sábado, agosto 27, 2016

Física


Opinião

Quatro filmes em cartaz mostram que o cinema está bem vivo

João Pereira Coutinho
Quem diria: um americano conseguiu fazer a melhor adaptação de Jane Austen que já vi em cinema. Verdade que não falamos de um americano qualquer - quem assitiu a "Metropolitan" ou "The Last Days of Disco" sabe que Whit Stillman é o mais brilhante director da sua geração, embora talvez fosse mais correcto apresentá-lo como o melhor literato da sua geração. Nos filmes de Stillman, os diálogos são literatura pura. E só um literato seria capaz de transformar a infilmável "Lady Susan" em "Amor e Amizade".

Sejamos francos: "Emma" ou "Pride and Prejudice", nas suas estruturas convencionais, estão talhados para o ecrã. Cada capítulo, uma cena. O sonho de qualquer roteirista. Mas como filmar uma novela, erradamente tida por menor, que é apenas um longo conjunto de cartas trocadas entre os personagens principais?

É possível pelo talento de Stillman e pelo génio da própria Jane Austen, que em "Lady Susan" abandona a ironia branda dos romances e opta por um tratado sulfúrico sobre a natureza das mulheres. Sobretudo das mulheres que procuram fortuna e adultério (como Lady Susan) ou então da sua confidente, Alicia Johnson, uma dama muito dedicada ao marido e que reza dia e noite para que ele sucumba a crises de gota.

O filme de Stillman é uma "peça de câmara" sobre a arte da duplicidade - e isso só é possível porque a novela epistolar já facilitava esse baile de máscaras, consoante o destinatário. Para uns, Lady Susan confessa-se uma mãe devota, que deseja casar a filha Frederica com um pretendente respeitável; para outros, a filha é um ser débil e vulgar, "o tormento da minha vida", e um empecilho aos triunfos da matrona.

E se o leitor pensa que em "Lady Susan" haverá um final "justo" e "pedagógico", de acordo com o carácter de cada um, pensa mal. "Lady Susan" é o mais cínico e amoral dos textos de Austen ao mostrar como a virtude, estimável em teoria, nem sempre é o caminho infalível para chegar às felicidades terrenas.

Que esta novela seja repetidamente esquecida pelas vestais da sra. Jane Austen, não admira: a inesquecível e triunfante Susan Vernon estraga qualquer canonização.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 27 / 08 / 2016

O Globo
"PF indicia Lula por tríplex"

Para Lava-Jato, ex-presidente e mulher foram beneficiados por R$ 2,4 milhões

Imóvel em Guarujá foi reformado pela OAS para a família do petista, que classifica relatório como ‘peça de ficção’

Em meio ao julgamento final do impeachment, que pode pôr fim à era PT no governo, o ex-presidente Lula e a mulher dele, Marisa Letícia, foram indiciados pela primeira vez na Lava- Jato sob suspeita de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no inquérito que investiga o tríplex de Guarujá, em São Paulo. Para a PF, o apartamento foi reservado para Lula e sua família, como mostrou O GLOBO em 2014, e as benfeitorias feitas pela empreiteira OAS custaram R$ 2,4 milhões, entre reformas e armazenamento do acervo presidencial. O relatório da investigação segue agora para o Ministério Público, que decidirá se denuncia ou não o casal ao juiz Sérgio Moro. Lula, que ontem se reuniu com Dilma Rousseff, deve estar ao lado da presidente afastada na segunda-feira, quando ela fará sua defesa no Senado. O petista, indiciado também por falsidade ideológica, disse que nunca foi dono do tríplex e que a acusação é “peça de ficção”. Também foram indiciados Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS; Paulo Gordilho, diretor da empresa; e Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula.               
 
O Estado de S.Paulo
"Lula e Marisa são indiciados por corrupção em caso de triplex"

Investigadores dizem que casal se beneficiou de R$ 2,4 milhões da OAS em reforma de apartamento no Guarujá e armazenamento de bens

A Polícia Federal indiciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica no inquérito que investiga triplex no Guarujá. A ex-primeira- dama Marisa Letícia, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, o ex-presidente da OAS José Aldemário Pinheiro, o Léo Pinheiro, e um engenheiro da empreiteira também foram indiciados. A conclusão do delegado Márcio Adriano Anselmo é de que Lula e Marisa foram beneficiários “de vantagens ilícitas, por parte da OAS, em valores que alcançaram R$ 2,4 milhões, referentes a obras de reforma no apartamento 164-A do Edifício Solaris, bem como no custeio de armazenamento de bens do casal”. O triplex foi construído pela Bancoop e adquirido pela OAS. A empresa acusada de corrupção na Petrobrás também fez benfeitorias no imóvel, que, para investigadores, seria de Lula.  

Folha de S. Paulo
"Lula, Alckmin e Temer tiram mais votos em SP que atraem"

Apoio de caciques a candidatos surtiria efeito contrário, diz pesquisa Datafolha

A vinculação de candidatos com o ex- presidente Lula (PT), o presidente interino, Michel Temer (PMDB), e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), traz mais prejuízos do que vantagens na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Segundo pesquisa Datafolha, o petista é o mais rejeitado entre eleitores: 73% disseram que não votariam “de jeito nenhum” no candidato apoiado pelo ex-presidente. A associação com Michel Temer afasta o voto de 65% do eleitorado paulistano. E 51% não escolheriam nas urnas o nome endossado por Geraldo Alckmin. A corrida eleitoral é liderada pelo apresentador e deputado Celso Russomanno (PRB), com 31% das preferências. Ele não é apoiado por caciques políticos nacionais. Correligionária de Temer, a senadora Marta Suplicy está em segundo, com 16%. O prefeito Fernando Haddad (PT), apoiado por Lula, tem 8% — em empate técnico com João Doria (PSDB), com 5%, aliado de Alckmin. Realizada nos dias 23 e 24 de agosto, a pesquisa tem margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos.
 

sexta-feira, agosto 26, 2016

Fokker F.32


Coluna do Celsinho

Novo e velho

Celso de Almeida Jr.

A vida sempre reserva surpresas.

Com meio século de existência já vi e vivi muitas emoções.

Alegrias.

Tristezas.

Espanto.

Nesta semana, tive esta mistura de sentimentos com muita intensidade.

Ao assentar a poeira, comecei a refletir sobre as minhas reações.

Como me comportaria há 30, 20, 10 anos, nas mesmas circunstâncias?

Comparei com o presente.

Fiquei comovido.

Dei conta do impacto das vivências acumuladas no enfrentamento do cotidiano.

Pois é...

Mudei muito ao longo do tempo.

Mudarei ainda nas próximas décadas?

Aliás, alcançarei as próximas décadas?

Doce mistério...

Seguir em frente é o caminho natural.

Ao trilhá-lo, fica a certeza de que sempre é tempo de refletir, aprender e crescer.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Suplicy comete fraude ao comparar Brasil e Venezuela

Demétrio Magnoli
Eduardo Suplicy, um leitor comum, utiliza-se do Painel do Leitor para cobrar coerência de José Serra (Folha, 19/8). O ministro do Exterior pede que todos os países democráticos pressionem pela realização do referendo revogatório na Venezuela. Daí, conclui o ex-senador, Serra deveria apoiar a reivindicação de Dilma de uma consulta popular sobre a antecipação de eleições no Brasil. Na missiva, encontra-se um paralelo explícito, que é uma fraude lógica, e um implícito, que é uma fraude política. Na base dos dois, oculta-se uma omissão moral que, se não faz justiça à trajetória de Suplicy, ilumina a falência da esquerda latino-americana.

A fraude lógica: na Constituição brasileira, o instrumento de revogação de mandatos é o impeachment, não um plebiscito. Dilma clama por uma consulta inconstitucional; a oposição venezuelana, pelo cumprimento de uma norma inscrita na Constituição de 1999, marco inaugural da "revolução bolivariana". Suplicy sabe disso: em 2005, patrocinou uma emenda constitucional destinada a introduzir o recall de mandatos, mas não obteve apoio nem mesmo para levá-la a plenário.

A fraude política: a Venezuela do anoitecer do chavismo transforma-se em ditadura; o Brasil do ocaso do ciclo de poder lulopetista conserva a democracia. No Brasil, um STF independente supervisiona o processo de impeachment. Na Venezuela, um tribunal superior submetido ao Executivo suprime ilegalmente as prerrogativas da Assembleia Nacional eleita, de maioria oposicionista, e um conselho eleitoral controlado pelo chavismo viola as regras que possibilitam o referendo revogatório.

Anote, Suplicy. No Brasil, a presidente afastada usa o Palácio para acusar o Congresso, o Judiciário e a imprensa de promoverem um "golpe de Estado". Na Venezuela, líderes oposicionistas apodrecem na prisão sob sentenças farsescas denunciadas pela ONU, pela OEA e por organismos internacionais de direitos humanos. Aqui, a militância petista protesta nas ruas contra o impeachment; lá, milícias chavistas atemorizam os cidadãos e agridem manifestantes pacíficos. Aqui, os homens em armas protegem as fronteiras e garantem a segurança pública; lá, as forças armadas juram compulsoriamente lealdade ao chavismo. Suplicy quer mesmo comparar um país que tem políticos presos com um que mantém presos políticos?

Uma ditadura de esquerda não é melhor que uma ditadura de direita. Na sua longa trajetória pública, em nome dessa régua moral, Suplicy desafiou várias vezes seu partido. Poucos anos atrás, o ainda senador confrontou um tabu petista para defender o direito de viagem da blogueira cubana Yoani Sánchez. Sob esse pano de fundo, há algo de muito perturbador no persistente silêncio que conserva sobre a escalada autoritária do regime chavista. Engajado na difusão da lenda do golpe no Brasil, o Suplicy do passado apaga-se voluntariamente, dando lugar a um personagem diferente, disposto a submeter os princípios às conveniências.

A Venezuela não é o objeto mas apenas o pretexto da missiva de Suplicy publicada na Folha. Presos políticos? Soberania popular? Liberdades públicas? Garantias democráticas? Não, nada disso: o tema verdadeiro da cartinha é a manobra desesperada de Dilma na hora do ato conclusivo do processo de impeachment. O Suplicy do passado esclareceria sua opinião sobre a posição diplomática do Brasil diante do colapso da ordem democrática na Venezuela. O Suplicy do presente afasta, com um gesto enfastiado, os dilemas de princípio para cumprir uma missão partidária.

Serra declarou que "um país que mantém presos políticos não é uma democracia". Suplicy perde a oportunidade de cobrar-lhe coerência. A pergunta certa ao ministro é: por que, então, o Brasil não invoca a cláusula democrática contra o regime chavista? Mas essa é, precisamente, a pergunta que Suplicy nunca formulará. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 26 / 08 / 2016

O Globo
"Julgamento começa com ataques a testemunhas"

Procurador pró-afastamento é ouvido como informante

Acusação pede a Lewandowski que suspenda depoimento de servidora nomeada pela petista Gleisi Hoffmann

No 1º dia do julgamento do impeachment da presidente Dilma Rousseff, defesa e acusação adotaram a estratégia de atacar testemunhas. Atendendo a pedido de aliados de Dilma, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, ordenou que o procurador Júlio Marcelo de Oliveira depusesse como informante, e não como testemunha, por ter apoiado ato contra a petista. O DEM pediu a anulação do depoimento de Esther Dweck, nomeada pela senadora Gleisi Hoffmann (PT). Oliveira disse que a intenção de Dilma de praticar atos dolosos “grita”. O Planalto tenta mudar o voto de três senadores. Telmário Mota, antes contra o impeachment, agora se diz neutro.              
 
O Estado de S.Paulo
"Começo do julgamento de Dilma tem brigas e baixaria"

Além de bate-boca de senadores, primeiro dia do processo também teve dispensa de testemunha de acusação

O primeiro dia de julgamento do impeachment de Dilma Rousseff teve bate- bocas, debates acalorados e revés para a acusação. Após rejeitar dez questionamentos de aliados de Dilma, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, aceitou pedido da defesa e impediu que o procurador no TCU Júlio de Oliveira depusesse como testemunha. O argumento de José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma, foi de que ele é “militante”, pois compartilhou no Facebook convite para ato pela rejeição das contas da petista. Oliveira apontou Dilma como responsável por crimes de responsabilidade e pedaladas fiscais. “O único elemento comum entre 2013, 2014 e 2015 é o comando dessa equipe econômica pela presidente da República.” Sua exclusão como testemunha fez senadores reverem estratégias. Defensores do impeachment já preparam questionamentos sobre testemunhas de defesa.  

Folha de S. Paulo
"Russomanno lidera em SP e ganharia eleição no 2º turno"

Deputado tem 31% das intenções de voto, diz Datafolha; 49% rejeitam Haddad, o atual prefeito

Celso Russomanno (PRB) lidera com 31% das intenções de voto a corrida eleitoral em São Paulo e mantém larga vantagem no 2º turno, diz a primeira pesquisa Datafolha após o início da campanha. O deputado federal está 15 pontos à frente da segunda colocada, a senadora Marta Suplicy (PMDB), que manteve os 16% aferidos na pesquisa anterior, em julho. Luiza Erundina (PSOL) tem 10%. Erundina está empatada, dentro da margem de erro, com o prefeito Fernando Haddad (PT), 8%, e o empresário João Doria (PSDB), 5%. Votos brancos ou nulos são 17%, e 7% não opinaram. Haddad tem a mais alta rejeição: 49% do eleitorado. Nas simulações de segundo turno, Russomanno vence todos os rivais. Em uma hipotética disputa com Marta, ele teria 51%, e ela 32%. Feita nos dias 23 e 24, a pesquisa ouviu 1.092 eleitores paulistanos. A exemplo da capital paulista, candidatos de oposição lideram a disputa no Rio, em Belo Horizonte e no Recife.
 

quinta-feira, agosto 25, 2016

Física


Opinião

A beleza e a arte não constituem nenhuma garantia moral

Contardo Calligaris
Gostei muito de "Francofonia", de Alexandr Sokurov.

Um jeito de resumir o filme é este: nossa civilização é um navio cargueiro avançando num mar hostil, levando contêineres repletos dos objetos expostos nos grandes museus do mundo.

Será que o esplendor do passado facilita nossa navegação pela tempestade de cada dia? Será que, carregados de tantas coisas que nos parecem belas, seremos capazes de produzir menos feiura?

Ou, ao contrário, os restos do passado tornam nosso navio menos estável, de forma que precisará jogar algo ao mar para evitar o naufrágio?

Essa discussão já aconteceu. Na França de 1792, em plena Revolução, a Assembleia emitiu um decreto pelo qual não era admissível expor o povo francês à visão de "monumentos elevados ao orgulho, ao preconceito e à tirania" –melhor seria destrui-los. Nascia assim o dito vandalismo revolucionário –que continua.

Os guardas vermelhos da Revolução Cultural devastaram os monumentos históricos da China. O Talibã destruiu os Budas de Bamiyan (séculos 4 e 5). Em Palmira, Síria, o Estado Islâmico destruiu os restos do templo de Bel (de quase 2.000 anos atrás). A ideia é a seguinte: se preservarmos os monumentos das antigas ideias, nunca teremos a força de nos inventarmos de maneira radicalmente livre.

Na mesma Assembleia francesa de 1792, também surgiu a ideia de que não era preciso destruir as obras, elas podiam ser conservadas como patrimônio "artístico" ou "cultural" –ou seja, esquecendo sua significação religiosa, política e ideológica.

Sentado no escuro do cinema, penso que nós não somos o navio, somos os contêineres que ele carrega: um emaranhado de esperanças, saberes, intuições, dúvidas, lamentos, heranças, obrigações, gostos. Tudo dito belamente: talvez o belo artístico surja quando alguém consegue sintetizar a nossa complexidade num enigma, como o sorriso de "Mona Lisa".

Os vândalos dirão que a arte não tem o poder de redimir ou apagar a ignomínia moral. Eles têm razão: a estátua de um deus sanguinário pode ser bela sem ser verdadeira nem boa. Será que é possível apreciá-la sem riscos morais?

Não sei bem o que é o belo e o que é arte. Mas, certamente, nenhum dos dois garante nada.

Por exemplo, gosto muito de um quadro de Arnold Böcklin, "A Ilha dos Mortos", obra imensamente popular entre o século 19 e 20, que me evoca o cemitério de Veneza, que é, justamente, uma ilha, San Michele.

Agora, Hitler tinha, em sua coleção particular, a terceira versão de "A Ilha dos Mortos", a melhor entre as cinco que Böcklin pintou.

Essa proximidade com Hitler só não me atormenta porque "A Ilha dos Mortos" era também um dos quadros preferidos de Freud (que chegou a sonhar com ele).

Outro exemplo: Hitler pintava, sobretudo aquarelas, que retratam edifícios austeros e solitários, e que não são ruins; talvez comprasse uma, se me fosse oferecida por um jovem artista pelas ruas de Viena.

Para mim, as aquarelas de Hitler são melhores do que as de Churchill. Pela pior razão: há, nelas, uma espécie de pressentimento trágico de que o mundo se dirigia para um banho de sangue.

É uma pena a arte não ser um critério moral. Seria fácil se as pessoas que desprezamos tivessem gostos estéticos opostos aos nossos. Mas, nada feito.

Os nazistas queimavam a "arte degenerada", mas só da boca para fora. Na privacidade de suas casas, eles penduraram milhares de obras "degeneradas" que tinham pretensamente destruído. Em Auschwitz, nas festinhas clandestinas só para SS, os nazistas pediam que a banda dos presos tocasse suingue e jazz –oficialmente proibidos.

Para Sokurov, o museu dos museus é o Louvre. Para mim, sempre foi a Accademia, em Veneza. A cada vez que volto para lá, desde a infância, medito na frente de três quadros, um dos quais é "A Tempestade", do Giorgione. Com o tempo, o maior enigma do quadro se tornou, para mim, a paisagem de fundo, deserta e inquietante.

Pintado em 1508, "A Tempestade" inaugura dois séculos que produziram mais beleza do que qualquer outro período de nossa história. Mas aquele fundo, mais tétrico que uma aquarela de Hitler, lembra-me que os dois séculos da beleza também foram um triunfo de guerra, peste e morte –Europa afora.

É isto mesmo: infelizmente, a arte não salva. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 25 / 08 / 2016

O Globo
"Julgamento final começa, e Temer já prepara posse"

Após nove meses, etapa decisiva do processo pode durar sete dias

Conclusão da ação no Senado terá depoimento da petista e de testemunhas

Nove meses depois de a Câmara abrir o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o Senado inicia hoje o julgamento final da petista no mesmo plenário onde Fernando Collor foi cassado há 24 anos. O capítulo decisivo, que começa com o depoimento de testemunhas, deve terminar na terça ou quarta que vem. Certo de que Dilma será condenada, auxiliares do presidente interino, Michel Temer, já preparam sua posse.              
 
O Estado de S.Paulo
"Por ajuste, aliados cobram Temer antes do impeachment"

Embate de PMDB, PSDB e DEM sobre aumento do funcionalismo deixa votação de Dilma em 2º plano

Dilma Rousseff começa a ser julgada hoje por crime de responsabilidade. Ela perderá o mandato se pelo menos 54 dos 81 senadores a considerarem culpada por editar decretos de suplementação orçamentária sem aval do Congresso. Mas ontem, na véspera do início do julgamento, outro tema monopolizou o Senado: reajustes para o funcionalismo. Tasso Jereissati, do PSDB, e Ronaldo Caiado, do DEM, ameaçaram com a saída dos partidos da base governista caso Michel Temer não defina posição. O clima pesou após Renan Calheiros (PMDB-AL) anunciar que o projeto que eleva salários no STF será votado dia 8. “O governo e seu partido, que é o PMDB, precisam assumir sua posição: se é governo ou se quer fazer graça para alguns”, disse Jereissati. “Estou fora se continuar assim. Não vou compactuar com uma farsa dessa. Ou o governo tem coragem de assumir e dizer o que quer, ou estou fora”, afirmou Caiado. 
 

quarta-feira, agosto 24, 2016

Física


Opinião

Brasil precisa de oposição

Elio Gaspari
Começa nesta quinta (25) o julgamento de Dilma Rousseff. Ela será condenada. Os julgamentos que decidem o destino dos presidentes são políticos. Formalmente, Dilma será deposta pelo desembaraço de sua contabilidade criativa, mas sempre será repetida a frase da senadora Rose de Freitas, líder do governo de Michel Temer no Senado: "Na minha tese, não teve esse negócio de pedalada, o que teve foi um país paralisado, sem direção e sem base nenhuma para administrar".

Pura verdade, que pode ser contraposta a outro julgamento de impeachment de um presidente, o de Bill Clinton em 1999. Ele era acusado de práticas mais simples, comuns e disseminadas do que as "pedaladas fiscais". Uma pessoa pode não entender de contabilidade pública, mas entende o que a estagiária Monica Lewinsky fazia com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca. Clinton foi absolvido porque o país não estava paralisado e a renda per capita dos americanos cresceu enquanto a dívida pública encolheu. Com Dilma, aconteceu o contrário. Todo mundo sabia o que Clinton fez e, apesar disso, achou-se que deveria continuar. No caso de Dilma, não se sabe direito o que eram as pedaladas, mas acha-se que ela deve ir embora.

Quando Dilma entregar as chaves do Palácio da Alvorada, estará encerrado um ciclo de 13 anos de poder do Partido dos Trabalhadores. Em 2003, Lula vestiu a faixa e a oposição foi para o poder. Hoje, ninguém haverá de dizer o mesmo. Michel Temer era o vice-presidente de Dilma e seu primeiro escalão ampara-se em figuras que sustentaram o comissariado petista. Henrique Meirelles presidiu o Banco Central de Lula, Eliseu Padilha e Gilberto Kassab foram ministros de Dilma. Mudança imediata, drástica e irrecorrível, só a do garçom Catalão, do Palácio do Planalto, que hoje está no gabinete da senadora Kátia Abreu, ministra de Dilma e adversária do impeachment.

O PT foi apeado do governo e, de uma maneira geral, abriu espaço para quem nunca saiu dele. O tempo dirá quanto custou ao comissariado o inchaço de sua base de apoio e, sobretudo, a expansão de seus interesses pecuniários. Lula e Dilma viveram o engano de um governo com o mínimo possível de oposição. Depostos, Dilma cuidará da vida, Lula tentará se reinventar, mas alguns comissários sabem que suas carreiras estão encerradas. Outros seguem a ordem de batalha do coronel Tamarindo em Canudos: "É tempo de murici, cada um cuide de si". Astro dessa categoria é Cândido Vaccarezza, líder do PT na Câmara até 2012. Dois anos depois, perdeu a eleição. Deixou o partido e aninhou-se na campanha de Celso Russomanno (PRB) pela Prefeitura de São Paulo.

Cortando aqui e perdendo ali, sobra uma militância cujas raízes estão nos anos 70 do século passado. Defendiam o fim da unicidade sindical, a reforma da CLT, as negociações diretas entre empresas e trabalhadores e tinham horror a empreiteiros. (A recíproca era verdadeira.) Esse era um tempo em que os sindicalistas do PT eram bancários. Com o acesso aos fundos estatais alguns viraram banqueiros e, como João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do partido, estão na cadeia.

Oposição, com algumas ideias na cabeça e pouco dinheiro no bolso, é tudo que o Brasil precisa.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 24 / 08 / 2016

O Globo
"Reajuste do STF ameaça dividir aliados de Temer"

PSDB e DEM falam até em retirar apoio caso aumento seja aprovado

Partidos da base aliada, defensores de ajuste fiscal austero, cobraram do Palácio do Planalto decisão firme sobre projeto que beneficia o Judiciário e implica impacto de R$ 5 bilhões ao ano

A decisão do PMDB de apoiar o aumento salarial para ministros do Supremo, que deve custar R$ 5 bilhões ao ano, abalou a base do governo Michel Temer. No PSDB e no DEM, líderes fizeram cobranças públicas e chegaram a falar em abandonar o Planalto, caso não adote uma posição firme contra o aumento. “Não é possível que haja dois governos, um para fazer bondade e outro para ficar com o ônus da decisão”, disse o senador Aécio Neves (PSDB). O líder do DEM, Ronaldo Caiado, foi enfático: “Não vou participar dessa farsa.”              
 
O Estado de S.Paulo
"Ministro do STF defende freio à Lava Jato; procurador reage"

Gilmar Mendes acusa investigadores de deixar vazar delação da OAS; Janot vê ‘cortina de fumaça’

Na mais contundente crítica a procuradores da Lava Jato feita por um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes afirmou que eles devem “calçar as sandálias da humildade” e é preciso “colocar freio” na conduta dos investigadores. Ele atribuiu à Procuradoria o vazamento das tratativas da delação do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, em que o ministro Dias Toffoli foi mencionado. “O resumo da ópera é o seguinte: você não combate crime cometendo crime.” Para ele, “depois esses falsos heróis vão encher o cemitério”. O procurador-geral Rodrigo Janot negou qualquer citação a Toffoli na proposta de delação e chamou de “cortina de fumaça” o debate sobre suposto vazamento. Ele questionou “a quem e por que” a operação “está incomodando tanto”. Janot, que suspendeu as negociações com Pinheiro, vê “quase estelionato delacional” na divulgação de dados não comprovados para prejudicar o acordo. As críticas de Mendes ficaram isoladas na Corte. A maioria dos ministros optou pela discrição. 
 

terça-feira, agosto 23, 2016

Física


Opinião

O único motivo para praticar esporte é conhecer intimamente a Vila Olímpica

João Pereira Coutinho
"Um atleta jamais será tão rápido como um guepardo ou tão forte quanto um touro." Assim escreveu o filósofo Nassim Nicholas Taleb. E assim pensava eu nas aulas de ginástica da minha mocidade.

"Mexa esse corpo, Coutinho!", gritava o professor, como se fosse um sargento. E eu, desobedecendo as ordens, ripostava. "Para quê?"

O homem ficava aturdido com a resposta e, incapaz de oferecer uma razão profunda, repetia: "Mexa esse corpo, Coutinho, já disse!".

Binho Barreto/Editoria de Arte/Folhapress
Ilustração João Pereira Coutinho de 23.ago.2016
Eu mexia, "ma non troppo". Quando o assunto era corrida, chegava rigorosamente em último lugar, sem uma única gota de suor a correr pelo rosto. Havia sempre um colega que vencia a prova. Feliz, orgulhoso, transpirando como as cataratas do Iguaçu.

"Por que motivo você está tão contente?", perguntava eu ao campeão. Ele dizia o óbvio: "Venci". Eu insistia no óbvio: "Venceu o quê?". A reação dele era igual à do sargento.

Foi assim que me tornei um caso perdido para o esporte. Se Charles Darwin, antes de casar com Emma Wedgwood, fez uma lista com os prós e contras do matrimônio, eu imitava o mestre sobre as vantagens e desvantagens do esporte.

Vantagens: nenhumas.

Desvantagens: cansaço; esforço inútil; ambição vulgar; perda de tempo; sujidade. O único esporte que tolerava era futebol. Gostava de ser goleiro. Grande parte do tempo, podia pensar as minhas coisas, contemplar o mundo em volta, até dormitar.

Quando os outros atacavam, eu defendia alguns remates, sim, mas apenas acidentalmente: a bola batia no meu corpo, eu a agarrava e depois caia no chão, inerte. Alegava dores e, com sorte, acontecia o milagre: substituição.

Aliás, se pensarmos bem, não era apenas o esporte que me enchia de bocejos. No cinema era exatamente a mesma coisa. Heróis de infância? Esqueça o Super-Homem, o Homem-Aranha e outras aberrações similares.

Minha praia era Sherlock Holmes ou James Bond. O primeiro, pela ginástica do intelecto; e o segundo, pela ginástica do afeto –sei o nome de todas as "Bond girls" desde 1962. Os poderes de Bond eram alimentados a dry martínis, não com malhação. Sem falar do vestuário. Capas voadoras? Máscaras? Colantes? Que é isso, gente?

James Bond saltava dos céus ou emergia das águas com um terno perfeitamente engomado. Bond era um "gentleman", pelo menos até Daniel Craig ter entrado em cena. Mas divago.

Porque o assunto é sério: Jogos Olímpicos. Parabéns, Brasil! Parabéns, Rio! Com o meu historial de atrofia, o leitor talvez acredite que sou avesso às Olimpíadas.

Acredita mal. No meu pessoalíssimo balanço, estes jogos foram um sucesso por sete motivos: Alex Morgan (norte-americana, futebol, zero medalhas); Patrícia Mamona (portuguesa; salto triplo; zero medalhas); Michelle Jenneke (australiana; 100 m com barreiras; zero medalhas); Ana Ivanovic (sérvia; tênis; zero medalhas); Zsuzsanna Jakabos (húngara; natação; zero medalhas); e as equipes femininas de vôlei de praia da Suíça e dos Estados Unidos.

Digo mais: o único motivo que me levaria a praticar esporte seriam os Jogos Olímpicos. Não por causa das medalhas, do dinheiro ou da "fama". A razão principal dá pelo nome de Vila Olímpica. Meu Deus, que será aquilo? Por que motivo os jornalistas não dedicam mais tempo ao assunto? Onde está David Attenborough quando mais precisamos dele?

Imagino que a Vila Olímpica seja parecida com os acampamentos da minha puberdade. Com uma diferença: todas as meninas oscilam entre o belo e o escultural.

A esse respeito, lembro uma história que li no Facebook lusitano "É Desporto". Aconteceu em 1996, nos Jogos de Atlanta. A equipe de handebol francesa era campeã do mundo. Mas, nos Estados Unidos, não ganhou medalhas.

O técnico justificou: os rapazes preferiram confraternizar na Vila Olímpica com as donzelas de nado sincronizado. "Ao menos", concluiu, "teremos uma boa equipe de polo aquático daqui a 20 anos". Profético: a França chegou ao Rio com uma equipe de polo aquático. Já não acontecia desde 1992.

Prometo fazer um esforço. Primeiro, encontrar uma modalidade que se ajuste à minha natureza –tiro esportivo, digamos. E, depois, corrigir o maior defeito do jornalismo de hoje. Como? Enviando notícias desse esquecido Olimpo onde também se batem recordes. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 23 / 08 / 2016

O Globo
"Estado do Rio decide privatizar saneamento"

Governo estadual pediu ao BNDES a inclusão no programa de concessões

O Estado do Rio enviou carta ao BNDES solicitando sua inclusão nas privatizações do setor de saneamento, informou o secretário executivo do Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) do governo federal, Moreira Franco. O modelo proposto pelo BNDES prevê a divisão do Rio em quatro áreas de concessão. Os próximos estados a participarem das privatizações em saneamento devem ser Bahia e Espírito Santo, acrescentou Moreira.              
 
O Estado de S.Paulo
"Após críticas, Temer recua e adia reajuste de servidor"

Governo manobra com aliados para segurar projetos que aumentam salário do funcionalismo e ameaçam ajuste

O governo Michel Temer recuou e defendeu ontem publicamente segurar no Senado a votação de aumentos de salário do funcionalismo público, já aprovados na Câmara. “Agora é momento de segurar um pouco essa questão de reajuste”, afirmou o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima (PMDB), após almoço com aliados. Entre os reajustes que aguardam votação está o dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que tem efeito cascata sobre carreiras do Judiciário nos Estados e foi tema de parecer contrário do senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) na Comissão de Assuntos Econômicos. A decisão do governo veio após críticas de lideranças de partidos como o PSDB. A avaliação é de que a concessão dos aumentos enfraquece o discurso do governo sobre a necessidade de medidas “amargas” para que as contas públicas voltem a registrar superávit.
 
 
Free counter and web stats