e chega, afinal, o momento em que só entra ali a pincelada necessária, porque a obra agora determina o que a completará.

E, pronta, surpreende o próprio pintor pelo que ela se tornou. Porque ele, ao contrário dos artistas da 32ª Bienal de de São Paulo, não pretende fazer arte efêmera, e, sim, ao contrário, quer que sua obra subsista, que as pessoas a admirem, apaixonem-se por ela e façam tudo para preservá-la, mesmo depois que ele, autor, já não exista mais.

E, se o que ele fizer, for arte de verdade, conseguirá. 

Original aqui

 
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