sábado, setembro 10, 2016

Física


Opinião

Onde houver morte violenta, escreveremos 'aqui um morto'

Contardo Calligaris
No fim dos anos 1950 ou no começo dos 1960, eu atravessei a Espanha, de leste a oeste, viajando de carro com meus pais. Íamos da Itália até a Andaluzia.

Naquele ano (que não sei qual foi), a administração das rodovias espanholas fazia campanha contra as mortes nas estradas. Os motoristas eram incitados à prudência por grandes cartazes que assinalavam sobriamente: "Aquí un muerto", "Aquí dos muertos" —o máximo que vi foi "Aquí cuatro muertos".

Era só isso. Sem descrições das circunstâncias, o acidente, às vezes, parecia inexplicável —por exemplo, no meio de uma linha reta quase deserta. Talvez alguém tivesse dormido ao volante.

Quando passávamos por um cartaz, meu pai diminuía mais ainda sua velocidade, que nunca era grande.

Me lembrei disso ouvindo um candidato à Prefeitura de São Paulo propor o aumento da velocidade máxima nas marginais.

A diminuição do limite de velocidade nas marginais resultou numa diminuição dos acidentes e dos mortos. Certo, todos achamos que somos tremendos motoristas e o verdadeiro perigo não é a velocidade, mas a imperícia dos outros (nunca a nossa); achamos isso, mas nos envergonhamos desse nosso pensamento.

A proposta serve para bajular e autorizar nossa vontade infantil de meter o pé no acelerador —doa a quem doer.

Enfim, para a próxima prefeitura, eu tenho uma proposta. Poderia se chamar "projeto memória" (talvez possa ser bancado pelo setor privado). Sei que a segurança é tarefa do Estado e da Federação, não da prefeitura, mas minha proposta não é bem uma medida de segurança.

Assim como os espanhóis fizeram nas suas estradas nos anos 1960 ou 1950, proponho que a gente decida não se esquecer. Em cada lugar onde houve um assalto nos últimos 15 ou 20 anos, sugiro que um cartaz assinale: "Aqui um assalto", ou dois, ou três (será 30% do que aconteceu de fato, porque a maioria das vítimas não registra B.O.).

Também, em cada lugar onde houve morte violenta, escreveremos "Aqui um morto", ou dois, ou três ou mais (as mortes são sempre declaradas, e o registro será fiel). Poderíamos criar um código que dissesse se morreu um policial, um bandido ou um cidadão, vítima ou passeante.

Segundo um relatório de janeiro de 2016, das 50 cidades do mundo com maior taxa de homicídios por 100 mil habitantes, 21 são brasileiras —isso excluindo os países em guerra aberta.

Considerado o tamanho da população, São Paulo talvez seja a cidade brasileira menos violenta. Mas, se a comparação for com o resto do mundo, a história é outra.

O essencial, para mim, é que a lembrança dos mortos é sempre necessária para saber quem somos. Sinto-me em casa em Veneza, mais do que em Milão, porque Veneza é uma cidade habitada por espectros.

Não digo assim apenas na esperança de amedrontar os turistas —não é preciso: as ruas venezianas são abarrotadas por fantasmas do passado, numerosos demais para que eu enxergue os turistas, por mais que eles circulem em hordas.

Poderíamos chegar a um resultado análogo, começando pelos nossos mortos da guerra urbana. Talvez os turistas se interessem, aliás: já existem visitas guiadas aos monumentos da cidade, poderia haver visitas guiadas aos lugares dos assaltos mais frequentes —quem sabe com encenações, para estrangeiros verem como é.

Você perguntará: por que tornar a violência urbana mais presente, mais inesquecível? Para a gente ficar mais esperto, deixar o computador em casa e esconder celular e relógio em certas ruas? Não é só isso.

Então para o quê? O espetáculo constante das feridas da violência no nosso tecido social talvez nos ajude a encarar (e sarar?) nossa dupla herança maldita —a de ter nascido como colônia de exploração e de ter explorado corpos escravos por séculos. Com a consequência, que é quase norma cultural, de arrancar do outro qualquer coisa que desejemos e subjugá-lo até à morte.

Seu W., funcionário meu, reúne orçamentos para estofar uma poltrona; um estofador lhe diz: se você me escolher, pode aumentar em 20%, que fica com você. O mesmo estofador se indigna com a corrupção de governos petistas e empresários. Ele não se dá conta de que ele pratica o mesmo jogo da propina.

Nota: Antes que saia de cartaz, não perca "Loucas de Alegria", de Paolo Virzi. É um dos filmes mais "justos" que já vi sobre amizade —e, claro, sobre o sofrimento psíquico. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 10 / 09 / 2016

O Globo
"Temer troca comando da AGU e nomeia 1ª ministra"

Fábio Medina Osório acumulou desentendimentos com o Planalto

Pedido de compartilhamento de informações da Lava-Jato desgastou ainda mais a relação

A primeira mulher no Ministério do presidente Michel Temer será Grace Mendonça, que assumirá o lugar de Fábio Medina Osório à frente da Advogacia Geral da União, onde ela fez carreira. Demitido por telefone por Temer, Medina Osório estava desgastado antes do processo de impeachment de Dilma e saiu pela série de desentendimentos que acumulou. Entre os motivos de irritação do Planalto estava a atuação autônoma dele, sem aval do governo, como um pedido de informações à Lava-Jato.                    
 
O Estado de S.Paulo
"Chefe da AGU cai e aponta resistência à Lava Jato"

Ex-advogado-geral, Fabio Osório atribui exoneração à decisão de ajuizar ações contra investigados

O advogado-geral da União, Fabio Medina Osório, foi demitido ontem e atribuiu a exoneração à insatisfação do Planalto com medidas tomadas pela AGU contra políticos investigados na Lava Jato, incluindo aliados de Michel Temer. A saída foi definida horas depois de Medina cobrar agilidade da equipe nas providências para ajuizar ações de improbidade contra responsáveis por desvios na Petrobrás e outros órgãos. A AGU pediu ao Supremo Tribunal Federal acesso a inquéritos que apuram a participação de integrantes da base do governo no esquema da Lava Jato. A interlocutores, Medina disse que a solicitação teria sido feita sem alinhamento com a Casa Civil, que temia um “incidente político” com apoiadores no Congresso. Segundo a revista Veja, Medina disse que “o governo quer abafar a Lava Jato”. O Planalto nega. Para o cargo, foi nomeada a secretária-geral do Contencioso da AGU Grace Maria Mendonça.    

Folha de S. Paulo
"Vantagem de Russomanno cai; Marta e Doria crescem"

Segundo Datafolha, tucano avançou entre o eleitorado masculino e senadora, entre as mulheres

A vantagem do deputado Celso Russomanno (PRB) na corrida à Prefeitura de São Paulo encolheu dez pontos percentuais — ele está em empate técnico com a senadora Marta Suplicy (PMDB). Segundo o Datafolha, o empresário João Doria (PSDB) cresceu 11 pontos e está numericamente em terceiro. O instituto ouviu 1.092 pessoas nesta quinta (8). Em comparação à pesquisa feita em 23 e 24 de agosto, Russomano passou de 31% para 26% das intenções. Nas simulações de segundo turno, ele vence em todos os cenários, com menos folga. Derrotaria Marta por 45% a 38% (vantagem caiu 12 pontos) e Doria por 52% a 28% (diferença caiu 23 pontos). Com maior tempo de televisão, o tucano cresceu de 5% para 16% e está tecnicamente empatado com a peemedebista, que cresceu de 16% para 21%. Ele avançou entre o eleitorado masculino, rico e mais escolarizado; ela melhorou entre as mulheres e os mais pobres. O prefeito Fernando Haddad (PT) e a deputada Luiza Erundina (PSOL) oscilaram dentro da margem de erro, de três pontos percentuais para mais ou para menos. Ele passou de 8% para 9%, e ela, de 10% para 7%. A três semanas do pleito, no dia 2 de outubro, o petista ainda é o nome com maior rejeição: 46% disseram que não votariam nele, ante os 49% em agosto. 
 

sexta-feira, setembro 09, 2016

Mooney M20C Ranger


Coluna do Celsinho

Colégio Dominique: rumo aos 40

Celso de Almeida Jr.

Conversando com a Prô Aninha e o Celso, pai, rememoramos a trajetória do Colégio Dominique.

É claro que não sai do pensamento cada degrau subido - e descido - nesta jornada que tanto esforço exigiu de nossa família.

Mas, naturalmente, às vésperas do 40º ano letivo, as lembranças afloram com muita intensidade.

Não foi fácil chegar até aqui.

Há, nesta bonita história, um monumental esforço coletivo de professores, funcionários, pais e alunos que integraram os quadros do colégio em algum momento nestas quatro décadas.

Empreendedores brasileiros, em Ubatuba, não escapamos das dores de manter uma empresa por tanto tempo, sobrevivendo aos mais complexos desafios administrativos.

Como conseguimos?

Muito esforço, muito trabalho, muita perseverança e - claro - muito apoio e solidariedade de profissionais, familiares e amigos queridos.

Há, porém, algo mais.

Afinal, sabemos que as qualidades acima fizeram parte de muitas empresas que não conseguiram sobreviver.

Assistimos, com tristeza, o fechamento de diversos estabelecimentos das mais variadas áreas - incluindo escolas - nestes quase quarenta anos em que atuamos em Ubatuba.

Não estou discutindo aqui a prestação de serviços em si, já que, justiça seja feita, a maioria que cerrou as portas também oferecia muita qualidade.

Refletindo sobre qual diferencial nos ajudou - e ajuda - a avançar, consideramos vários fatores, chegando a uma avaliação que parece solucionar esta questão.

Qual?

A empresa sobreviveu graças - também - ao gigantesco amor que nutrimos pelo processo educativo e - simultaneamente - pelo total desprendimento de bens materiais.

Declinamos de várias conquistas pessoais e direcionamos tudo para a existência da escola.

Horas e horas de trabalho para esta grande causa que tanto nos sensibiliza.

A vida austera a que nos submetemos não deixou de gerar controvérsia e incompreensão.

Reações previsíveis, dado o padrão a que toda sociedade é submetida.

O fato é que - cientes de que a vida passa e dela nada levaremos - ficará neste caso um singelo exemplo de investimento particular em educação.

A recompensa?

Ora, ela vem todos os dias, em doses homeopáticas.

Ontem mesmo, parado no semáforo, ouço um grito da esquina:

"Celso!!! Um aluno de vocês agora é Mestre!!!"

Era um papai, cujos filhos estudaram com a gente há algum tempo, compartilhando com orgulho a boa nova.

Sorri e acenei, muito feliz, realizado!!

Abriu o farol; segui em frente.

Rumo aos 40 anos...

Viste: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

O despertar dos mágicos

Gabeira
Lá se foi o impeachment de Dilma. Em poucos dias a Câmara se livra de Eduardo Cunha. Começou uma nova fase, mesmo para aqueles que não a desejavam.
Os defensores do governo caído também mudaram de palavra de ordem. Volta Dilma saiu de cartaz e no lugar entrou o slogan Diretas Já.

Em tese, deveria começar logo o tempo de mudanças que recuperem a economia, a grande prioridade do momento. Mas por mais que deseje a melhora, novos horizontes, retomada das contratações, o governo Temer ainda não inspira a confiança necessária.

Ele nem se preocupou em enterrar a velha fase. Na China, Temer fez comentários sobre os protestos e Meirelles, que é ministro da Fazenda, também tentou analisá-los. São dois trapalhões com estilo diferente. Temer subestimou o movimento. Meirelles superestimou-o, afirmando que era um protesto substancial com 100 mil pessoas. Os comunicadores do governo não ganham o mesmo que João Santana cobrava do PT. Mas precisam ao menos ensinar uma fórmula de o governo tratar manifestações.

Não é complicado. Basta dizer que manifestações pacíficas são legítimas e as violentas, condenáveis. Não precisa analisar, comparar, tornar-se um comentarista de TV.

Já tendem a dizer bobagem no Brasil. Com o fuso horário trocado, entre uma e outra reunião na China, dormindo durante discursos, a tendência a cometer erros é exponencial. Eles estão se achando. Mas se esquecem de que são apenas a parte que ainda escapou da polícia e, pelas circunstâncias legais, tornou-se a detentora do governo.

Nesta semana foi aberta uma nova frente de investigações policiais: os fundos de pensão. Isso bate direto no PT, que dominava esses fundos.

Mas não deixará de lado o parceiro PMDB. O ex-ministro Edison Lobão já tem seu nome envolvido. O próprio Henrique Meirelles era um dos diretores do Grupo JBS. Ele diz agora que era apenas consultor do grupo. Mas quando entrou para o grupo os rumores sobre a JBS já eram muito intensos. Já se falou de tudo sobre ela. Era tão próxima do governo que se espalhou o boato de que o Lulinha era um dos seus sócios.

O que há de verdade, comprovável pelos fatos, é que a JBS tomava grandes empréstimos do BNDES e injetava muito dinheiro nas campanhas políticas. Dos R$ 2,5 bilhões que pegou do governo, repassou 18,5% da grana em doações. Mas o grupo tinha uma sede enorme de recursos públicos. Não lhe bastava o financiamento, a juros amigos, do BNDES. Era preciso entrar nos fundos de pensão.

O JBS floresceu no governo do PT e era um de seus principais financiadores. Meirelles era do governo anterior e acabou se integrando nessa máquina de captação de dinheiro público. Para mim, soa como um canastrão em suas entrevistas. O mercado o aprova, Temer o escolheu para a retomada, resta esperar que faça a coisa certa.

Quando a Polícia Federal anunciou o tamanho das dívidas dos fundos de pensão, algo como R$ 54 bilhões, a grande pergunta que ficou no ar: como foi possível um rombo dessa dimensão sem que o País se desse conta?

Os boatos sobre aparelhamento datam de 2003. Porém não compartilho a ideia de que a imprensa se tenha omitido e seja a culpada. Os dirigentes dos fundos trabalharam muito para proteger a caixa-preta.

As investigações que resultaram na Operação Greenfield nasceram de reportagens em alguns dos maiores jornais do País. O próprio Ministério Público reconhece que esse foi o ponto de partida.

Demorou, reconheço. Congresso, oposição e autoridades, que deveriam controlar o processo, falharam.

No momento em que se discute a reforma da Previdência, a esquerda, certamente, vai combater as mudanças, mesmo pressentindo que a estrutura atual é insustentável.

É legítimo e necessário que os interesses dos aposentados sejam defendidos num modelo renovado. Mas a base para essa defesa é enfraquecida não só diante da manipulação dos fundos e do golpe nos empréstimos consignados. Os aposentados, afinal, são “os nossos velhinhos que queremos proteger” ou apenas um pretexto para desviar milhões para os cofres do partido ou mesmo para a fortuna pessoal dos dirigentes?

Com o impeachment realizado, esperava uma ligeira queda na temperatura política. Compreendo que as pessoas queiram discutir ainda se houve golpe ou se foi legal. Mas é necessário também olhar para a frente. A mediocridade do governo é o que temos disponível para realizar a transição até 2018.

Durante algum tempo Temer acenou para algo melhor depois do impeachment. Prometeu que mudaria o Ministério, etc. e tal. Aparentemente, é só conversa. As tarefas de recuperação da economia e da política são bastante claras. Temer está feliz com a Presidência, que não alcançaria em outras circunstâncias.

Será preciso um grande impulso para que o País saia da crise. Se o governo, pelo menos, não atrapalhar, há uma esperança de que se chegue a 2018 com alguns problemas resolvidos. Isso numa visão francamente otimista.

A tendência a buscar soluções fáceis para problemas complexos continua sendo, na forma do populismo de direita ou de esquerda, uma grande força eleitoral.

Dentro de dois meses teremos eleições nos EUA. A trajetória de Donald Trump sugere muitas análises. Tanto lá como aqui, ampliou-se a estrada da aventura política. É um novo despertar dos mágicos, dos construtores de muros, à direita, aos multiplicadores dos pães, à esquerda.

Enganado por uma falsa renovação ética, saqueado pela corrupção que arruinou grandes empresas, a tendência do eleitorado brasileiro, imagino, será de sobriedade. O que virá em 2018 dependerá muito do que a sociedade construir agora, nesse período de transição. Tempo também para os que querem dedicar sua vida a melhorar a vida do povo reflitam se querem mudanças sustentáveis ou preferem só acalmar sua consciência.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 9 / 09 / 2016

O Globo
"Atraso no ajuste fiscal pode custar mais R$ 21 bi"

Sem reformas, país teria de cortar mais gastos ou subir impostos

Estudo mostra que, se o governo não implementar medidas para sanear as finanças até o fim deste ano, será ainda mais oneroso evitar uma alta na dívida pública, que hoje já é de 69,5% do PIB

Quanto mais o governo demorar para fazer o ajuste fiscal, maior ficará a conta a ser paga pelos brasileiros para evitar um descontrole no endividamento público. Estudo dos economistas Rubens Penha Cysne, da FGV-Rio, e Carlos Thadeu de Freitas, da CNC, mostra que, desde junho, a ausência de reformas já custou R$ 6,6 bilhões ao país. Se o governo chegar ao fim do ano sem aprovar as medidas e deixá- las para o primeiro trimestre de 2017, o país terá de arcar com R$ 21 bilhões a mais em impostos ou corte de gastos para evitar um aumento da dívida pública, que hoje já está em 69,5% do PIB.                    
 
O Estado de S.Paulo
"Governo quer jornada de trabalho de até 12h/dia"

Plano é dar segurança jurídica a empregadores; teto semanal será mantido em 44 horas mais 4 extras

A reforma trabalhista que será proposta pelo governo até o fim do ano pretende elevar o limite da jornada diária de 8 para 12 horas. Segundo o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, a ideia é dar segurança jurídica a empregadores que já adotam esse regime por meio de acordos com categorias, mas viram alvo de questionamento na Justiça. O teto semanal será mantido em 48 horas – 44 mais 4 extras. A proposta criará mais dois tipos de contrato: por hora trabalhada e por produtividade. Parte das categorias já adota algum tipo de flexibilização, como a dos vigias e profissionais de saúde, que recorrem ao regime de 12 horas de trabalho por 36 de folga. Alguns juízes, porém, não reconhecem esses acordos. “A convenção coletiva vai ter força de lei para tratar de que forma a jornada semanal de 44 horas será feita”, disse o ministro. Centrais sindicais reagiram à proposta. O anúncio também irritou o Planalto, porque teria dado a entender que o governo quer aumentar a jornada semanal.    

Folha de S. Paulo
"Governo Temer quer permitir contratos por hora trabalhada"

Proposta flexibiliza jornada semanal, com limite de 48 h, e autoriza vinculo de profissional com mais de uma empresa

A reforma trabalhista a ser proposta pelo governo Michel Temer (PMDB) vai incluir a possibilidade de contratação por produtividade ou por horas trabalhadas, além da opção hoje em vigor, por jornada de trabalho. O plano foi divulgado nesta quinta (8) pelo ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, em encontro com sindicalistas em Brasília. Segundo ele, o limite será de 48 horas semanais de trabalho nessas modalidades. O texto, que precisa ser submetido ao Congresso, permitirá que o trabalhador tenha vínculos empregatícios com mais de uma empresa ao mesmo tempo. “Ele pode ter diversos contratos por hora trabalhada. Vai receber pagamento do FGTS proporcional, férias proporcionais e 13° proporcional”, disse Nogueira. Nos contratos de produtividade, o profissional poderá ser contratado para executar serviços específicos. A reforma ainda prevê que convenções coletivas possam definir a distribuição da jornada de 48 horas (44 horas normais mais 4 horas extras), normalmente em 8 horas diárias, com limite de até 12 horas por dia. O ministro negou que as mudanças possam tirar direitos trabalhistas ou alterar benefícios como férias, 13° salário e fundo de garantia. “Não tem nenhum risco de o trabalhador perder direitos constitucionais”. 
 

quinta-feira, setembro 08, 2016

Física


Opinião

'A Morte de Ivan Ilitch', de Tolstói, revela as mentiras da existência

João Pereira Coutinho
Amigo leitor: peço desculpa pelo uso abusivo da palavra. Eu não sou seu amigo. Nem você é meu. Não nos conhecemos e, francamente, melhor assim. Eu escrevo e, com sorte, alguém lê desse lado. É uma troca justa. E basta.

Aliás, por falar em amigos, quantos você tem? Cinco? Dez? Vinte? Melhor cortar o número para metade. Tempos atrás, li um estudo sobre as nossas falsas percepções sobre os amigos. E parece que só metade das amizades que julgamos sólidas são recíprocas. Na outra metade estão pessoas que não pensam em nós, pensam pouco ou até pensam mal.

Essas conclusões não me espantam. Experiência cotidiana: alguém fala que encontrou o personagem X e ele, eufórico, falou de mim como "grande amigo".

Disfarço, por gentileza. Mas, se fizesse uma lista com as cem pessoas que passaram pela minha vida –da família mais próxima ao homem que me vendeu os jornais meia hora atrás–, o personagem X não estaria presente.

Aqui entre nós, quem é o personagem X? E, já agora, por que motivo tendemos a inflacionar o número de amigos que julgamos ter?

Fato: o conceito de "amizade" tornou-se uma caricatura, sobretudo quando é possível colecionar centenas ou milhares de "amigos virtuais" no mundo virtual. O pessoal confunde as coisas e julga que um "like" é uma jura de amor eterno.

Mas as conclusões do estudo também não me espantam por causa de um livro publicado há precisamente 130 anos. O autor é Lev Tolstói (1828-1910) e o título é "A Morte de Ivan Ilitch".

Primeira confissão: "A Morte de Ivan Ilitch" sempre me pareceu um erro. "A Vida de Ivan Ilitch" seria a titulatura mais apropriada porque é de vida, e não de morte, que Tolstói nos fala.

Sim, superficialmente, temos um homem que adoece com gravidade e que caminha para o seu cadafalso com a angústia e o ressentimento dos condenados.

Mas a novela de Tolstói é uma meditação avassaladora sobre as mentiras da existência "comme il faut".

A expressão francesa é usada e abusada pelo narrador com propósitos irônicos, mas também descritivos. Ivan Ilitch era a promessa da família –e a promessa se cumpriu.

Estudou, formou-se, tornou-se funcionário judicial de sucesso. E procurou sempre uma vida "comme il faut" que estivesse à altura dos gostos da plateia. Teve um casamento "comme il faut"; uma casa "comme il faut"; uma carreira de magistrado "comme il faut".

E, quando a harmonia doméstica começou a ruir, Ivan Ilitch resolveu o assunto "comme il faut": casou-se com o trabalho e transformou a mulher em "hobby" suportável.

É perante esta gloriosa encenação que a morte surge como elemento dissonante –ou, se preferirmos, "pas comme il faut". Ivan analisa a dor da enfermidade como se aquilo fosse um elemento estranho, injusto, "fora do lugar". Nega a sua condição (morrer, eu?) e, quando a enfrenta, é devorado por um terror gélido ("sim, eu").

Nas mãos de um escritor banal, a doença serviria para mostrar a Ivan Ilitch que as medalhas que ostentamos ao peito não nos protegem do fim inevitável e blá-blá-blá.

Para um monstro como Tolstói, a morte de Ivan Ilitch é a "via dolorosa" da sua salvação. Porque é a morte que permitirá ao personagem olhar para os outros e para ele próprio sem viciar "o fundo insubornável do ser" de que falava o filósofo Ortega y Gasset.

É, enfim, uma visão límpida e aterradora. A mulher e a filha, cansadas da agonia de Ivan, consideram-no um estorvo, um repulsivo estorvo que a morte tarda em levar.

E, quando recorda a sua vida, é na infância, e apenas na infância, que Ivan Ilitch encontra uma felicidade autêntica e sem sombra. A conclusão é trágica e, ao mesmo tempo, libertadora: enquanto subia aos olhos dos outros ("comme il faut"), Ivan Ilitch descia rumo ao naufrágio.

É esse naufrágio, essa falsificação espiritual que encontramos nos "amigos" de Ivan quando sabem da notícia da morte. Uns pensam nas suas carreiras (quem ocupará o lugar do defunto? haverá promoções?). Outros sentem alívio ("foi ele, não fui eu"). E todos suspiram com as obrigações sociais entediantes (ir ao funeral, consolar a viúva etc.). "The show must go on."

Amigos? Temos dezenas, centenas, milhares. E assim continuaremos –autoiludidos e autocentrados– até chegarmos ao leito derradeiro onde estarão poucos ou ninguém. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 8 / 09 / 2016

O Globo
"Paralimpíada emociona Maracanã"

Depois do tom histórico da festa da Olimpíada, a emocionante abertura da Paralimpíada se concentrou nos desafios daqueles que enfrentam necessidades especiais. Um Maracanã lotado se encantou com a americana Amy Purdy, que bailou sobre duas próteses com um robô industrial. A festa, que começou com um salto em cadeira de rodas, teve quebra-cabeça virando coração e muitos outros pontos altos, como a chegada da bandeira, levada por pais unidos aos filhos deficientes com botas adaptadas, e a passagem da chama entre as ex-corredoras Márcia Malsar, que caiu no piso molhado pela chuva, e Ádria Santos. No fim, o nadador Clodoaldo Silva acendeu a pira paralímpica.                    
 
O Estado de S.Paulo
"Janot envia ao STF parecer pró-aborto em caso de zika"

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) parecer favorável à possibilidade de aborto em casos de grávidas contaminadas pelo vírus da zika. O relatório passa a integrar o processo que pede a concessão desse direito a mulheres infectadas pela doença. A posição da Procuradoria-Geral da República diverge da defendida pela Advocacia-Geral da União.

Para a AGU, o aborto nesses casos “seria frontalmente violador ao direito à vida”, considerando que os danos e limitações causados pela zika não tornam a sobrevivência inviável. Atualmente, por lei, a interrupção da gravidez é permitida só quando há risco para gestante, estupro e situação comprovada de anencefalia. Algumas entidades civis e a Igreja adotaram imediatamente posição contrária ao parecer do procurador. Ainda não há data para que o Supremo julgue a questão.    

Folha de S. Paulo
"Estudantes do ensino médio têm a pior nota de matemática"

O nível de aprendizado dos brasileiros no ensino médio piorou em matemática e chegou no ano passado ao pior resultado desde 2005, início da série histórica do Saeb (Sistema de Avaliação da EducaçãoBásica), informa Paulo Saldaña. A nota de português subiu, mas ficou abaixo do nível registrado em 2011. Por outro lado, o desempenho subiu nessas duas disciplinas nos dois ciclos do ensino fundamental.

As notas na prova, junto com indicadores de reprovação e evasão, compõem o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). O índice é calculado a cada dois anos, com as médias do Brasil, Estados, municípios e por escola. Os dados mais recentes se referem à avaliação realizada em 2015.

De acordo com a escala de proficiência do Saeb, os resultados de matemática indicam que os estudantes não seriam capazes, por exemplo, de fazer cálculos simples de probabilidade. Em português, os alunos não conseguiram identificar informação implícita em textos mais complexos, como poemas modernistas. O Ministério da Educação não quis comentar os resultados do Saeb. 
 

quarta-feira, setembro 07, 2016

Física


Opinião

Transação bancária simples vira pequeno drama burocrático

Ferreira Gullar
Vou contar a vocês uma história que talvez lhes interesse porque, no fundo, diz respeito a todos nós, que somos obrigados a pôr nosso dinheiro no banco. A coisa aconteceu com o Alex, meu amigo, mas poderia acontecer com qualquer um de nós, que temos os bancos como parte de nossa vida.

A história começa quando Alex devia receber, do exterior, o pagamento por um texto que escreveu para uma editora portuguesa. Não era nenhuma fortuna, apenas 4 mil euros. Foi então informado que teria de conseguir no Ministério da Fazenda do Brasil uma declaração que o confirmasse como contribuinte do Imposto de Renda. Do contrário, descontariam 25% do total a lhe ser pago.

Como não sabia de que modo obter a tal declaração, pediu a um primo seu, que é contador, para lhe quebrar aquele galho. O primo se informou e, então, pediu-lhe que redigisse um documento solicitando a tal declaração. Isso foi feito e entregue numa delegacia do Ministério da Fazenda, na Tijuca. Por que na Tijuca? Essa foi a informação que obtivera.

Após duas semanas sem resposta, foi o primo informado de que não era naquela delegacia, mas noutra, em Ipanema.

O documento foi então levado para essa outra delegacia. Passou-se um mês e nenhuma decisão. Dois meses, três meses, e nada.

Após seis meses, Alex desistiu de conseguir a tal declaração e dirigiu-se à editora dizendo que aceitava pagar os 25% de desconto. Melhor receber com desconto do que não receber nada.

Assim foi que a editora lhe pediu os dados bancários, mais algumas informações e prometeu, dentro de uns poucos dias, transferir o pagamento para o Brasil.

Dito e feito, uma semana depois chegou-lhe um e-mail informando que a grana já havia sido transferida para a sua conta, de modo que, em alguns poucos dias, poderia sacá-lo. E mandaram-lhe junto um documento que comprovava o depósito. Alex ficou tão contente que convidou alguns amigos para um almoço em La Trattoria, seu restaurante predileto, a fim de comemorar o feito. Era só o dinheiro chegar na conta que ele marcaria o almoço.

Passada uma semana, acessou sua conta pela internet e verificou que o depósito não havia sido feito. Decidiu ir ao banco para saber o que acontecera. O dinheiro fora depositado, mas, por alguma razão, a operação não se completara.

O gerente prometeu verificar o que ocorrera e lhe telefonaria informando. Não telefonou. Alex resolveu, depois de alguns dias, ir saber a razão daquilo. E soube: a editora, ao fazer o depósito, cometera um erro; por isso Alex deveria enviar, de novo, para lá, os seus dados, a fim de que a transferência do dinheiro fosse feita corretamente.

Ele os enviou, a editora admitiu que havia errado mas que já fizera a correção. O depósito estaria logo, logo, em sua conta.

Como isso não ocorreu, ele voltou ao gerente que confirmou o depósito. Agora, era só fazer a conversão para o real e isso somente ele, Alex, poderia fazer.

–Mas eu não sei fazer isso, disse ele ao gerente, que afirmou ser coisa simples e lhe explicou como fazer. Alex foi para casa, ligou o computador, tentou fazer a conversão e não conseguiu.

–Maldita a hora em que aceitei fazer esse tal texto para uma editora estrangeira!

Voltou ao banco.

–Deixa comigo, disse o gerente, e lhe pediu o número da conta, repetiu que era coisa simples e começou a fazer a tal conversão; mas parou exatamente onde Alex havia empacado. Pegou o telefone, ligou para o setor de câmbio e ficou falando um bom tempo. Com o fone no ouvido, deu curso à operação, mas parou de novo.

–Qual é o problema, perguntou-lhe Alex.

–É que a categoria direito autoral não tem aqui. Não dá para fazer a conversão em real. Volte amanhã, que vou ver se acho uma solução.

E Alex se foi, de mãos abanando. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 7 / 09 / 2016

O Globo
"Cassação de Cunha já tem 231 votos favoráveis"

Só 3 deputados ouvidos pelo GLOBO admitem absolver o acusado

Réu na Lava-Jato e processado por mentir sobre contas na Suíça, o peemedebista do Rio está sob pressão devido à sessão marcada para a próxima segunda-feira

Enquete feita pelo GLOBO mostra que o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, réu na Lava-Jato, terá grande dificuldade para preservar o mandato de deputado. No levantamento, 231 parlamentares anunciaram voto pela cassação de Cunha na sessão marcada para a próxima segunda-feira, apenas 26 a menos do que o necessário (257). Outros 243 não responderam ou disseram que não falarão antes. Apenas três aliados do peemedebista revelaram voto contra a cassação. Cunha responde por quebra de decoro por negar a posse de contas na Suíça. Perguntados também se irão à sessão, 34 admitiram que poderão se ausentar, o que equivale a voto pró-Cunha.                   
 
O Estado de S.Paulo
"Temer vai enviar reforma da Previdência antes da eleição"

Decisão foi tomada após pressão do PSDB para sinalizar apoio ao ajuste; votação do reajuste do STF está mantida

O Palácio do Planalto vai enviar a proposta de reforma da Previdência ao Congresso antes das eleições municipais, mesmo após pressão da base aliada. A decisão do presidente Michel Temer atende a reivindicação do PSDB, que quer sinalizações do governo com o compromisso de ajuste fiscal. A votação do projeto que reajusta o salário dos ministros do STF, porém, foi mantida para amanhã. “Queremos sinalizar a preocupação que temos em pôr as contas públicas em ordem e dar rumo à bagunça que herdamos do governo deposto e afastado”, disse o ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo). O presidente do PSDB, Aécio Neves, viu na iniciativa o cumprimento do que Temer vinha prometendo. Aécio e o governador Geraldo Alckmin (SP) criticaram anteontem a possibilidade de o governo adiar a discussão da proposta em razão do possível impacto nas eleições municipais.    

Folha de S. Paulo
"Investigação mira fundos de pensão do setor elétrico"

Para PF e Procuradoria, esquema pode ter atuado na construção de Belo Monte

Procuradores que conduzem as apurações sobre perdas em investimentos dos maiores fundos de pensão do país planejam investigar também negócios das entidades no setor elétrico. Um dos alvos é a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. A Petros, dos funcionários da Petrobras, e a Funcef, da Caixa Econômica, têm fatias de 10% na concessionária Norte Energia, consórcio formado também por empresas estatais e privadas e fundos de investimentos. Preso na primeira fase da Operação Greenfield, o ex-diretor-presidente da Funcef Guilherme Narciso de Lacerda é descrito pelos investigadores como um dos principais responsáveis pelo esquema criminoso que atingiu o patrimônio da Funcef. São alvos também as ligações dele com políticos que controlavam os fundos. A defesa de Lacerda afirmou que analisará os autos antes de se manifestar. Procurada, a Funcef não quis se pronunciar. 
 
 
Free counter and web stats