sábado, outubro 01, 2016

Física


Opinião

Só o acordo de paz pode libertar a Colômbia da prisão do destino

Demétrio Magnoli
Macondo, a cidade metafórica de Gabriel Gárcia Márquez, terminou destruída por um furacão bíblico. O motivo da catástrofe derradeira é que, incapazes de suportar as incertezas do futuro, seus habitantes condenaram-se a repetir, eterna e circularmente, o passado. Os defensores do "não" no plebiscito colombiano sobre o acordo de paz têm razões poderosas. Contudo, só o "sim" pode romper o ciclo da reiteração, libertando a Colômbia dessa prisão chamada destino.

José Miguel Vivanco, da Human Rights Watch, e o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe brandiram o mesmo argumento contra o acordo de paz, mas por motivos simétricos (Folha, 27/9 ). Vivanco acusa-o de impedir a punição de comandantes militares e paramilitares que cometeram violações em massa de direitos humanos –mas justifica, em nome da paz, a impunidade parcial concedida aos chefes das Farc. Uribe, por sua vez, exige sentenças de prisão contra os guerrilheiras –mas cala-se sobre as culpas das Forças Armadas e das milícias.

A posição de Vivanco é incoerente, ao propor que se pesem as violações em balanças distintas, e irrealista, ao sugerir que, derrotadas no campo de batalha, as Farc sejam declaradas vitoriosas no acordo de paz. Já Uribe exercita o realismo e repercute sentimentos difundidos entre os colombianos, que hesitam em conceder salvo-conduto aos chefes de uma guerrilha degenerada, sanguinária e associada ao negócio do narcotráfico. Entretanto, seu horizonte é Macondo: a maldição dos Buendía.

As Farc não nasceram em 1993, quando a morte de Pablo Escobar propiciou a aliança dos guerrilheiros com os cartéis, nem em 1964, quando Manuel Marulanda fugiu do enclave de Marquetalia sob ataque do Exército e, com outros comunistas, criou o bloco guerrilheiro precursor. De fato, as raízes da maior guerrilha colombiana encontram-se na guerra civil conhecida como La Violencia, deflagrada em 1948 pelo assassinato do candidato presidencial Jorge Eliécer Gaitán, um reformador populista do Partido Liberal.

Marulanda, nome de guerra de Pedro Marín, filho de cafeicultores alinhados ao Partido Liberal, cresceu nos confrontos de milícias rurais da guerra civil, combatendo com seus familiares contra forças ligadas ao Partido Conservador. No "Cem Anos de Solidão", ciclos de guerras formam uma linha indiferenciada, afogando o presente em perpétuo passado. A década de La Violencia reproduziu as guerras crônicas do século 19 entre liberais e conservadores, deixando 200 mil mortos. A saga das Farc inscreve-se na paisagem de uma nação cindida, anestesiada pela rotina do conflito. Che Guevara, o comunismo e o foquismo não passaram de temperos circunstanciais: tênues influências externas sobre a Macondo dos espectros.

As Farc irromperam como resíduo de uma guerra sem fim. Durante a degeneração da guerrilha, a Colômbia modernizou-se, abriu janelas e desafiou tradições. No governo de Uribe (2002-2010), com auxílio americano, pela via do difamado Plano Colômbia, as Forças Armadas converteram-se em instituição nacional, desvencilhando-se da companhia abominável dos paramilitares. Ao mesmo tempo, emergiram novas correntes políticas, rompendo-se a antiga polaridade. Bogotá é governada pelo Partido Verde, que se tornou o segundo maior do país. O acordo de paz, fruto da ruptura do presidente Juan Manuel Santos com Uribe, a quem serviu como ministro da Defesa, reflete essa trajetória recente.

O princípio do extermínio governou a história da Colômbia. Todo o delicado edifício do acordo de paz ergue-se sobre a ideia de transformar a guerrilha em partido político, inserindo seus líderes no parlamento. Inventou-se para isso a justiça de transição, instrumento destinado a sentenciar as violações sem trancar os violadores na prisão. É que só o pluralismo pleno, radical, pode impulsionar a nação para fora de Macondo. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 1 / 10 / 2016

O Globo
"Rio chega à votação com 2º turno indefinido"

Paes pede voto útil em Pedro Paulo, e Freixo apela a eleitores de centro

Prefeito defende que eleitores de Indio, Bolsonaro e Osorio apostem no candidato do PMDB para derrotar Crivella, que está virtualmente no segundo turno, mas prefere enfrentar o adversário do PSOL

A campanha no Rio chega à véspera da votação sem definição de quem enfrentará, pelas pesquisas, Marcelo Crivella (PRB) no segundo turno. Empatados com 10% cada, Pedro Paulo (PMDB) e Marcelo Freixo (PSOL) tentam conquistar eleitores de adversários convencendo-os de que são mais capazes de derrotar Crivella. O prefeito Eduardo Paes fez um apelo pelo chamado voto útil em Pedro Paulo: “O eleitor do Osorio, do Indio e do Bolsonaro vão entender que não dá para ter um segundo turno com Freixo e Crivella.” Já Freixo busca eleitores de centro. 

O Estado de S.Paulo
"Candidatos vão à periferia em busca de votos do PT"

Bairros da zona leste, onde estão 2 milhões de eleitores, são o principal alvo

Nos últimos dois dias de campanha, os principais candidatos à Prefeitura de São Paulo foram buscar votos em ex-redutos petistas nos extremos da cidade. O principal alvo é a zona leste, que tem mais de 2 milhões de eleitores e registrou votações expressivas no PT em eleições anteriores. Segundo pesquisas de intenção de voto de Ibope e Datafolha, a área hoje se divide majoritariamente entre Celso Russomanno (PRB) e João Doria (PSDB). A candidata do PMDB, Marta Suplicy, também tem bom desempenho nesses bairros, enquanto Fernando Haddad (PT) tenta recuperar terreno. Ontem, ao chegar ao Mercado Municipal de Guaianases, Doria encontrou militantes ligados a vereadores do PT. Os dois grupos começaram a se provocar e houve um início de confusão. Centenas de cabos eleitorais tucanos farão “bandeiraços” hoje na periferia, onde também estarão Marta e Haddad.       

Folha de S. Paulo
"Na reta final, candidatos condenam ataques rivais"

Russomanno, Marta e Haddad disputam vaga no 2º turno em SP; Doria lidera

A dois dias do pleito, os três candidatos à Prefeitura de São Paulo que disputam a segunda vaga no segundo turno atribuíram problemas no desempenho na corrida eleitoral a ataques de rivais. A oito pontos percentuais do líder, João Doria (PSDB), Celso Russomanno (PRB) admitiu desgaste à sua imagem. O candidato disseque sua candidatura não foi desconstruída, como em 2012. Ele tem 22% das intenções de voto, afirma pesquisa Datafolha divulgada na segunda (26). Russomanno começou a campanha em primeiro em ambos os pleitos, mas não conseguiu chegar ao segundo turno na eleição anterior. “O povo está vacinado, sabe quem eu sou”, afirmou. Marta Suplicy (PMDB),em terceiro com 15% das intenções, também atribuiu sua queda a ataques de rivais. “Eu caí porque o PT resolveu fazer uma campanha contra mim, falando que eu sou contra o trabalhador, e isso não procede”, disse. Ela está tecnicamente empatada com o prefeito Fernando Haddad (PT), que tem 11%. Em ato, o petista tentou rebater críticas recorrentes de que preteriu a periferia. Nome presumível no segundo turno, Doria suspendeu evento de campanha após tumulto com apoiadores de rivais.  
 

sexta-feira, setembro 30, 2016

Edgley Optica FSX & P3D 2


Coluna do Celsinho

Graça

Celso de Almeida Jr.

Uma das atividades profissionais que desenvolvo nasceu do estímulo de um amigo que me convidou para atuar em sua consultoria de estratégias eleitorais e governamentais.

Generoso, valoriza meus pensamentos e observações, mesmo conhecendo um de meus defeitos  mais graves: a irresistível vontade de opinar com um tempero de ironia.

A vida é dura e  - só por isso - minha natureza manda dar um pouco de graça nesta rotina onde a tristeza, constantemente, tenta nos dominar.

Aprendi, entretanto, que nem sempre o interlocutor está disposto a receber comentários desenhados sobre um fundo divertido.

Isso pode, perigosamente, num descuido, inviabilizar um contrato, afastar um cliente, o que seria no meu caso um desrespeito à confiança em mim depositada pelo amigo que, desde 2008, me envolve em suas atividades profissionais.

Pois é...

Refiro-me ao Marcelo Pimentel, professor universitário, mestre em comunicação e proprietário da MP Marketing Político e Governamental que atua no Brasil e no exterior.

Com ele aprendo bastante, além de conhecer gente muito interessante, novas culturas e histórias de vida impactantes.

Esta miscelânea de descobertas e responsabilidades exigiu que eu vigiasse e controlasse mais o meu instinto, ciente de que a ironia em excesso pode conduzir ao sarcasmo e a arrogância.

Curiosamente, esta vigilância aumentou minha sensibilidade, permitindo-me saborear com mais atenção e zelo as pessoas e suas reações.

Uma delas testemunhei nesta semana.

Estava em Rondônia, no belo escritório do José Armando Bueno, um dos principais coordenadores da candidatura de Hildon Chaves a prefeito de Porto Velho, capital do estado.

Ele e Marcelo discutiam o formato do último programa eleitoral, que iria ao ar na noite de quinta-feira, 29/9/2016.

Quieto no sofá, atento, vi o entusiasmo dos dois quando Bueno mostrou um singelo poema que escrevera horas antes, após ser provocado por seu filho, Léo, admirável companheiro deste pai empreendedor e corajoso.

Marcelo, um visionário profissional do marketing, leu com entonação aquelas palavras vindas do coração.

Emocionou a todos.

Destes movimentos nasceu o formato do programa que, em seguida, foi apresentado ao candidato.

Hildon abraçou a ideia e mandou o recado de forma brilhante, num belo vídeo que combinou poesia e imagens de Porto Velho.

Mais um cliente, mais uma história, mais um aprendizado e novos amigos.

Eis a graça verdadeira.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Somos os maiores inimigos de nossa possibilidade de pensar

Contardo Calligaris
Um ano atrás, decidi seguir os conselhos de meu filho e abri uma conta no Facebook. A conta é no nome da cachorra pointer que foi minha grande companheira nos anos 1970 e funciona assim: ninguém sabe que é minha conta, não tenho amigos, não posto nada e não converso com ninguém.

Uso o Face apenas para selecionar um "feed" de notícias, que são minha primeira leitura rápida de cada dia.

Meu plano era acordar e verificar imediatamente os editoriais e as chamadas dos jornais, sites, blogs que escolhi e, claro, percorrer a opinião de meus colunistas preferidos, nos EUA e na Europa. Alguns links eu abriria, mas sem usurpar excessivamente o tempo dedicado à leitura do jornal, que acontece depois, enquanto tomo meu café.

Tudo ótimo, no melhor dos mundos. Até o dia em que me dei conta do seguinte: sem que esta fosse minha intenção, eu tinha selecionado só a mídia que pensa como eu –ou quase. Meu dia começava excessivamente feliz, com a sensação de que eu vivia (até que enfim) na paz de um consenso universal.

Mesmo nos anos 1960 e 1970, meus anos mais militantes, eu nunca tinha conhecido um tamanho sentimento de unanimidade.

Naquela época, eu lia "L'Unità", o cotidiano do Partido Comunista e, a cada dia, identificava-me com o editorial. Não havia propriamente colunistas: a linguagem usada no jornal inteiro já continha e propunha uma visão do mundo –luta de classes, contradições principais e secundárias, estrutura e superestrutura etc.

Ora, junto com "L'Unità" eu sempre lia mais um jornal –o "Corriere della Sera", se eu estivesse em Milão, o "Journal de Genève", em Genebra, e o "Le Monde", em Paris.

Nesses segundos jornais, que eram de centro (mas eu jurava que eram "de direita"), eu verificava os fatos (em plena Guerra Fria, não dava para acreditar nem mesmo no lado da gente) e assim esbarrava nos colunistas –em geral, social-democratas laicos e independentes, sem posições partidárias ou religiosas definidas.

Em sua grande maioria, eles não escreviam para convencer o leitor: preferiam levantar dúvidas, inclusive neles mesmos. E era isso que eu apreciava neles –embora os chamasse, eventualmente, de "lacaios da burguesia".

Hoje, os colunistas desse tipo ainda existem, embora sejam poucos. Eles estão mais na imprensa tradicional; na internet, duvidar não é uma boa ideia, porque é preciso criar e alimentar os consensos do "feed" do Face.

O "feed" do Face, elogiado por muitos por ser uma espécie de jornal sob medida, transforma-se, para cada um, numa voz única, um jornal partidário, piorado por uma falsa sensação de pluralidade (produzida pelo número de links).

A gente se queixa de que os grandes conglomerados da mídia estariam difundindo uma versão única e parcial de fatos e ideias, mas a realidade é pior: não são os conglomerados, somos nós que, ao confeccionar um jornal de nossas notícias preferidas, criamos nossa própria Coreia do Norte e vivemos nela. Como sempre acontece, somos nossos piores censores, os maiores inimigos de nossa possibilidade de pensar.

De um lado, o leitor do "feed" não se informa para saber o que aconteceu e decidir o que pensar, ele se informa para fazer grupo, para fazer parte de um consenso. Do outro, o comentarista escreve sobretudo para ser integrado nesses consensos e para se tornar seu porta-voz.

O resultado é uma escrita extrema, em que os escritores competem por leitores tanto mais polarizados que eles conseguiram excluir de seu "jornal" as notícias e as ideias com as quais eles poderiam não concordar: leitores à procura de quem pensa como eles.

Claro, não há hoje a obediência partidária dos anos 1970, mas a internet potencializa a vontade de se perder na opinião do grupo e de não pensar por conta própria. Essa vontade é a mesma –se não cresceu. Sumiu, em suma, a paixão do partido, mas não a do consenso.

Entre consensos opostos, obviamente, não há diálogo nem argumentos, só ódio.

Em suma, provavelmente, o resultado último da informação à la carte (que a internet e o "feed" facilitam) será a polarização e o tribalismo.

Eu mesmo me surpreendo: em geral, acho chatérrimos os profetas da apocalipse, que estão com medo de que o mundo se torne líquido ou coisa que valha. Mas, por uma vez, a contemporaneidade me deixa, digamos, pensativo. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 30 / 09 / 2016

O Globo
"Candidatos oferecem até wi-fi em troca de votos"

TRE flagra distribuição de remédio contra impotência para eleitores

Benefícios quase sempre são acompanhados de material de propaganda eleitoral; prática, se comprovada, pode configurar crime de abuso de poder econômico e levar à cassação da candidatura

A velha prática de clientelismo, simbolizada em eleições passadas pelos centros sociais, assumiu novas formas nesta campanha. Nas últimas semanas, em busca de votos, candidatos a vereador do Estado do Rio distribuíram sinal de wi-fi, pizzas e até remédios contra impotência, revela VERA ARAÚJO. Na maioria dos casos, a benesse foi acompanhada de material de propaganda, na tentativa de induzir o voto do eleitor. Fiscais do TRE flagraram recentemente em Jacarepaguá caixas de pizza com o nome do candidato a vereador Mário do Conselho (PRTB). Mas o tribunal reconhece a dificuldade de coibir a prática, que pode configurar crime de abuso do poder econômico e levar à cassação da candidatura.

O Estado de S.Paulo
"Governo de SP faz blitz contra os cem maiores devedores"

Força-tarefa mira em R$ 51 bilhões hoje em discussão com grandes grupos

Em meio à queda da arrecadação tributária, o governo de São Paulo montou uma força-tarefa para tentar acelerar a cobrança de R$ 51 bilhões hoje em discussão com os cem maiores devedores do Estado. Liderado pela Procuradoria- Geral, o grupo reúne equipes da Polícia Civil, da Fazenda e do Ministério Público e foi montado no início do ano. Suas estratégias incluem do cruzamento de informações para investigar fraudes e crimes tributários à eliminação de brechas legais. Também passam por ações preventivas, como a verificação de casos em que o pagamento de imposto acaba sendo postergado. Segundo o procurador- geral do Estado, Elival da Silva Ramos, processos contra determinado conglomerado econômico serão agrupados e avaliados por uma só equipe. “Deixamos de atuar por processo e passamos a atuar por devedor.”       

Folha de S. Paulo
"Empatados, Marta e Haddad se atacam em debate decisivo"

Poupado por adversários, João Doria, líder das pesquisas, alia-se a Russomanno para criticar ‘indústria da multa’

De olho em vaga no segundo turno, os candidatos à Prefeitura de São Paulo Marta Suplicy (PMDB) e Fernando Haddad (PT) promoveram o principal confronto do debate da Globo na noite nesta quinta (29) — o último antes da eleição, no domingo (2). Os dois estão em terceiro lugar, segundo pesquisa Datafolha divulgada na terça (27), com 15% e 11% das intenções de voto, respectivamente. O petista e a peemedebista, ex-PT, disputam fatia parecida do eleitorado. Haddad criticou a proposta de Marta de retomar a inspeção veicular. Para o prefeito, a iniciativa seria um mau uso de verbas públicas. “Não sei quem te botou isso na cabeça, se foi o [ex-prefeito] Kassab”, disse o petista. Em resposta, ela disse que a inspeção não será obrigatória. “As pessoas que forem vão tomar a cidade menos poluente. Quem não quer, não vai e pronto.” A peemedebista e outros concorrentes fizeram dobradinhas para atacar o petista. João Doria (PSDB), que lidera com 30% das intenções de voto, elogiou os CEUs, bandeira de Marta. Aliou-se ainda a Celso Russomanno (PRB), em segundo com 22%, para criticar o que chamaram de “indústria da multa”. O tucano foi pouco criticado. Uma das exceções, Luiza Erundina (PSOL), em quinto lugar com 5%, reprovou Doria pelo uso de dinheiro público em convênios com suas empresas. Ele disse ter visão administrativa “moderna, atual”.  
 

quinta-feira, setembro 29, 2016

Física


Opinião

Pessoas ignorantes em política devem ter direito de votar?

João Pereira Coutinho
Vamos ser honestos? A democracia não é o melhor regime político. Você sabe disso. As maiorias, muitas vezes, elegem governos incompetentes, mentirosos, corruptos. Até autoritários. Devemos conceder o direito de voto a quem não tem inteligência suficiente para escolhas responsáveis?

O cientista político Jason Brennan defende que não. O livro, que provocou polêmica nos Estados Unidos, intitula-se "Against Democracy" ("contra a democracia"). Não é um panfleto populista contra o populismo circunstancial de Donald Trump. É um estudo acadêmico com toneladas de bibliografia científica.

Tese do dr. Brennan: em todas as pesquisas disponíveis, os eleitores americanos são comprovadamente ignorantes sobre os assuntos da República. Desconhecem coisas básicas, como identificar qual dos partidos controla o Congresso. Para usar a terminologia de Brennan, a maioria dos eleitores se divide em "hobbits" e "hooligans".

Os "hobbits" são apáticos, apedeutas, raramente votam –e, quando votam, votam com a cabeça vazia.

Os "hooligans" são o contrário: fanáticos, como os torcedores do futebol, defendendo os seus "clubes" de uma forma irracional, ou seja, tribal. É possível perguntar a um "hooligan" democrata se ele concorda com uma política de Bush e antecipar a resposta. (É contra, claro.)

E depois, quando o pesquisador comunica ao "hooligan" que a referida política, afinal, é de Obama, o "hooligan" muda de opinião; ou afasta-se; ou indigna-se. Como dizia T. S. Eliot sobre Henry James, a cabeça de um "hooligan" é tão dura que nenhuma ideia é capaz de violá-la.

O eleitor ideal, para Brennan, é um "vulcan": alguém que pensa cientificamente sobre os assuntos. Mas os "vulcans" são artigo raro. Em democracia, somos obrigados a suportar as escolhas de "hobbits" e "hooligans".

Felizmente, Jason Brennan tem uma solução: se as pessoas precisam de uma licença para dirigir, o mesmo deveria acontecer para votar. "Epistocracia", eis a proposta. O governo dos conhecedores. Antes de votar, é preciso provar.

Existem vários modelos de epistocracia. Dois exemplos: todos teriam direito a um voto e depois, com a progressão acadêmica, haveria votos extra; ou, em alternativa, só haveria votos para quem tivesse boa nota em exame de política. Faz sentido?

Não, leitor, não faz. Seria possível escrever várias páginas de jornal a desconstruir o livro de Jason Brennan. Por falta de espaço, concentro-me na sua falha básica: Brennan, um cientista político, não compreende a natureza da política.

Como um bom racionalista, Brennan acredita que os fatos políticos são neutros; consequentemente, as escolhas do eleitor podem ser "científicas".

Acontece que nunca são: a política, ao contrário da matemática ou da geometria, lida com a complexidade e a imperfeição da vida humana.

Um "exame" de política, por exemplo, dependeria sempre das preferências políticas dos examinadores –nas perguntas e na correção das respostas. Brennan até pode defender perguntas "factuais" para respostas "factuais". Mas a simples escolha de certos temas (mais economia) em prejuízo de outros (menos história) já é uma escolha política.

Além disso, acreditar que diplomas acadêmicos conferem a alguém um poder especial em política é desconhecer o papel que os "intelectuais" tiveram nos horrores do século 20.

Ou, para não irmos tão longe, é ignorar o estado de fanatismo ideológico que as universidades, hoje, produzem e promovem.

Por último, não contesto que a maioria desconhece informação política relevante. Mas as pessoas não precisam de um Ph.D. para votarem. Basta que vivam em sociedade. Que sintam na pele o estado dos serviços públicos. O dinheiro que sobra (ou não sobra) no final do mês. A segurança que sentem (ou não sentem) nos seus bairros, nas suas cidades, nos seus países. E etc. etc.

Como lembrava o filósofo Michael Oakeshott, não se combatem ditadores com a balança comercial. Tradução: a política não depende apenas de um conhecimento técnico; é preciso um conhecimento prático, tradicional, vivencial. O conhecimento que só a experiência garante.

A democracia pode não ser o regime ideal para seres humanos ideais. Infelizmente, eu não conheço seres humanos ideais. No dia em que Jason Brennan me mostrar onde eles vivem, eu prometo jogar a democracia no lixo. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 29 / 09 / 2016

O Globo
"Reforma prevê desvincular pensões do salário mínimo"

Novos pensionistas não teriam mais rendimento integral

Pela proposta, quem já recebe o benefício passaria a ter, daqui para frente, correção pela inflação, sem ganho real. Governo também quer reduzir reajustes de programas assistenciais, como Loas

A proposta de reforma da Previdência do governo prevê desvincular as pensões do salário mínimo. Até os atuais pensionistas que recebem o piso passariam a ter o benefício corrigido apenas pela inflação, sem direito ao reajuste aplicado ao salário mínimo. Para as novas pensões, o valor também deixaria de ser integral, sendo reduzido à metade, acrescido de mais 10% por dependente. A proposta engloba os setores público e privado. O governo também quer desvincular os benefícios da Loas, pagos a deficientes ou idosos pobres, do salário mínimo. E passar a cobrar uma contribuição de 5% dos trabalhadores rurais. Segundo o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, se não houver reforma, o sistema de Previdência “estoura” entre 2025 e 2030.

O Estado de S.Paulo
"A 4 dias da eleição, cresce disputa pelo 2º lugar em SP"

Doria lidera com 28% e Russomanno cai e vai a 22%; Marta e Haddad estão tecnicamente empatados

Nova pesquisa Ibope/Estado/TV Globo mostra que Celso Russomanno (PRB) segue em tendência de queda. Ex-líder da corrida pela Prefeitura de SP, ele perdeu 11 pontos desde agosto – 2 de segunda-feira a ontem – e ocupa o segundo lugar, com 22% das intenções de voto. João Doria (PSDB) lidera, mas não passou dos 28%. Na disputa pela terceira colocação, Marta Suplicy (PMDB) parou de cair: oscilou de 15% para 16%. Já Fernando Haddad (PT) continua com tendência de leve alta. Foi de 9% para 12% no começo da semana e agora tem 13%. A propaganda de TV e rádio fez Doria ganhar 19 pontos e atingir em um mês o nível histórico dos tucanos em São Paulo. Não há sinais, porém, de que crescerá o suficiente para ser eleito no primeiro turno. A principal questão é saber com quem disputará o segundo turno. Embora Russomanno esteja sozinho em segundo lugar, a tendência de queda constante sugere que ele pode repetir a trajetória da eleição de 2012, quando também foi líder isolado e acabou em terceiro.       

Folha de S. Paulo
"Crise acelera volta dos empregos sem carteira assinada"

Atuação informal na construção civil dispara 11% do 1° para o 2° trimestre; alta no serviço doméstico foi de 3,4%

Levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que entre o primeiro e o segundo trimestre de 2016 foram cortadas 225,7 mil vagas com carteira assinada e 259 mil pessoas deixaram de trabalhar por conta própria. Já no setor informal houve uma expansão de 668 mil postos, situação que diminui o poder de compra das famílias pois os rendimentos são, em média, 40% inferiores. “As pessoas estavam se virando sozinhas, tentando formar seu próprio negócio. Mas neste ano essa alternativa se esgotou”, diz Fernando de Holanda Barbosa Filho, economista da FGV-Rio. Um dos setores com maior elevação na informalidade foi o da construção civil, um dos mais afetados pela crise. Do primeiro para o segundo trimestre deste ano, as vagas formais caíram 4,2% e as informais subiram 10,7%. Dinâmica similar se viu na categoria dos trabalhadores domésticos, com queda de 4,6% nos contratados com a carteira assinada e aumento de 3,4% nos que exercem informalmente a função. A expansão da informalidade, além de inibir o consumo — um dos principais motores da atividade econômica —, afeta as receitas do governo, já que as contribuições à Previdência também diminuem.  
 

quarta-feira, setembro 28, 2016

Física


Opinião

O afastamento do mundo e a busca da solidão resvalam em valores positivos

Luiz Felipe Pondé
Quando você estiver lendo esta coluna estarei nalgum lugar dos Cárpatos, quase plenamente desconectado do mundo. Desde que conheci a Romênia, a Transilvânia e a cadeia de montanhas que a rasga de ponta a ponta, os Cárpatos, me apaixonei pelo país.

Seu povo, seu cenário, seu isolamento por centenas de anos, sua agonia com os comunistas, seu sofrimento ancestral sob o jugo dos turcos otomanos. País de mistérios e crenças sobrenaturais, a Romênia é mesmo um lugar de beleza ainda não devastada pelos bárbaros em férias.

Lugar ideal para quem quiser experimentar um pouco de distanciamento da vida imediata e corrida de sempre, cercado de construções medievais quase intocadas, os Cárpatos propiciam muito daquele tipo de paz que muitos buscam, mas poucos encontram.

A solidão e o isolamento são tema ancestral na espiritualidade. No cristianismo, por volta do século 2º, já temos indícios claros de homens e mulheres que buscavam o isolamento em montanhas e desertos a fim de lá enfrentarem seus demônios na busca de Deus. Esses homens e mulheres ficaram conhecidos como "monachoi", os monges do deserto.

Apesar de sermos uma espécie social e gregária, a ideia de que a solidão "cura" de algum modo é persistente ao longo dos milênios, associada ou não a conteúdos religiosos de fato. Hoje em dia, nas grandes cidades, milhares de pessoas optam por viver sozinhas, porque, simplesmente, a vida "em conjunto" exaure suas forças.

Imersos numa rede infernal de conexões, muitos de nós identificam a "recusa" do celular e das redes sociais como indício de autenticidade. Em que pese o alto índice de modismo presente em tudo que existe num mundo como o nosso -em que o marketing, passo a passo, se torna a "ciência primeira", como a ontologia (ciência do ser) era pra Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), e, portanto, nada seja autêntico, na medida em que existe uma contradição profunda entre marketing e autenticidade-, a busca de "desconexão" é verdadeira em muitos casos, devido ao cansaço que sentimos em ficarmos ligados 24 horas, sete dias por semana ("twenty four seven", como dizem os americanos).

Quando analisamos o comportamento de luxo em propaganda, a busca de isolamento e solidão e, portanto, um certo "desprezo" pelas redes sociais e pelo mundo sempre aparecem como índice de elegância. Por que o afastamento do mundo, um certo desprezo por ele, a busca da solidão, sempre resvala num valor positivo de algum modo?

As épocas são distintas, os problemas podem mudar, mas a ideia de que o mundo engana atravessa os séculos. Os exemplos são muitos, dos monges nas mais variadas religiões aos ativistas do Global Strike (proposta de desconexão das redes por alguns minutos e o compartilhamento do relato do que se fez nesses instantes de desconexão), passando pelo isolamento romântico, todos se cansam em algum momento.

Entre tantos exemplos, apontaria o estoicismo como um dos casos mais bem argumentados a favor do engano do mundo e do valor positivo da "fuga mundi".

O estoicismo é uma filosofia que floresceu na Grécia por volta do século 3º a.C. e chegou a Roma, tendo o imperador Marco Aurélio (121 d.C.-180 d.C.) como um dos seus maiores luminares. A ética estoica buscava a consciência de que tudo na vida é efêmero e enganoso, quando negamos essa mesma efemeridade. Permanente apenas o logos, esse princípio divino, para muitos, materializado na natureza ou no cosmo. O estoico buscava fugir da cidade e viver próximo à natureza porque esta não engana, enquanto aquela abriga a mentira, a vaidade, o culto ao vazio.

"Tudo está morrendo, menos o logos presente na natureza", isso aprendemos ao convivermos com a natureza. A "pronoia", a "providência" que tudo faz acontecer e tudo ordena, nos ensina que a humildade diante do cosmo é a forma sábia de viver. A arrogância da crença em si mesmo, a vaidade da técnica, a ilusão do social, são formas enganosas, que a prática da solidão combateria.

Num mundo do sucesso e do glamour como o nosso, nunca será pouco buscar a fuga deste mesmo mundo. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 28 / 09 / 2016

O Globo
"Milícias cobram taxas de candidatos no Rio"

Políticos pagam até R$ 120 mil para exibir propaganda em áreas dominadas

Exploração comercial da campanha é o mais novo negócio dos grupos criminosos, que oferecem aos que disputam cargos o privilégio de ter pouca concorrência em regiões da Baixada e das zonas Norte e Oeste

Após eleger representantes para cargos políticos, as milícias agora transformaram a eleição em mais um de seus negócios, cobrando até R$ 120 mil para que candidatos façam campanhas em áreas dominadas no Rio, revelam MARCELO REMÍGIO E VERA ARAÚJO. As taxas eleitorais são exigidas em áreas da Baixada e das zonas Norte e Oeste. Bairros como Campo Grande e Santa Cruz, mais populosos, são mais valorizados. Em troca, o político pode espalhar propaganda com concorrência limitada. Investigações mostram que as milícias têm preferido apoiar candidatos em vez de lançar seus integrantes, para preservá-los.

O Estado de S.Paulo
"Reforma cria gatilho que eleva idade de aposentadoria"

Proposta pode superar os 65 anos caso sobrevida da população cresça; texto só será enviado após eleição

A proposta de reforma previdenciária que o presidente Michel Temer tem em mãos prevê aumento da idade mínima de aposentadoria para além dos 65 anos fixados inicialmente. Elaborado por técnicos do governo, o texto propõe um gatilho que permite aumentar a idade à medida que subir a média de sobrevida (quantidade de anos de vida da população após a aposentadoria). A “calibragem” evitaria a discussão de novos projetos de reforma conforme a população for envelhecendo. Caberá a Temer manter ou retirar esse dispositivo. O presidente já decidiu, porém, que a proposta de reforma só será enviada ao Congresso em novembro, após o segundo turno das eleições. Atualmente, a expectativa de “sobrevida” para quem tem 65 anos é de 18. Na defesa do gatilho, técnicos citam países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico que já adotaram ou estipularam para os próximos anos idade mínima próxima a 70 anos para receber o benefício integral.      

Folha de S. Paulo
"Justiça anula penas de 74 PMs por 111 mortes no Carandiru"

TJ-SP aceita recurso da defesa, e policiais podem ser absolvidos; Promotoria recorrerá ao STJ

A Justiça de São Paulo anulou os julgamentos que condenaram 74 PMs pelo massacre no Carandiru. Em 2 de outubro de 1992, 111 presos da casa de detenção, na zona norte da capital paulista, foram mortos em invasão policial para conter um motim. Nos julgamentos, entre 2001 e 2014, o júri votou pela condenação. As penas iam de 48 a 624 anos de prisão — os réus permaneceram soltos. A defesa recorreu, e nesta terça (27) a 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de SP anulou os veredictos. Dos três desembargadores, dois votaram pela anulação dos julgamentos e um pela absolvição. “Não houve massacre, houve legítima defesa”, disse o relator, Ivan Sartori. Haverá nova sessão, com dois outros juízes, para definir se o caso é de anulação (novo júri) ou de absolvição. A defesa alega falta de provas e se baseia na condenação seguida de absolvição do então comandante da corporação, coronel Ubiratan Guimarães, morto em 2006. Para o TJ, o júri o condenou, mas quis inocentá-lo, pois aceitou a tese dos advogados de que o réu cumpria o seu dever como policial. A Promotoria recorrerá ao STJ para manter o resultado dos julgamentos. 
 

terça-feira, setembro 27, 2016

Física


Opinião

Um país onde a justiça varia não pode ser considerado democrático

Ferreira Gullar
Aquela foi uma semana marcada por importantes acontecimentos. Começou com a cassação do mandato de Eduardo Cunha por um escore arrasador, seguiu-se a posse de Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal, depois as acusações contra Lula por procuradores da operação Lava Jato e finalmente a resposta do ex-presidente negando fundamento às acusações.

A maneira como aquelas acusações foram feitas não pegou bem, e pior é que, como este jornal divulgou, elas se apoiam numa delação que foi cancelada.

Quero me ater, no entanto, à significação que tem para o país a presença da ministra Cármen Lúcia na presidência do STF, conforme constatamos nas mais diversas manifestações de apoio e otimismo pelo acontecimento. E, se ele já valeu por si só, cabe ressaltar a significação da cerimônia de posse em si mesma.

Essa cerimônia se caracterizou pela presença de políticos de diversos partidos, além de personalidades como os ex-presidentes José Sarney e Luiz Inácio Lula da Silva, bem como intelectuais, advogados e artistas. Isso indicava, por um lado, o prestígio pessoal da nova presidente do STF, mas também o que significa essa instituição, no momento particularmente crítico da vida política nacional, o que ficou evidente nos discursos proferidos durante a cerimônia, expondo implicitamente essa realidade.

Nesse particular, deve-se ressaltar o discurso da ministra Cármen Lúcia que, não por acaso, fez questão de mostrar que as diversas instituições que expressam o poder do Estado brasileiro, a exemplo do Judiciário, são, de fato, instrumentos da manifestação do verdadeiro poder que emana do povo e em seu nome deve ser exercido. Foi quando ela disse:

"Inicio quebrando um pouco o protocolo ou, pelo menos, interpretando a norma protocolar diferente de como vem sendo interpretada e aplicada: determina se comecem os cumprimentos pela mais elevada autoridade presente. E e justo que assim seja. Principio, pois, meus cumprimentos dirigindo-me ao cidadão brasileiro, princípio e fim do Estado, senhor do poder da sociedade democrática, autoridade suprema sobre nós, servidores públicos, em função do qual se há de labutar cada um dos ocupantes dos cargos estatais".

Por isso mesmo, como diria ela, adiante, irá informar-se de todos os dados relativos aos gastos institucionais e trazê-los ao conhecimento da população, com toda a transparência, para deixar clara a posição que adotaria em face disso. Essa questão envolve o discutido aumento salarial para os ministros do Supremo, que, por sua vez, desencadearia aumentos salariais nos vários setores judiciais, agravando a situação financeira do país.

Outro ponto importante de seu discurso diz respeito à modernização e ao aperfeiçoamento do Judiciário brasileiro, que não atende às necessidades da população, particularmente dos mais pobres que constituem a maioria.

De fato, um país onde a aplicação da Justiça varia de acordo com a classe social a que pertence o cidadão não pode ser considerado efetivamente democrático.

Se o discurso da presidente Cármen Lúcia foi essencialmente institucional, o do ministro Celso de Mello, decano do STF, tocou o cerne do problema que hoje atinge, de maneira alarmante, a vida política nacional.

Para o constrangimento de alguns políticos e autoridades ali presentes, que são investigados pela Operação Lava Jato, ele se referiu aos "marginais da República" que, "por intermédio de organizações criminosas" obtêm "inadmissíveis vantagens e [...] benefícios de ordem pessoal, ou de caráter empresarial, ou, ainda, de natureza político-partidária".

Também o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, abordou o tema da corrupção, destacando a atuação do Ministério Público, que tem desempenhado um papel altamente positivo no combate à ação criminosa de políticos, empresários e altos funcionários de empresas estatais.

A posse da ministra Cármen Lúcia, se teve o significado que teve, deveu-se particularmente ao papel que a Justiça passou a desempenhar publicamente na vida nacional. E a razão disso não é outra senão o alastramento da corrupção exercida, como disse o ministro Celso de Mello, pelos "marginais da República". 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 27 / 09 / 2016

O Globo
"PF acusa Palocci de gerir propina da Odebrecht para PT"

Suspeito de antecipar prisão, ministro de Temer terá de se explicar

Para os investigadores, ex-ministro de Lula e Dilma intermediou o pagamento de R$ 128 milhões da empreiteira em troca de contratos com o governo federal entre os anos de 2008 e 2013

Ministro dos governos Lula e Dilma, Antonio Palocci foi preso sob a acusação de intermediar o repasse de propina da Odebrecht para o PT. Com base em planilhas apreendidas e em e-mails de Marcelo Odebrecht, a Lava-Jato suspeita que a empreiteira pagou R$ 128 milhões em troca de contratos com o governo. Irritado com a suspeita de vazamento da operação, o presidente Michel Temer convocou o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para explicar as declarações de que haveria operação da Lava- Jato esta semana.

O Estado de S.Paulo
"Palocci é preso acusado de ser elo de empreiteira e PT"

Ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil é investigado como operador de propinas da Odebrecht 
Juiz Sérgio Moro manda bloquear R$ 128 milhões de acusados 
Defesa compara prisão a ação da ditadura

Ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil, Antonio Palocci foi preso ontem na 35.ª fase da Lava Jato. Ele é suspeito de operar propinas da Odebrecht para o PT entre 2008 e 2013. Segundo investigadores da operação Omertà, o montante movimentado chegou a R$ 128 milhões. O juiz Sérgio Moro também mandou prender dois assessores de Palocci, Branislav Kontic e Juscelino Dourado, e bloquear bens de investigados. Para a força-tarefa, o ex-ministro de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff atuou em negócios de interesse da Odebrecht com o governo. Em uma mensagem, Marcelo Odebrecht, presidente afastado da empreiteira, afirma que Palocci iria “compensar” um revés sofrido em lobby de uma MP, em 2009. “Ele mesmo pediu, além dos argumentos para a sanção/veto parcial, que levássemos alternativas para nos compensar. Sejamos criativos!” Palocci também teria atuado na licitação da Petrobrás para compra de 28 navios- sonda, no desenvolvimento de um submarino e no financiamento do BNDES para obras em Angola. Defensor de Palocci, José Roberto Batochio comparou a prisão a uma “operação secreta, no melhor estilo da ditadura militar”.      

Folha de S. Paulo
"Doria vira líder isolado em SP; Russomanno para e Marta cai"

Tucano vai a 30% e, nas simulações de 2° turno, supera numericamente todos os concorrentes

O tucano João Doria subiu cinco pontos percentuais na preferência do eleitorado e assumiu a liderança entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo, com 30%, segundo pesquisa Datafolha. O deputado federal Celso Russomanno (PRB) se manteve estável, com 22%. A senadora licenciada Marta Suplicy (PMDB) caiu cinco pontos (20% para 15%) em relação ao levantamento de quarta (21) e está tecnicamente empatada com o prefeito Fernando Haddad (PT), que oscilou de 10% para 11%. A deputada Luiza Erundina, do PSOL, repetiu os 5% que detinha cinco dias atrás.

O desempenho do empresário Doria, afilhado político do governador Geraldo Alckmin, disparou entre os eleitores menos escolarizados, passando de 13% para 23%. Nas simulações de segundo turno, ele lidera em todos os cenários, mas na disputa com Russomanno há um empate técnico (42% a 37%).Haddad continua como o candidato mais rejeitado pela população: 43% afirmam que não votariam nele. O Datafolha entrevistou 1510 eleitores. A margem de erro é de três pontos percentuais. 
 

segunda-feira, setembro 26, 2016

Física


Opinião

Jovens assassinos: maçãs podres ou 'vítimas' de uma infância infeliz?

Contardo Calligaris
Na avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio, o fim de tarde de quarta-feira, dia 14, não foi nada insólito.

Desde o começo da Olimpíada, na hora em que as pessoas saem da praia e se dirigem às paradas de ônibus, bandos de adolescentes praticam arrastões. Talvez os moleques não queiram tanto roubar (celular à parte, ninguém leva nada para a praia) quanto apavorar, suscitar gritos e correria.

No dia 14, então, 92 jovens foram detidos –82 eram menores, 78 adolescentes e quatro crianças.

Segundo a reportagem do UOL (http://migre.me/v11ot), os adultos foram presos, as crianças foram para um abrigo da prefeitura, e os adolescentes receberam "apoio dos profissionais da Secretaria de Desenvolvimento Social". Paira no ar uma certa vontade de distribuir safanões –e não "assistência".

Graças ao artigo de Patrick R. Keefe na revista "The New Yorker" de 12 de setembro, li o livro-reportagem de Dan Slater: "Wolf Boys: Two American Teenagers and Mexico's Most Dangerous Drug Cartel" (meninos-lobos: dois adolescentes americanos e o cartel mais perigoso do México). Slater reconstrói a história de dois adolescentes do Texas (fronteira com o México) que se tornaram sicários no narcotráfico mexicano, assassinando dezenas de pessoas com requintes de crueldade. Julgados como adultos (possível nos EUA a partir dos 13 anos), ele foram condenados à prisão perpétua sem redução de pena.

Slater se pergunta se os dois jovens deveriam ser considerados como criminosos ou como "vítimas" (do cartel mexicano).

Nessa direção, Keefe, no artigo da "New Yorker", nota que, em geral, as crianças-soldados das guerras no continente africano nos parecem não ter culpa: eles foram arrancados das suas famílias pelos senhores da guerra. Em compensação, somos menos clementes com nossos adolescentes criminosos.

Keefe propõe uma explicação: quanto mais as vítimas dos adolescentes se parecem conosco, tanto mais tendemos a considerar que os jovens criminosos são maçãs podres e, de uma maneira ou de outra, responsáveis por sua podridão.

Ishmael Beah, ex-criança-soldado leonesa, autor de "Muito Longe de Casa" (Companhia de Bolso), esteve na Flip de 2007. Ao conhecê-lo, era impossível não apostar que, por horrorosa e sanguinária que seja a infância de alguém, sempre existe uma chance de redenção.

Mas volto ao livro de Slater: lendo as conversas do autor com Cardona (o jovem texano que mais se deixou entrevistar), a sensação é outra. O adolescente não fugiu da fome nem foi arrancado de seu lar à força: enveredou-se pelo crime por causa da grana, das minas, dos carros e das roupas.

Para salvar Cardona, vamos fazer o quê? Acusar o "imediatismo" materialista de nossa cultura? Problema: há milhões de adolescentes que gostam de minas, carros, grana e roupas e não se tornam assassinos.

Alguém dirá que os outros adolescentes apostam no esforço e no trabalho, enquanto Cardona escolhe a facilidade. Mas fazer carreira no crime, como sicário, é mesmo uma "facilidade"?

O advogado de Cardona pediu uma pena menos drástica com estas palavras: "Não sou Freud. Estou convencido de que Freud se divertiria à beça aqui. Não sei qual foi a motivação dele [de Cardona]. Não sabemos o que o leva a agir. Ninguém parece mesmo se importar com isso".

Os dois adolescentes do Texas desejavam coisas que muitos ou todos desejam. Só que fizeram isso sem freio moral, sem empatia, sem compaixão pelas suas vítimas e, ainda, se vangloriando de sua própria crueldade. Freud e um eventual colega sociólogo (marxista ou não) talvez encontrassem explicações ("desculpas"?) na suposta injustiça social ou na neurose familiar. Mas dificilmente eles conseguiriam eliminar a ideia de que os jovens texanos eram, simplesmente, ruins.

Essa ideia lhe inspira horror? Será então que você acredita que todos seríamos naturalmente bons, à condição de não sermos estragados por alguns percalços violentos de nossa infância?

Sabemos descrever bem o que é uma personalidade antissocial (desinteresse pelos outros, mentira persistente, impulsividade, agressividade, falta de remorso etc. –tudo isso, às vezes, junto com hiperatividade, drogas, depressão). Suspeitamos de componentes genéticas e causas ambientais e psíquicas (desamparo, desafeto familiar, violências sofridas).

Mas duvido que a gente chegue um dia a explicar a história de um Cardona sem recorrer à hipótese da maçã podre.

Original aqui

 
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