sábado, julho 30, 2016

Física


Opinião

Os horrores do mundo

Gabeira
Quando menino, lembro-me de que a chegada de sinais do progresso era saudada com orgulho. Quando o teatro de revista chegou à cidade, o título do espetáculo era: Juiz de Fora Civiliza-se.

Com o tempo, a gente aprende a gostar do que vem de fora, mas descobre que de fora podem vir também as tendências mais sanguinárias e destrutivas.

Sou favorável a uma lei antiterrorismo no Brasil, independentemente da Olimpíada. Discordo da tese de que foi necessária apenas para atender a pressões externas. Ela foi imposta pelo mundo real.

Não somos um país prioritário para o terrorismo. Mas será que o Isis (Estado Islâmico) sempre se moverá de acordo com a lógica que prevemos?

Depois do 11 de Setembro, os americanos levantaram suspeitas sobre a presença de terroristas na Tríplice Fronteira. Não há notícias de que tenham sido confirmadas.

Visitei a região e senti que a grande colônia muçulmana estava incomodada com as notícias sobre Foz do Iguaçu. Pelo que vi, pelo menos, não havia uma juventude sem perspectivas de trabalho. Ao contrário, sentia-se prosperidade e gente chegando para empreender, construir sua própria casa.

Os critérios que uso para classificar o perigo do terrorismo do Isis, assim como o da Al-Qaeda, começam por diferenciá-lo do terrorismo do século 20. Na peça Os Justos, de Camus, o atentado ao arquiduque é adiado porque havia crianças na carruagem. Hoje, os terroristas não se importam com crianças. Quanto mais mortes produzirem, mais satisfeitos.

Um outro critério é lembrar que aquele tipo de simpatia (Brasil, carnaval, Pelé) com que nos tratam com carinho não existe para esses terroristas. Vamos olhar pelo caminho mais amplo, despojados de todo sentimentalismo.

Eles degolaram um padre de 86 anos perto de Rouen, na França. Somos o maior país católico do mundo. Respondem com bombas a um estilo de vida que tem na liberdade – a de expressão, inclusive – o seu máximo valor. Como o nosso.

O Brasil fez sua primeira experiência no combate aos grupos terroristas ligados ao Isis. Foi uma operação bem-sucedida, que contou com indicações do FBI. Mas faltou o que eu chamaria de um protocolo nacional para comunicar o tema à sociedade. Não pretendo redigi-lo. Mas, como leigo, parece-me que divulgar nomes e imagens de pessoas que acabam de ser presas não é a melhor tática. Se tiverem vínculos criminosos, o mais desavisado de seus cúmplices fugirá ou limpará o terreno. Se forem inocentes, terão sido, na verdade, sujeitos a uma exposição que marcará sua vida.

Outra tendência do governo que me deixou um pouco perplexo está no fato de ele analisar o grupo preso e classificá-lo de amador. Não cabe ao governo definir o profissionalismo de um grupo capturado. Ele prende, investiga e, no final, apresenta os dados.

Imagino que a opção de classificá-los como amadores tenha sido uma tentativa de acalmar a sociedade. Mas é muito discutível a ideia de que o amadorismo nos conforta.

Quase no mesmo momento, um jovem afegão atacava a machadadas passageiros de um trem na Alemanha. O Exército Islâmico assumiu o atentado. Machado é arma rudimentar e amadora. Mas como dói.

O governo brasileiro terá de formar pessoas para comunicar seus passos na repressão ao terrorismo. Os ministros deveriam abster-se.

Durante algum tempo, no jogo de pequenas revelações à imprensa, o ministro da Justiça deixou no ar a possibilidade de as informações terem sido capturadas no WhatsApp. Um desgaste inútil.

Não acredito que tenham obtido dados do WhatsApp. Mas com as indicações do FBI monitoraram todos os suspeitos.

O jogo de informações aos pedaços é muito confuso. Se as pessoas do governo não forem especificamente treinadas para tratar de um tema tão sério, elas podem até favorecer o inimigo.

Um dos argumentos para divulgar toda a ação foi o de que a mulher de um dos presos revelara a prisão dele no Facebook. Mas, e os outros? Por ela ninguém saberia o nome dos outros, pois só mencionou o que viu: a prisão do marido.

É compreensível e necessário que a polícia apresente os resultados de seu trabalho. Isso nos dá mais elementos para navegar no perigo. Uma operação bem-sucedida sempre fortalece a imagem. É até compreensível que o Brasil tenha querido passar uma mensagem de segurança, para lá fora dizerem: “Estão trabalhando”.

Mas a luta contra o terrorismo não é o melhor espaço para isso, porque suas regras transcendem o desejo de um reforço de imagem.

Naturalmente, vamos conhecer mais sobre o perigo do terrorismo no Brasil depois que for divulgado um relatório. Mas o que está acontecendo lá fora também nos aproxima do real.

Um dos criminosos na Normandia usava tornozeleira eletrônica. No momento, esse acessório está bombando no Brasil, chega a faltar no mercado. Dizem que é segura, mas aqui é usada por idosos empreiteiros, lobistas.

O universo do terrorismo é diferente. Agora que existe uma lei será necessário amadurecer na sua execução.

Houve resistência a uma lei antiterrorista com medo de que criminalizasse movimentos sociais. Os fatos mostram atentados a manifestações de minorias religiosas, eventos culturais, celebrações como o 14 de Julho. Uma lei desse tipo, aplicada com uma visão clara do terrorismo, na verdade protege os movimentos sociais.

Os horrores do mundo estão chegando e é hora de encará-los sem os preconceitos do século passado. Esquerda e direita, elite de olhos azuis e proletariado, coxinhas e mortadelas, somos todos iguais para o Exército Islâmico. Duas brasileiras morreram no ataque em Nice. E somos atacados quase todas as noites pelas notícias da morte de tantos inocentes pelo mundo. O Exército Islâmico tem sido o nosso horror cotidiano.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 30 / 07 / 2016

O Globo
"Lula vira réu na Lava-Jato"

Ex-presidente será julgado pela acusação de tentar calar ex-diretor da Petrobras

Ex-senador Delcídio, André Esteves, Bumlai e mais três investigados também responderão à ação penal

A Justiça Federal transformou o ex-presidente Lula em réu pela acusação de obstruir as investigações da Lava-Jato na ação para tentar comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. É a primeira denúncia aceita contra o petista, que também é alvo de inquérito em Curitiba pela suspeita de ter sido beneficiado por empreiteiras na reforma do sítio em Atibaia e do tríplex em Guarujá. Também viraram réus o ex-senador Delcídio Amaral, que acusou Lula de ordenar a operação, o banqueiro André Esteves, o pecuarista José Carlos Bumlai e outras três pessoas. Em nota, Lula disse que jamais tentou interferir na Lava- Jato. Em evento em SP, ao comentar o inquérito de Curitiba, disse: “Já cansei.”     

Folha de S.Paulo
"Lula se torna réu sob acusação de tentar sabotar a Lava Jato"

Ex-presidente nega ter atuado contra a operação e afirma que sua inocência será reconhecida

A Justiça no Distrito Federal decidiu tornar réus o ex-presidente Lula, o ex-senador Delcídio do Amaral (ex-PT-MS) e mais cinco pessoas sob a acusação de tentar sabotar apurações da Lava Jato. Segundo denúncia da Procuradoria, o grupo quis evitar a delação do ex- diretor da Petrobras Nestor Cerveró. O caso veio à tona no final de 2015 quando Delcídio, então líder do governo Dilma Rousseff no Senado, foi preso após ser gravado oferecendo dinheiro para evitar a colaboração. Cerveró acabou se tornando delator. O ex-diretor da Petrobras disse a investigadores que Lula deu-lhe um cargo público como “reconhecimento” por sua suposta ajuda para quitar um empréstimo do PT. É a primeira vez que o ex-presidente responde a uma ação penal. Ele também é alvo de inquéritos no Paraná, sob a batuta do juiz Sergio Moro, por suspeita de ter sido beneficiado por empreiteiras — como a reforma de um sítio ligado à sua família. A defesa do ex-presidente negou todas as acusações e disse que sua inocência será reconhecida.       
 
O Estado de S.Paulo
"Lula vira réu por tentar obstruir a Operação Lava Jato"

Ex-presidente e mais 6 são acusados de oferecer ajuda a Cerveró para evitar delação

O juiz substituto da 10.ª Vara Federal do Distrito Federal, Ricardo Leite, aceitou denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador cassado Delcídio Amaral, o banqueiro André Esteves, o pecuarista José Carlos Bumlai e mais três pessoas acusadas de tentar obstruir investigações da Lava Jato. É a primeira vez que Lula vira réu em caso ligado à operação. A acusação se refere à tentativa de evitar a delação premiada do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró mediante pagamento em dinheiro e apoio para que fugisse do País. Impedir ou embaraçar investigação criminal pode resultar em até 8 anos de prisão. Em São Paulo, Lula disse que cabe a quem acusa provar sua culpa. “Se o objetivo é me tirar (da disputa eleitoral) de 2018, isso não era necessário, a gente escolheria outro candidato.” “A conta chega para todo mundo”, comentou Delcídio.                
           

sexta-feira, julho 29, 2016

Pilatus-PC12-NG


Coluna do Celsinho

Tocha

Celso de Almeida Jr.

Na hora exata em que ia cruzar a Thomaz Galhardo, o Guarda Municipal mandou parar.

Obediente, aguardei a passagem de batedores, carros, vans, caminhões e viaturas diversas.

O bacana é que tive a oportunidade de ver o Patrick Fonseca - caçula do amigo Silvio Cesar Fonseca - conduzir a Tocha Olímpica com alegria e entusiasmo.

Cena memorável, bonita, simbolizando a paz e o congraçamento depositados naquele instante nas mãos de um jovem ubatubense.

No dia seguinte, na hora exata em que ia reingressar na via Dutra - após parada para o café - o Policial Rodoviário Federal mandou parar.

Obediente, aguardei novamente a passagem de batedores, carros, vans, caminhões e viaturas diversas.

Dirigiam-se à Volta Redonda, cidade do Rio de Janeiro, na mesma missão.

Pensei nas despesas para o deslocamento de tantos veículos.

Julguei exagerado.

Nas muitas cidades, creio que bastava o revezamento entre atletas de todas as idades.

Taí...

Mais simplicidade, menos ostentação.

Fórmula indicada para manter a chama acesa...

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Tenho saudades dos velhos suicidas quando vejo os terroristas de hoje

João Pereira Coutinho
Acordo. Ligo a TV. E espero para ver onde foi o último atentado. Atenção aos termos: não é saber se houve atentado; é saber onde.

Essas palavras não são minhas. Pertencem a um colega israelense, alguns anos atrás. Quando escutava o que ele dizia, sentia compaixão e alívio. A Europa, a minha Europa, não tinha essas contabilidades mórbidas. Havia problemas: crises financeiras ou políticas, crimes pontuais e passionais, tudo assuntos de Primeiro Mundo. Mas bombistas-suicidas? Alucinados que abrem fogo em restaurantes ou shoppings?

Impensável. Claro que Londres sofrera um ataque em 2005. E Madrid, no ano anterior. Mas eram ataques isolados, monstruosos, quase lendários. Não havia a cadência da morte com o café da manhã.

Esse mundo está a ruir. Antes de escrever essa coluna, tentei contabilizar os crimes aleatórios cometidos nos últimos 10 ou 15 dias. Houve Nice, houve Munique, houve a igreja da Normandia. Mas também houve mãe e filhas esfaqueadas nos Alpes (estavam "pouco vestidas", disse o alienado). E um sírio que se fez explodir na Baviera. E um alemão no sul da Alemanha com um machado. E um....

Parei a contagem. Não por ela ser brutal. Mas porque pode haver algum esquecimento imperdoável.

Os atentados correntes na Europa parecem ser de dois tipos: atos de terror cometidos contra uma sociedade que se percepciona como opressora, cruel, injusta. E atentados religiosos, em nome do radicalismo islamita, como aconteceu com o padre degolado em Rouen.

Em relação aos primeiros, confesso: tenho saudades dos velhos suicidas quando vejo os terroristas de hoje. Durkheim explica. Em finais do século 19, o indivíduo alienado terminava com a vida no anonimato (ou, para usar a terminologia do autor, de forma "egoísta" ou "anómica"). Sozinho, sem ligações sociais ou afectivas, desprezado pela sociedade, usualmente na pobreza, havia sempre uma corda para pendurar a infelicidade.

Há algo de estóico no gesto. E de adulto também: uma forma de autonomia existencial em que o sujeito não atribui aos outros o seu próprio naufrágio. Lamentamos, mas compreendemos.

Nada que se compare aos homicidas e suicidas que se formaram e deformaram na escola do ressentimento. Eles sabem que vão morrer; estão preparados para isso. Mas a matança alheia é uma forma perversa de continuarem vivos após a aniquilação pessoal que tanto desejam. O mundo ignorou-me em vida; não irá ignorar-me na morte, parecem dizer os criminosos.

O radicalismo islamita é outra história. Ou, diria o mestre, uma forma de suicídio "altruísta", cometido em nome de uma causa. E o padre degolado no altar de uma igreja ganha outros contornos. Não apenas pela encenação sacrílega do crime. Mas porque a Europa parece estar a importar o pior do Oriente Médio e de África, onde os "mártires da fé" crescem de ano para ano.

Sim, quando lemos os textos dos débeis, há sempre um "idiota útil" que alerta para os perigos da "islamofobia". Como se os muçulmanos europeus estivessem a ser vítimas de genocídio.

Não estão. Essa gentileza é reservada para os cristãos - o grupo religioso mais perseguido do mundo, sobretudo onde o radicalismo islamita impera. Segundo o Pew Research Center, são 100 mil mortes por ano.

Onde estão os 100 mil muçulmanos mortos - por cristãos, pela extrema-direita, pelo Rato Mickey - todos os anos na Europa? Onde estão os muçulmanos crucificados como acontece aos cristãos no território controlado pelo Daesh? Os "idiotas úteis" poderiam responder, caso fossem dotados de racionalidade.

Acordo. Ligo a tv. E espero para ver onde foi o último atentado. Atenção aos termos: não é saber se houve atentado; é saber onde.

Essas palavras, agora, são minhas.

*

Um pouco de nostalgia: quando era adolescente, tive três paixões fulminantes por três brasileiras. Você quer nomes? Seja. Luiza Tomé, Débora Bloch e Taís Araújo. Nunca conheci nenhuma delas.

Mas, certo dia, avistei a última. No Rio. Taís passou —cabelo farto, perfeição de formas, uns olhos belamente desenhados em rosto que levaria qualquer homem a lutar contra Tróia— e eu só não caí de joelhos porque estava com companhias ilustres.

Pena. Existe uma sequência do filme "A Grande Beleza", do insuportável Paolo Sorrentino, que vale o filme todo. Acontece quando Jep, o "flâneur", caminha pelas ruas de Roma, perdido e melancólico. Fanny Ardant, a actriz, passa por ele. Jep sorri, diz qualquer coisa como "Madame Ardant" e ela devolve o sorriso. Ambos continuam o seu passeio em direcções opostas.

Entendo Jep. Há momentos nos nossos dias rotineiros e anónimos em que a beleza é como uma iluminação súbita que redime a tristeza inteira. Dizem que isso piora com a idade. Confirmo.

E se lembro Taís Araújo é por dois motivos singelos. Primeiro, porque gosto sempre de me lembrar dela. E, depois, porque li algures que a cantora Paula Lima foi alvo de comentários racistas na internet exactamente como Taís Araújo no passado.

Aliás, para sermos rigorosos, a lista de cantoras, actrizes, jornalistas, modelos e outras profissionais vítimas de insultos é assaz generosa. Soa estranho. Racismo no Brasil, um país que os meus antepassados miscigenaram com vigor (em vários sentidos da palavra "vigor") deveria ser tão estranho como esquimós nas Bahamas.

Mas também sei que esse bilhete postal ilustrado é um clichê para turista ver. O racismo continua a ser moeda corrente no país - e isso é visível nas relações de classe. Os meus amigos anti-marxistas que me desculpem, mas eles precisam conhecer melhor o Brasil.

Acontece que, nos casos citados, os selvagens não atacam apenas a cor da pele. Todos os alvos, sem excepção, são mulheres incrivelmente belas e, claro, exemplos de sucesso. A cor da pele é secundária (no mínimo) ou a razão principal para tanta beleza (opinião pessoal). Não quero com isso dizer que a feiúra seria um atenuante. Apenas afirmo que insultar a beleza física de alguém com ofensas físicas revela algo mais.

Nos casos conhecidos, as senhoras atacadas recorreram à justiça, É uma opção, embora seja humanamente impossível punir a quantidade infinita de retardados que existem na internet.

Outra opção seria criar uma ONG para ajudar cada um desses selvagens a lidarem melhor com a sua própria vida íntima. Quando lemos os insultos, é impossível não pressentir por trás daquelas palavras homens sexualmente inseguros (o que não admira: perante Taís Araújo até Casanova tremia) ou, então, criaturas infelizes que ainda não tiveram coragem de sair do armário.

Os insultos racistas a beldades negras são um problema de polícia; mas, com tanta sexualidade problemática, pergunto honestamente se não haverá também um problema de saúde pública.

*

Sugestões literárias? Com certeza. Duas.

O meu ilustre colega de letras, Jorge Reis-Sá, tem novo livro no Brasil. Depois de "Todos os Dias" (Record), chega "A Definição do Amor" (Tordesilhas), um tratado sobre "a arte da perda", para usar as palavras de Elizabeth Bishop.

Então encontramos uma mulher, Susana, deitada na cama de um hospital e irremediavelmente condenada à morte. No ventre de Susana, uma criança em gestação. E é pelas palavras de Francisco, o marido e futuro pai, que acompanhamos esse calvário de sofrimento e esperança - um diário de luto onde o passado, o presente e o futuro se projectam sob a sombra da morte e da vida.

Com uma linguagem poética e pungente, Reis-Sá escreve uma narrativa onde o amor tem várias definições - e várias devastações. É um dos melhores livros portugueses que li nos últimos tempos.

No domingo, sai com a Folha "Memórias Póstumas de Brás Cubas". O leitor ainda não leu? Por favor, não diga isso em público.

"Brás Cubas" deve ser o livro que mais vezes li na vida. Mas nada se compara à memória da primeira impressão: foi na adolescência, por indicação paterna, e o efeito não é aconselhável a menores de 18 anos.

Ali estava um defunto, do outro lado da eternidade, a contar a sua vida - ou, mais exactamente, a sua não-vida - com a mesma fatuidade com que passara por ela. Uso a palavra "fatuidade" porque Brás Cubas confessa que a herdou do pai. Difícil discordar.

Essa qualidade está presente no estilo - belíssimo e hilariante, para nós; "um andar de ébrios", para o autor, e motivo de orgulhos ou engulhos, consoante o estado de espírito. E depois continua nas suas relações familiares, mundanas, políticas, sentimentais. E académicas.

Bacharel em Direito (por Coimbra, claro), Brás confessa que só trouxe do Mondego "a ornamentação" do título. E se o pai ainda tem a consciência mínima para morrer de desgosto ante o naufrágio político do filho, o rapaz despacha o assunto com um encolher de ombros ("tinha de morrer, morreu") antes de se lançar nos braços de uma nova conquista.

O amor é eterno enquanto dura, diz a canção; e, quando não dura mais, ei-lo a observar uma mosca que arrasta uma formiga enquanto a amada se debulha em lágrimas. Como explicar a fatuidade de Brás Cubas?

Lendo o capítulo sobre o seu delírio, uma das obras-primas da literatura universal: o confronto com as misérias da espécie, longe de mergulhar o personagem no pessimismo mortificante, indica-lhe a porta do riso e da galhofa.

Pode não ser a porta mais apropriada para os rigores da ética. E, além disso, quem vive a ondular ao sabor dos caprichos facilmente sucumbe às garras das "ideias fixas" - no caso de Brás Cubas, um "emplasto anti-hipocondríaco" que foi a causa, não da sua glória - mas da sua morte.

Pessoalmente, esse riso infectou-me a pena e a tinta. E, nos desaires da existência, é em Brás Cubas que penso antes de fugir no dorso de um hipopótamo. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 29 / 07 / 2016

O Globo
"Executivos da Odebrecht vão delatar mais de cem políticos"

Ao menos dez governadores e ex serão denunciados à Lava-Jato

Marcelo Odebrecht e seus funcionários também implicarão parlamentares e ministros; ex-presidente da Andrade Gutierrez depõe e acusa ex-assessor de Dilma de pressionar por doações em 2014

Na negociação de delação, executivos da Odebrecht, incluindo o ex-presidente Marcelo Odebrecht, revelaram que mais de cem políticos receberam vantagens do esquema de corrupção investigado pela Lava-Jato, informa JAILTON DE CARVALHO. Ao menos dez governadores e ex-governadores serão citados, além de parlamentares. O ex-presidente da Andrade Gutierrez Otavio Azevedo disse que ex-assessor de Dilma pressionou por doações em 2014.     

Folha de S.Paulo
"Lula orientou empreiteiras em reforma de sítio, diz PF"

Segundo laudo, obra paga pela OAS custou R$ 1,2 mi; ex-presidente não comenta

A Polícia Federal afirma que o ex-presidente Lula e a mulher, Marisa Letícia, orientaram reformas feitas no sítio em Atibaia (SP) frequentado pela família do petista. A obra de R$ 1,2 milhão foi de 2010, quando ele ainda estava no poder, a 2014. Segundo perícia, o arquiteto da construtora OAS Paulo Gordilho recebeu orientações acerca da instalação de equipamentos na cozinha. Parte da investigação é baseada em mensagens trocadas entre Léo Pinheiro, ex-sócio da OAS, e Gordilho. A propriedade é chamada de “fazenda do Lula” e a discussão sobre as obras é colocada sob“sigilo absoluto”. As despesas pagas pela OAS no sítio e em um tríplex em Guarujá foram lançadas no centro de custos denominado “Zeca Pagodinho”. A força-tarefa da Operação Lava Jato ainda analisa se Lula será denunciado. A assessoria do petista não quis comentar o laudo. Ele, que vem negando qualquer ilegalidade, anunciou que denunciará à ONU violações do juiz Sergio Moro.       
 
O Estado de S.Paulo
"PF diz que Lula e Marisa orientaram obra em sítio"

Laudo indica que instalação de cozinha gourmet foi acompanhada por arquiteto e ex-presidente da OAS

Laudo da Polícia Federal diz haver indícios de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ex-primeira-dama Marisa Letícia orientaram as obras de uma “cozinha gourmet” de R$ 252 mil no Sítio Santa Bárbara, em Atibaia. A reforma da propriedade frequentada pela família do petista é alvo de inquérito da Operação Lava Jato. A investigação apura se Lula usou o imóvel para ocultar patrimônio. A PF aponta a participação do ex-presidente da OAS José Aldemário Pinheiro, o Léo Pinheiro, e do arquiteto Paulo Gordilho na reforma. Os equipamentos foram instalados em 2014 e a obra, diz o documento, “foi acompanhada por arquiteto” da OAS, “com orientação do ex-presidente Lula e de sua esposa”. As reformas no sítio – iniciadas no segundo semestre de 2010, quando Lula exercia seu segundo mandato – foram bancadas por OAS e Odebrecht, segundo a PF. As duas empresas são investigadas por corrupção na Petrobrás.                
           
 
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