sábado, setembro 03, 2016

Física


Opinião

Comunismo e fascismo são gêmeos ideológicos contra a democracia liberal

João Pereira Coutinho
Morreu Ernst Nolte (1923-2016), um dos mais polêmicos historiadores da Alemanha nazista. E eu, por mero acaso bibliográfico, soube da notícia quando lia, maravilhado, "Fascisme et Communism", uma troca de cartas entre o próprio Nolte e outro gigante da história: o saudoso François Furet (1927-1997).

Eis o problema (e a polêmica) que Nolte nos coloca: será que o fascismo, e em especial o nazismo, foi uma resposta à ameaça comunista? Mais ainda (ou pior ainda): o antissemitismo genocida que marcou o Terceiro Reich pode ser entendido pela desproporcional participação de judeus no socialismo e no bolchevismo?

Perguntas dessas, na Alemanha do pós-Segunda Guerra, fizeram estremecer vários espíritos. Sim, Lênin é anterior a Mussolini; e Mussolini é anterior a Hitler. De igual forma, o Gulag é anterior a Auschwitz. Mas será que fatos meramente cronológicos podem ser também causais?

Binho Barreto/Editoria de Arte/Folhapress
Ilustração João Pereira Coutinho de 20.ago.2016
Sem surpresa, Ernst Nolte era a "bête noir" da historiografia alemã. Se o nazismo foi um "produto" do comunismo, isso não seria uma desculpa para o próprio nazismo?

E o que dizer do antissemitismo de Hitler? Será que ele pode ser justificado pela composição judaica da primeira geração bolchevique?

Nolte sempre se defendeu das interpretações maldosas das suas teorias –e repete o exercício no diálogo com Furet. Nas suas palavras, uma explicação "reativa" do nazismo não desculpa os crimes cometidos pelo regime.

O objetivo de Nolte é outro: procurar "entender" o nazismo (no sentido epistemológico do termo) sem o encerrar nos clichês habituais de "mal absoluto" ou infâmia de um "povo criminoso".

Eu "entendo" as perguntas de Nolte. E "entendo" as reações que elas provocaram. Hoje, casar comunismo e nazismo é moeda corrente para qualquer intelecto civilizado.

Mas as coisas não eram assim na segunda metade do século 20, quando uma longa legião de "idiotas úteis" festejavam sobre o cadáver de Hitler ao mesmo tempo que prestavam vassalagem a um psicopata igual: Stálin.

Mas no debate entre Nolte e Furet, estou com o segundo. O nazismo não é uma mera reação à Revolução Russa de 1917. François Furet prefere olhar para o comunismo e para o fascismo como gêmeos ideológicos contra um mesmo inimigo: a democracia liberal (ou "burguesa", para usar a linguagem das seitas) que emerge na Europa do século 19.

O ódio ao parlamentarismo é igual. O ódio ao capitalismo é igual. A defesa de um regime de partido único é igual. A exortação da violência como meio legítimo de construir o "homem novo" é igual.

Falar de Raça, ou Proletariado, é questão de pormenor quando o fim é semelhante: a destruição da democracia pluralista pela imposição do Estado totalitário. Escusado será dizer que os resultados não poderiam ter sido outros: a mesma desumanidade e a mesma montanha de cadáveres.

De igual forma, estou com François Furet sobre o antissemitismo nazista. Hitler não precisava de bolcheviques judeus para destilar o seu ódio. Capitalistas judeus também serviam (ó supremo paradoxo!). E, além disso, será preciso lembrar que o fascismo de Mussolini não era, de início, uma ideologia estruturalmente antissemita?

É possível estudar o comunismo e o fascismo "racionalmente", como pretende Nolte, desde que isso não signifique o apagamento da mesma fonte iliberal em que ambos beberam abundantemente.

Por último, existe uma dimensão dos fenômenos totalitários que está ausente em Nolte mas também em Furet. É a dimensão pseudo-religiosa do comunismo e do fascismo. Se Deus estava morto, como proclamou um filósofo célebre, estariam as massas finalmente libertas de qualquer "religião"?

Raymond Aron (1905-1983), um compatriota de Furet, deu a resposta em "O Ópio dos Intelectuais" (uma obra-prima que a Três Estrelas editou recentemente): os movimentos totalitários, a começar pelo comunismo, mimetizaram a religião tradicional nos seus ritos e narrativas. Com uma diferença: prometeram aos "humilhados e ofendidos" uma recompensa terrena, e não celestial.

Os anos passam, as leituras acumulam-se. Mas a interpretação de Aron sobre as "religiões seculares" parece-me cada vez a explicação definitiva para tantos "fiéis", "sacerdotes" e executados "heréticos".

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 3 / 09 / 2016

O Globo
"Governo pretende propor mudança de regras no FGTS"

Fazenda quer usar Fundo também para financiar seguro-desemprego

Avaliação é que a atual remuneração aos trabalhadores é baixa

O governo pretende mudar o modelo do FGTS. O Fundo de Garantia seria usado para financiar o seguro-desemprego e para criar aposentadoria complementar aos trabalhadores do setor privado, informa GERALDA DOCA. O Tesouro Nacional abriu licitação para selecionar um estudo sobre a reforma do Fundo. Para a equipe econômica, a remuneração do FGTS é baixa, o que estimula os saques e uma rotatividade excessiva no mercado de trabalho. Além disso, os gastos com seguro-desemprego pressionam as contas públicas.                  
 
O Estado de S.Paulo
"Pressionado, Temer dá aval a ação no STF contra acordão"

PMDB assina mandado de segurança que tenta anular decisão de manter os direitos políticos de Dilma Rousseff

Com aval do presidente Michel Temer, o PMDB decidiu aderir ao mandado de segurança protocolado por outros quatro partidos da base aliada no Supremo Tribunal Federal (STF) pela anulação da votação do Senado que isentou a ex-presidente Dilma Rousseff da inabilitação para assumir cargos públicos por oito anos. PSDB, DEM, PPS e Solidariedade também assinam o pedido. O argumento é de que o desmembramento da votação, realizada na quarta-feira, “fere a Constituição”. O caso provocou divisão na base governista. A estratégia para poupar Dilma foi traçada pelo PT com a ajuda do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Doze dos 19 senadores peemedebistas votaram pela “anistia” à ex-presidente. Em viagem oficial à China, Temer buscava ontem um meio de desfazer a ideia de que teria dado aval ao que o governo chama de “manobra”.  

Folha de S. Paulo
"Temer busca na China dar legitimidade ao governo"

Presidente e sua equipe falam de um "novo Brasil", estável e responsável

O presidente Michel Temer (PMDB) dedicou o início da viagem à China a um esforço para se legitimar internacionalmente, relata a enviada Johanna Nublat. Temer e sua equipe adotaram um discurso de reunificação e de estabilidade e tentaram transmitir a imagem de um “novo Brasil”. “É um país seguro e estável, não há conflitos políticos ou religiosos”, disse o ministro Henrique Meirelles (Fazenda) em Xangai, durante seminário para empresários do Brasil e da China. Ele considerou que o processo que resultou na deposição de Dilma Rousseff (PT) foi feito “em paz, dentro das normas da Constituição”. Temer afirmou que o “fundamento central” de seu govemo é a responsabilidade —fiscal, monetária e política. Ele disse que no período em que governou como interino 0 país avançou. “As expectativas dos agentes econômicos melhoraram, a confiança foi restabelecida e os indicadores começaram a se recuperar.” Segundo o chanceler José Serra, 0 presidente chinês, Xi Jinping, convidou Temer para uma nova visita ao país, em data a ser marcada. O peemedebista participará da cúpula do G20 a partir deste sábado (3). 
 

sexta-feira, setembro 02, 2016

Bombardier (de Havilland Canada) Dash 8


Coluna do Celsinho

Angelicais

Celso de Almeida Jr.

Esse imbróglio de cassar o mandato da presidente Dilma mantendo os seus direitos políticos vai dar Samba.

Ou Coco de Roda, para ser mais fiel a um ritmo das Alagoas.

A dupla Renan-Lewandowsky deu o que falar ao articular para fatiar a pena da presidente destituída.

Afinal, está lá, no Artigo 52 de nossa Constituição, o procedimento correto previsto para o caso de Impeachment:

Parágrafo único - Nos casos previstos nos incisos I e II, funcionará como Presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis.

A letra é clarinha, fácil de entender: perde o cargo e fica inabilitada para função pública.

Pois bem...

Agora, caberá ao Supremo Tribunal Federal se manifestar sobre a lambança.

Estou curioso para ouvir as manifestações dos Ministros.

O constrangimento a que Ricardo Lewandowsky será submetido servirá como um alerta, revelando que o Brasil vive novos tempos.

É o que espero, claro.

Afinal, não venham me dizer que alterar a Constituição para garantir emprego público para Dilma Rousseff foi um gesto de caridade.

Ou estou enganado?

Pensando melhor, é possível que até faça algum sentindo.

Afinal, de boa intenção, o inferno está cheio...

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

O que faz que, apesar da separação dos amantes, um amor não acabe?

Contardo Calligaris
Dizem que, às vezes, os mortos permanecem entre os vivos porque, antes de irem embora de vez, eles precisam pagar ou cobrar dívidas, entregar um recado, recompensar quem os ajudou ou vingar-se de quem os atrapalhou. Em suma, eles ficam durante um tempo porque sua vida deixou pendências.

Que eles andem assim pelas ruas ou pelo cérebro da gente, tanto faz. De uma maneira ou de outra, os mortos com quem temos negócios inacabados continuam entre nós.

Algo parecido acontece com nossos parceiros amorosos: alguns somem quando o amor acaba –pronto, foi bom enquanto durou. E outros, não.

Os que somem (esquecem-se da gente, e a gente se esquece deles) não foram menos significativos do que os outros –o amor não foi menos intenso. Apenas parece que a história de amor com eles não deixou pendências.

Agora, os que não somem, assombram (e alegram) nossa vida de várias formas: em reencontros e "revivals" periódicos, no lamento tácito do "destino que nos separou" e nos sonhos do uma vida que seria "diferente", se tivéssemos escolhido ficar com eles ou eles tivessem escolhido ficar conosco.

"Café Society" é um dos melhores e dos mais divertidos entre os filmes de Woody Allen. É também um filme maduro: se é que existe uma sabedoria dos 80 anos, Woody Allen está com ela. E os 80 são uma ótima idade para se debruçar sobre os amores inacabados.

O filme conta a história de Bobby, que vai de Nova York a Hollywood para tentar fortuna. Ele conhece Veronica. Juntos, eles sonham com Greenwich Village e parecem preferir os poetas e os artistas ao "star system". Mas eis que reaparece o namorado anterior de Veronica...

Deixo ao espectador o prazer de se comover com a história. E me pergunto: o que faz com que, apesar da separação dos amantes, um amor não acabe?

Às vezes, os amantes são afastados por uma força maior: o deslocamento obrigatório de um deles e a impossibilidade de o outro acompanhá-lo –mudanças inevitáveis, uma doença, a morte...

Ou, então, a separação acontece pela renúncia de um dos dois, que entende seu gesto como heroico –como quando alguém sacrifica seu amor para cuidar da velha mãe ou das crianças pequenas.

Outras vezes, um dos amantes ou os dois se apaixonam por terceiros e, em vez de terminar sua história comum, eles não deixam de se amar (sim, é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo).

Outras vezes, ainda, um dos amantes desiste por comodismo e conforto, e os dois passam a vida lamentando essa escolha.

Enfim, amores inacabados fazem parte da história de todos ou quase. E essas paixões interrompidas se tornam o símbolo das vidas nas quais, quem sabe, teríamos sido outros do que somos.

Mas os amores inacabados não têm nada a ver com a esperança do novo, do inédito. Eles são o lamento dos caminhos dos quais desistimos.

Quando pensamos neles (ou quando eles reaparecem na realidade), eles funcionam como exercícios (teórico-práticos) contra a continuidade e a previsibilidade de nossa vida, como lembretes de uma liberdade possível desperdiçada.

A primeira lei de Newton diz que uma massa sempre tende a continuar seu movimentando em linha reta e com velocidade constante.

A gente não é apenas uma massa: obedecemos ao princípio de inércia, amamos a repetição, mas, ao mesmo tempo, vige para nos uma espécie de primeira lei da psicodinâmica, segundo a qual estamos sempre sonhando com um movimento que seja uma exceção à lei da inércia.

Um amante gravita como um planeta ao redor do seu sol, que é o objeto amado. O movimento do amante é curvilíneo por causa da força centrípeta que puxa o amante em direção de seu amado. Se não fosse por essa força centrípeta, todos estaríamos avançando sozinhos, nas nossas trajetórias retilíneas. Em tese, para sair da órbita do amado, o amante poderia encontrar uma outra força centrípeta que o atraísse mais.

Para se liberar de um amor, seria preciso encontrar outro. Mas não é só o novo que nos liberta: o passado também tem essa função. Sem recorrer a um novo amor, todos conhecemos o charme da ideia de sair de órbita, de sair do círculo.

A segunda lei da psicodinâmica é o charme da tangente, que pode ser alimentado pelo espírito de aventura e pela paixão do novo, mas também pela nostalgia dos amores inacabados –ou seja, dos rumos que não tomamos nas encruzilhadas da vida. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 2 / 09 / 2016

O Globo
"Aliados de Temer recorrem para tornar Dilma inelegível "

Ex-presidente também apela ao STF, mas para anular julgamento

Ministros do Supremo, Gilmar Mendes e Celso de Mello criticaram a decisão do Senado, chancelada pelo ministro Lewandowski, que permitiu a divisão do processo e beneficiou a petista

PSDB, DEM, PPS e também o PMDB do presidente Michel Temer decidiram recorrer ao Supremo Tribunal Federal contra o fatiamento do julgamento da ex-presidente Dilma Rousseff pelo Senado, que a livrou da pena de proibição de ocupar cargo público. A divisão do processo foi criticada pelos ministros do STF Gilmar Mendes e Celso de Mello. “É, no mínimo, bizarro”, atacou Gilmar. Para o decano Celso de Mello, o impeachment “não pode ser dissociado” do veto a futuras candidaturas. A defesa de Dilma também recorreu ao Supremo, mas para tentar anular todo o julgamento do Senado.                 
 
O Estado de S.Paulo
"Cresce reação de partidos e ministros do STF a ‘acordão’"

PSDB, DEM, PMDB e outras três legendas vão ao Supremo contra fatiamento de votação no Senado

Aliados de Michel Temer no Senado decidiram protocolar recurso STF contra o fatiamento da votação do impeachment de Dilma Rousseff. Encabeçado pelo PSDB, o documento será assinado por DEM, PPS e parte do PMDB, partido que registrou votação expressiva contra a inabilitação da petista por 8 anos. Além de abrandar a pena de Dilma, a votação abriu precedente que pode beneficiar Eduardo Cunha e outros parlamentares. Seis mandados de segurança foram protocolados no STF para tentar anular o fatiamento. A defesa de Dilma entrou com pedido para reverter todo o impeachment. Para o ministro Gilmar Mendes, do STF, fatiamento foi “no mínimo, bizarro”. Celso de Mello o chamou de “pouco ortodoxo”. Na China, Temer disse estar acostumado a “pequenos embaraços” na base. Segundo ele, a questão “sai do plano exclusivamente político para um quadro de avaliação de natureza jurídica, o que convém às instituições”.  

Folha de S. Paulo
"Coalizão de Temer lidera arrecadação eleitoral pelo país"

Na dianteira em 2012, candidatos do PT estão até agora em sétimo lugar, segundo dados da Justiça Eleitoral

Partidos que formam a base aliada do governo Michel Temer (PMDB) lideram a arrecadação de verba para as eleições municipais, de acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Atingido pelo impeachment de Dilma Rousseff e a Lava Jato, o PT ficou na dianteira em 2012 e agora é sétimo. Os dados tabulados pela Folha correspondem às informações entregues por candidatos até o último dia 31. O PMDB é o partido com mais receita entre os postulantes a prefeito e vereador, com cerca de R$ 44 milhões. Em relação à arrecadação total de 2012, a fatia continua em cerca de 14% do total. Em seguida vem o PSDB, que voltou ao governo após 14 anos, com R$ 35 milhões, ou quase 12% na eleição anterior e na atual, até agora. Afatia do PP, aliado do PT durante as gestões Dilma e Lula, foi a que mais cresceu. Diretórios de campanha da sigla que comanda a pasta da Saúde no governo Temer arrecadaram R$ 26 milhões até agora. Em quatro anos, o PP passou de 5,4% para 7,8% da receita total. Em 2012, os petistas concentravam 15% dos recursos. Neste ano, eles têm 5,97%. Segundo o presidente do PT-SP, Paulo Fiorilo, a sigla optou por reduzir o número de candidatos e o uso do fundo partidário em eleições. 
 

quinta-feira, setembro 01, 2016

Física


Opinião

Fim de jogo

Gabeira
O impeachment representa oficialmente o fim de uma experiência de 13 anos da esquerda no governo. Em 1964, após o golpe do militar, ela denunciou a ditadura, mas mergulhou num processo de autocrítica, destacando o populismo como um dos seus grandes erros. Infelizmente, para uma parte importante dela, o caminho escolhido foi a luta armada com todas as suas consequências. Esse processo foi alvo de intensa autocrítica que nos levaria, se a análise fosse completa, a uma marcha pelas instituições.

O chamado socialismo do século XXI, que teve suas consequências mais graves na Venezuela, lançou na América do Sul um modelo que não era a marcha pelas instituições, e sim a captura das instituições. Primeiro o Executivo, depois o Legislativo, o Judiciário e, finalmente, a imprensa.

Nesse modelo, a democracia é só uma tática não o objetivo estratégico. O populismo, no fundo, partilha dessa escolha. A diferença da experiência democrática de agora é a ausência de autocrítica. A narrativa do PT é que ele foi afastado do poder por suas qualidades e o bem que fez ao país.

Compartilhei das críticas no pós-64 e das críticas à luta armada que decorreu da análise equivocada do fracasso do populismo. Por que agora a autocrítica é tão difícil?

Quando deixei o PT e o governo, em 2003, disse que estava deixando pelo conjunto da obra. Vejo essa expressão retornar nos debates sobre o impeachment. Em 2003, não tinha ocorrido o mensalão e o que se passou até o processo que arruinou a Petrobras.

Todos esses fatos não produziriam ainda um impeachment pela lentidão das investigações e julgamento. Os decretos suplementares, o uso ilegal do Banco do Brasil revelam a ilusão de que o dinheiro cai do céu e podemos gastá-lo à vontade. O populismo orçamentário. De novo, o populismo derruba a esquerda.

Quando vejo jovens gritando “golpe” e outros slogans da esquerda, sinto ternura pelo passado, mas também inquietação. É possível que acreditem que o mal triunfou. A eles está sendo negada uma saudável crítica. No seu lugar, a visão monolítica. Num tempo de reconstrução política e econômica, revolução digital e aquecimento planetário, que papel terá uma esquerda se insistir no papel de vítima?

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 1 / 09 / 2016

O Globo
"Dilma está fora. E agora, Temer?"

Presidente terá 2 anos e 4 meses para cumprir compromissos:

Aprovar o ajuste fiscal e as reformas da Previdência e trabalhista

Reduzir o desemprego, atrair investimentos e destravar concessões

Enfrentar no Congresso e nas ruas a oposição anunciada por Dilma

Cumprir a promessa de não interferir no caso Eduardo Cunha

Apoiar a Lava-Jato e rechaçar ações que atrapalhem investigações

Administrar a divisão no PMDB e pacificar relação com PSDB e DEM
Num dia em que o país chegou a ter três presidentes, o Senado aprovou ontem o impeachment de Dilma Rousseff por 61 votos a 20, pondo fim a 13 anos de PT no poder. Numa articulação que teve o apoio do presidente do Senado, Renan Calheiros, e provocou protestos duros de PSDB e DEM, porém, os senadores mantiveram os direitos políticos de Dilma, decisão que poderá ser contestada no STF. Temer foi empossado logo em seguida. Antes de viajar para a reunião do G-20 na China, prometeu modernizar a legislação trabalhista, reformar a Previdência e ampliar programas sociais. Antes, disse que não aceitará mais “desaforos” e, a quem o chamar de golpista, responderá que “golpista é você”. Foi uma resposta a Dilma, que voltou a se dizer vítima de um golpe e afirmou que fará oposição incansável ao governo de seu ex-vice, a quem chamou de corrupto. Em São Paulo, manifestantes contra Temer depredaram bancos e até um carro de polícia.                 
 
O Estado de S.Paulo
"Impeachment, promessas e suspeita de acordão"

Temer diz que 'não vai levar ofensa para casa'; manobra no Senado mantém direitos de Dilma e gera crise na base aliada

O Senado cassou ontem, por 61 votos a favor e 20 contra, o mandato conquistado por Dilma Rousseff em 2014. Horas depois, Michel Temer tomou posse como o 37º presidente da República. O segundo impeachment da história do País encerrou 13 anos de PT no poder. Numa outra votação, que provocou polêmica, Dilma manteve o direito de exercer função pública, com 36 votos a seu favor. Autorizada pelo presidente do STF, Ricardo Lewandowski, a votação em separado que reduziu a punição da petisca gerou crise entre tucanos, peemedebistas e Planalto. 

A decisão abriu precedente que pode beneficiar o deputado afastado Eduardo Cunha e futuramente outros parlamentares ameaçados de cassação. Temer terá o desafio de manter uma base forte no Congresso para aprovar projetos necessários ao ajuste das contas públicas e tirar o País da recessão. Ontem, o IBGE divulgou que o PIB do segundo trimestre sofreu a sexta retração consecutiva e recuou 0,6% em relação ao primeiro trimestre. Em sua primeira reunião ministerial, Temer afirmou que adotará a postura do "bateu, levou" e não mais "levar ofensa para casa". Em pronunciamento na TV, disse que é hora de "união" e defendeu reformas trabalhista e previdenciária. À noite, embarcou para a China após passar o cargo ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Dilma disse que foi tirada do poder por "um grupo de corruptos investigados" e prometeu forte oposição.  

Folha de S. Paulo
"Senado destituiu Dilma; Temer pede pacificação"

Por 61 votos a 20, o senado depôs Dilma Vana Rousseff, 68, da Presidência da República. Michel Miguel Elias Temer Lulia, 75, que já exercia o cargo interinamente desde maio, assumiu em definitivo — ele tem mandato até dezembro de 2018. É a segunda vez que um presidente é cassado por impeachment desde a redemocratização, em 1985; a destituição de Fernando Collor de Mello ocorreu em 1992.

O processo foi consumado quase nove meses após o início da tramitação na Câmara e três meses e meio depois do afastamento provisório da petista. Ela foi condenada por crime de responsabilidade em razão de empréstimo e abertura de crédito ilegais, mas não perdeu direito de exercer funções públicas. A defesa recorrerá ao Supremo Tribunal Federal.

A cassação interrompe ciclo de 13 anos de gestão do PT, iniciado com Luiz Inácio Lula da Silva em 2003. O partido deixa o poder abalado, com lideranças em xeque e envolvidas na operação Lava Jato.

Em pronunciamento em cadeia nacional, o paulista Michel Temer disse que “a incerteza chegou ao fim” e que “é hora de unir o país”. Destacou também a importância de retomar o crescimento econômico e de reformar o sistema previdenciário. Na primeira reunião ministerial após a posse, o peemedebista adotou tom duro, dizendo que não vai tolerar ser chamado de golpista; ele afirmou ainda aos ministros que divisões na base aliada no Congresso são “inadmissíveis”. 

O recado sobre infidelidade foi para os aliados que ajudaram a manter os direitos políticos de Dilma — não está claro se ela poderá ocupar cargos eletivos. Essa decisão, tomada em segunda votação admitida por Ricardo Lewandowski, causou polêmica no meio jurídico, pois poderia contrariar a Constituição. A manobra irritou Temer, que não sabia da articulação. 
A eleição de 2018 é ponto de discórdia com o PSDB — se Temer reverter o cenário econômico, aliados aventam a reeleição. O presidente viajou já nesta quarta à China para reunião do G20 (grupo das maiores economias do mundo). 
 

quarta-feira, agosto 31, 2016

Física


Opinião

Mitologia do 'golpe' é um excesso de desonestidade intelectual

Alexandre Schwartsman
A mitologia do "golpe" se ampara na ideia de que as "pedaladas" se justificariam para manter o crescimento e o emprego. Reconhece, portanto, a ilegalidade da ação (a vilipendiada Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe operações de crédito entre o governo e seus bancos), mas argumenta se tratar de política com fins nobres: impedir a recessão e garantir que a população permanecesse ocupada.

Há vários problemas com o argumento. A começar pela contumaz noção de que fins justificam os meios, possibilitando a destruição do aparato institucional em nome de presumidos ganhos imediatos. Mesmo que estes se materializem —o que está longe de ser verdade—, não raro as consequências para a capacidade de expansão de longo prazo são desastrosas, em linha com nossa experiência recente.

Diga-se, aliás, que o objetivo, vendido como nobre, era bem mais mundano, a saber, ganhar uma eleição, nem que à custa de "fazer o diabo", posição tornada explícita ao longo do processo.

Isto dito, há sérias dúvidas acerca da adequação dessa política. Em primeiro lugar porque, conforme discutido mais vezes do que seria saudável neste espaço, em 2013 e em 2014, quando se usou e abusou desse expediente, estava mais do que claro que o problema da economia brasileira não era a falta de demanda originária da crise internacional (já então o mundo crescia bem mais do que nós), mas sim os sérios gargalos do lado da oferta, incluindo o mercado de trabalho.

Naquele contexto, aumentar gastos iria simplesmente agravar nosso desequilíbrio externo (e o agravou, trazendo o deficit em conta-corrente de US$ 75 bilhões para US$ 105 bilhões) e elevar ainda mais a inflação, apesar dos controles de preços, o que também ocorreu.

Junte-se a ambos esses desequilíbrios o forte aumento da dívida pública no período e fica claro que a política econômica da época, além de ineficaz para elevar o crescimento, era também nitidamente insustentável para qualquer economista que não fosse signatário do manifesto de apoio à presidente às vésperas da eleição.

Não faz tampouco sentido o raciocínio (se cabe aqui a expressão) que atribui ao excesso de responsabilidade fiscal a queda da presidente.

Em primeiro lugar porque, sendo a política anterior insustentável, não havia alternativa que não passasse pela correção dos desequilíbrios fiscais. Ao contrário, a crise que resultaria da manutenção da Nova Matriz, hoje uma pobre órfã, faria a atual parecer não mais que mera desaceleração econômica.

Mais importante, porém, a modestíssima contração fiscal que se materializou em 2015 dificilmente justificaria a queda observada do PIB. Ajustado ao padrão sazonal, o produto encolheu cerca de 6% entre o quarto trimestre de 2014 e o primeiro de 2016 (quase R$ 100 bilhões a preços do primeiro trimestre deste ano). Já o consumo do governo no mesmo período caiu menos do que 2%, ou R$ 5,5 bilhões no mesmo período.

Conforme notado por Samuel Pessôa, não há valores plausíveis para o multiplicador fiscal que justifiquem tamanho colapso econômico.

Trata-se, na verdade, de mais um episódio da notória desonestidade intelectual dos keynesianos de quermesse a serviço de um projeto político. Se há algo de bom no atual governo, é a certeza de que eles estão longe da condução da política econômica.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 31 / 08 / 2016

O Globo
"Nunca antes"

Em dia histórico, país deverá ter hoje impeachment e duas posses

O Brasil viverá hoje um dia histórico, com a provável aprovação do impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff, que porá fim a 13 anos do PT no comando do país, e a efetivação e posse do presidente interino, Michel Temer (PMDB). Nesse caso, Temer embarcará no fim do dia para a China, onde participará da cúpula do G-20, transmitindo o cargo interinamente para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM). No mesmo dia, portanto, o país poderá ter três presidentes. Ontem, Dilma ficou mais perto da queda com a indicação de que senadores indecisos devem votar pró-impeachment, como o ex-presidente Collor, que viveu a mesma situação há quase 24 anos. O presidente do STF, Ricardo Lewandowski, marcou o início da sessão de votação para as 11h. São necessários 54 votos para o afastamento. Caso o impeachment seja aprovado, Dilma terá de deixar o Palácio da Alvorada, mas manterá benefícios como carro com motorista e segurança.                 
 
O Estado de S.Paulo
"Placar indica saída de Dilma"

Votação final sobre cassação do mandato da petista é adiada para hoje 
Aliados de Michel Temer asseguram votos de senadores do Maranhão 
Caso impeachment se confirme, presidente em exercício tomará posse à tarde

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, deixou para hoje a votação final do impeachment de Dilma Rousseff, após dia de discursos de senadores e advogados de defesa e acusação. Até o início da madrugada, o Placar do Impeachment do Estado indicava 55 votos a favor da cassação e 20 contra. São necessários 54 para que a petista perca o cargo. Ofensiva do governo Michel Temer assegurou o apoio de três senadores do Maranhão: Edison Lobão (PMDB), Roberto Rocha (PSB) e João Alberto Souza (PMDB). Cargos entraram no acerto. Apesar do discurso de neutralidade, o governo também tentou sem sucesso acelerar o julgamento para que, caso o impeachment seja aprovado, Temer tome posse no Congresso ainda hoje, faça reunião com ministros e líderes da base e possa viajar para a China. Para tentar evitar a perda de direitos políticos de Dilma, sua defesa deve pedir fatiamento da votação.  

Folha de S. Paulo
"Senado tem maioria para cassar Dilma; Temer já prepara a posse"

Presidente interino planeja pronunciamento em rede nacional antes de viajar à China para reunião do G20

Ao fim dos sete dias de julgamento, o Senado define nesta quarta-feira (31) o futuro da presidente Dilma Rousseff (PT). Segundo enquete feita pela Folha, 54 dos 81 senadores declararam seus votos a favor do impeachment da petista. O número é o mínimo necessário para a cassação de Dilma, reeleita em 2014. Ela responde a acusações de fraude fiscal desde dezembro de 2015, quando o processo foi aberto na Câmara. A petista nega ter cometido crime de responsabilidade. O Palácio do Planalto, comandado pelo presidente interino, Michel Temer (PMDB), calcula que obterá 60 votos. Caso Dilma seja cassada, o peemedebista convocará ministros e aliados para tentar dar peso político à sua posse no Congresso. A solenidade de meia hora seguirá rito de 1992, quando Itamar Franco substituiu Fernando Collor de Mello após impeachment. No evento, ele pretende entregar a previsão orçamentária de 2017, sem expectativa de aumento de impostos. Em seguida, Temer deve fazer uma reunião ministerial e um pronunciamento em rede nacional sobre os rumos de sua gestão. Ele quer viajar ainda nesta quarta para uma reunião do G20 (grupo das maiores economias do mundo) na China. 
 
 
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