sábado, agosto 13, 2016

Física


Opinião

Em todas as vezes o, fogo

Gabeira
É arriscado funcionar como um detector de fumaça num momento de alegria e emoção que envolve o País. Mas há fogo intenso na Amazônia, que vive uma seca brava. E houve muito fogo no Rio Grande do Norte, com ônibus e instalações sumindo nas labaredas.

No caso da Amazônia, já tivemos condições de conter o crescimento de incêndios. Depende também de um esforço coordenado do governo. E ele deveria examinar onde falhou. Já o episódio do Rio Grande do Norte, com mais de cem ataques e a presença da Força Nacional, é um sintoma de que, na crise do sistema penitenciário, continuamos sem saída, apenas empurrando com a barriga.

Já é difícil falar do sistema penitenciário em tempos normais. No auge de uma Olimpíada, os incêndios no Nordeste parecem ser num outro país. As atenções estão voltadas para a Olimpíada, a própria imprensa está concentrada nos Jogos, como todo o aparato de segurança. No entanto, os incêndios revelam um padrão inquietante. Nasceram de ordens das cadeias, tal como no Rio, em São Paulo, Santa Catarina, Maranhão.

Todos sabem que o sistema penitenciário está em crise. E agora percebem que grande parte dos líderes do crime organizado opera de dentro das cadeias. Existe uma espécie de ilusão nacional de que, uma vez condenando e prendendo as pessoas, tudo está resolvido. A sociedade não se interessa por presídios, os juízes cuidam de novas sentenças, os advogados se afastam gradativamente. E a polícia lava as mãos, satisfeita.

Claro que os presídios precisam melhorar, mas mesmo quando estiverem melhores é ingenuidade supor que os presos não continuem a cometer crimes dentro da cadeia. A Inglaterra, por exemplo, desenvolveu inúmeros trabalhos de inteligência e prevenção dentro de presídios. Estamos no estágio ainda de bloquear ou não celulares. Mas não há inteligência nem cuidados preventivos.

Num momento como este, de quebradeira, parece um luxo falar em investir em prevenção do crime dentro das cadeias. Mas os motins quase sempre terminam com destruição de equipamentos e instalações. E nos incêndios nas ruas, com prejuízos para todos. Compreendo que todos estivessem focados na Olimpíada. Mas os deputados estavam à toda. Já nem se movem mais para conflitos e presídios, talvez com medo de ficar por lá.

Se houvesse um sistema nacional de relatórios diários sobre as principais cadeias e um grupo analisando esses dados, creio que parte dos motins seria evitável. Às vezes acontecem depois de um prolongado período de reclamações sobre comida estragada. Os funcionários de presídios não precisariam escrever, apenas responder a um amplo questionário.

No caso do Rio Grande do Norte, às vésperas do bloqueio dos celulares, seria possível aconselhar a monitorá-los um pouco, traçar um quadro de suas conexões. Reconheço que falar é fácil depois que acontece. Mas com um sistema de vigilância de pé, quando acontece é possível ao menos uma referência para a crítica.

Em vários Estados o processo suplantou a polícia local, foi preciso a intervenção da Força Nacional e do Exército, isso num momento em que está tudo orientado para a segurança da Olimpíada.

Embora nunca se divulguem as cifras com clareza – mesmo porque ninguém pergunta –, esses movimentos são caros. Em termos puramente econômicos, o crime liderado por presidiários nos impõe pesadas perdas.

São coisas que, calculando na ponta do lápis, mesmo abstraindo os fatores humanos, acabam sendo muito mais custosas para o País do que enfrentamento direto do problema, ainda que investindo algum dinheiro.

Leio no belo livro Brasil, uma Biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, que os portugueses pouco se importavam com a situação dos escravos que transportavam. Perdiam 10% de sua carga humana, o que era considerado pelos franceses como um índice de epidemia. Pensei: se os portugueses investissem um pouco mais na alimentação dos escravos, talvez conseguissem um melhor resultado econômico. E, sobretudo, poupariam muitas vidas.

Empurrar com a barriga, recusar-se a enfrentar uma reforma, não é a melhor tática. Perdemos vidas, dinheiro.

Criar condições dignas de prisão é apenas um dos caminhos. Depende de recursos, reorganização geral. Há muita gente nas cadeias e muita gente com mandato de prisão nas ruas. Na velha lógica da gafieira, quem está dentro não sai, quem está fora não entra, dificilmente vamos encontrar o equilíbrio.

Mas é preciso ir um pouco além. O comando do crime organizado está em grande parte nas cadeias. O esforço policial, pelo menos teoricamente, está concentrado nas ruas.

O episódio do Rio Grande do Norte foi engolido pela Olimpíada. Revoltas semelhantes também foram esquecidas. No momento, não vejo o governo tentando ligar as pontas, compreender a dimensão nacional do problema. Ele espera que alguma coisa estoure nos Estados e vai socorrer quando as coisas escapam ao controle da polícia. Parece que ministros da Justiça ignoram a realidade das cadeias.

Outro dia, pesquisando sobre violência em Paraty, constatei que as facções criminosas na pequena cidade histórica foram organizadas por gente que passou por presídios do Rio e, ao voltar à liberdade, dividiu as regiões de influência e criou suas facções criminosas. Eles aprenderam na cadeia. Assim os vários presídios estão aprendendo uns com os outros e aterrorizando as ruas. Mas o que é que o governo aprendeu? É hora de compreender a violência urbana não só nas ruas, mas em suas articulações com um sistema penitenciário em crise.

A longa crise política dificultou o debate. Os ministros da Justiça eram escolhidos para defender um governo cambaleante. O atual está concentrado na Olimpíada, falando de terroristas e redes sociais. Quando tudo isso passar e ele examinar bem o que aconteceu no Rio Grande do Norte e compreender o susto que passamos, pode tomar alguma iniciativa. Será um legado indireto da Olimpíada.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 13 / 08 / 2016

O Globo
"Risco de calote gera prejuízo no BNDES"

Perda de R$ 2,2 bi no semestre é a primeira desde 2003

Banco sofre com rescaldo da Lava-Jato e empresas em recuperação judicial, e eleva reserva para inadimplência em 824%

Pela primeira vez em 13 anos, o BNDES teve prejuízo de R$ 2,2 bilhões no semestre. O resultado foi influenciado pela recuperação judicial de grandes empresas, como a Oi, e pela piora no endividamento de companhias envolvidas na Lava-Jato, como Odebrecht e OAS, que são clientes do BNDES. O banco elevou em 824% suas reservas para o risco de calote, que chegaram a R$ 4,438 bilhões. Para analistas, a nova gestão do banco optou por tornar mais claros esses riscos.           
 
O Estado de S.Paulo
"Mulher e filho de Lula se recusam a depor na PF"

Decisão de ficar em silêncio em depoimento piora relação entre defesa e Lava Jato

A defesa da ex-primeira-dama Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, e de um dos filhos do casal, Fábio Luís, informou à Polícia Federal que eles pretendem ficar em silêncio em depoimento sobre compra e reformas de sítio em Atibaia. A manifestação acirrou a já tensa relação entre a Operação Lava Jato e advogados do petista. Em dois ofícios, defensores dizem que Marisa e Fábio pretendem “se valer do direito constitucional de permanecer em silêncio, razão pela qual se mostra inútil deslocamento a Curitiba ou outro local, com dispêndio de recursos e desperdício do já exíguo tempo das autoridades”. Para o delegado Marcio Anselmo, a posição é “lamentável”.              
           

sexta-feira, agosto 12, 2016

Douglas-DC-9-NASA


Coluna do Celsinho

Monstrinhos

Celso de Almeida Jr.

Caçar Pokémons.

Poxa, vida!

Fiquei pensando como meus pais e avós reagiram às novidades tecnológicas em diferentes épocas de suas vidas.

Ficaram espantados?

Admirados?

Animados?

Angustiados?

Pois é...prezado leitor, querida leitora...

Vivo as mesmas emoções.

Vale uma dica?

É melhor conhecer.

Se preciso - até - caçar os monstrinhos, ao menos para compreender o que isso significa.

De qualquer forma, no meu caso, percebo que não será fácil a travessia.

Saudade do Forte Apache...

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com


Física


Opinião

Crescimento que nos espera dificilmente será vigoroso

Alexandre Schwartsman
Observamos os primeiros sinais de recuperação da atividade econômica. Depois de oito trimestres consecutivos de contração, a produção industrial finalmente deu sinal de vida, ao crescer 1,2% no segundo trimestre do ano na comparação com o primeiro, já descontando os movimentos sazonais do período.

Vale comemorar, pois, entre os praticamente 22 trimestres em que o país esteve sob o governo de Dilma Rousseff, houve crescimento da indústria em apenas 7, já contando a observação mais recente, um recorde negativo de pelo menos 25 anos. Ainda assim, mesmo com a modesta recuperação, a produção se encontra 18% abaixo de seu pico, no começo de 2011.

Antes, porém, que comece a choradeira da "crise global", noto que no mesmo período, segundo os dados do Birô de Análise de Política Econômica (CPB) na Holanda, a produção industrial mundial não caiu em nenhum trimestre. Ao contrário, registra nada menos do que 29 trimestres de expansão contínua desde o começo de 2009, a mais longa (embora não a mais rápida) da série iniciada em 1991.

Resta, contudo, saber se essa módica retomada é prenúncio de recuperação à frente ou apenas um rebote natural depois de período tão longo de queda. Hoje me inclino para a primeira alternativa, observando, entretanto, que o crescimento que nos espera no futuro próximo dificilmente será vigoroso.

A começar porque o consumo, principal componente da demanda interna, permanece anestesiado. As vendas no varejo caem a um ritmo menor, mas não tornaram a crescer, nem poderiam, diante da queda da renda e do emprego, que se somam a um endividamento familiar ainda elevado para nossos padrões.

Da mesma forma, em que pese alguma melhora na produção de máquinas e equipamentos, a construção civil também segue em queda. Essa combinação indica que a retomada industrial dificilmente pode ser atribuída ao investimento, já que a construção é o seu principal componente.

Resta, portanto, o setor externo como motor da expansão industrial. Em parte como resposta ao aumento das exportações de produtos manufaturados (em quantidade), mas principalmente em razão da recuperação de parcela do mercado que havia sido perdida para as importações.

No entanto, a história mostra que o setor externo pode atenuar o impulso negativo da demanda interna e, ocasionalmente, produzir algum crescimento. Não consegue, porém, sustentar a indústria nacional por períodos muito longos, muito menos a um ritmo vigoroso. A razão é simples: mesmo considerando que a indústria é bem mais exposta ao comércio exterior do que a economia como um todo, o peso do comércio é pequeno ante a produção, insuficiente para impulsioná-la de forma persistente e rápida.

Posto de outra forma, é bem possível que o PIB volte a crescer na segunda metade do ano, seguindo de forma defasada a produção industrial. Todavia, na contramão das experiências de saída das últimas recessões (em 2000, 2004 e 2010), é pouco provável que a expansão seja forte o suficiente para recuperar rapidamente o terreno perdido de 2014 para cá.

Essa é a herança dos defensores da Nova Matriz Econômica, que agora buscam se refugiar por trás de novos rótulos ("neodesenvolvimentismo", ou coisa que o valha). Lembrem-se dela quando esbarrarem nas propostas desse pessoal. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 12 / 08 / 2016

O Globo
"Risco de calote gera prejuízo no BNDES"

Perda de R$ 2,2 bi no semestre é a primeira desde 2003

Banco sofre com rescaldo da Lava-Jato e empresas em recuperação judicial, e eleva reserva para inadimplência em 824%

Pela primeira vez em 13 anos, o BNDES teve prejuízo de R$ 2,2 bilhões no semestre. O resultado foi influenciado pela recuperação judicial de grandes empresas, como a Oi, e pela piora no endividamento de companhias envolvidas na Lava-Jato, como Odebrecht e OAS, que são clientes do BNDES. O banco elevou em 824% suas reservas para o risco de calote, que chegaram a R$ 4,438 bilhões. Para analistas, a nova gestão do banco optou por tornar mais claros esses riscos.           
 
O Estado de S.Paulo
"Mulher e filho de Lula se recusam a depor na PF"

Decisão de ficar em silêncio em depoimento piora relação entre defesa e Lava Jato

A defesa da ex-primeira-dama Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, e de um dos filhos do casal, Fábio Luís, informou à Polícia Federal que eles pretendem ficar em silêncio em depoimento sobre compra e reformas de sítio em Atibaia. A manifestação acirrou a já tensa relação entre a Operação Lava Jato e advogados do petista. Em dois ofícios, defensores dizem que Marisa e Fábio pretendem “se valer do direito constitucional de permanecer em silêncio, razão pela qual se mostra inútil deslocamento a Curitiba ou outro local, com dispêndio de recursos e desperdício do já exíguo tempo das autoridades”. Para o delegado Marcio Anselmo, a posição é “lamentável”.              
           

quinta-feira, agosto 11, 2016

Física


Opinião

Por que preferimos explicar o mundo como se tudo fosse culpa dos outros?

Contardo Calligaris
No amor, na política, no esporte –em suma, na vida– podemos escolher entre dois estilos de interpretação.

O primeiro é o estilo paranoico, que consiste em culpar Deus e o mundo, ou seja, os outros, por tudo o que acontece de errado.

O segundo é o estilo dito "autoatributivo", que consiste em procurar a causa de nossos percalços em nós mesmos.

Para quem pratica o estilo paranoico, os autoatributivos são ingênuos, otários, ignaros das tramas obscuras que estariam sendo urdidas contra todos nós.

Aos olhos dos autoatributivos, os paranoicos, quando não são delirantes, são covardes: acusam os outros para evitar suas responsabilidades. Em geral, meu estilo preferido é o autoatributivo. Não gostei do que aconteceu? O que houve "em mim" que causou ou permitiu esse desfecho?

Enquanto isso, o praticante do estilo paranoico prefere o pronome da terceira pessoa do plural: foram "eles". "Eles" são os banqueiros de Londres e os deputados Fulanos, dizia Mário de Andrade, os corruptos, os políticos, a China que rouba nossos empregos, os americanos imperialistas, os transexuais que atrapalham a paz de nossos banheiros públicos, os intelectuais ou o povo que não sabe votar, tanto faz. "Eles" sempre são os outros, diferentes de nós.

Conselho básico entre parênteses: para educar uma criança ou um adolescente, é melhor renunciar ao estilo paranoico. "Os professores não gostam de mim", ou "a aula não estava clara", ou "não disseram direito sobre o que seria a prova" etc., nada disso interessa. O que importa é (versão autoatributiva) que você não estuda o suficiente. O estilo paranoico é infinitamente mais popular do que o autoatributivo.

Donald Trump já ganhou quase a metade do eleitorado dos EUA (e pode ser eleito presidente) num grande exercício de estilo paranoico: você sente que seu lugar na pequena classe média está sendo ameaçado? Pois é, foram eles, os tecnocratas, os banqueiros de Wall Street, a China que produz barato e os estrangeiros que pegam nossos empregos.

O "brexit" também funcionou recorrendo ao estilo paranoico: de novo, você, lá na Inglaterra rural, sente seu lugar ameaçado? É porque "eles" (os estrangeiros) tomaram conta de nosso país.

Um grande historiador dos EUA, Richard Hofstadter, escreveu, em 1964, um ensaio crucial sobre "O Estilo Paranoico na Política Americana", analisando a desconfiança, a suspeita e as teorias conspiratórias na história dos EUA. Só falta acrescentar que o fenômeno não é apenas americano e é mais antigo do que o próprio Hofstadter propõe.

Psicólogos e psiquiatras constataram que as formações delirantes são quase sempre persecutórias: na loucura, quando precisamos dar algum sentido ao mundo, imaginamos que somos vítimas (de um complô, de extraterrestres, de ondas malignas, tanto faz).

De onde vem, então, essa predileção pelo estilo paranoico de nosso entendimento do mundo?

Alguns psicólogos evolucionistas acham que, para nossos antepassados caçadores-coletores, que viviam em pequenos grupos, o mais importante era confiar no pessoal da "tribo". Mais tarde, quando os conglomerados humanos se tornaram maiores e mais numerosos, o que importava mais não era reconhecer as pegadas do búfalo, mas interpretar direito as intenções dos outros, que podiam ser inimigos. Nessa fase, os paranoicos sobreviveriam e os otários sumiriam. Por isso, os genes dos paranoicos teriam chegado até nós.

Isso deixaria de ser verdade na aurora da Era Moderna. Quando o mundo se expandiu pelo comércio (de Marco Polo ao Mercosul), por mais que assinássemos pactos e contratos, o que fez que as trocas prosperassem foi a confiança, e não a desconfiança (Francis Fukuyama escreveu um livro extenso sobre isso, "Confiança").

Talvez o estilo paranoico triunfante do último século seja apenas uma reação passageira à abertura progressiva do mundo e à exigência de confiança nos outros que essa abertura acarreta.

De qualquer forma, história da humanidade e evolução à parte, a psicologia clínica também tenta entender por que a maioria prefere o estilo paranoico ao autoatributivo. Voltarei ao tema, mas, desde já, a explicação mais plausível é simples: tentamos preservar a nossa imagem ideal e justificar nossa preguiça e nossa mediocridade. Perdi? Deu errado? Não fui eu, foram "eles". 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 11 / 08 / 2016

O Globo
"Cassação de Cunha só será votada em setembro"

Decisão ocorrerá após conclusão do impeachment

Data agrada a aliados de Temer, preocupados com possível vingança do peemedebista

Depois de longa indefinição, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), marcou a votação do processo de cassação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para 12 de setembro, após a conclusão do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Maia deu uma série de justificativas para adiar a votação. A decisão agradou a aliados do presidente interino, Michel Temer, preocupados com a possibilidade de uma reação vingativa de Cunha influenciar o desfecho do impeachment. Criticado, o presidente da Câmara disse que o prazo respeita a média histórica do Parlamento.            
 
O Estado de S.Paulo
"Alimentos sobem 8,79% no ano e não deixam inflação cair"

Arroz, feijão e leite pressionaram taxa; tendência é de queda no 2º semestre

A quebra de safra encareceu produtos importantes da cesta básica do brasileiro. Arroz, feijão e leite foram alguns dos itens que mais pressionaram o orçamento familiar em julho. A taxa de inflação acelerou para 0,52%, ante 0,35% em junho, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Apenas neste ano, os alimentos já ficaram 8,79% mais caros. Em julho, foram responsáveis por 65% da inflação. Analistas esperam mudanças no segundo semestre, embora a pressão dos alimentos em julho sugira que a revisão para baixo das expectativas de inflação será mais lenta. “A tendência é de queda. A apreciação do real e a atividade ainda fraca devem levar a uma trajetória de desaceleração nos próximos meses mais forte do que a observada na primeira metade do ano”, avalia o economista Luiz Fernando Castelli. O IPCA acumulado em 12 meses desacelerou de 8,84% em junho para 8,74% em julho, patamar ainda distante da meta do governo, de 4,5%.              
           

quarta-feira, agosto 10, 2016

Física


Opinião

Será crime um branco não ter amigos negros para mostrar?

João Pereira Coutinho
Ah, a experiência! Os colunistas são como certos cachorros de caça. A presa ainda não apareceu no horizonte. Mas os nossos caninos já estão espumando de excitação.

Exemplo: dias atrás, li uma excelente entrevista de Jonathan Franzen à "Slate". Gosto de Franzen. Conheci-o pela primeira vez em 2002, talvez 2003, em livro de ensaios que recomendo ("Como Ficar Sozinho", Companhia das Letras). Depois, provei os romances. Também recomendo, embora "As Correções" (Companhia das Letras) me pareça bem melhor que os seguintes.

Mas regresso à entrevista. E aos meus caninos. A certa altura, o entrevistador pergunta a Franzen se ele nunca pensou em escrever um romance sobre os conflitos raciais que correm pelos Estados Unidos. A pergunta é absurda: um escritor não tem que escrever sobre os temas que interessam ao entrevistador –e isso revela a decadência cultural do jornalismo contemporâneo.

Franzen escutou a pergunta, meditou e finalmente respondeu, embaraçado: "Não tenho muitos amigos negros", um eufemismo para dizer que não tem nenhum. E depois, com honestidade, concluiu: só devemos escrever sobre realidades que conhecemos bem.

Terminei essa parte da entrevista com duas perguntas a balançar no trapézio.

A primeira foi questionar se também eu tenho amigos negros. Não tenho. Existem conhecidos, colegas, amigos de amigos. Mas não tenho no portfólio um exemplar para mostrar. Razões?

Nenhuma em especial. Nunca aconteceu. O destino, nessas matérias, tem uma palavra importante. E, além disso, eu ainda respeito o significado profundo da palavra "amigo". São três ou quatro e ponto final. Por acaso, todos brancos.

Mas a segunda pergunta é mais relevante que a primeira e foi ela que despertou o meu faro: depois da confissão de Franzen, esperei pelas críticas das brigadas. Que logo surgiram, para confirmarem o meu instinto.

No inglês "The Guardian", a escritora Lindy West resumiu o estado da arte: Franzen faz parte da esmagadora maioria de americanos brancos (75%, segundo um estudo do Public Religion Research Institute) que não tem amigos de outras raças. Franzen seria, na linguagem erudita de West, um caso de "auto-segregação": um escritor que se esconde na sua bolha de privilégio e que nunca mostrou interesse em ter amigos negros.

Ponto prévio: se a cifra está correta (75% de brancos sem amigos de outras raças), é óbvio que existem dois planetas distintos nos Estados Unidos quando os negros representam 12% da população (estimativa conservadora).

A pobreza tem aqui a palavra central, admito: nas nossas vidas cotidianas, tendemos a cultivar "relações de classe". Se os brancos são mais afluentes que os negros, é normal que os brancos tenham amigos brancos.

Por outro lado, já não será tão normal viver em grandes cidades –como Nova York, Chicago ou Los Angeles– sem amigos negros que habitam a mesma classe média. Mas será que isso constitui um crime? Ou, pelo menos, uma falha de caráter?

A escritora acredita que sim. E, na sua cabeça pequena, não lhe ocorre a possibilidade singela de Franzen não ter amigos negros porque nunca os encontrou.

Para Lindy West, a raiz do desencontro está na pigmentação da pele; mas como excluir, com dogmatismo infantil, a importância das afinidades culturais, dos interesses comuns ou até dos acasos biográficos ou geográficos?

Finalmente, e em verdadeira paródia ao conceito de "amizade", Lindy West questiona por que motivo Franzen não faz um esforço para procurar amigos negros. "Amizade", para ela, é uma espécie de jardim zoológico privado onde temos o amigo negro na jaula 1; o asiático na jaula 2; o hispânico na jaula 3; o samoano na jaula 4; e, já agora, o índio na jaula 5. Parafraseando os existencialistas, a aparência precede a essência.

É um caminho. Claro que esse conceito de amizade também pode ser problemático: se a ONU tem 193 Estados membros, uma amizade verdadeiramente inclusiva deve transcender as fronteiras do país e abraçar o mundo inteiro. Ou somos cosmopolitas, ou não somos nada.

Prometo que vou fazer um esforço: amanhã começo na letra A – com um amigo afegão– e só descanso quando chegar ao Zimbábue. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 10 / 08 / 2016

O Globo
"Acusação e Planalto agem para acelerar impeachment"

Julgamento decisivo de Dilma no Senado deve começar em duas semanas Juristas antecipam para hoje apresentação da peça final contra a presidente afastada, que terá três dias para entregar sua defesa; relator da comissão diz que petista atuou em 'benefício político-pessoal'
Os juristas responsáveis pelo processo de impeachment de Dilma Rousseff decidiram antecipar para hoje a entrega da peça final de acusação para acelerar o julgamento da presidente afastada. Com isso, Dilma terá de entregar a defesa até sexta-feira, e a fase decisiva poderá começar dia 23. Ontem, o Planalto e o presidente do Senado, Renan Calheiros, atuaram para agilizar a etapa da pronúncia, em que o Senado decide se a petista irá a julgamento. O presidente do STF, Ricardo Lewandowski, que comanda os trabalhos, impediu manobras de petistas e chegou a cortar o microfone de Gleisi Hoffmann. Relator da comissão do impeachment, Antonio Anastasia (PSDB) acusou Dilma de agir em "benefício político-pessoal".           
 
O Estado de S.Paulo
"Dilma Rousseff vira ré em processo de impeachment"

Por 59 votos a 21, Senado decide que presidente afastada será julgada por crime de responsabilidade

O plenário do Senado decidiu na madrugada dar continuidade ao impeachment de Dilma Rousseff. Por 59 votos a favor e 21 contra, a Casa aprovou parecer da Comissão Especial e tornou ré a presidente afastada. A decisão abre caminho para que ela seja julgada por crime de responsabilidade. O número de parlamentares contra Dilma foi maior do que os 54 necessários para aprovar seu afastamento definitivo. O final do impeachment pode ocorrer a partir do dia 25. Ontem, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, que conduziu a sessão no Senado, negou as oito questões de ordem apresentadas por aliados de Dilma com o objetivo de suspender a ação. Responsável pela defesa da petista, José Eduardo Cardozo disse que pedirá nulidade do processo. Com a expectativa da votação, o dólar fechou a R$ 3,14, menor patamar desde julho de 2015.              
           

terça-feira, agosto 09, 2016

Física


Opinião

Os intelectuais abraçaram a falsa paixão pela lenda do povo soberano

Luiz Felipe Pondé
Por que os intelectuais odeiam o povo? Afirmei isso semana passada em minha coluna ("Bom dia terrorismo!) e muita gente me perguntou a razão disso.

Vejamos um exemplo prático bem atual: Donald Trump.

Todo mundo se pergunta como o povo americano (pelo menos parte importante desse povo) pode votar num cara como Donald Trump. Não vou entrar no mérito do quão "idiota", "palhaço", "populista", "sexista", "racista" muita gente acha que ele é. Se ele é ou não isso tudo, não me interessa aqui.

O que me interessa é que toda a inteligência pública parece concordar que ele mereça todos esses adjetivos. Logo, parece haver uma discordância significativa entre o que pensa grande parte do povo americano e a inteligência pública.

Por que alguém em sã consciência votaria em Donald Trump sendo ele tudo o que achamos que ele seja? Existe a possibilidade de que ele não seja tudo isso de ruim e a inteligência pública esteja errada? Suspeito que não seja esse o caso.

Então, a pergunta que não quer calar é: o povo é burro, pelo menos do ponto de vista da inteligência pública? A resposta é: sim.

Mas o que seria essa "burrice" aqui? Antes, um reparo filosófico importante para deixar clara a razão de eu achar que intelectuais desprezam o povo, suas escolhas, seu mundinho medíocre de consumo, suas jantas, seus programas bregas na TV e suas férias em praias com milhões de pessoas.

Apesar de ter certeza que a democracia é o regime menos pior que conhecemos, não acredito que as pessoas escolham "racionalmente" em quem vão votar. Essa crença é, basicamente, uma lenda. Ninguém vota "racionalmente" –talvez 1% dos eleitores, e porque é gente obsessiva e monomaníaca.

Acho que ninguém está nem aí para política na maior parte do tempo, e quem está, está por taras pessoais do tipo gostar de mandar, mania de grandeza, messianismo ideológico; enfim, taras, e não porque seja excepcionalmente "racional".

Sei que você deve estar querendo saber o que eu quero dizer por votar "racionalmente". Já digo. Lembre-se: como dizia Hegel, conceitos exigem paciência.

Votar "racionalmente" é comparar programas, históricos, coerência de vida e trabalho dos candidatos. Passar algum tempo fazendo essa "pesquisa", discutir com amigos e, principalmente, inimigos, isto é, gente que não concorda com você, enfim, é "trabalhar" para escolher em quem votar.

Conclusão: a maior parte da humanidade que trabalha não tem tempo nem saco para isso. E quem faz, o faz porque é "profissional" militante (e militante, por definição, não é um ser que pensa, mas, sim, um ser obcecado por uma causa). E a coisa que menos importa para ele é comparar propostas, históricos, concepções de mundo. Quer apenas levar os outros a pensar como ele.

Dito isso, voltemos à "burrice". Intelectuais são pessoas que passam a vida pensando, colhendo dados, comparando-os e discutindo com parceiros. Quero dizer, isso seria o ideal. A realidade está, como sempre, entre o ideal e o inferno (mais perto deste do que daquele).

Para além desse ideal, muitos intelectuais se entregaram à falsa paixão pela lenda do "povo racional soberano da democracia", lenda criada pela Revolução Francesa. Mas, como toda lenda, esta fala mais de quem crê nela do que de qualquer outra coisa.

Portanto, os intelectuais recusam o fato de que o povo não vota "racionalmente". Detalhe: ele, o intelectual, também não necessariamente vota "racionalmente", mas a partir de suas taras ideológicas e lenda políticas.

A pergunta a fazermos é: quais são as taras que levam parte do povo americano a votar em Donald Trump?

Tudo de muito humano, demasiado humano: medo, raiva, insegurança, vontade de fazer o mundo parar de girar, fantasia de que a janta será sempre a mesma, com as mesmas pessoas, pânico dos EUA deixar de ser a potência número um, a ilusão de que se pode viver isolado do resto do mundo com barreiras.

Os intelectuais odeiam o povo porque o povo é a humanidade –banal, medrosa, insegura. E os intelectuais amam a ideia de humanidade "racional", mas detestam suas misérias. 

Original aqui

 
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