sábado, agosto 20, 2016

Física


Opinião

Mercosul, a hora do divórcio

Clóvis Rossi
O Mercosul, como se sabe, está acéfalo desde o dia 1º. A acefalia, conforme compara um competente embaixador, equivale a uma greve geral do funcionalismo público, inclusive dos mais altos escalões. Ou seja, nenhuma decisão pode ser tomada, desde as triviais (convocar uma reunião, por exemplo) até as mais complexas (negociar acordos comerciais).

É, pois, um problema sério, mas não é o mais grave na crise que levou o bloco ao pântano.

Antes de passar ao mais grave, examinemos a quadratura do círculo que o Mercosul está tentando.

Argentina, Brasil e Paraguai opõem-se à transferência da presidência de turno para a Venezuela, que, pela ordem alfabética, deveria assumi-la no segundo semestre.

O pretexto utilizado para o veto é o de que a Venezuela não adotou internamente, no prazo a que se comprometeu, o compêndio de regras do bloco.

De fato, não cumpriu, o que todos reconhecem, inclusive a própria Venezuela, que, no entanto, alega ter adotado mais regras até do que países fundadores do bloco, sem especificar qual ou quais.

Se não cumpriu, Argentina, Brasil e Paraguai querem que a Venezuela seja rebaixada para uma espécie de segunda divisão, o que lhe tiraria o direito de presidir o bloco.

Está até marcada para dia 23 uma reunião em que será debatido o rebaixamento e como ficaria a presidência. A proposta da Argentina, encampada pelo Brasil, é de uma presidência colegiada até o fim do ano (em 2017, a Argentina assumiria, retomando a ordem alfabética).

Dois problemas surgem: primeiro, a obrigatoriedade de adotar decisões por consenso.

O Uruguai já anunciou que não aceita a presidência colegiada e avisa que não existe, nas regras do conglomerado, a punição por não cumprimento de normas.

Ou, posto de outra forma: a Venezuela não pode ser rebaixada a menos que se adote uma gambiarra jurídica a que o Uruguai se opõe.

A quadratura do círculo não está, pois, à vista, o que tende a prolongar a paralisia do Mercosul.

Passemos agora ao verdadeiro problema, que é a incompatibilidade ideológica entre a Venezuela e seus pares, explicitada, de resto, em comunicado oficial da própria chancelaria venezuelana.

Diz a nota, emitida na terça-feira (16): "A República Bolivariana da Venezuela denuncia à comunidade internacional a persistência destes governos [Argentina, Brasil e Paraguai] em vulnerar os tratados constitutivos do Mercosul, fazendo prevalecer suas preferências políticas e ideológicas neoliberais sobre os genuínos interesses dos povos e seus processos de integração".

Traduzindo: para a Venezuela, o neoliberalismo, suposto ou real, de seus parceiros é incompatível com a integração regional. Supõe-se, por extensão, que a integração tem que ser feita sob a égide do socialismo do século 21, adotado pela Venezuela e que é um dos mais redondos fracassos do século.

Não basta, pois, discutir a relação (ou a presidência, no caso) no dia 23, se o problema é claramente de divórcio. A ver quem será o primeiro a reconhecer a realidade. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 20 / 08 / 2016

O Globo
"Temer cobra apoio de aliados a teto para gastos"

Segundo Meirelles, Orçamento da União terá limite já em 2017

O presidente interino, Michel Temer, reuniu ministros e líderes aliados em São Paulo para cobrar empenho na aprovação da lei que institui teto para gastos públicos. A medida é tida como vital para o ajuste fiscal de seu governo, caso o impeachment de Dilma Rousseff seja confirmado. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse que foi fechado acordo para que o teto seja aplicado já no Orçamento da União de 2017.             
 
O Estado de S.Paulo
"Delação de Duque avança e deve citar PT, Lula e Dilma"

Considerado o braço do partido nos desvios da Petrobrás, ex-diretor se comprometeu a apresentar provas

Condenado na Lava Jato a mais de 50 anos de prisão como braço do PT no esquema de propinas na Petrobrás, o ex-diretor de Serviços da empresa Renato Duque retomou negociações para colaboração premiada com o Ministério Público Federal. Ele oferece informações sobre o envolvimento do partido, de Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com desvios na estatal. Lula é um dos pontos centrais das tratativas. O ex-diretor se compromete a apresentar provas de que ele sabia das irregularidades. Esta é a terceira tentativa de Duque de fazer delação. Se for aceita pela Procuradoria e homologada pela Justiça, pode ser a primeira a envolver Dilma diretamente. Em nota, o Instituto Lula afirmou que não comenta “supostas negociações de delações para obtenção de benefícios judiciais”. As assessorias de Dilma e do PT não responderam.
 

sexta-feira, agosto 19, 2016

HAV 304 Airlander


Construída em 2013 para o Exército dos Estados Unidos (que por corte de orçamentos, desistiu do projeto), é a maior aeronave do mundo, com 92 metros de comprimento, no estilo dos Zeppelin ou dirigíveis.

Com um custo de 73 milhões de euros, a aeronave utiliza hélio inerte e pode ser pilotada por controle remoto, sem tripulantes.

Coluna do Celsinho

Mais com menos

Celso de Almeida Jr.

Testemunhei uma batida policial.

Foi na rodoviária de Taubaté.

Um jovem, muito destemperado, falava duro com guardas municipais.

Ele já tinha sido agressivo com outros jovens, em rua próxima.

Daí o enquadramento.

Um policial militar contribuiu na abordagem.

Em poucos minutos, mais dois guardas municipais chegaram para reforço.

Na sequência, uma viatura da Polícia Militar com mais três homens.

Contei: quatro motos, dois carros e 8 homens para recolher o malcriado.

Vendo as reações do preso, tive a impressão de que tem problemas mentais.

Na dúvida, seguiu para a delegacia.

Não soube dos desdobramentos.

Pois é...

Pensei nos riscos que guardas e policiais correm.

Uma semana antes, vi pela televisão uma abordagem semelhante que terminou em tragédia.

Reagindo a prisão, no Acre, um homem pegou a arma do policial e o matou.

Como distinguir reações típicas de moleques destemperados das de bandidos de verdade?

É muito difícil.

Por isso, equipar, treinar e bem remunerar as polícias e as guardas ainda representam o melhor caminho.

Assim preparados, talvez solucionassem pendências como as que testemunhei com um número mais reduzido de profissionais e equipamentos.

Neste caso, vale a máxima:

Pague mais e gaste menos.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Estado de Direito não deve permitir a exibição pública de mulheres-múmias

João Pereira Coutinho
1. Caminho pelo centro de Londres. Várias mulheres de burca passam por mim. Como sempre, sinto desconforto físico e moral.

Essas coisas não se sentem, dizem. Nem se escrevem. Que direito tenho eu de impor um código de vestuário sobre terceiros?

Admito: nenhum. Mas quando vejo uma mulher transformada em múmia, não penso em mim. Penso nela. Aquilo é uma escolha pessoal? Ou, na esmagadora maioria dos casos, uma forma de submissão ao poder masculino?

As mulheres caminham integralmente cobertas, repito. Mas o homem avança na frente, expressão pública e visível do lugar que a mulher ocupa na hierarquia dos sexos.

É também por isso que concordo com a proibição de burcas ou véus integrais no espaço público europeu –já acontece na França; há debate na Alemanha. Primeiro, porque é uma forma de respeito pelos outros: viver nas sociedades ocidentais significa partilhar um código mínimo de valores ou comportamentos.

E, como já escrevi nesta Folha, se eu não ando nu pelas ruas (apesar da minha costela panteísta), agradeço que os outros não andem tapados da cabeça aos pés.

Mas a proibição é também uma forma de respeito pelas mulheres. Excetuando casos extremos, defendo que o Estado não entre na casa dos cidadãos. Que o mesmo é dizer: se uma mulher deseja estar integralmente vestida ou despida entre quatro paredes, problema dela.

Coisa diferente é falar do mundo que existe fora das quatro paredes.

Será que um Estado de Direito deve permitir a exibição pública de uma mulher encerrada em presídios de tecido? Ou deve declarar, em alto e bom som, que não há qualquer tolerância para essas manifestações de brutalidade masculina?

Claro que alguns crentes afirmam o oposto: brutalidade é remover a burca e o véu integral sem respeitar "culturas diferentes". Engraçado: eu julgava que a violência sobre as mulheres não era uma "cultura" digna de respeito entre pessoas civilizadas.

E, já agora, relembro aos multiculturalistas que o Ocidente também é uma "cultura diferente". Por que motivo a "tolerância" perante a diferença se aplica aos outros –mas não a nós?

Seja como for, só posso aconselhar às brigadas a leitura da história que o "Daily Telegraph" publica sobre a libertação da cidade síria de Manbij.

Foram dois anos sob as garras do chamado "Estado Islâmico". A libertação chegou com as tropas americanas. E quando as mulheres viram os soldados entrarem na cidade, o que fizeram? Rasgaram as burcas e, para festejar, fumaram cigarros.

Admito que essas duas ações –rasgar burcas, fumar cigarros– possam ofender multiculturalistas e higienistas em partes iguais. Mas quando vejo uma mulher de burca nas ruas de Londres, é também essa a minha vontade: convidá-la a sair da masmorra e oferecer-lhe um cigarro para comemorar.

2. Estreou no Brasil "Amor & Amizade", o mais recente filme de Whit Stillman. Prometo escrever em breve sobre o assunto. Merece. Primeiro, porque Stillman filma pouco mas filma barbaramente bem (conheci-o com "Metropolitan" e virei cliente). Depois, porque o diretor pegou uma novela "menor" de Jane Austen ("Lady Susan") e acertou no essencial: a cínica misoginia de Jane Austen.

Essa verdade não cai bem em certas fãs da escritora, que veem em Austen uma espécie de feminista "avant la lettre". Não era. Os homens, na prosa dela, podem ser tontos ou vulgares. Mas as mulheres, exceções à parte, são retratadas como seres gananciosos ou reptilianos. Só uma mulher poderia escrever assim sobre as outras mulheres.

E o que é válido para a literatura, é válido para o desporto. Leio na "The Economist" que a Universidade Harvard estudou "padrões de reconciliação" entre homens vs. homens e mulheres vs. mulheres depois de jogos "confrontacionais" (tênis, ping-pong, badminton, boxe).

Conclusão: quando o confronto termina, os homens têm mais contato físico (cumprimentos, abraços, palmadas nas costas etc.) do que as mulheres. As donzelas, com má cara, despacham o assunto rapidamente.

Como explicar a diferença? Os antropólogos de Harvard não sabem. Um pouco de Jane Austen talvez fosse útil para eles. Da minha parte, prometo apenas que vou prestar mais atenção aos Jogos do Rio. Só para confirmar se a "guerra dos sexos" é samba de uma nota só.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 19 / 08 / 2016

O Globo
"Nadadores admitem que não houve assalto"

Segundo testemunha, atletas pediram que a polícia não fosse chamada em posto de gasolina. Versão de roubo teria sido criada por Lochte

Três dos quatro nadadores americanos que teriam sofrido um suposto assalto no Rio afirmaram à polícia que o crime não aconteceu. Gunnar Bentz, Jimmy Feigen e Jack Conger disseram que a mentira foi inventada por Ryan Lochte, que voltou para casa na segundafeira. Imagens de vídeo mostram que o quarteto se envolveu numa confusão com seguranças de um posto de gasolina. Testemunha disse que os nadadores pediram que a polícia não fosse chamada. Os passaportes dos atletas foram liberados, e, à noite, Bentz e Conger embarcaram para os Estados Unidos.             
 
O Estado de S.Paulo
"Lei da Ficha Limpa pode barrar 4,8 mil candidatos"

Com problemas na Justiça, eles estão sujeitos a impugnação de registro

Pelo menos 4.849 candidatos nas eleições municipais deste ano podem ter registro impugnado por serem considerados ficha-suja pela Justiça Eleitoral. A análise considera as 467.074 candidaturas validadas pelo Tribunal Superior Eleitoral até ontem. No total, o TSE já recebeu 503.690 registros. Um sistema do Ministério Público Federal cruza o CPF dos candidatos com bases de dados de Tribunais de Justiça, de Contas e de órgãos de controle. A ferramenta, chamada de módulo ficha-suja, emite um “relatório de conhecimento” aos 3 mil promotores eleitorais que trabalharão em todo o País nas eleições. Apesar de o sistema já ter sido usado em 2014, é a primeira vez que todos os promotores que atuam nas eleições têm acesso aos dados. Em 2012, o TSE recebeu quase 8 mil recursos de impugnação, sendo cerca de 3 mil oriundos de ações baseadas na Lei da Ficha Limpa.
 

quinta-feira, agosto 18, 2016

Física


Opinião

Só é possível viver com leveza quando sabemos que logo a vida vai acabar

Contardo Calligaris
Fui ver "A Viagem do meu Pai", de Philippe Le Guay, que me pareceu muito melhor do que diz a crítica. Espero que o filme continue em cartaz: é uma visão tocante (e não desesperadora) da idade avançada –na experiência do idoso e dos que convivem (ou conviverão, mais cedo ou mais tarde) com ele.

Claro, o filme só conta "uma" história. Em matéria de velhice, é bom lembrar o título do ótimo livro de Jack Messy, que imitava o bordão de Lacan sobre a mulher: "A Pessoa Idosa Não Existe" (ed. Aleph). Messy lembrava, assim, que cada um envelhece do seu jeito.

Uma frase de Julian Ajuriaguerra (grande neuropsiquiatra e psicanalista) circulava como um provérbio, no hospital Sainte-Anne: "On vieillit comme on a vécu" (a gente envelhece como viveu) –ao envelhecermos, seremos nós mesmos, só que velhos.

Lembro-me de uma conversa, nos anos 1980, com Jean Bergès (sucessor de Ajuriaguerra no hospital Sainte-Anne). Eu descrevia um caso de alexitimia num paciente idoso (alexitimia é uma extrema dificuldade em verbalizar, descrever e até viver sentimentos e emoções). Eu entendia a dita alexitimia como um sintoma da idade do paciente. Bergès observou que existia uma boa chance de que meu paciente não fosse muito diferente quando era jovem.

A velhice não é um tipo de personalidade e, se for um transtorno, seria reativo: o jeito de cada um reagir à perda da identidade profissional (que pesa desde a aposentadoria), à sensação de uma maior proximidade da morte, ao luto do casal e dos amigos, que vão morrendo, à perda da saúde (nem tanto pela chegada de uma grande doença quanto pela síndrome do carro velho, que começa a dar uma encrenca atrás da outra), à perda da autonomia (com necessidade de ter assistência ou de viver num quadro comunitário) etc. A lista é longa.

A reação a essas perdas, muito mais do que a idade, define o que é a velhice avançada. Há o idoso que se deprime, há aquele que se angustia, e quase todos começam a delirar. O idoso tem boas razões para ser paranoico.

Começa com a constatação de que, em tese, ele vai morrer antes dos outros: o que significa que os mais jovens o empurram para a saída. Passa pela sensação de que ele está sendo roubado por aqueles que ficarão com suas coisas (a casa e o relógio, por exemplo). E acaba na necessidade de se mostrar sempre desconfiado: não me deixo enganar significa, no caso, "ainda não estou morto".

As mesmas razões que alimentam a paranoia do idoso produzem sua falta de interesse na vida dos outros. Frequentemente, conversar com um idoso é um exercício de humildade. O que a gente diz tem pouca importância, e o interesse do idoso é fingido –como se nada pudesse se comparar ao drama da vida dele que está acabando.

Agora, eu gosto dos idosos e de sua companhia, mas admito que esses meus "bons sentimentos" sirvam sobretudo a esperança de ser eu mesmo amado (e amável) quando serei idoso. Concordo, não vai ser fácil.

O idoso somos nós amanhã. Mas no sentido oposto ao que acontece com as crianças; sonhamos que as crianças venham a ser tudo o que queríamos ser e não fomos, enquanto o idoso é o fruto de uma espécie de idealização negativa: ele é o que não gostaríamos de vir a ser, é o retrato de um declínio que preferiríamos evitar.

Será que a grande idade, então, não traz nada de bom? O que há de interessante na experiência do idoso? Além do luto antecipado de si mesmo, além da sensação de superfluidade em fim de linha, além de um certo nojo de si e de um corpo que falha, além da desconfiança (vocês não me matarão e descartarão enquanto durmo)". Não há nada que preste?

Em outras palavras, será que existe um jeito "legal" de ser idoso? Será que as perdas podem trazer algo diferente do ressentimento e do luto? Será que pode valer a pena viver até lá?

Gostei da última cena do filme de Le Guay. Justamente porque acho que deve ser possível envelhecer até ser idoso "pegando leve". Explico.

Há um clichê que pergunta sempre como podemos viver sabendo que logo iremos morrer.

A velhice avançada poderia ser o momento em que a gente descobre que talvez esse clichê possa e deva ser subvertido, com a sabedoria que a grande velhice traz: saber que vamos morrer não impede de viver –ao contrário, só é possível viver com leveza quando sabemos que logo a vida vai acabar. Essa é a sabedoria do idoso. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 18 / 08 / 2016

O Globo
"Julgamento vai durar sete dias"

Dilma irá ao Senado para se defender e, segundo Cardozo, responderá a perguntas

Calendário desagradou ao Planalto, que planejava viagem de Temer para o dia 31, já como presidente efetivo

Afastada da Presidência desde maio, Dilma Rousseff decidiu ir ao Senado para fazer sua defesa no julgamento final do processo do impeachment. O ex-ministro José Eduardo Cardozo, defensor da petista, disse que ela responderá a perguntas, apesar de ter o direito de não fazê-lo. Pelo rito definido ontem pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, com líderes do Senado, o julgamento vai durar até sete dias. O cronograma prevê o início para a próxima quinta-feira e a votação final para a madrugada do dia 31. Dilma falará no dia 29 e poderá ser interrogada pelos senadores, pelos juristas da acusação e por sua defesa. O calendário não agradou ao Palácio do Planalto, porque dificulta a primeira viagem internacional de Michel Temer, a partir do dia 31, como presidente efetivo para encontro com investidores na China.             
 
O Estado de S.Paulo
"Temer transfere ao PMDB controle de verbas contra seca"

Até então responsáveis pela execução dos recursos, governadores criticam medida

Na primeira semana de campanha eleitoral nos municípios, Michel Temer (PMDB) tirou dos governadores do Nordeste a execução de recursos de obras de combate à seca e a transferiu ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), controlado predominantemente por peemedebistas. O Planalto também aumentou repasses. Para Alagoas, por exemplo, Estado governado por Renan Filho (PMDB), o valor subiu de R$ 2 milhões para R$ 10 milhões. O governador é filho do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). O mesmo ocorreu em Sergipe. A gestão de verbas para obras contra seca é disputada por servir como arma eleitoral. Em julho, medida provisória do governo liberou crédito extraordinário de R$ 789,9 milhões para ações emergenciais na região. Com o quinto ano consecutivo de seca, o presidente em exercício tem no Nordeste o maior índice de rejeição. 

quarta-feira, agosto 17, 2016

Física


Opinião

Gosto pelo monólogo levou Dilma ao ponto onde está

Elio Gaspari
Dilma Rousseff leu sua carta ao povo diante de jornalistas, mas não aceitou perguntas. Ela gostaria de ir ao Senado para apresentar a sua defesa, mas não quer perguntas. Foi esse gosto pelo monólogo que a levou ao ponto onde está. Mesmo assim, há monólogos que ilustram. Esse não foi a caso da carta lida nesta terça (16).

Quando a senhora e o PT não sabiam o que fazer, propunham um pacto. Assim foi em 2013, quando os brasileiros foram para rua. Ela ofereceu cinco pactos e mudou de assunto semanas depois. Ontem, novamente, ofereceu um "pacto pela unidade, pelo desenvolvimento e pela justiça". Quando pactos não rendem, surge a carta do plebiscito, e Dilma voltou a tirá-la da manga. Sugeriu a realização de um plebiscito "sobre a realização antecipada de eleições, bem como sobre a reforma política e eleitoral".

A reforma política é necessária e não precisa de plebiscito, mas é o caso de se lembrar que tipo de reforma era defendida pelo seu partido. O PT queria, e quase conseguiu, a instituição do voto de lista. Ela confiscaria o direito do eleitor de votar no candidato de sua escolha. Esse poder iria sobretudo para as direções partidárias. (O PT teve dois ex-presidentes e três ex-tesoureiros encarcerados.)

Dilma e o PT revelaram-se intelectualmente exaustos. Tiveram em Eduardo Cunha um aliado, um cúmplice e, finalmente, um inimigo. Nem ela nem o PT conseguiram dar apoio à Operação Lava Jato. Ambos foram ostensivos críticos do instituto da colaboração premiada. Sem ela, a Lava Jato estaria no ralo.

A um passo das cenas finais de sua carreira política, a presidente diz platitudes como esta: "É fundamental a continuidade da luta contra a corrupção. Este é um compromisso inegociável. Não aceitaremos qualquer pacto em favor da impunidade".

A presidente arruinou a economia do país pulando do galho das "campeãs nacionais" para as "mãos de tesoura" de Joaquim Levy, e dele para o breve mandarinato de Nelson Barbosa. Teve em Michel Temer um parceiro de chapa, um articulador político, e finalmente, um inimigo a quem chama de usurpador.

Num episódio raro, a carta de Dilma se parece mais com o programa de um governo que, tendo existido, deixou de existir, mas persiste, vagando tal qual alma penada.

Sua carta aos senadores poderia ter sido diferente na extensão e no conteúdo. Por decisão dela e de seu bunker do Palácio do Planalto, foi um documento empolado no estilo e catastrófico na essência. Ele não seria capaz de mudar votos no plenário do Senado, que baixará a lâmina sobre seu mandato. Poderia ter motivado pessoas que aceitam parte de seus argumentos contra o processo de impeachment. Se ele não tiver esse efeito, isso refletirá a exaustão política do petismo e do dilmismo (se é que isso existe).

A presidente afastada vive seus últimos dias de poder na redoma do Alvorada, transformado em magnífico calabouço. Lá espera o automóvel que a conduzirá ao aeroporto. Poderia ter sido diferente, se ela e o PT tivessem entendido que estar no poder não significa poder fazer o que se queira. Algum dia essa ficha haverá de cair. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 17 / 08 / 2016

O Globo
"Benefício por invalidez deve reduzir"

Na reforma da Previdência, o governo quer mudar a aposentadoria por invalidez, que hoje é integral. A proposta vai prever um piso entre 60% e 70% para o valor do benefício, que subiria de acordo com o tempo de contribuição.             
 
O Estado de S.Paulo
"Supremo manda investigar Dilma"

Ministro Teori Zavascki autoriza inquérito para apurar se presidente afastada, Lula, Mercadante e Cardozo tentaram obstruir Justiça

O ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou abertura de inquérito contra a presidente afastada, Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-ministros Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo. Em despacho anteontem, o ministro autorizou a realização de diligências – andamento processual que é praxe após abertura de investigação. Em junho, Teori informou ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que havia anulado gravação em que Lula e Dilma conversam sobre entrega do termo de posse do petista como ministro da Casa Civil. O diálogo é, para Janot, um indicativo da tentativa de obstrução da Justiça. Com a autorização de Teori, a Procuradoria- Geral da República (PGR) e a Polícia Federal poderão conduzir investigações com objetivo de obter provas. Após as diligências, a PGR pode pedir arquivamento – se entender que não há indício de crime – ou oferecer denúncia ao STF.


terça-feira, agosto 16, 2016

Física


Opinião

A canalhice honesta é uma arte moral acessível somente para almas sinceras

Luiz Felipe Pondé
Você sabe o que é um canalha honesto? Um canalha honesto é alguém que diz para você que as reuniões na casa dele para discutir filosofia é para pegar mulher. Ou que aprendeu a cozinhar para pegar mulher. Um canalha desonesto é um canalha que diz que de fato a filosofia é importante para ele ou que cozinhar o faz se sentir mais autônomo na vida.

A arte da desonestidade na canalhice pode ir longe ao ponto de você dizer que é de fato feminista, e não que ser feminista num homem pode ajudá-lo a pegar mulher –o que eu, pessoalmente, duvido que tenha sucesso de fato.

O personagem Palhares, do Nelson Rodrigues, era o canalha honesto. Era marxista para pegar mulher, depois se converteu à psicanálise, ao nudismo, à maconha, a Jesus. E Nelson dizia que um dia haveríamos de ter saudade do Palhares. Mais uma vez nosso sábio acertou em sua previsão. Segundo Nelson, nem a canalhice estaria a salvo da má-fé que se instalaria no seio da cultura ocidental.

Pois bem, e aí chegamos a uma conversa que tive há alguns dias sobre essa canalhice desonesta chamada poliamor. O primeiro traço de canalhice desonesta é quando o agente da ação diz que faz X porque ele evoluiu para tal. No caso do poliamor, para uma forma de amor coletivo e sem ciúmes. Toda pessoa que se diz segura é um canalha desonesto. Como se sabe, toda virtude verdadeira é silenciosa.

Em nossa conversa, o poliamor era apresentado como uma condição em que você pode dividir pessoas amorosamente e sexualmente com outras pessoas e tudo bem.

Veja bem: sempre existiu gente que gosta de sacanagem coletiva. Entendo que um canalha honesto tente convencer a namorada ou mulher a aceitar que uma colega da faculdade ou do trabalho venha passar um final de semana em Gonçalves com eles. E, que, em dado momento, tente fazer com que as duas se peguem. Um sonho clássico de consumo de canalhas honestos (ou, simplesmente, de homens honestos) é ver duas minas se pegando.

Entendo também que mulheres honestas fantasiem com dois caras comendo elas ao mesmo tempo. A canalhice honesta é uma arte moral acessível somente para almas sinceras.

Uma comparação comum que se faz com o poliamor é com a prática do harém. Ao ouvir essa comparação outro dia, subiu à minha alma uma grande indignação!

Eu disse de forma veemente: "Pare por aí! Num harém, as mulheres competiam e se matavam. Matavam os filhos homens umas das outras, com medo de que uma delas se tornasse muito poderosa por ter dado um filho varão para o Sultão. Era um inferno de traições". Inclusive se comiam umas as outras por desespero e solidão confessa (coisa hoje que muita gente não ousa confessar que seja o motor de muita mulher comendo umas as outras, em todas as idades).

Tomado por indignação e pela certeza de que, ao compararmos o poliamor com um harém, faltamos com respeito para com todas aquelas mulheres, muitas vezes infelizes (uma das maiores cretinices de nossa época é a falta de respeito para com a infelicidade), continuei de forma apaixonada: "Aquelas mulheres competiam e se matavam, por isso mesmo eram gente séria e digna! Merecem nosso respeito!".

Imagino que muita gente ao me ouvir dizer isso não me entenda plenamente. Como assim, gente que compete e se mata é gente digna e merece nosso respeito?

A vida digna é imersa em sangue, beleza e sofrimento. O maior engano contemporâneo com relação a qualquer forma verdadeira de ética e virtude é algo que os antigos (gente muito mais séria do que nós) sempre souberam, incluindo Aristóteles em sua filosofia das virtudes conhecida como "Ética a Nicômaco": a virtude só nasce num terreno que lhe é hostil. Qualquer outra afirmação sobre virtude é falsa.

A honestidade do canalha Palhares do Nelson nasceu no momento em que ele confessou que agarrou a cunhada mais jovem na saída do banheiro por puro desespero: a beleza dela era maior do que qualquer risco de ser pego no meio do crime.

A desonestidade do poliamor nasce da sua demanda de garantia de não sofrimento. Um harém era um lugar de agonia, e virtudes são filhas da agonia.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 16 / 08 / 2016

O Globo
"Privatizar saneamento pode render R$ 1,5 bilhão"

BNDES sugere dividir estado em 4 áreas para concessão

Modelo garantiria receita ao Rio e não elevaria custos a moradores, defende governo federal. Banco oferecerá crédito a juro menor

O BNDES apresentou ao governo do Rio uma proposta para privatizar o saneamento que pode gerar R$ 1,5 bilhão em receitas só na assinatura dos contratos, informou o secretário Moreira Franco, que comanda o programa de concessões da União. O banco sugeriu dividir o estado em quatro áreas, que serão oferecidas à iniciativa privada. A Cedae continuaria responsável por levar água às adutoras, e os parceiros privados fariam a distribuição, além da coleta e do tratamento do esgoto. O BNDES oferecerá condições vantajosas de crédito ao setor.            
 
O Estado de S.Paulo
"‘Meirelles é vítima de manipulação eleitoral’, diz Moreira Franco"

Secretário e conselheiro de Temer rebate crítica do PSDB a ministro da Fazenda

Um dos mais próximos conselheiros de Michel Temer, Moreira Franco, secretário do Programa de Parcerias de Investimentos, rebateu críticas do PSDB ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e disse que ele está sendo vítima de “manipulação eleitoral”. “Fernando Henrique e Lula tiveram ministros fortes na área econômica. Já Sarney e Dilma tiveram ministros fracos. A experiência mostra que não é recomendável transformar o ministro da economia em vítima de manipulação eleitoral.” Ele insinuou que tucanos estariam agindo para enfraquecer o chefe da economia. “Diante da gravidade da situação, é muito pouco recomendável qualquer tentativa de enfraquecimento de Meirelles.” Para o senador tucano José Aníbal, o ministro é vítima “dele mesmo”. “Ele concordou em reduzir exigências para renegociar dívidas de Estados. É uma indicação contrária ao que todos que apoiamos o ajuste esperamos.”               
           
 
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